Soneto 132

Soneto 132

Thine eyes I love, and they, as pitying me,
Knowing thy heart torments me with disdain,
Have put on black and loving mourners be,
Looking with pretty ruth upon my pain.
And truly not the morning sun of heaven
Better becomes the grey cheeks of the east,
Nor that full star that ushers in the even
Doth half that glory to the sober west,
As those two mourning eyes become thy face:
O, let it then as well beseem thy heart
To mourn for me, since mourning doth thee grace,
And suit thy pity like in every part.
Then will I swear beauty herself is black
And all they foul that thy complexion lack.[1]

–William Shakespeare

Soneto 132 é um soneto que faz parte dos 154 Sonetos de Shakespeare, na sequência de sonetos para a Dark Lady.[2] Este soneto explora a estranha relação entre os dois e como a dama consegue controlar e influenciar o eu lírico com o olhar. Ela sente pena dele porque o fez sofrer.[3]

Estrutura

Como os demais sonetos de William Shakespeare,[nota 1] este tem a forma de soneto inglês[4] e foi construído em decassílabos com ritmo de pentâmetro iâmbico, esquema rímico ABAB CDCD EFEF GG.

Sinopse

O Soneto 132 descreve o impacto que os olhos da Dama Negra têm sobre o poeta. Ela o controla e ele tem que aceitar isso.[3] Representa aí uma intensificação dos sentimentos do poeta pela Dama Negra, visto que o poeta reconhece que ela não o ama. Construído em torno da imagem dos olhos da mulher, o soneto é notável por um extenso jogo de palavras com "manhã" e "luto". O poeta implora à amada que molde seu coração à imagem de seus olhos, que, por serem negros como se estivessem vestidos de luto, demonstram compaixão por sua dor como amante.[5][6]

Traduções

Esta tradução atém-se mais à literalidade, não mantendo nem obedecendo a métrica, ritmo ou rimas. A apresentação é em monóstrofe.

Teus olhos, que amo, sentem pena de mim,
Sabendo que teu coração me atormenta com o desdém,
Vestiram-se de preto, e enlutaram-se amorosos,
Assistindo à minha dor com compaixão;
E, em verdade, o sol da manhã não se assenta
Sobre as pálidas faces do nascente,
Nem a estrela brilhante que precede a noite
Glorifica tanto o solene poente,
Quanto os olhos enlutados te ficam bem.
Ah, deixa que assim pareça ao teu coração
Prantear por mim, pelo luto te fazer bem,
E da mesma forma a tua compaixão.
Então, jurarei que a beleza é negra,
E avesso o rosto que não se assemelhe ao teu.[7]

Tradução de José Arantes Júnior

Como em suas traduções do poeta, o tradutor faz questão de que os versos de cada estrofe tenham exatamente 36 caracteres cada um, só sendo ultrapassado este número por uma pontuação pertinente. Tudo isto faz com que o trabalho tenha um visual muito especial, se digitado usando fonte monoespaçada. Quanto à estrutura, mantém o formato de soneto inglês e seu esquema rímico. Como nos demais sonetos de sua obra, ele apresenta um título.

O nascente e o poente

Amo teus olhos pois trazem compaixão
Vendo as emoções de modo desdenhador,
Lamentam este amor ter tal coloração
Olhando ternamente sobre a minha dor;

Nem o sol da manhã com o lume diurno
Torna melhor o tom cinza do nascente,
Nem uma estrela no horizonte noturno
Tem mais glória que o sombrio poente;

Dois olhos sentidos decoram tua face
Deixa-os pois refletem o teu coração,
Como sentem com graça este entrelace
Espalham terna piedade pela amplidão;

Assim, eu digo que a beleza é escura,
Ou que é falha sem isto na estrutura.[8]

Tradução de Paulo Camelo

O tradutor mantém-se coerente com o formato original, apresentando o texto em soneto inglês, versos decassílabos em pentâmetro iâmbico, acrescentando-lhe o ritmo holístico. O esquema rímico também manteve-se ABAB CDCD EFEF GG.

Teus olhos amo, mas de mim têm pena,
ao ver meu coração, que me atormenta,
e vestem preto, em amorosa cena
olhando, doces, que a piedade intenta.

E nem o sol no céu, pela manhã,
melhor se ajusta às faces do oriente,
ou mesmo a estrela, à tarde, guardiã,
se mostra gloriosa ao ocidente.

E se esses olhos negros dão beleza
ao rosto, tanto quanto ao coração,
de mim tens pena, em luto e em grandeza,
e a tua pena cabe em cada mão.

Eu jurarei que é negra essa beldade
e aos que não têm beleza há sujidade.[9]

Tradução de Milton Lins

Em sua obra, o tradutor manteve o formato de soneto inglês e seu esquema rímico, porém distanciou-se do original ao eleger o verso dodecassílabo alexandrino. O esquema rímico é como no original: ABAB CDCD EFEF GG.

Eu amo os olhos teus, que têm pena de mim,
Eu sei: teu coração me trata com desdém,
E pintaram de negro o amor, tristonho assim,
Olhando com piedade a dor que me convém.

E na verdade nem o sol que no céu arde
Melhor se muda em face acinzentada a leste,
Nem a estrela enorme iluminando a tarde
Tem metade da glória achada sobre o oeste.

Como um tristonho olhar se torna a tua face:
Ó, deixa-a parecer com paz no coração
Para me lamentar (que o lamentar te engrandece!)
E que em todo lugar te tenham compaixão.

Então eu jurarei que o próprio belo é escuro.
- E a tua pele tenha um pouco mais de acuro.[10]

Notas

  1. Os poemas denominados Soneto 99 e Soneto 126 fogem do formato de soneto, tendo o Soneto 99 apresentado 15 versos (1 quinteto, dois quartetos e um dístico) enquanto o Soneto 126 apresenta apenas 12 versos, distribuídos em 6 dígitos.

Referências

  1. «Thine eyes I love, and they, as pitying me (Sonnet 132)». Poets (em inglês). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  2. «Sonnet 132». Genius (em inglês). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  3. a b «Sonnet 132». Poem Analysis (em inglês). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  4. Campos, Geir. Pequeno dicionário de arte poética. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1960.
  5. «Summary and Analysis Sonnet 132» (em inglês). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  6. «Shakespeare's Sonnets». Sonnet 132. Folger Shakespeare Library (em inglês). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  7. «Soneto 132». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  8. José Arantes Júnior. «Sonetos completos de William Shakespeare» (PDF). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  9. Paulo Camelo. «Soneto 132 de William Shakespeare». Recanto das Letras. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  10. SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5