Financiamento climático no Piauí

O financiamento climático no Piauí se refere aos recursos e mecanismos financeiros mobilizados por este estado brasileiro, bem como aqueles advindos do governo federal, de outros estados e do exterior, para reduzir emissões de gases de efeito estufa e adaptar-se aos impactos das mudanças climáticas.

Com território dividido entre a caatinga e o cerrado, o Piauí sofre pressão ambiental da expansão agrícola e poderá sofrer com desertificação, secas e temperaturas extremas caso o aquecimento global não seja freado. Além disso, tem parte de sua população em situação socialmente comprometida, o que a torna particularmente vulnerável às mudanças climáticas.

Tanto o estado quanto sua capital Teresina têm agido para buscar soluções e mecanismos de adaptação, tanto internamente quanto com parceiros pelo Brasil e até internacionalmente, embora algumas iniciativas tenham sido alvo de críticas.

Contexto ambiental no Piauí

O Piauí é um dos estados que compõem a chamada Matopiba, juntamente ao Maranhão, Tocantins e Bahia, uma região de intenso desenvolvimento agrícola que concentra 74% do desmatamento do cerrado[1] e 42% de toda vegetação suprimida no país.[2][3] Segundo levantamento do Mapbiomas referente a 2024, o cerrado é o bioma mais desmatado do país, correspondendo a mais da metade do desmate total.[2][3][4] 50% do território piauiense é do cerrado.[5]

Além do cerrado, boa parte do território é coberta pela caatinga, que sofre pressão da expansão agrícola e gradativamente perde sua vegetação nativa e a vê substituída por monoculturas.[6] O MapBiomas aponta também que o estado teve um total de 142.871 hectares desmatados em 2024, o triplo de 2019.[1][3] O governo estadual, por sua vez, apontou para uma redução de 12% no índice de desmate para 2024 e estabeleceu meta de reduzir mais 10% até o final de 2025, com ajuda de um programa de créditos de carbono[2] (ver detalhes na seção "Histórico de iniciativas e metas internas" abaixo). Anteriormente em 2022 a administração já relatava também uma redução de 57% nas emissões de gases de efeito estufa (GEE) em comparação com o pico de emissões de 2012.[7] A cobertura florestal do Piauí caiu em 11% entre 1985-2023; o Plano Cerrado Vivo do governo conseguiu reduzir em 15,6% o desmatamento em 2024 comparado a 2023.[5]

No âmbito des queimadas, entre 1985-2023 o estado figurou na 6ª colocação em área queimada (12.128.692 hectares). Todavia, em em 2024 foi o único além do Amapá a reduzir esse fenômeno (no caso, em 20%).[5]

Fotografia de 2020 de área em processo de desertificação em Gilbués.

Segundo mapeamento de suscetibilidade à desertificação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o Piauí é uma das unidades federativas mais vulneráveis, com mais de 40% do território em níveis avançados de degradação ambiental.[6]

Um estudo de 2021 publicado na revista Ciência & Educação analisou o currículo escolar da rede de ensino municipal de Teresina e notou que o tema das mudanças climáticas raramente aparecia, ainda que assuntos como meio ambiente, educação ambiental e sustentabilidade fossem prevalentes e que a cidade tivesse contexto suficiente para estudantes relacionarem as mudanças climáticas às suas próprias vidas.[8]

Energia limpa

Em 2023, o Piauí era o quarto do país em expansão da rede de energia eólica e solar, totalizando 117 parques eólicos e 52 solares fotovoltaicos em operação e 46 outros em construção. Contudo, comunidades ribeirinhas como a da Ilha Grande manifestaram em reportagem de 2024 da Agência Eco Nordeste um sentimento de exclusão desta transição energética, por não se sentirem diretamente beneficiadas pelas usinas.[9] Ainda, o MapBiomas também apontou que o estado sofreu aumento de 17,35% entre 2016 e 2024 especificamente no desmatamento da caatinga para fins de implementação de usinas fotovoltaicas.[10]

Impacto das mudanças climáticas no Piauí

O Piauí é uma das unidades federativas mais vulneráveis às mudanças climáticas no Brasil,[11] com o norte do estado particularmente vulnerável a secas,[12] e uma tendência projetada para o território em geral apontando para o aumento da temperatura e a diminuição das chuvas, com impactos nos recursos hídricos, produção agrícola, bem-estar da população e segurança alimentar.[13]

