Armando.info

Armando.Info é um site venezuelano de jornalismo investigativo fundado em 2014, e composto por jornalistas independentes, tanto mulheres como homens. O Armando.info é parceiro de longa data do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos e trabalhou em vários projetos, incluindo os Panama Papers e os Paradise Papers.[1]

História

O Armando.info surgiu pela primeira vez em 2010, como um projeto emergente de jornalismo de investigação. No entanto, o seu lançamento formal só ocorreu em julho de 2014. Desde então, publica semanalmente reportagens de investigação com informações precisas, documentadas e bem redigidas. Em outubro de 2017, a comunidade do Armando.info já tinha produzido e divulgado mais de 300 reportagens.

O jornal espanhol El País afirmou que o mundo saberia pouco sobre os recentes distúrbios na Venezuela se não fossem os “relatórios em profundidade” publicados por Armando.Info.[2] O site relata todos os assuntos que contribuem para a crise na Venezuela, incluindo casos de corrupção em outros países. Uma reportagem sobre exploração mexicana por meio de superfaturamento de caixas CLAP vendidas ao governo venezuelano, mesmo sendo preenchidas com produtos alimentícios vencidos, rendeu ao site o Prêmio Knight do ICFJ.[2] Contudo, como a reportagem expôs fragilidades do governo, muitos dos repórteres tiveram de fugir do país, indo para o exílio; eles continuaram investigando e levaram a empresa responsável a julgamento na Colômbia e a inclusão em uma lista de observação nos Estados Unidos.[3] Em 2019, segundo a Global Investigative Journalism Network, o grupo era financiado principalmente por bolsas da Open Society Foundations e da National Endowment for Democracy.[4]

Prémios e reconhecimentos

O cofundador Joseph Poliszuk é membro do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), tendo coordenado a equipa venezuelana dos Panama Papers. Em 2019, recebeu a bolsa John S. Knight Journalism Fellowship da Universidade de Stanford e,[5] em 2020, integrou a Rede de Investigação sobre a Floresta Tropical do Pulitzer Center.[6]

Há também mulheres de destaque nesta área, como Isayen Herrera, Mari Carmen Vieira e Carol Padilla. Herrera trabalha igualmente para o New York Times, tendo sido finalista do Prémio Livingston pela sua investigação sobre os direitos reprodutivos das mulheres venezuelanas, publicada neste jornal. Em 2021, recebeu o Prémio Instituto Prensa y Sociedad pelo relatório "De comerciantes a cientistas: o verdadeiro milagre do carvativir", publicado no Armando.info.[7]

Em 2023, o Armando.info recebeu o Global Shining Light Award por uma investigação sobre operações de mineração ilegal na Venezuela.[8]

Em 2025, o Armando.info recebeu o Prémio de Excelência dos Prémios Gabo, concedido pela Fundação Gabo (Gabriel Garcia Marquez) com sede em Bogotá. O prémio jornalístico foi atribuído pelo «exercício rigoroso da profissão de jornalismo e pelo compromisso com a verdade numa época marcada pela desinformação». Ewald Scharfenberg, cofundador da Armando.info, representou a plataforma digital de investigação.[9]

Investigações

Alex Saab

Em abril e setembro de 2017, quatro jornalistas investigativos publicaram reportagens no Armando.info sobre preços inflacionados de alimentos dentro da iniciativa CLAP, expondo a relação do empresário colombiano Alex Saab com o governo venezuelano.[10][11] O primeiro relatório mostrou as conexões de Saab com a empresa Grupo Grand, sediada em Hong Kong (incluindo a indicação de seu filho como beneficiário e o compartilhamento de endereço com outra empresa de Saab; o empresário negou as alegações) e que a companhia cobrava do governo venezuelano preços muito acima da taxa de mercado. O segundo relatório investigou as alegações de Luisa Ortega sobre o programa CLAP.[12] Um relatório conjunto entre a Universidade Central da Venezuela e o Armando.info mostrou que o leite em pó fornecido pela empresa de Saab não era nutritivo, apresentando altos níveis de sódio, baixos níveis de cálcio e apenas 1/41 da proteína do leite normal.[13][14][15]

