Soneto 20
| Soneto 20 |
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A woman's face with nature's own hand painted, |
| –William Shakespeare |
Soneto 20 é um dos 154 sonetos de William Shakespeare.
Sinopse
Na fantasia do poeta, a beleza do jovem é resultado de mudança de ideia da Natureza, que começou a criar uma mulher, apaixonou-se pela própria criação e a transformou em um homem.[1]
"Neste soneto, chamam atenção as observações psicológicas, apreciações quase inexistentes nos esquemas usuais da época, além da coragem em certas confissões."
Como em alguns outros sonetos, pode-se vislumbrar no presente uma conotação de homossexualidade. Aliás, quem se propuser a procurar ou acentuar esses indícios, irá encontrá-los...[3]
O soneto explora os limites entre a sexualidade masculina e feminina e é um dos sonetos mais radicais de Shakespeare. Ele foca na chamada 'bela juventude' — uma querida amiga real ou imaginária do poeta que, até hoje, permanece anônima. Também há referência à sexualidade e à natureza da atração sexual.[4]
Traduções
Tradução de Thereza Christina Roque da Motta
Tens a face de mulher pintada pelas mãos da Natureza,
Senhor e dona de minha paixão;
O coração gentil de mulher, mas avesso
Às rápidas mudanças, como a falsa moda que passa;
Um olhar mais brilhante, e mais autêntico,
A imantar tudo que contempla;
Uma cor masculina, a guardar todos os seus tons,
Rouba a atenção dos homens, e causa espanto às mulheres.
Se como mulher tivesses sido primeiro criado;
Até a Natureza, ao te conceber, caiu-lhe o queixo,
E eu, também, caído a teus pés,
Nada mais acrescento ao meu propósito.
Mas Ela, ao te escolher para o mais puro prazer, como o é,
Teu é o meu amor e, teu uso dele, o seu tesouro.[5]
Tradução de Vasco Graça Moura
Feminil face que pintou Natura
tu tens que és dono e dona de meu lume:
coração de mulher, mas que não cura
do mudar que nas falsas é costume,
olhar mais claro que elas, mas sem manha,
dourando as coisas em que se puser;
tez de donzel que em tez a todos ganha,
prende olhos de homem e alma de mulher.
Primeiro de mulher tiveste alento,
depois, ao fabricar-te, a natureza
aditou-te o que me era impedimento,
coisa que meu propósito não lesa.
Pois se para o prazer delas se presta,
é meu o teu amor, delas a festa.[6]
Tradução de Milton Lins
A natureza fez um rosto de mulher,
Tu tens, ó mestre-mestra em minha devoção,
Coração de mulher, sem semelhar, sequer,
Mudanças de mulher e tão falsa feição.
Tens olhos com mais brilho e menos falsidade,
Dourando as formações a que levam encanto;
Um homem de matiz e de diversidade,
Dos homens rouba o olhar, das mulheres - o espanto.
Daí, para mulher primeiro vens criado,
A natureza até te fez reconhecido,
E aí, por adição, por ti fui derrotado,
Uma coisa somando ao meu plano excluído.
Quando ela te picou o prazer de mulher,
A mim - deu teu amor, a ti - fez como a quer.[3]
Tradução de Emmanuel Santiago
Feminina feição por Natura pintada
Possuis tu, mestre-mestra de minha paixão;
Das mulheres tens a alma gentil, mas que nada
De volúvel supõe, nem da moda a ilusão.
Um olhar mais brilhante que o delas, sincero,
A fulgir sobre aquilo em que tu o desferes;
O rubor mais viril, dos matizes império,
Que dos homens o olhar rouba, qual das mulheres.
A princípio mulher foste tu concebido,
Mas Natura, ao fazer-te, ao teu charme cedia
E mudou-te de forma e me fez excluído,
Dando-te algo, p’ra mim, sem qualquer serventia.
Como foste moldado ao prazer das donzelas,
Teu amor, então, é meu e teu gozo, delas.[7]
Ver também
Referências
- ↑ «Shakespeare's sonnets - Sonnet 20». Consultado em 27 de dezembro de 2024
- ↑ SANTOS, Mário Márcio de Almeida - Prefácio - In: LINS, Milton - Sonetos de William Shakespeare. Reciffe:Facform,2005}}
- ↑ a b SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5
- ↑ «Poem Analysis: Sonnet 20» (em inglês). Consultado em 27 de dezembro de 2024
- ↑ Thereza Christina Rocque da Motta (tradutora), SHAKESPEARE, William. 154 Sonetos. Em Comemoração Aos 400 Anos Da 1ª Edição 1609-2009. Editora Ibis Libris, 1ª edição, 2009. ISBN 8578230264
- ↑ «Soneto 20». Livejournal. Consultado em 27 de dezembro de 2024
- ↑ «As traduções de Emmanuel Santiago para doze sonetos de Shakespeare». Jornal GGN. Consultado em 27 de dezembro de 2024
Bibliografia
- Alden, Raymond. The Sonnets of Shakespeare, with Variorum Reading and Commentary. Boston: Houghton-Mifflin, 1916.
- Baldwin, T. W. On the Literary Genetics of Shakspeare's Sonnets. Urbana: University of Illinois Press, 1950.
- Booth, Stephen. Shakespeare's Sonnets. New Haven: Yale University Press, 1977.
- Dowden, Edward. Shakespeare's Sonnets. London, 1881.
- Hubler, Edwin. The Sense of Shakespeare's Sonnets. Princeton: Princeton University Press, 1952.
- Schoenfeldt, Michael (2007). The Sonnets: The Cambridge Companion to Shakespeare’s Poetry. Patrick Cheney, Cambridge University Press, Cambridge.
- Tyler, Thomas (1989). Shakespeare’s Sonnets. London D. Nutt.
- Vendler, Helen (1997). The Art of Shakespeare's Sonnets. Cambridge: Harvard University Press.
Ligações externas
- (em inglês) Análise do soneto