No clima e na temperatura

Um estudo de 2021 voltado para a região costeira do Delta do Parnaíba, na divisa com o estado do Maranhão, revelou tendência de aumento de temperatura em nove cidades piauienses.[14] O estado como um todo pode ter sensações térmicas de até 71 °C e ficar inabitável até meados dos anos 2070, segundo dados de um estudo de 2020 da NASA que mapeou áreas pelo mundo que correm o risco de ficarem impróprias para a vida humana.[15] Para a sensação térmica atingir tal nível, bastaria uma combinação de temperatura no ar de 35 °C com umidade de 50%.[15] Nessa temperatura extrema, nem o suor daria conta de regular a temperatura do corpo, que pode vir a morrer conforme os órgãos deixam de funcionar.[15]

Em 2025, ao menos 45 municípios do Piauí enfrentaram uma seca severa que levou ao colapso do abastecimento de água, perdas totais na agricultura e na pecuária e sumiço de abelhas. Segundo a coordenadora da Sala de Monitoramento e Previsão de Eventos Climáticos da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), Sara Cardoso, esse evento extremo foi consequência das mudanças climáticas, assim como foram os índices de chuva aquém do esperado em Teresina e outra cidades do Centro-Norte e Norte do estado.[16] Também ao longo de 2025, o estado passou pela chamada "seca verde", que é quando a paisagem não dá sinais óbvios de uma seca e a vegetação permanece inalterada.[6]

O então presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva sobrevoando uma área inundada de Teresina em 2009.

A capital Teresina está aquecendo num ritmo mais acelerado do que no resto do mundo[17] - duas vezes mais acelerado, segundo a NASA.[18] Na capital, a população se refere ao período mais quente do ano como "bró", por ser o trio de letras que finaliza os meses de setembro a dezembro, que compõem o período quente - contudo, este período agora vai até janeiro e pode começar tão cedo quanto julho.[17] A intensificação de chuvas também foi detectada pela cidade, particularmente entre 2014-2024,[19] com concentração de precipitação e ventos em determinados pontos.[17] A capital tem também casos de ilhas de calor onde a temperatura supera os 40 °C em certos momentos[17] (o que poderia ser mitigado pela substituição do pavimento de asfalto pelo de concreto[20]). Projeta-se que a média anual local passe de 27 °C para 32 °C até 2070.[20]

Teresina é particularmente vulnerável a enchentes também, por conta da maneira como o solo foi usado e ocupado, sendo que os locais mais propícios a enchentes, às margens dos rios Poti e Parnaíba, são justamente os habitados pela população mais vulnerável.[21] Enchentes foram registradas em Teresina nos anos de 1924, 1926, 1960, 1974, 1985 e 2009.[21] Por outro lado, o volume geral de chuvas tende a cair, deixando a região vulnerável a secas e queimadas.[20]

No meio ambiente

Revoada de guarás no Delta do Parnaíba em 2016; a espécie pode estar ameaçada pela degradação do local.

Em 3 de junho de 2022, por ocasião dos 30 anos da Rio-92, o Globo Repórter exibiu um programa sobre os impactos das mudanças climáticas em diversas localidades brasileiras, incluindo duas no Piauí: o Delta do Parnaíba e o município de Gilbués.[22] A reportagem falou do risco de extinção de duas espécies de aves migratórias (sendo uma delas o guará) por conta do possível desaparecimento de ilhas e mangues no delta, ponto de parada crucial na jornada delas.[22] No caso de Gilbués, localizada no outro extremo do estado, o problema é a desertificação, fruto dos anos de atividades de mineração que degradaram o solo e o deixaram mais vulnerável às fortes chuvas que caem em pouco espaço de tempo.[22][23]

As mudanças climáticas comprometem regiões costeiras, com consequências ambientais que se estendem à economia local, uma vez que muitas comunidades dependem da pesca e da agricultura.[9] Por exemplo, os mangues do litoral de Luís Correia estão sofrendo aumento de sua salinização conforme o mar avança sobre a foz dos rios Cardoso e Camurupim.[9] Os mangues desempenham papel importante justamente na resistência às mudanças climáticas, pois têm alta capacidade de absorção de dióxido de carbono e de retenção de sedimentos.[9]

