Soneto 111

Soneto 111

O, for my sake do you with Fortune chide,
The guilty goddess of my harmful deeds,
That did not better for my life provide
Than public means which public manners breeds.
Thence comes it that my name receives a brand;
And almost thence my nature is subdued
To what it works in, like the dyer’s hand.
Pity me, then, and wish I were renewed,
Whilst, like a willing patient, I will drink
Potions of eisel ’gainst my strong infection;
No bitterness that I will bitter think,
Nor double penance, to correct correction.
 Pity me, then, dear friend, and I assure ye
 Even that your pity is enough to cure me.[1][2]

–William Shakespeare

‘’’Soneto 111’’’ é um dos 154 Sonetos de Shakespeare, pertencente à série “Fair Youth”, que corresponde aos 126 primeiros sonetos.[3] Seu tema continua-se no Soneto 112.

Análise

Como os demais sonetos de William Shakespeare, este tem o formato de soneto inglês[nota 1] foi todo construído no ritmo de pentâmetro iâmbico, e rimas em ABAB CDCD EFEF GG

Sinopse

Neste primeiro de dois poemas interligados, o poeta culpa a Fortuna por tê-lo colocado numa profissão que o levou ao seu mau comportamento, e implora à pessoa amada que o castigue e que tenha piedade dele.[1] Ele repreende a Fortuna por não lhe dar o que desejava na vida. Ele é forçado a obedecer ao desejo do público por entretenimento, e sente isso como uma humilhação. O autor se dispõe a engolir qualquer remédio amargo, mas é o amor do Belo Jovem que ele mais deseja. [3]

Traduções

Como nas suas outras traduções, ela procurou fazer uma tradução mais literal, mantendo os 14 versos do original, mas sem se ater a ritmo, métrica ou rima.

Ó, por mim, desprezas a Sorte,
A deusa culpada de meus malfeitos,
Que não deu mais à minha vida
Do que meios advindos dos modos mais comuns.
Então, sobrevém que meu nome receba uma marca,
E quase de imediato minha natureza se subjuga
Ao que se afaz, como à mão do tintureiro.
Tem pena de mim: desejava-me renovado,
Assim como um paciente, aquiesço e bebo
As poções para curar minha forte infecção;
Nenhum amargor que eu julgue amargo,
Nenhuma dupla sentença para corrigir a correção.
Tem pena de mim, cara amiga, e te asseguro
Que até a tua pena é bastante para dar-me a cura.[4]

Tradução de Milton Lins

O tradutor apresentou o soneto em versos dodecassílabos alexandrinos, em ritmo misto, predominantemente hexâmetro iâmbico. O esquema rímico seguiu o do autor, como um soneto inglês: ABAB CDCD EFEF GG.

Você, por minha culpa, anula a má Fortuna,
A deusa sem perdão nenhum para as proezas,
Que, pela minha vida, é sempre inoportuna,
Pelos meios comuns que geram sutilezas.

Meu nome, em decorrência, alçando-se altaneiro,
Quase do mesmo modo, o meu senso é manchado,
São cores do trabalho em mãos de um tintureiro,
Que tenha dó de mim, me veja renovado!

Como um bom paciente, eu beberei, na taça,
o vinagre em poções, contrário à infecção;
Que nenhuma amargura amargamente eu faça,
Nenhum duplo penal corrige a correção.

Pois tenha pena, amigo, assim eu lhe asseguro,
Mesmo que a pena seja um átimo, eu curo.[5]

Tradução de José Arantes Júnior

O tradutor, embora mantivesse o formato de soneto inglês e o esquema rímico seguido pelo autor, não o seguiu no quesito métrica e ritmo, preferindo, como o fez com as suas outras traduções do poeta, criar um formato plástico, com todos os versos contendo exatamente 36 caracteres, o que lhe dá um formato retilíneo em suas margens, quando escrito com fonte monoespaçada. Além disso, também lhe acrescentou um título.

A pena como bálsamo

Por minha causa tens a fortuna presa,
A deusa da culpa de minhas más ações
Não fez o melhor por mim como defesa
Do que meios públicos ou repartições;

Portanto meu nome recebeu um estigma
E até a minha natureza foi subjugada,
Por mão de um tintureiro que designa
Que a minha vida deverá ser renovada;

Enquanto bebo como propenso paciente
Poções contra a minha forte infecção,
Sem a amargura de um amargo na mente
Ou sem nem mesmo corrigir a correção;

Tenha pena, amigo, e posso assegurar
Que basta a tua pena para me acalmar.[6]

Tradução de Paulo Camelo

Procurando espelhar-se na obra original e mantendo a forma de soneto inglês (3 quartetos e um dístico), em versos decassílabos em pentâmetro iâmbico, fez um diferencial, acrescentando-lhe o ritmo holístico.

Por minha causa acusas a fortuna
a ser culpada por maus atos meus,
não muda a minha vida que eu a puna,
os meus bons modos não virão nos seus.

O resultado é que meu nome marca
e se aniquila a minha natureza,
o tintureiro bom, mas tinha parca,
então me tenhas pena, com certeza.

Eu beberei, qual dócil paciente,
essas poções que curam todo o mal.
Não guardarei rancor, resiliente,
e em dupla penitência ou dose igual.

Tenha-me pena, amigo, eu asseguro:
a sua compaixão basta, eu me curo.[7]

Notas

  1. As exceções são o Soneto 99, que apresenta 15 versos, e o Soneto 126, que apresenta 12 versos, em 6 dísticos.

Referências

  1. a b «Shakespeare's Sonnets». Sonnet 111. Folger Shakespeare Library (em inglês). Consultado em 28 de dezembro de 2025 
  2. «Sonnet 111: O, for my sake do you with Fortune chide». Poetry Foundation (em inglês). Consultado em 28 de dezembro de 2025 
  3. a b «Sonnet 111» (em inglês). Consultado em 28 de dezembro de 2025 
  4. «Soneto 111». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 28 de dezembro de 2025 
  5. SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5
  6. José Arantes Júnior. «Sonetos completos de William Shakespeare» (PDF). Consultado em 28 de dezembro de 2025 
  7. Paulo Camelo. «Soneto 111 de William Shakespeare». Recanto das Letras. Consultado em 28 de dezembro de 2025