Olifante (Terra Média)

Na obra de fantasia épica O Senhor dos Anéis de J. R. R. Tolkien, um olifante (conhecido em Gondor como mûmak, plural: mûmakil)[1] é uma criatura gigantesca semelhante a um elefante. Essas criaturas são utilizadas exclusivamente como elefantes de guerra pelo exército dos Haradrim. Tolkien adaptou o termo do inglês médio para conferir um tom rústico ao discurso de Sam Gamgee. Os olifantes são mencionados pela primeira vez quando Sam explica a Gollum o que são, expressando seu desejo de ver um. Esse desejo é realizado quando ele presencia a emboscada de Faramir contra um contingente de Harad em Ithilien. Vários mûmakil participam da Batalha dos Campos do Pelennor.

Tolkien escreveu dois poemas intitulados "Oliphaunt": um é uma rima infantil e brincalhona recitada por Sam em O Senhor dos Anéis; o outro é um poema humorístico na tradição medieval dos bestiários, que satiriza o uso excessivo de alegoria na poesia do inglês médio. Pesquisadores analisaram as fontes de Tolkien para os olifantes, destacando o relato em inglês antigo da Homilia sobre os Macabeus e a menção ao uso de elefantes de guerra por Pirro contra a Roma Antiga.

Na adaptação cinematográfica de Peter Jackson, os olifantes foram modificados para se assemelhar a um Gomphotherium. Foram incluídas duas cenas de combate com os mûmakil durante a Batalha dos Campos do Pelennor, uma envolvendo o elfo Legolas e outra com Éowyn, a dama de Rohan, que receberam críticas mistas.

Etimologia

Tolkien adaptou o termo olifante do inglês médio, que por sua vez derivava do francês antigo olifaunt. Ambos os termos designavam um elefante comum.[2] No guia para tradutores [en], Tolkien explicou que a palavra foi usada como um "rusticismo", sob a suposição de que rumores sobre a criatura meridional teriam chegado à Comarca há muito tempo na forma de lenda.[3]

O Senhor dos Anéis

Narrativa

Tolkien relacionou os mûmakil dos Haradrim aos elefantes de guerra de Pirro em sua invasão à Roma Antiga. Ilustração de 1896 por Helene Guerber.[4]

Em O Senhor dos Anéis, os olifantes são mencionados quando Samwise Gamgee explica a Gollum o que são, recitando um poema antigo da Comarca.[T 1] Sam e Frodo Bolseiro avistam um olifante em Ithilien, durante a emboscada de Faramir contra um grupo de Haradrim. Tolkien sugere que os mûmakil são uma espécie maior (e agora extinta) relacionada aos elefantes.[T 2]

Na Batalha dos Campos do Pelennor, muitos mûmakil participam do ataque de Sauron a Minas Tirith, e os cavalos dos Rohirrim ficam aterrorizados, incapazes de se aproximar.[T 3]

Fontes clássicas e medievais

Elizabeth Solopova [en] e Stuart D. Lee [en] argumentam que os elefantes de guerra mûmakil dos Haradrim situam seu país no Extremo Oriente, uma vez que apenas a Índia e terras a leste continuaram a usar elefantes de guerra após a antiguidade.[5] Eles sugerem que Tolkien pode ter se inspirado na versão em inglês antigo de Ælfric do Livro dos Macabeus, que apresenta os elefantes ao público anglo-saxão com a expressão "māre þonne sum hūs" ("maior que uma casa"), semelhante à descrição de Sam Gamgee, antes de detalhar seu uso em batalha, incluindo um "wīghūs" (casa de batalha, ou howdah [en]).[5] Tolkien também mencionou o uso de elefantes de guerra por Pirro contra a Roma Antiga entre 280–275 a.C. em notas para a ilustradora Pauline Baynes.[4]