Como o vizinho Maranhão, o Piauí também é vulnerável a voçorocas como consequência do desmatamento.[24]

Na saúde e nas pessoas

A capital Teresina tem um dos mais altos índices de radiação solar, radiação ultravioleta e, por consequência, de câncer de pele.[20] Em termos de aumento de temperatura, as crianças na primeira infância e os idosos, bem como pessoas com doenças de hipertensão, cardiovasculares e depressão, tendem a ser as parcelas mais afetadas da população, mas o sistema de saúde da cidade pode não estar suficientemente preparado para atender o público.[20] As crianças ficam também mais suscetíveis a doenças respiratórias por conta das mudanças climáticas.[25]

Em gestantes

No final de 2024, foi divulgada uma pesquisa sobre o impacto do calor extremo na saúda de gestantes.[26] Teresina figurou como única participante americana, contribuindo com 411 participantes de 75 unidades básicas de saúde da cidade.[27] A pesquisa local foi realizada pela Agenda Teresina 2030 com recursos advindos da iniciativa global "Climate Change XX: Women's Health in Focus" ("Mudanças Climáticas XX: Saúde da Mulher em Foco", em tradução livre) da UNFPA.[27]

O que a pesquisa revela é que 83,7% das mulheres alegam ter seu bem-estar negativamente afetado pelo calor, 66% sente desconforto frequente por conta das temperaturas elevadas e 44% enfrenta "intensidade extremamente alta" de calor.[27] Além disso, 89% declararam impacto na saúde física, 82,24% relataram piora em sintomas de cansaço ou fadiga e 50,61% perceberam mais dificuldade para respirar.[27] 37% apresentaram algum tipo de infecção no trato uroginegológico durante a gravidez e 75% atribuíram uma piora disso ao calor.[27] Dentre as que receberam orientações de como lidar com as temperaturas, 90% ouviram instruções para beber água e 15% para se banhar mais.[27] No caso das medidas que elas têm efetivamente tomado, 81% buscam abrigo fresco, 20% ficam no quarto com ar-condicionado e 20% vão para o quintal ou áreas cobertas da casa.[27] 70% não frequentam parques ou praças, com 34% afirmando não gostar, 20% desprovidas de acesso e 18% se sentindo sem segurança em tais locais.[27]

Em termos de saúde mental, 61% afirmou que sente de forma significativa o impacto do calor.[27] A maioria delas é de mulheres pretas e pardas, que ficam em casa, se locomovem a pé e têm na média 27 anos.[27]

Quando liberadas para falar espontaneamente, as participantes manifestaram como preocupações relacionadas ao calor: piora da falta de ar e evolução para quadros mais graves; gatilhos de ansiedade; insolação; AVCs; eclâmpsia; mal-estares, desmaios; parto prematuro; infarto; tontura; prejuízo emocional; pensamentos agoniantes; e aumento da depressão a ponto de colocar em risco a sua vida e a do bebê.[27]

No universo de participantes que notou efeitos especificamente em seus bebês, que ficaram mais agitados, 92% notaram mais cansaço e 63% dificuldade de respirar. Muitas buscaram ajuda médica por sintomas que ligaram ao calor, como assaduras no corpo, falta de ar, dermatite, coceira, mal estar, dor de cabeça, insônia, confusão mental, enxaqueca, pressão baixa, sangramento no nariz e ansiedade agravada.[27]

Histórico de iniciativas e metas internas

Animação mostrando mudanças no uso da terra no Piauí entre 1985-2024. Legenda:
     Floresta
     Vegetação herbácea e arbustiva
     Água
     Área não vegetada
     Agropecuária

Registra-se que em 2009 o Piauí sediou a II Reunião do Fórum Estadual de Mudanças Climáticas e Combate à Pobreza (FEMCB), um evento pré-COP15 que reuniu representantes de órgãos públicos e sociedade civil para prestar esclarecimento à população sobre a COP e sobre o Plano Estadual de Mudanças Climáticas e Combate à Pobreza, então em processo de elaboração.[28]

