Financiamento climático em Guiné-Bissau

O financiamento climático em Guiné‑Bissau consiste em uma combinação de recursos públicos, investimentos privados e financiamentos multilaterais para apoiar projetos de adaptação e mitigação das alterações climáticas.

Guiné‑Bissau é altamente vulnerável a alterações climáticas devido à sua topografia plana e extensa zona costeira, onde cerca de 70% da população reside; a intrusão salina tem degradado a produção de arroz e chuvas irregulares provocam inundações e longos períodos de seca.[1][2]

Os recursos públicos incluem a estruturação do Instituto Nacional de Meteorologia da Guiné‑Bissau (INM‑GB) para monitoramento climático e a elaboração do Plano de Ação Nacional de Adaptação (PANA), com apoio técnico na formulação de prioridades e ações setoriais.[3][4] Desde janeiro de 2023, o FMI também disponibilizou uma linha de crédito de 38,4 milhões de dólares para consolidar a recuperação económica e criar espaço fiscal para políticas de adaptação.[5]

A diversificação de fontes de financiamento, sobretudo atraindo capital doméstico, é essencial para garantir adaptação de longo prazo e reduzir a dependência de doações externas.[6]

Contexto climático e vulnerabilidades

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Gráfico das mudanças de temperatura nos últimos 100 anos na Guiné-Bissau

Guiné‑Bissau é um dos países mais vulneráveis a alterações climáticas devido à sua topografia plana e extensa zona costeira.[1] Cerca de 70% da população vive junto ao oceano, aumentando a exposição ao aumento do nível do mar.[2] A intrusão salina em aquíferos costeiros tem degradado a produção de arroz, principal alimento local.[1][2] Chuvas intensas e mal distribuídas causam inundações frequentes, afetando estradas e habitações.[1][2] A irregularidade das chuvas acentua longos períodos de seca, prejudicando a agricultura de subsistência.[1]

Alguns eventos extremos recentes incluem inundações, secas severas e ciclones tropicais. Em junho de 2018, um temporal causou três mortos, atingiu cerca de 2.000 famílias (11.541 pessoas) e destruiu 420 habitações.[7][8] Em 2020, chuvas torrenciais deixaram cerca de mil famílias sem teto, com previsão de até três mil afetadas; o Ministério da Agricultura alertou que mais de nove mil famílias camponesas enfrentariam fome devido à destruição de campos de arroz, base da dieta local.[9][10][11]

Financiamento público

O país estabeleceu o Instituto Nacional de Meteorologia da Guiné-Bissau (INM-GB), responsável por monitorar as condições climáticas e fornecer informações essenciais para a tomada de decisões relacionadas ao clima.[3] Além disso, lançou a Quarta Comunicação Nacional sobre as Mudanças Climáticas, destacando a necessidade urgente de ações para enfrentar os impactos climáticos.[3]

Guiné-Bissau também desenvolveu o Plano de Ação Nacional de Adaptação (PANA), identificando setores vulneráveis e propondo medidas para reduzir os impactos das mudanças climáticas.[4]

Em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a Guiné-Bissau lançou projetos para reforçar o sistema de informação e alerta precoce, visando um desenvolvimento mais resiliente às mudanças climáticas.[12]

A União Europeia, em parceria com organizações locais (ESSOR, Asas de Socorro, ADPP‑GB), financia desde 2020 programas de hortas agroecológicas nas regiões de Bissau, Cacheu e Oio, beneficiando diretamente 2.800 produtores e promovendo o aumento médio de 15% no rendimento agronómico.[13]

Financiamento privado

dezenas de painéis solares no telhado de um sobrado de coloração rosa
Painéis solares na sede da União Nacional dos Trabalhadores da Guiné (2005)

O Plano de Investimento para Energia Sustentável identificou potenciais investidores privados e fundos de private equity para parques solares e eficiência energética.[14] Porém, o financiamento privado para o clima na Guiné‑Bissau ainda é incipiente — há poucos investimentos diretos de empresas privadas em projetos de energia limpa ou adaptação.[15]

O projeto Solar Energy Scale-up and Access inclui mini-redes solares nas ilhas Bijagós (Bolama, Rubane e Bubaque) com participação do setor privado, incluindo o Banco Mundial.[16][17][18] Esses sistemas usam cerca de 500 kWp de painéis fotovoltaicos com baterias, beneficiando 2.600 famílias, totalizando 15.000 pessoas.[19]