Após a publicação, o Armando.info e os jornalistas foram ameaçados e tiveram suas informações pessoais divulgadas nas redes sociais, e Saab moveu uma ação judicial alegando difamação continuada e acusações de injúria agravada, que podem acarretar pena de prisão de até seis anos, levando os repórteres a fugir da Venezuela.[16][10][12]

Em 11 de setembro de 2018, a Comissão Nacional de Telecomunicações (CONATEL) da Venezuela proibiu os jornalistas do Armando.info de publicar informações sobre Saab.[17][18] Em um documento dirigido ao jornalista es e assinado pelo diretor-geral da CONATEL, Vianey Miguel Rojas, “proíbe-se os cidadãos Roberto Denis Machín, Joseph Poliszuk, Ewald Scharfenberg e Alfredo José Meza de publicar e difundir menções que vão contra a honra e reputação do cidadão Alex Naím Saab” por meio de mídias digitais, especificamente no site Armando.info, “até o fim do processo em curso no caso movido contra esses cidadãos”.[19][20][21] A proibição foi denunciada pelo Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Imprensa da Venezuela (SNTP). Desde as reportagens, o site Armando.info sofreu ataques cibernéticos em massa, e a proibição de mencionar Saab em artigos investigativos sucessivos “aumenta a ameaça”. O jornalista Roberto Deniz rejeitou a decisão, recordando que, após as publicações, a equipe jornalística havia sido ameaçada via Twitter e impedida de deixar o país pelo 11º Tribunal de Caracas.[22][19][20][21]

Operación Alacrán

Em 1º de dezembro, o Armando.info publicou uma investigação relatando que nove parlamentares mediaram em favor de dois empresários ligados ao governo. Após a publicação da investigação, os deputados Luis Parra, José Brito, Conrado Pérez e José Gregorio "Goyo" Noriega foram suspensos e expulsos de seus partidos Primeira Justiça e Vontade Popular.[23]

A oposição venezuelana alegou que foi alvo de uma “campanha de suborno e intimidação” pelo governo de Nicolás Maduro em dezembro de 2019. Parlamentares venezuelanos e o Departamento de Estado dos Estados Unidos afirmaram que deputados da oposição, em partidos liderados ou aliados a Guaidó, estavam recebendo ofertas de até 1 milhão de dólares para não votar nele.[24] Luis Parra e outros deputados da oposição foram afastados de seus partidos após acusações de que estavam sendo subornados por Maduro.[25] Os deputados da Assembleia Nacional Ismael León e Luis Stefanelli acusaram diretamente Parra, em dezembro de 2019, de tentar subornar deputados para votar contra Guaidó.[26] Parra negou as acusações e afirmou estar aberto a ser investigado por corrupção.[25] Semanas antes da investigação, Parra declarava publicamente apoio a Guaidó e promovia seu movimento de protesto.[26]

A deputada Delsa Solórzano acusou Nicolás Maduro na CNN Radio Argentina de dirigir a operação. Segundo ela, o governo recorreu a esse método após fracassar em encarcerar ou suspender a imunidade parlamentar dos deputados, denunciando um aumento considerável da perseguição política à medida que se aproximava 5 de janeiro. Ela explicou que as forças de segurança foram às casas de muitos deputados sem suplentes, e a única deputada com suplente, segundo Solórzano, aceitou o suborno.[27]

Em 3 de janeiro de 2020, Nicmer Evans, analista baseado em Caracas, alegou que Maduro havia conseguido fazer com que 14 deputados deixassem de votar em Guaidó por meio dessas táticas. Teoricamente, Guaidó controlava 112 cadeiras na Assembleia à época, precisando de 84 votos para vencer.[24]

