Soneto 62

Soneto 62

Sin of self-love possesseth all mine eye
And all my soul and all my every part;
And for this sin there is no remedy,
It is so grounded inward in my heart.
Methinks no face so gracious is as mine,
No shape so true, no truth of such account;
And for myself mine own worth do define,
As I all other in all worths surmount.
But when my glass shows me myself indeed,
Beated and chopp’d with tann’d antiquity,
Mine own self-love quite contrary I read;
Self so self-loving were iniquity.
’Tis thee, myself, that for myself I praise
Painting my age with beauty of thy days.[1]

–William Shakespeare

Soneto 62 é um soneto de uma série de 154 sonetos de Shakespeare. Faz parte da extensa sequência de sonetos "O Belo Jovem", que vai do número 1 ao 126.

Análise

Como os demais sonetos de William Shakespeare, este foi todo construído em decassílabos, no ritmo de pentâmetro iâmbico, no formato de soneto inglês, com 3 quartetos e um dístico, e rima em ABAB CDCD EFEF GG.

Sinopse

No Soneto 62, o poeta acusa a si mesmo de extrema vaidade por ter uma opinião tão elevada de si mesmo. Em seguida, admite que o "eu" que tanto estima não é o seu eu físico, mas sim o seu "outro eu", o ser amado.[1]

Nos primeiros versos, o orador (o eu lírico) afirma que existe um único pecado na raiz de tudo o que ele faz: o amor-próprio. Esse pecado controla tudo o que ele vê e faz, está presente em cada parte do seu corpo e da sua mente. Está tão profundamente enraizado nele que não há remédio; está em seu coração e não pode ser removido. [2]

Essa imagem juvenil de si mesmo é abruptamente destruída nos versos 9 a 12, quando o poeta se olha no espelho e vê seu verdadeiro eu, oscilando entre essa antítese da juventude e da velhice, o amor-próprio narcisista.[3]

O eu lírico do poema pode ser interpretado como alguém que critica duramente sua própria fraqueza e tolice.

Traduções

A tradutora não segue o ritmo, a métrica nem o esquema de rimas do autor, preferindo fazer uma tradução livre.

O pecado do amor-próprio toma meus olhos,
E toda a minha alma, e todo o meu corpo;
E para este pecado não há qualquer remédio,
Tão entranhado está em meu coração.
Penso que nenhum rosto seja tão belo quanto o meu,
Não há forma mais verdadeira, nem jamais vista,
E por mim meu próprio valor se define,
Por superar qualquer outro.
Mas quando o espelho me revela quem sou,
Abatido e carcomido pelos anos,
Meu amor-próprio se contraria;
Ser tão autocentrado seria uma iniquidade.
Tu és (eu mesmo) aquele que em meu nome elogio,
Pintando meus anos com a beleza de teus dias.[4]

Tradução de Milton Lins

O tradutor não seguiu o autor na métrica, eapresentou o soneto em versos dodecassílabos, perseguindo o hexâmetro iâmbico, não o fazendo, no entanto, em um verso (o verso 2), mantendo o modelo de verso alexandrino. O esquema rímico segue o do autor, como um soneto inglês: ABAB CDCD EFEF GG.

Pecar por auto-amor, não me acontecerá,
Pois minha alma cabal tem toda a minha ação;
E para tal pecado antídoto não há,
Tão firme ele estará aqui no coração.

Parece não haver, igual ao meu, um rosto,
Em forma tão real, num tom tão verdadeiro,
E por mim mesmo dou um prêmio sobreposto,
Sem um só outro igual valor tão altaneiro,

Mas quando o meu espelho exibe o meu semblante,
Batido e retalhado em sua antiguidade,
Meu amor-próprio então se mostra conflitante,
Sozinho e narcisista, em plena iniquidade.

Sou mesmo, em teu louvor, de quem tu saberias:
Meus anos vou pintar no belo dos meus dias.[5]

Tradução de José Arantes Junior

Este tradutor seguiu o esquema rímico do autor no soneto: ABAB CDCD EFEF GG, como um soneto inglês. Mas não o seguiu no ritmo nem na métrica, preferindo dar-lhe um aspecto plástico, com 36 caracteres em cada verso, que lhe mostram a forma, quando utilizada uma fonte monoespaçada.

O pecado de amor como salvação

O pecado de amor tomou a minha visão
Tomou minha alma e tomou tudo o mais,
E para este crime não existe solução
Pois ele oprime meus elos emocionais,

Não há face tão linda quanto a minha
Nem figura ou verdade tão importante,
Meu valor traça suas próprias linhas
Para elevar-se de forma interessante,

Quando o espelho me mostra realmente
Atônito e agredido por antigo visual,
Leio meu amor próprio contrariamente
E eu vejo como iníquo o amor pessoal,

A ti (a mim mesmo) com mais sutileza
Pinto a minha idade com a tua beleza.
[6][7]

Tradução de Paulo Camelo

O tradutor manteve o ritmo de pentâmetro iâmbico usado pelo poeta inglês, usando-o com ritmo holístico, mantendo também o esquema rímico ali utilizado, no formato de soneto inglês.

Meu amor-próprio os olhos me domina,
e toda a alma, e cada parte em mim;
o meu pecado é forte, me alucina
e toma o coração, tão grande assim.

E nenhum rosto é belo, igual ao meu,
nenhuma forma verdadeira, nada;
e eu me defino: o meu amor sou eu,
supero tudo e todos na escalada.

Entanto, o espelho mostra a minha face,
a antiguidade a me marcar, batido,
e eu vejo a mim, meu amor-próprio, e faz-se
um amoroso eu, então vivido.

Eu louvo a ti, ou a mim mesmo, então,
pintando a idade que meus dias dão.[8]

Referências

  1. a b «Shakespeare'sSonnets». Sonnet 62 (em inglês). Consultado em 19 de novembro de 2025 
  2. «Sonnet 62 by William Shakespeare». Poem Analysis (em inglês). Consultado em 18 de novembro de 2025 
  3. «Summary and Analysis Sonnet 62» (em inglês). Consultado em 19 de novembro de 2025 
  4. «Soneto 62». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 19 de novembro de 2025 
  5. SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5
  6. Shakespeare, William - Sonetos completos de William Shakespeare. Tradução de José Arantes Júnior. - São Paulo: Ed. do Autor, 2007.
  7. José Arantes Junior. «Sonetos completos de William Shakespeare» (PDF). Consultado em 18 de novembro de 2025 
  8. «Soneto 62 de William Shakespeare». Recanto das Letras. Consultado em 18 de novembro de 2025