Mais recentemente, o governo estadual passou a dar atenção especial à questão das mudanças climáticas e os problemas ambientais do local. Ao longo de 2023, por exemplo, ativou e reuniu o Fórum Estadual de Mudanças Climáticas e Combate à Pobreza, criou a Diretoria de Mudanças Climáticas, incentivou operações de combate ao desmatamento ilegal, elaborou os planos estaduais de combate ao Desmatamento Ilegal e à Desertificação, e realizou o Programa PRO Verde Piauí.[29][30] Segundo a gestão estadual, o desmatamento naquele ano caiu 15,3% com relação a 2022.[7]

Em junho do mesmo ano, lançou o Eco Piauí, um programa de R$ 47 milhões focado na gestão da sustentabilidade do estado e projetado para operar em quatro eixos: Piauí no Clima; Bio Piauí, Hidro Piauí e Sustenta Piauí.[31] O eixo "Piauí no Clima" é o que lida diretamente com as mudanças climáticas; na ocasião do lançamento da iniciativa, o governador Rafael Fonteles destacou a meta de plantar 1 milhão de árvores por ano de sua gestão (2023-2026).[31]

Também em 2023, uma dupla de jovens piauienses criou a "Fonteviva – Renascendo com a Água"; um sistema que reutiliza a água da lavagem de roupas de máquinas e tanquinhos para o resfriamento de casas por meio do bombeamento do líquido para o telhado.[32] A invenção, parte de um programa da Aegea, é capaz de reduzir a temperatura do imóvel em 8 °C em 10 minutos, e com ela os dois jovens foram a Nova Iorque apresentá-la após vencerem um concurso nacional da empresa.[32] Na época, era disponibilizado nas versões manual (R$ 273) ou automatizada (R$ 355,53).[32]

Em junho 2024, o estado discutia alterações em suas leis ambientais, atingindo processos de licenciamento e aplicação de multas ambientais.[1] Tais pontos sofreram críticas de entidades da sociedade civil, que vê com preocupação a possibilidade de multas serem anistiadas, bem como uma possível concentração de poderes de licenciamento nas mãos de quem estiver à frente da pasta do meio ambiente.[1]

Em maio de 2025, a Marcha contra a Corrupção e pelo Clima, iniciativa conjunta da Força Tarefa Popular do Piauí com a Transparência Internacional – Brasil, visitou seis municípios e algumas comunidades do estado (Teresina, União, Novo Nilo, Miguel Alves, Tamanduá, Porto, Campo Largo do Piauí, Matias Olímpio, São João do Arraial) para fiscalizar os investimentos do poder público em iniciativas de adaptação e mitigação às mudanças climáticas.[33]

Em outubro de 2025, o Piauí e sua capital Teresina figuraram entre os 12 finalistas brasileiros (de um total de 26 do mundo todo) do Bloomberg Philanthropies do Local Leaders Awards 2025, premiação do C40 Cities que reconhece políticas, projetos e programas governamentais considerados inovadores no combate às mudanças climáticas.[34]

Em Teresina

A capital do Piauí, particularmente falando, tem sido destaque e pioneira em iniciativas climáticas. Em novembro de 2020, a prefeitura anunciou o desenvolvimento de um Plano de Ação Climática para estudar os efeitos das mudanças climáticas e as ações de combate adequadas. O plano viria acompanhado de um Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) e um estudo de Análise de Vulnerabilidade e Risco Climático. O projeto recebeu apoio de mais de R$ 625 mil advindos do Banco de Desenvolvimento da América Latina.[35]

O documento foi finalizado em novembro de 2023, tornando Teresina a 10ª capital brasileira a lançar um plano do tipo.[17] O diagnóstico correspondente da situação da cidade (no que diz respeito à emissão de gases do efeito estufa e aos riscos trazidos pela emergência climática) alegava que o setor de transporte foi o maior contribuidor de emissões, com quase 40%.[17]

O plano trouxe também uma lista de sugestões para ações e obras de adaptação às mudanças previstas: incentivo à arborização e à economia verde, adoção de energia limpa, educação ambiental e climática, obras de infraestrutura, estabelecimento de governança climática e ambiental, fortalecimento da Defesa Civil, entre outras medidas recomendadas.[17]