Carlos González Morales

Um desses casos é o de Carlos González Morales, conhecido por seus estreitos vínculos com o governo venezuelano de Nicolás Maduro e por sua participação em diversos projetos de infraestrutura e iniciativas de distribuição de alimentos subsidiados. Carlos González Morales foi associado a uma rede venezuelana de troca de petróleo por alimentos, supostamente destinada a contornar as sanções internacionais, junto com seus parceiros de negócios Jorge Giménez e Martin Merckx.[28]

A rede opera por meio de um sistema em que a PDVSA, companhia estatal de petróleo venezuelana, troca petróleo por alimentos destinados ao programa CLAP (Comités Locais de Abastecimento e Produção), que distribui bens essenciais na Venezuela.

Censura

Em 11 de setembro de 2018, a Comissão Nacional de Telecomunicações (CONATEL) proibiu jornalistas de publicar informações sobre o empresário colombiano Alex Saab no Armando.info, cujas investigações jornalísticas apontam o envolvimento de Saab em corrupção em seus negócios e na rede de distribuição de alimentos CLAP.[29][30] A proibição foi denunciada pelo Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Imprensa, que anteriormente também havia denunciado que o site Armando.info era alvo de massivos ataques cibernéticos. O jornalista Roberto Deniz condenou a decisão, lembrando que a equipe já havia sido ameaçada no Twitter e estava proibida de sair do país.[31]

Apesar da censura, os artigos investigativos do Armando.info revelaram os perfis de vários indivíduos envolvidos em violações de sanções impostas à Venezuela.

