Soneto 64

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Soneto 64

When I have seen by Time’s fell hand defaced
The rich-proud cost of outworn buried age;
When sometime lofty towers I see down-razed,
And brass eternal slave to mortal rage;
When I have seen the hungry ocean gain
Advantage on the kingdom of the shore,
And the firm soil win of the watery main,
Increasing store with loss and loss with store;
When I have seen such interchange of state,
Or state itself confounded to decay;
Ruin hath taught me thus to ruminate,
That Time will come and take my love away.
This thought is as a death, which cannot choose
But weep to have that which it fears to lose.[1][2]

–William Shakespeare

Soneto 64 é um dos 154 sonetos de Shakespeare, compondo, até o Soneto 126, a primeira parte, a série ao belo rapaz (Fair Youth), sonetos dedicados a um homem jovem e bonito cuja identidade permanece desconhecida até hoje. Este soneto trata de alguns dos temas mais familiares de Shakespeare: amor, tempo e mudança.[3]

Estrutura

Como os outros sonetos de William Shakespeare,[nota 1] este é um soneto com a estrutura do chamado Soneto inglês, constando de 3 quartetos e 1 dístico, com a manutenção de 14 versos, regra pétrea na formação de um soneto. Segue o esquema rímico característico de um soneto inglês: ABAB CDCD EFEF GG.

Sinopse

O poeta compara sinais de degradação no tempo, como torres desmoronadas e praias erodidas, chegando a admitir que a pessoa amada também lhe será perdida e a lamentar essa perda iminente.[2]

Ele retoma um tema recorrente em muitos dos sonetos, o do “Tempo” personificado, que consome tudo o que cria. O Tempo é a razão pela qual o belo rapaz um dia deixará de ser belo e morrerá, e por isso Shakespeare teme e lamenta o futuro.[4]

Inicia com a personificação do tempo, um destruidor de grandes coisas construídas pelo homem, uma força que o homem não pode igualar. E continua retratando uma luta inconclusiva entre o mar e a terra, concluindo com a comparação com sua própria condição, percebendo que a morte é inevitável.[5] Sinais do poder destrutivo do tempo e da decadência — como torres desmoronadas e praias erodidas — obrigam o poeta a admitir que a pessoa amada também lhe será perdida e a lamentar essa perda iminente.[2] O dístico final não oferece solução; apenas lágrimas inevitáveis.[5]

Traduções

Tradução de Ivo Barroso

O tradutor procurou manter a estrutura original dada pelo poeta, em decassílabos, embora não se tenha prendido ao ritmo de pentâmetro iâmbico. o esquema de rimas manteve-se como o original.

Ao ver que a mão do tempo desfigura
As pompas de um passado imemorial,
Altivas torres a tombar, da altura,
E o bronze eterno escravo à ira mortal;

Quando vejo o faminto oceano arcar
Vantagem sobre o reino litorâneo
Ou vejo a terra firme encher o mar
Crescendo ganho em perda e perda em ganho;

Quando vejo de estados o alterar
E o próprio estado vir-se a descompor,
A ruína me leva a ruminar
Que o Tempo há de levar o meu amor.

Morte é pensar que só posso escolher
Chorar por ter a quem temo perder.[6]

A tradutora faz opção por tradução próxima à literal, sem se ater aos dogmas do soneto, quais sejam: métrica, ritmo, rima.

Ao ver a cruel mão do tempo apagar
Dos ricos o orgulho graças à decadência da idade;
Quando, por vezes, as altas torres são destruídas,
E o eterno escravo do metal entregue à mortal ira;

Ao ver o oceano faminto ganhar
Vantagem sobre os domínios das encostas;
E a terra firme avançar sobre o braço de água,
Equilibrando-se entre as perdas e ganhos;

Ao ver tal mudança de condição,
Ou a própria condição confundida, a decair,
Assim ensinou-me a pensar a ruína:
Que o tempo virá e levará o meu amor.

Este pensamento é mortal, sem outra escolha
Senão lamentar ter o que se teme perder.[7]

Tradução de Paulo Camelo

Há nessa tradução a procura da manutenção das características mostradas no soneto original: forma de soneto inglês, em decassílabos, esquema rímico ABAB CDCD EFEF GG, ritmo em pentâmetro iâmbico, com a característica acrescida de ritmo holístico.

Mas, quando eu vi do tempo a mão cruel
mudar o rico preço de uma era
e vi altivas torres em revel
fundindo o bronze, furiosa fera,

e quando eu vi, faminto, o mar ganhar
vantagem sobre a costa e a revolver,
e a terra firme dar resposta ao mar
num perde-ganha a não se resolver,

e quando eu vi estados em mudança
a confundir ruína e decadência,
o ruminar mostrou-me estranha dança,
o tempo, a ter futuro e ascendência.

O pensamento é como a morte, e muda
aquilo que era seu, mas não se iluda.[8]

Tradução de Milton Lins

O tradutor preferiu montar o soneto em versos dodecassílabos, alexandrinos, mantendo a estrutura do soneto inglês e o esquema rímico como o original.

Quando o tempo podar as mãos desguarnecidas,
Com o custo arrogante arcado pela idade;
E torres altas vir penderem destruídas,
Com o eterno latão escravo da ruindade;

Quando o oceano em fúria eu vir ser vencedor
Sobre os reinos da praia armar mais um adendo,
Quando os da terra firme empurram o invasor,
Mais provisões ganhando ou provisões perdendo;

Quando verificar tais trocas entre estados
Ou mesmo o próprio estado em caos se decompondo,
A ruína me ensinando assism os resultados -
De que o Tempo vem vindo e o amor me vai levando.

Idéia à morte igual, não há que se escolher,
Mas deve-se carpir o que se vai perder.[9]

Notas

  1. Exceções são o Soneto 99 e o Soneto 126, que têm estruturas diferentes às de um soneto.

Referências

  1. «Sonnet 64: When I have seen by Time's fell hand defac'd». Poetry Foundation (em inglês). Consultado em 24 de dezembro de 2025 
  2. a b c «Shakespeare's Sonnets». Sonnet 64. Folger Shakespeare Library (em inglês). Consultado em 24 de dezembro de 2025 
  3. «Sonnet 64, by William Shakespeare». Poem Analysis. Consultado em 25 de dezembro de 2025 
  4. «Sonnet 64». Genius Verified (em inglês). Consultado em 24 de dezembro de 2025 
  5. a b «Sonnet 64». Wikipedia (em inglês). Consultado em 24 de dezembro de 2025 
  6. «50 sonetos William Shakespeare» (PDF). Consultado em 24 de dezembro de 2025 
  7. «Soneto 64». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 24 de dezembro de 2025 
  8. «Soneto 64 de William Shakespeare». Recanto das Letras. Consultado em 24 de dezembro de 2025 
  9. SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5