Perspectiva cristã

Kathleen O'Neill, em Cistercian Studies Quarterly, observa que, enquanto Sam está "aberto ao encantamento" e animado com a possibilidade de ver um olifante, a mente temerosa de Gollum é "completamente fechada à bondade do que existe, a ponto de negar sua própria existência".[6] Para O'Neill, Deus "rapidamente" recompensa Sam com a visão aterrorizante de um olifante descontrolado, proporcionando-lhe "deleite duradouro" e gratidão. Ela acrescenta que essa capacidade de enxergar o bem, mesmo em momentos sombrios, ajuda Sam em Mordor, quando ele observa uma estrela branca, reconhece sua beleza e percebe que "a Sombra era apenas algo pequeno e passageiro".[6][T 4]

Poemas

Representação lúdica

Antes de avistar o olifante, Sam recita um poema da tradição da Comarca para explicar a Gollum o que é um olifante. O poema começa:[T 1][Notas 1]

A folclorista e especialista em Tolkien Dimitra Fimi [en] observa que, com esse poema e o posterior encontro com o olifante, Tolkien "completa de forma lúdica" a representação de Sam como um "transmissor ativo e autêntico" da tradição folclórica de seu povo, apesar de sua falta de educação formal e seu estilo rústico de fala.[7]

Obra moderna na tradição dos bestiários

Olifante em um bestiário medieval. Harley 3244, fólio 39, após c. 1236.

Tolkien publicou um poema diferente[8] sobre o tema do olifante, intitulado "Iumbo, or ye Kinde of ye Oliphaunt", na Stapeldon Magazine em 1927. O poema começa:[T 7]

John D. Rateliff observa que Tolkien afirmou que, ao ler uma obra medieval, desejava criar uma versão moderna na mesma tradição.[8] No caso de "Iumbo" e "Fastitocalon [en]", uma baleia do tamanho de uma ilha, essa tradição era a dos bestiários medievais. Tolkien adota o pseudônimo "Fisiologus", imitando o nome medieval Physiologus, "o naturalista", autor de um bestiário. Rateliff destaca que "Iumbo" é escrito em estilo medieval, dividido em duas partes: uma natura, descrevendo os hábitos do olifante (como sua dependência de mandrágoras), e uma significacio, que extrai uma moral "altamente facetiosa e flagrantemente inadequada", satirizando a alegorização excessiva do modelo em inglês médio.[8]

Em filmes

Cranio de Gomphotherium, com presas curvas e crânio alongado, ao qual os olifantes de Peter Jackson se assemelham.[9]

Na versão animada de 1980 de O Retorno do Rei, produzida pela Rankin/Bass, os olifantes são retratados como semelhantes a mamutes-lanosos.[10]

No filme As Duas Torres de Peter Jackson, os Haradrim aparecem com características orientais, usando turbantes, vestes esvoaçantes e montando mûmakil.[11] As criaturas, construídas em animação CGI, diferem significativamente da descrição de Tolkien. Kristine Larsen aponta que Jackson tomou "liberdades artísticas" nos aspectos visuais dos olifantes.[12] Eles possuem dois pares de presas, um curvado para cima e outro menor nas bochechas, com o formato do crânio semelhante ao de um Gomphotherium.[9]

A representação de Jackson foi criticada na revista Mythprint por parecer "apenas citações visuais" do filme de fantasia de 1988 Willow.[13] Janet Brennan Croft [en] argumenta que a cena inventada por Jackson, mostrando um combate entre o elfo Legolas e um mûmak, desvia desnecessariamente a atenção da luta muito mais significativa de Éowyn contra o Rei-bruxo.[14] Por outro lado, Maureen Thum defende que, embora Jackson admita que seus filmes ofereçam "uma representação relativamente superficial" do livro, detalhes como o ataque inventado de Éowyn aos mûmakil – galopando sob eles com duas espadas erguidas – retratam a dama de Rohan como "uma guerreira forte e habilidosa", preparando o espectador para o confronto final com o Rei-bruxo.[15]