Desde 2012, o projeto SSD‑FRES (com apoio da UE) fornece energia solar a 3.700 consumidores rurais da região de Gabu, com kits de painel mais bateria por 6.000 francos CFA por mês.[20]

Cooperação internacional e financiamento externo

Lançado em dezembro de 2018 com a UNIDO, o Centro de Energias Renováveis ​​e Eficiência Energética da CEDEAO (ECREEE), Associação Lusófona de Energias Renováveis (ALER) e o Fundo Global para o Meio Ambiente, prevê 700 milhões de dólares até 2030 para mini‑redes, bioeletricidade e eficiência energética, tendo captado 50 milhões até o final de 2018, com destaque para projetos em Bambadinca, Bissorã e Contuboel.[21]

Em janeiro de 2023, o FMI aprovou um mecanismo de crédito ampliado de 38,4 milhões de dólares para a Guiné‑Bissau, parte do qual visa reforçar a resiliência económica e apoiar reformas ligadas à adaptação climática.[5]

Em junho de 2023, a Guiné‑Bissau assinou uma carta conjunta com nove nações da África Ocidental pedindo o reconhecimento de créditos de carbono como ferramenta para atrair investimentos em projetos de conservação e adaptação.[22]

Impactos e resultados

Agricultores da Guiné-Bissau carregando feixes de arroz recém colhidos

Em 2016, a Ajuda de Desenvolvimento de Povo para Povo (ADPP) processou 2 toneladas de óleo de jatrofa para produção de biocombustível e formou 53 professores de ensino básico em energia renovável, reforçando a integração de tecnologias limpas no Clube de Agricultores.[23]

Em 2023, foi concluída a primeira fase do projeto de mini‑redes solares nas ilhas Bijagós, instalando 500 kWp de painéis fotovoltaicos e baterias para atender 1.200 lares e pequenas empresas.[16][17]

Em 2024, foi lançado projeto da PNUD de reforço do sistema de informação climática, com instalação de novas estações meteorológicas e alertas precoces para comunidades costeiras.[12][24]

Críticas e controvérsias

A Transparência Internacional atribui à Guiné‑Bissau apenas 21/100 no Índice de Percepção de Corrupção de 2024, indicando risco elevado de mau uso de fundos públicos, incluindo os destinados ao clima.[25] O FMI destaca que a instabilidade política e as fragilidades institucionais reduzem a eficácia dos financiamentos e elevam o risco de desvio de recursos.[26] O Relatório sobre Clima e Desenvolvimento do País da UE para a Guiné-Bissau sublinha que a limitada capacidade financeira e as fraquezas do setor público impedem a implementação ágil de projetos climáticos.[27]

Perspectivas futuras

O Relatório sobre Clima e Desenvolvimento do Banco Mundial destaca que, sem adaptação, o país pode sofrer uma redução de 7,3% no PIB per capita até 2050 e um aumento de mais de 200.000 pessoas em situação de pobreza.[6] Para mitigar esses impactos, são necessárias reformas na governança, estabilidade política e um ambiente de negócios favorável, além de investimentos em agricultura sustentável, reflorestamento e acesso à energia.[6] A dependência excessiva de financiamento público internacional é uma preocupação. O Banco Mundial enfatiza a necessidade de diversificar as fontes de financiamento para enfrentar os desafios climáticos e de desenvolvimento.[6]

