Soneto 101

Soneto 101

O truant muse, what shall be thy amends
For thy neglect of truth in beauty dyed?
Both truth and beauty on my love depends;
So dost thou too, and therein dignified.
Make answer, muse. Wilt thou not haply say
“Truth needs no color with his color fixed,
Beauty no pencil beauty’s truth to lay;
But best is best if never intermixed”?
Because he needs no praise, wilt thou be dumb?
Excuse not silence so, for ’t lies in thee
To make him much outlive a gilded tomb
And to be praised of ages yet to be.
 Then do thy office, muse; I teach thee how
 To make him seem long hence as he shows now.[1]

–William Shakespeare

Soneto 101 é um soneto da série de 154 sonetos de Shakespeare. É uma continuação do soneto 100, e se continua nos sonetos 102 e 103.

Análise

Como os demais sonetos de William Shakespeare, este foi todo construído no ritmo de pentâmetro iâmbico, no formato de soneto inglês, com 3 quartetos e um dístico, e rima em ABAB CDCD EFEF GG.

Sinopse

O Soneto 101 é dirigido à musa do orador, que continuamente falha em lhe fornecer a inspiração de que ele precisa.[2]

Neste soneto, a Musa é repreendida por sua ausência e pela negligência em elogiar o jovem. O poeta imagina a Musa respondendo que a verdade e a beleza não precisam de acréscimos ou explicações. E implora à Musa que elogie o jovem.

Talvez, ao jogar toda a culpa sobre ela, ele possa mostrar que é inocente e, portanto, ele não precisaria misturar sua própria inspiração com a fornecida pela Musa. Ao final do poema, ele se oferece para ensiná-la como isso deve ser feito, e o jovem, sem dúvida, espera-se que seja um espectador divertido de tudo isso.[3]

Traduções

A tradutora procurou fazer uma tradução mais literal, mantendo os 14 versos do original, mas sem se ater a ritmo, métrica ou rima.

 Ó, negligente Musa, que desculpas me darás
Por faltares com a verdade tingindo-a com a beleza?
Do belo e da verdade depende o meu amor;
E tu, também, para te tornares digna.
Responde, Musa: não me dirás, alegremente,
“A verdade não precisa de tom por ter sua própria cor,
Nem a verdade, de lápis para desenhá-la;
Mas o bom é o melhor, se jamais for corrompido?”–
Por ele não precisar de elogios, te entorpecerás?
Não desculpes o silêncio; por depender de ti
Para fazê-lo viver além da dourada tumba,
E ser aclamado longamente no porvir.
Assim, cumpre teu ofício, Musa; te ensinarei como
Fazê-lo parecer profundo então como se parece agora.[4]

Tradução de Milton Lins

O tradutor apresentou o soneto em dodecassílabo, ora em hexâmetro iâmbico, ora em trímetro peônico, ora em ritmo misto perseguindo o verso alexandrino. O esquema rímico segue o do autor, como um soneto inglês: ABAB CDCD EFEF GG.

Musa troante, qual a tua novidade,
Esqueceste a verdade e as tintas da beleza?
Do mem amor depende o belo da verdade;
Assim será contigo,e nisto há sutileza.

Responde, Musa: Não te agrada ouvir primeiro,
“Verdade não tem cor, com seu matiz tingido,
A beleza não pinta o belo verdadeiro;
]O melhor é melhor se nunca for mexido?”

Se ele não quer louvor, escutarás calada?
Não te desculpa assim, ele é um mentiroso,
Para sobreviver à lápide dourada,
E para ser louvado, e para ser famoso.

Musa, ao ateliê! Eu vou te demonstrar,
Vou fazê-lo crescer, e a todos se mostrar.[5]

Tradução de José Arantes Junior

Este tradutor iniciou dando um título ao soneto. No mais, seguiu o esquema rímico do autor no soneto: ABAB CDCD EFEF GG, como um soneto inglês. Mas, como o fez em todos os seus sonetos traduzidos, não o seguiu no ritmo nem na métrica, preferindo apresentar um outro formato e dar-lhe um aspecto plástico, com 36 caracteres em cada verso, que lhe mostram a forma, quando utilizada uma fonte monoespaçada

Sobrevivência à tumba

Musa, vem para a tua reparação enfim,
Pelo descuido da verdade e da beleza?
A verdade e a beleza dependem de mim,
Assim como tu e, nisso, tens nobreza;

Responda, considerando as estruturas:
Se há cor a verdade não deseja a cor,
Se é bela a beleza não quer pinturas,
E o melhor é melhor sem mudar o teor?

Se não há vontade, permaneces calada?
Sem o valor do silêncio em sincronia,
Por sobreviver à tua tumba enfeitada
E vive os anos que te trarão alegria;

Faz o teu ofício, musa, eu te ensino,
Até para perpetuá-lo de modo genuíno.[6]

Tradução de Paulo Camelo

O tradutor procurou seguir o ritmo de pentâmetro iâmbico usado pelo poeta inglês, utilizando ritmo holístico e mantendo o esquema rímico ali utilizado, característico do soneto inglês.

Musa evasiva, podes reparar
essa beleza falsa e mal tingida?
Isso depende de que eu vou te dar
do meu amor, que alegra a tua vida.

Escuta, musa: acaso essa verdade
é falha em sua cor? Pensas assim
se escondes na cruel realidade
essa verdade sem mistura, enfim?

Ficarás muda, à falta de elogio?
Assim não faças, pois está em ti
sobreviver a todo esse vazio
e louvarás o que inda está por vir.

Cumpre esse ofício, musa! Isso eu te ensino:
achar distante o que te mostra o tino.[7]

Referências

  1. «Sonnet 101». Shakespeare's Sonnets (em inglês). Consultado em 25 de outubro de 2025 
  2. «Sonnet 101 by William Shakespeare» (em inglês). Consultado em 25 de outubro de 2025 
  3. «Sonnet CI». Shakespeare’s Sonnets (em inglês). Consultado em 25 de outubro de 2025 
  4. «Soneto 101». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 25 de outubro de 2025 
  5. SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5
  6. Shakespeare, William - Sonetos completos de William Shakespeare. Tradução de José Arantes Júnior. - São Paulo: Ed. do Autor, 2007.
  7. «Soneto 101 de William Shakespeare». Recanto das Letras. Consultado em 25 de outubro de 2025