Perreras

As perreras (lit. "canis de cachorro"), também conhecidas como chirrincheras,[1][2] são o nome dado na Venezuela a caminhões geralmente usados para transportar gado ou objetos pesados. Embora historicamente pessoas em áreas rurais e indígenas os utilizassem para carregar sacos de banana, durante a crise na Venezuela e nos últimos anos seu uso cresceu em cidades como Caracas, Maracaibo, Maracay, Valência, Carúpano, Puerto La Cruz, Mérida, Puerto Ayacucho, entre outras, devido à hiperinflação, à paralisação de unidades de transporte público como ônibus, à escassez de peças de reposição para veículos e à falta de dinheiro em espécie, entre outros fatores. O nome vem da semelhança dos veículos com as vans usadas para recolher cachorros das ruas. Eles não possuem segurança para o transporte de pessoas, já que não contam com assentos ou cintos de segurança.[3] Como não são veículos adequados para transportar pessoas, o uso das perreras pode causar ferimentos graves e morte dos usuários. Só em 2018, pelo menos 32 passageiros morreram em quedas ou capotagens.

Contexto

As perreras consistem em veículos privados como caminhões basculantes, caminhonetes, caminhões de entulho geralmente usados para transportar gado ou objetos pesados como peças industriais, alimentos ou lixo, que não são adequados para o transporte de pessoas. Originalmente foram apelidadas assim décadas atrás em áreas rurais e indígenas, onde eram comuns no campo e as pessoas os usavam para carregar sacos de banana.[4] No entanto, durante a presidência de Nicolás Maduro, a Venezuela começou a enfrentar uma crise de transporte público sem precedentes na era moderna, afetada pelo aumento do custo e pela escassez de peças de reposição, além da falta de investimento público, o que forçou os usuários a percorrer longas distâncias a pé e a recorrer às perreras nas cidades para suprir a falta de veículos.[5]

Segundo Gustavo Chourio, especialista em urbanismo da Universidade do Zulia, cerca de 30% dos venezuelanos possuíam veículo próprio, a maior média da América Latina, proporção que caiu drasticamente até 2018 porque poucas pessoas tinham recursos suficientes para comprar peças como pneus ou baterias. Consertar ônibus e outros veículos de transporte público havia se tornado cada vez mais difícil devido à escassez de peças. Em 2018, segundo o Comitê de Usuários do Transporte Público em Caracas, 95% dos carros, ônibus e táxis estavam parados, enquanto o número de perreras, operadas por qualquer pessoa com meios de dirigir um veículo, havia aumentado em 25%. Luis Alberto Salazar, presidente do comitê e seu principal porta-voz, afirmou que existem pelo menos 150.000 perreras na Venezuela.[6] Oscar Gutiérrez, motorista e líder sindical no estado de Miranda, declarou que no mesmo ano restavam apenas 10% dos 12.000 ônibus que existiam no estado,[7] e, de acordo com o Comando Intergremial de Transporte, pelo menos 90% das 300.000 unidades que cobriam as diversas rotas do país estavam tecnicamente paradas por falta de peças.[5]

História

Longe de proibi-los devido às suas condições inseguras, o governo venezuelano apresentou os veículos como uma inovação no transporte e justificou seu surgimento; vários governadores e prefeitos pró-governo ativaram sua própria frota gratuita de perreras.[7] Nicolás Maduro tentou resolver o problema em 2015 com a compra de 15.000 ônibus Yutong fabricados na China. A maioria dessas unidades, no entanto, acabou quebrada em garagens oficiais por falta de peças de reposição. Em 2018, em Maracaibo, as Forças Armadas decidiram colocar caminhões militares nas principais rotas para ajudar os passageiros a se locomoverem, mas a iniciativa não durou muito após uma série de reclamações de que os caminhões eram altos demais para os passageiros embarcarem.[6]

Em abril, durante a Expo Potencia 2018, um evento em Caracas promovido por Nicolás Maduro para mostrar a "capacidade produtiva" de empresas ligadas ao governo, a Empresa Nacional de Manutenção Rodoviária, vinculada ao Ministério dos Transportes da Venezuela e que vende suprimentos como pneus e óleos, exibiu um modelo de perrera construído a partir de um caminhão de carga que não tinha assentos, mas paredes de latão e barras de metal que sustentavam o teto do caminhão e nas quais os usuários precisavam se segurar. Érika Farías, prefeita do município Libertador, onde se concentra o centro histórico de Caracas, afirmou que "estes caminhões de contingência foram colocados à disposição do nosso povo para que, durante as horas de pico, possam ajudar a reduzir o tempo de espera".[4]

Riscos

Como não são veículos adequados para o transporte de pessoas, o uso das perreras pode causar ferimentos graves e morte dos usuários. Segundo Luis Alberto Salazar, presidente do Comitê de Usuários do Transporte Público, no primeiro semestre de 2018 houve 25 mortes de passageiros devido ao uso das perreras: dezesseis em Mérida, duas em Valência, quatro em Tocuyito (Carabobo), duas em Güiria (Sucre) e uma em Puerto Ayacucho. Além das mortes, não há meios de atender os feridos e não há quem se responsabilize pelas vidas das pessoas.[4] O comitê de transporte depois atualizou a cifra para pelo menos 32 mortos e mais de 100 feridos graves.[6] Uma comissão parlamentar da Assembleia Nacional denunciou que no segundo trimestre do ano, entre abril e julho de 2018, houve 55 mortos e 275 feridos devido ao uso de meios de transporte improvisados, como as perreras.[7][8] Da mesma forma, o Observatório de Segurança Viária em seu "VI Informe sobre a Situação da Segurança Viária na Venezuela" analisa acidentes de trânsito relacionados ao transporte de pessoas em perreras e as leis que estão sendo violadas.[9]

Ver também

Referências

  1. «Maracaibo a punta de "chirrincheras" por la falta de transporte público #VenezuelaAPie». Efecto Cocuyo. 13 de maio de 2018. Consultado em 26 de fevereiro de 2022 
  2. «Los wayuu del Zulia se mudan a Maicao». Armando.info. 31 de março de 2019 
  3. «"Perreras", la nueva y peligrosa forma de viajar en Venezuela». La Tercera (em espanhol). 30 de julho de 2018. Consultado em 17 de maio de 2019 
  4. a b c Lorenzo, Aymara (10 de junho de 2018). «"Las perreras", el nuevo transporte de la muerte al que se resignan los venezolanos». Infobae. Consultado em 27 de novembro de 2018 
  5. a b González, Ron (11 de junho de 2018). «Colapso del sistema de transporte venezolano». El País. Consultado em 27 de novembro de 2018 
  6. a b c Ocando Alex, Gustavo (13 de julho de 2018). «Los venezolanos echan mano a las 'perreras' como medio de transporte público en medio de la crisis». El Nuevo Herald. Consultado em 27 de novembro de 2018 
  7. a b c «Cómo funcionan las 'perreras', nuevo método de transporte en Venezuela». El Tiempo. AFP. 10 de julho de 2018. Consultado em 27 de novembro de 2018 
  8. Ponte, Gabriela (24 de julho de 2018). «Las "perreras de la muerte" relevan a los autobuses en Venezuela». ABC. Consultado em 27 de novembro de 2018 
  9. IV Informe sobre la situación de Seguridad Vial en Venezuela. Observando desde la sociedad civil 2017. [S.l.: s.n.] 2018. ISBN 9789807607179