Referências

  1. a b c d e Temudo, Marina Padrão; Cabral, Ana I. R.; Reis, Pedro (outubro de 2022). «The Sea Swallowed our Houses and Rice Fields: The Vulnerability to Climate Change of Coastal People in Guinea-Bissau, West Africa». Human Ecology (em inglês) (5): 835–850. ISSN 0300-7839. PMC 9465672Acessível livremente. PMID 36118175. doi:10.1007/s10745-022-00352-2. Consultado em 14 de maio de 2025 
  2. a b c d «Guinea-Bissau > Risk > Historical Hazards». climateknowledgeportal.worldbank.org (em inglês). Consultado em 14 de maio de 2025 
  3. a b c «Guiné-Bissau Lança a Quarta Comunicação Nacional sobre as Mudanças Climáticas: Chamado Urgente para Ação». INM Guinea Bissau (em francês). Consultado em 14 de maio de 2025 
  4. a b Tchedná, João Lona; N'dafá, António Pansau (2023). Experiência da Guiné-Bissau, Integração das Mudanças Climáticas nas Políticas Públicas (PDF). S. Tomé: [s.n.] p. 3 
  5. a b «IMF approves $38.4 mln extended credit facility for Guinea-Bissau». Reuters. 31 de janeiro de 2023. Consultado em 14 de maio de 2025 
  6. a b c d «Guinea-Bissau Country Climate and Development Report». Banco Mundial (em inglês). Consultado em 14 de maio de 2025 
  7. «Proteção Civil da Guiné-Bissau estima em 850 mil euros custos para reabilitar danos do mau tempo». Observador. Consultado em 14 de maio de 2025 
  8. «Proteção Civil da Guiné-Bissau estima em 850 mil euros custos para reabilitar danos do mau tempo». Diário de Notícias. 29 de junho de 2018. Consultado em 14 de maio de 2025 
  9. «Chuva deixa destruição na Guiné-Bissau». Voice of America. 22 de setembro de 2020. Consultado em 14 de maio de 2025 
  10. «Guiné-Bissau: Autoridades dizem que haverá fome». Voice of America. 23 de novembro de 2020. Consultado em 14 de maio de 2025 
  11. Lusa, Agência. «Chuvas provocam estragos um pouco por toda a Guiné-Bissau, governo pensa lançar campanha». Observador. Consultado em 14 de maio de 2025 
  12. a b «Alterações climáticas /Governo e PNUD lançam projeto para reforço do sistema de informação e alerta precoce para desenvolvimento resilente». Agência de Notícias da Guiné. Consultado em 14 de maio de 2025 
  13. «Hortas». Ianda Guiné. 11 de junho de 2024. Consultado em 16 de maio de 2025 
  14. MEI, Ministério da Energia e Indústria; ONUDI, Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial; ECREEE, Centro Regional da CEDEAO para Energias Renováveis e Eficiência Energética. Plano de Investimento para Energia Sustentável da Guiné-Bissau (2015-2030) (PDF). [S.l.: s.n.] 
  15. «O despertar do sector privado na Guiné-Bissau». UNDP. Consultado em 14 de maio de 2025 
  16. a b Chandak, Pooja (27 de junho de 2024). «World Bank Grants $35 Million To Boost Solar Power In Guinea-Bissau». SolarQuarter (em inglês). Consultado em 14 de maio de 2025 
  17. a b «Guinea-Bissau launches large-scale solar projects with IDA support». energynews (em inglês). 20 de junho de 2024. Consultado em 14 de maio de 2025 
  18. UE, União Europeia. Multiannual Indicative Programme 2021-2027 (PDF). [S.l.: s.n.] p. 20 
  19. UE, União Europeia. Energia renovável para o desenvolvimento local em Bissorã, Guiné-Bissau (PDF). [S.l.: s.n.] 
  20. Odemocrata, Author: Jornal. «REGIÃO DE GABÚ UM EXEMPLO DE ENERGIA LIMPA NA GUINÉ-BISSAU». O Democrata GB. Consultado em 16 de maio de 2025 
  21. Webmaster. «Plano de investimento em energia sustentável da Guiné-Bissau prevê 700 milhões de dólares até 2030 – ECREEE». Consultado em 16 de maio de 2025 
  22. Furness, Virginia (10 de junho de 2024). «West African nations call for firms to be able to offset carbon». Reuters. Consultado em 14 de maio de 2025 
  23. ADPP. RELATÓRIO ANUAL DA ADPP GUINÉ-BISSAU | 2016 (PDF). [S.l.: s.n.] 
  24. «Guiné-Bissau - Lançado projeto de reforço de informação climática». RTP África. 18 de setembro de 2024. Consultado em 14 de maio de 2025 
  25. «Guinea-Bissau». Transparency.org (em inglês). 11 de fevereiro de 2025. Consultado em 14 de maio de 2025 
  26. International Monetary Fund. African Dept. (dezembro de 2024). «Guinea-Bissau». IMF Staff Country Reports (em inglês) (353): 6. ISSN 1934-7685. doi:10.5089/9798400296703.002. Consultado em 14 de maio de 2025 
  27. «Guinea-Bissau - Country Climate and Development Report | Knowledge for policy». knowledge4policy.ec.europa.eu. Consultado em 14 de maio de 2025 

Ligações externas

Índices interativos de projeções climáticas para Guiné-Bissau, pelo Banco Mundial