Em 2023, a prefeitura lançou o projeto Viver+Teresina, que reúne soluções para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, como criação de novos parques (incluindo "jardins de chuva"), reforma de espaços públicos para amenização da temperatura e obras de mobilidade urbana, saneamento e habitação, a um custo inicial de R$ 17 milhões, financiados externamente.[18]

Em abril de 2024, um dos desdobramentos do plano de ação climática foi oficializado por meio de medida publicada no Diário Oficial da cidade: a Comissão Municipal de Justiça Climática (Comjuca), a primeira do Brasil a interseccionalizar justiça climática, justiça social e racismo ambiental.[20]

Em 2024, foi inaugurado um dos "jardins de chuva" no parque linear da Lagoa do Mazerine, com a função de absorver o excesso de água da chuva e assim diminuir a probabilidade de enchentes na área.[11] Em julho daquele ano, a cidade foi a única brasileira escolhida para receber uma consultoria do C40 Cities-UrbanShift, com apoio do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês), no valor máximo de US$ 17 mil e no prazo de até seis meses.[36] Para concorrer ao subsídio, Teresina apresentou um projeto para adaptar a infraestrutura urbana às mudanças climáticas.[36]

A cidade tinha outros projetos em andamento (quando de agosto de 2025) como parte da Agenda Teresina 2030, incluindo os Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA); o Protocolo de Calor para Gestantes (resultante da pesquisa supracitada); o estudo de viabilidade da implementação de ônibus elétricos (fruto de uma doação do Governo Federal com a Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ)); e o Desenvolvimento Urbano Integrado para Redução de Riscos de Desastres Geo-Hidrológicos (DUI-RDD; fruto de parceria entre o Ministério das Cidades e a Fiocruz).[37]

Histórico de financiamentos e repasses federais e cooperações interestaduais

Autoridades do Governo do Piauí em roadshow para Parceria Público-Privada de usinas solares em 2019.

O Piauí recebe ocasionalmente ajuda do governo federal para financiar iniciativas de adaptação, mitigação e resiliência às mudanças climáticas.

Em 2016, o então Ministério do Meio Ambiente autorizou o repasse de R$ 5,8 milhões para o programa Água Doce do estado; no caso, era a última parcela que faltava de um convênio entre as duas esferas para construir 67 sistemas de dessalinização que totalizava R$ 11,8 milhões.[38] Esse projeto analisou nove municípios diferentes (a saber: Pedro Laurentino, Acauã, Vila Nova do Piauí, Lagoa do Barro do Piauí, Caldeirão Grande do Piauí, Massapê do Piauí, São Francisco do Piauí, São Julião e Queimada Nova) para traçar diagnósticos socioambientais e técnicos de 160 localidades dentro deles.[38] Das 67 estações previstas, três haviam sido criadas naquela altura, abrangendo uma população de cerca de 1,2 mil; a meta é atingir 1/4 da população rural do semiárido piauiense.[38]

Em agosto de 2025, o Piauí recebeu autorização para captar mais de R$ 126 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para financiar projetos de enfrentamento às mudanças climáticas e de fortalecimento da resiliência climática no semiárido do estado.[39] Esse financiamento virá para a iniciativa Sertão Vivo – Semeando Resiliência Climática em Comunidades Rurais no Nordeste, voltado para agricultores familiares, assentados da reforma agrária, povos indígenas, quilombolas e fundos de pasto, e sua concessão está condicionada a requisitos previstos em legislação pertinente e contrato de contragarantia.[39] O projeto recebe financiamento também do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e do Fundo Verde para o Clima (GCF, na sigla em inglês)[39]

Histórico de financiamentos, doações e cooperações internacionais

Em 2016, o Banco Mundial investiu US$ 88 milhões em Teresina, que seriam usados para melhorar a infraestrutura da região de Lagoas do Norte, composta por 13 bairros que totalizam 92 mil habitantes. No caso, foram prometidas melhorias no sistema de saneamento básico e obras de prevenção a inundações.[40]

Em janeiro de 2024, o governo estadual, por meio da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh) negociou com o Banco Mundial um financiamento para projetos sustentáveis para pequenos produtores rurais do estado; no caso, o projeto Pilares, que demandará investimento de aproximadamente R$ 64 milhões, a serem gerenciados pela Semarh, para beneficiar cerca de 25 mil famílias.[41]