No filme de anime de 2024 The Lord of the Rings: The War of the Rohirrim, um olifante é descrito pelo site Polygon como capaz de "tornar os olifantes aterrorizantes novamente".[16] A criatura é apresentada como "raivosa, espumando pela boca, coberta de feridas abertas, sem um condutor à vista".[16] O efeito de tensão é alcançado, segundo o artigo, sem o uso de "magos, anéis, deuses ou magias chamativas".[16]

Ver também

Notas

  1. O poema "Oliphaunt" foi republicado em As Aventuras de Tom Bombadil,[T 5] e como um livro infantil, ilustrado por Dan McGeehan.[T 6]

Referências

  1. (Hammond & Scull 2005, p. 467)
  2. (Hammond & Scull 2005, pp. 761)
  3. (Lobdell 1975, p. 170)
  4. a b Michael Kennedy (3 de maio de 2016). «Tolkien annotated map of Middle-earth acquired by Bodleian library» [Mapa anotado de Tolkien da Terra Média adquirido pela biblioteca Bodleian]. The Guardian. Consultado em 28 de maio de 2025 
  5. a b (Lee & Solopova 2005, pp. 223–225, 228–231)
  6. a b (O'Neill 2005)
  7. Fimi, Dimitra (março de 2009). «Hobbit Songs and Rhymes: Tolkien and the Folklore of Middle-earth» [Canções e Rimas dos Hobbits: Tolkien e o Folclore da Terra Média]. Dr Dimitra Fimi. Consultado em 28 de maio de 2025 
  8. a b c (Rateliff 2014, pp. 133–152)
  9. a b «Tolkien Gateway: Mûmakil» [Portal Tolkien: Mûmakil]. Tolkien Gateway. 2024. Consultado em 28 de maio de 2025 
  10. «Rings Of Power Season 2 Scoop: Tolkien's Oliphaunts Will Arrive - But What Are They?» [Fato sobre a segunda temporada de Anéis de Poder: Os Oliphaunts de Tolkien chegarão - mas o que são eles?]. Looper. 5 de fevereiro de 2024. Consultado em 28 de maio de 2025 
  11. Ibata, David (12 de janeiro de 2003). «'Lord' of racism? Critics view trilogy as discriminatory» [“Senhor” do racismo? Críticos consideram a trilogia discriminatória]. Chicago Tribube. Consultado em 28 de maio de 2025. Cópia arquivada em 4 de outubro de 2014 
  12. (Larsen 2021)
  13. (Mythprint 2004, p. 6)
  14. (Croft 2005, p. 74)
  15. (Thum 2004, pp. 231–256)
  16. a b c Polo, Susana (14 de dezembro de 2024). «Lord of the Rings: War of the Rohirrim makes oliphaunts terrifying again» [O Senhor dos Anéis: A Guerra dos Rohirrim torna os olifantes aterrorizantes novamente]. Polygon. Consultado em 28 de maio de 2025 

J. R. R. Tolkien

  1. a b (Tolkien 1954, Livro 4, Cap. 3 "O Portão Negro está fechado")
  2. a b (Tolkien 1954, Livro 4, Cap. 4 "De ervas e coelho cozido")
  3. (Tolkien 1955, Livro 6, Cap. 6 "A Batalha dos Campos de Pelennor")
  4. (Tolkien 1955, Livro 6, Cap. 2 "A Terra das Sombras")
  5. (Tolkien 2014, "Oliphaunt")
  6. (Tolkien 2012)
  7. (Tolkien 1927, pp. 125–127)

Bibliografia

  • Croft, Janet Brennan (2005). «Mithril Coats and Tin Ears: 'Anticipation' and 'Flattening' in Peter Jackson's The Lord of the Rings Films» [Casacos de mithril e orelhas de lata: “Antecipação” e “achatamento” nos filmes O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson]. In: Croft, Janet Brennan. Tolkien on Film: Essays on Peter Jackson's The Lord of the Rings [Tolkien no Cinema: Ensaios sobre O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson]. [S.l.]: Mythopoeic Press. ISBN 1-887726-09-8 
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J. R. R. Tolkien

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