Soneto 133
| Soneto 133 |
|---|
Beshrew that heart that makes my heart to groan |
| –William Shakespeare |
Soneto 133 é um dos 154 sonetos de William Shakespeare, fazendo parte da sequência da Dark Lady. Ele faz dupla e é seguido pelo Soneto 134.
Estrutura
Como os demais sonetos de William Shakespeare,[nota 1] este tem a forma de soneto inglês[4] e foi construído em decassílabos com ritmo de pentâmetro iâmbico, esquema rímico ABAB CDCD EFEF GG.
Sinopse
Neste primeiro de dois sonetos interligados, a dor sentida pelo poeta como amante da amada é multiplicada pelo fato de que o querido amigo também está escravizado por ela.[1] Ele é complexo e explora não apenas o relacionamento de Shakespeare com a Dama, mas também a influência dela sobre o Belo Jovem. Esse intrincado triângulo amoroso é repleto de sofrimento.[5]
O poeta introduz aí um complicador adicional em seu envolvimento com a amada, pois parece que seu amigo também se apaixonou por ela. Ele espera amenizar a situação implorando que seu próprio coração sirva de garantia para o amigo, pois basta que apenas um deles seja aprisionado. Mas ele percebe que sua amada será tão cruel e frívola com o amigo quanto o é com ele. E aí ele sente uma tripla perda: a da amada, pois o amigo a conquistou; a do amigo, pois ela o conquistou; e a sua própria, pois não controla mais os próprios sentimentos. Essa perda é ainda maior, visto que cada um dos participantes sofre de maneira semelhante ou exerce um poder destrutivo nessa relação tripla.[3]
Traduções
Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta
Há aí uma tradução tendendo à tradução literal, sem obediência aos ditames do soneto, quanto a métrica, ritmo e rimas, prendendo-se apenas a 14 versos monóstrofos, como um quatorzain.
Maldito o coração que faz o meu gemer
Pela profunda ferida que causa a mim e ao meu irmão!
Não bastasse torturar a mim somente,
Mas ainda escraviza meu terno amigo?
Arrancaste-me de mim com teu olhar cruel,
E a meu semelhante desprezaste mais ainda.
Por ele, por mim, e por ti, fui abandonado –
Um tormento triplo a ser suportado.
Prende meu coração em teu peito de aço,
Mas o coração do meu amigo liberta o meu;
Quem me guardar, deixa meu coração guardá-lo;
Não podes ser tão severa ao aprisionar-me.
E mesmo assim o fazes; porque, sendo teu,
Dou-me a ti, e tudo que tenho em mim.[6]
Tradução de José Arantes Júnior
O tradutor deteve-se no formato original de soneto inglês, com mesmo esquema rímico do autor. Porém fez os versos com exatos 36 caracteres, sem cuidado rítmico, mostrando uma visão plástica, se utilizada fonte monoespaçada. Como nos poemas dessa sua obra, acrescentou um título.
A tortura e a amizade
Maldizer quem faz meu senso suspirar[7][8]
Por profunda ferida de reciprocidade,
Só não é suficiente para me torturar
Mas o meu amigo é escravo da amizade;
Teu ríspido olho me viu em mim mesmo
E meu outro eu tornou-se relacionado,
Tu e eu já estamos caminhando a esmo
É um tormento três vezes dificultado;
O meu coração ficou num peito de aço
Mas o do meu amigo promoveu sintonia
Guardando o coração em íntimo regaço
E livrando da prisão que me consumia;
Eu vou vinculado a ti até os confins
Então estou em ti e tudo mais em mim.
Tradução de Milton Lins
O tradutor, como ocorre em outras traduções suas, optou por usar versos dodecassílabos alexandrinos, no ritmo de hexâmetro iâmbico. Manteve, no entanto, o formato de soneto inglês e o esquema rímico original.
Maldito o coração que faz o meu gemer,
Pela ferida atinge o meu amigo e a mim!
Porém não bastará me torturar e ter?
Servo da escravidão, meu amo deixe assim?
De mim mesmo tirei o teu cruel olhar
E do meu próprio ser mais crueldade ainda.
Dele, de mim, de ti eu vou renunciar;
Três vezes triplicada, e ter tormenta infinda.
Prende meu coração em tuas malhas de aço,
Peito do meu amigo, ao meu dá liberdade;
Se alguém me segurar, do peito guarda eu faço,
E não poderás ter rigor pela verdade:
Tu queres, no entretanto; e eu por ti me empenho.
É claro que sou teu, com tudo quanto eu tenho.[9]
Tradução de Paulo Camelo
Nesta tradução é mantida a forma de soneto inglês, com seu esquema rímico ABAB CDCD EFEF GG e os versos decassílabos em pentâmetro iâmbico, sendo utilizado como acréscimo o ritmo holístico.
Maldito o coração que me injuria
e ataca a mim e ataca o meu amigo
e me tortura. E a ti não bastaria
a escravidão que o prende então comigo?
O teu olhar cruel me ensimesmou
e me envolveu, intenso, junto a mim.
De ti eu sei que abandonado estou
nesse tormento triplo a não ter fim,
pois prende o coração, me abate o peito,
enquanto o dele deixa desdenhado.
Eu busco um guardião, esse é meu preito,
usando um tal rigor, demasiado.
Assim desejarás, eu preso a ti,
por força do que sou, do que senti.[10]
Notas
Referências
- ↑ a b «Shakespeare's Sonnets». Sonnet 133 (em inglês). Consultado em 2 de fevereiro de 2026
- ↑ «Sonnet 133: Beshrew that heart that makes my heart to groan» (em inglês). Consultado em 2 de fevereiro de 2026
- ↑ a b «Sonnet CXXXIII». Shakespeare's Sonnets (em inglês). Consultado em 2 de fevereiro de 2026
- ↑ Campos, Geir. Pequeno dicionário de arte poética. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1960.
- ↑ «Sonnet 133». Genius (em inglês). Consultado em 2 de fevereiro de 2026
- ↑ «Soneto 133». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 2 de fevereiro de 2026
- ↑ José Arantes Júnior. «Sonetos completos de William Shakespeare» (PDF). Consultado em 2 de fevereiro de 2026
- ↑ SHAKESPEARE, William. Sonetos completos de William Shakespeare - tradução, introdução e notas José Arantes Júnior. São Paulo:Ed. do autor, 2007
- ↑ SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5
- ↑ Paulo Camelo. «Soneto 133 de William Shakespeare». Recanto das Letras. Consultado em 2 de fevereiro de 2026