Em março de 2024, foi lançado em Teresina o projeto Piauí Sustentável e Inclusivo (PSI), uma iniciativa conjunta do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o governo do Piauí.[42] O PSI visa melhorar a renda de pequenos agricultores e a segurança alimentar e nutricional nas bacias dos rios Piauí-Canindé.[42] A projeção é impactar 210 mil habitantes do sertão nordestino (considerado o maior bolsão de pobreza rural da América Latina[42]) com investimento de US$ 147,5 milhões (sendo US$ 18 milhões do FIDA; US$ 100 milhões do BID; e o restante (US$ 29,5 milhões) do estado.[42]

Também em março, o Banco Mundial anunciou um financiamento para incentivar a agricultura familiar sustentável nas zonas rurais do estado, com meta de atingir 24 mil agricultores familiares (incluindo indígenas, quilombolas e outros povos tradicionais) num projeto com duração de cinco anos envolvendo financiamento de US$ 63,28 milhões, sendo US$ 50 milhões do BIRD, US$ 12,5 milhões de contrapartida do Piauí e US$ 0,82 milhão das famílias.[43] A iniciativa é em parceria com o Instituto de Terras do Piauí (Interpi) e as secretarias de Meio Ambiente, de Agricultura e de Planejamento e se propunha a atuar com titulação de terras em assentamentos de reforma agrária, gestão de recursos naturais e assistência na adoção de práticas agrícolas climaticamente inteligentes.[43]

Parque eólico em Parnaíba fotografado em 2009.

Em novembro de 2024, o Piauí foi representado na COP29 pelo então secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos Daniel Oliveira. No evento, Daniel buscou promover o estado como local de potencial para a geração de energia limpa, além de buscar outras formas de financiamento climático para ajudar na modernização agrícola, na preservação da Caatinga e na redução do desmatamento no Cerrado.[44]

Em julho de 2025, o governo anunciou a emissão de créditos de carbono para entidades que combaterem o desmatamento.[45] A iniciativa é uma parceria da empresa público-privada Investe Piauí com a empresa de investimentos Silvania (ligada à Mercuria, que já tem parcerias similares no Pará e no Tocantins[3]), que será intermediária dos créditos; a Systemica, que atuará nos pormenores técnicos; e a Geonoma, que comandará o desenvolvimento do projeto.[2][45][46][47] Segundo esse grupo, caso o estado reduza o desmatamento da Mata Atlântica em 10% por ano, poderão ser gerados mais de 20 milhões de créditos até 2030,[2][45][46] que poderão ser vendidos a outras empresas e países que buscam atingir suas próprias metas de redução.[46][47] A redução anual de 10% é a meta do governo.[3] A Mercuria planeja usar parte dos créditos para compensar as próprias emissões.[3] O Piauí aposta em modelos públicos que envolvem o governo e comunidades locais para abranger uma área maior e diminuir o risco de o desmatamento simplesmente migrar de local.[2][3][45][46] O acordo firmado entre as partes estipula que os recursos financeiros advindos da comercialização dos créditos não ingressarão livremente no orçamento estadual, mas sim serão destinados a políticas contra o desmatamento.[3]

NA COP30, o Piauí apresentará um painel, sendo o único estado nordestino além do Ceará a ter uma atividade do tipo aprovada. O estado abordará as estratégias locais de enfrentamento da crise climática, incluindo transição energética, o Plano Estadual de Ação Climática e o programa REDD+.[48] O estado se fez presente na Cerimônia Oficial de Abertura da Pré-COP, realizada em Brasília em 13 de outubro.[49]

Como parte da preparação do evento, Teresina sediou entre 20-22 de outubro o 4º Encontro Nordeste ICLEI Brasil, que discutiu transição energética, mitigação e adaptação ao clima, financiamento climático, soluções sustentáveis e integração da biodiversidade às políticas urbanas e cooperação multinível para fortalecer a governança climática no Brasil.[50] No evento, o governador Rafael Fonteles promoveu a transição energética e o potencial de retenção de carbono da caatinga como pautas prioritárias para o Nordeste brasileiro na COP30.[51][52][53] O evento foi marcado também pela entrega do Plano Estadual de Ação Climática do Piauí por parte da Semarh e do ICLEI.[51][52]

Bibliografia

Referências

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