Ver também

Organized Crime and Corruption Reporting Project

Referências

  1. Chavkin, Sasha (9 de fevereiro de 2018). «'I am still in shock': Journalists flee Venezuela to publish ongoing investigation, amid legal threats». International Consortium of Investigative Journalists. Consultado em 16 de abril de 2019 
  2. a b Martínez, Ibsen (23 de outubro de 2018). «Armando.Info». El País (em espanhol). Consultado em 15 de abril de 2019 
  3. Wyss, Jim (2 de novembro de 2018). «Their reporting on Venezuela's hunger led to exile. Now they're being honored.». Miami Herald. Consultado em 15 de abril de 2019 
  4. gfaure (24 de julho de 2019). «How Armando.info's Exiled Reporters Keep Reporting on Venezuela». Global Investigative Journalism Network (em inglês). Consultado em 15 de junho de 2023 
  5. «Class of 2020 | John S. Knight Journalism Fellowships». jsk.stanford.edu (em inglês). Consultado em 15 de janeiro de 2026 
  6. 16th Annual Reva & David Logan Symposium on Investigative Reporting, "Joseph Poliszuk Halle, Co-founder of Armando.info",
  7. «» Isayen Herrera | Armando.info y Centro de Periodismo Investigativo » Centro de Periodismo Investigativo». Centro de Periodismo Investigativo (em inglês). 12 de dezembro de 2024. Consultado em 15 de janeiro de 2026 
  8. Simó Sulbarán, Madelen Rocio (21 de setembro de 2023). «ArmandoInfo gana premio de la Red Global de Periodismo de Investigación» [ArmandoInfo wins Global Investigative Journalism Network Award] (em espanhol). El Pitazo. Consultado em 15 de outubro de 2023 
  9. Sánchez, Santiago Triana (26 de julho de 2025). «Laura Zommer, 'Armando.info' y Patrícia Campos Mello: la excelencia periodística reconocida en los Premios Gabo 2025». El País América Colombia (em espanhol). Consultado em 15 de janeiro de 2026 
  10. a b Sabados, Katarina (8 de fevereiro de 2018). «Venezuelan Journalists Flee After Receiving Threats». OCCRP. Consultado em 18 de outubro de 2021 
  11. Calzadilla, Tamoa (9 de fevereiro de 2018). «Businessman who sued Univision Noticias lashes out in Venezuela against four journalists who had to leave the country». Univisión. Consultado em 5 de agosto de 2021 
  12. a b Chavkin, Sasha (9 de fevereiro de 2018). «'I am still in shock': Journalists flee Venezuela to publish ongoing investigation, amid legal threats». ICIJ. Consultado em 19 de outubro de 2021 
  13. Fitzgibbon, Will (28 de agosto de 2018). «'It is not the time to shut up': Venezuelan journalists remain in exile as press freedom attacks continue». ICIJ. Consultado em 19 de outubro de 2021 
  14. «Leche de los Clap no es nutritiva, según investigación de Armando.info». Efecto Cocuyo (em espanhol). 18 de fevereiro de 2018. Consultado em 19 de outubro de 2021 
  15. «La mala leche de los CLAP». Armando.info (em espanhol). 18 de fevereiro de 2018. Consultado em 19 de outubro de 2021 
  16. «Empresario Álex Saab demanda a cuatro periodistas de Armando.info». El Universo. Ecuador. 7 de fevereiro de 2018. Consultado em 7 de novembro de 2018 
  17. Moleiro, Alonso (3 de setembro de 2018). «Maduro silencia a los medios digitales en Venezuela». El País 
  18. «Cuatro periodistas huyen de Caracas y se unen al exilio venezolano». El Mundo (España). 7 de fevereiro de 2018 
  19. a b «Conatel prohíbe a periodistas de Armando Info publicar informaciones de Alex Saab». Noticiero Digital. 11 de setembro de 2018 
  20. a b «Prohibieron a periodistas de Armando.info publicar sobre Alex Saab». El Nacional. 11 de setembro de 2018 
  21. a b «Conatel protege a Alex Saab y censura a medios que informen sobre caso de corrupción CLAP». Venezuela al Dia. 12 de setembro de 2018 
  22. Martín, Sabrina (12 de setembro de 2018). «Venezuela: Alex Saab, el nombre que la dictadura quiere borrar de la prensa». Panam Post. Consultado em 13 de setembro de 2018 
  23. «Venezuela: denuncian a siete diputados de corrupción». Infobae. 20 de dezembro de 2019. Consultado em 21 de dezembro de 2019 
  24. a b Wyss, Jim; Delgado, Antonio Maria (3 de janeiro de 2020). «Will Venezuela's 'Operation Scorpion' sting Guaidó in Sunday's key election?». Miami Herald. Consultado em 5 de janeiro de 2020 
  25. a b «Luis Parra aclaró los motivos de su viaje a países europeos en abril junto con otros diputados». El Nacional (em espanhol). 4 de dezembro de 2019. Consultado em 5 de janeiro de 2020 
  26. a b Pitazo, Redacción El (23 de dezembro de 2019). «CLAVES | Luis Parra: la bisagra en el mecanismo de traición a Guaidó». El Pitazo (em espanhol). Consultado em 5 de janeiro de 2020 
  27. Vidal, Pepe Gil (18 de dezembro de 2019). «Venezuela: ¿qué es la Operación Alacrán?». CNN Radio Argentina. Consultado em 21 de dezembro de 2019 
  28. Deniz, Roberto (3 de março de 2024). «El nuevo 'crack' del chavismo: Jorge Giménez golea a Alex Saab en los CLAP y Pdvsa». Armando.Info (em espanhol). Consultado em 10 de outubro de 2025 
  29. Moleiro, Alonso (3 de setembro de 2018). «Maduro silencia a los medios digitales en Venezuela». El País (em espanhol). ISSN 1134-6582. Consultado em 11 de outubro de 2018 
  30. «Cuatro periodistas huyen de Caracas y se unen al exilio venezolano». El Mundo (em espanhol). España. 7 de fevereiro de 2018. Consultado em 11 de outubro de 2018 
  31. Martín, Sabrina (12 de setembro de 2018). «Venezuela: Alex Saab, el nombre que la dictadura quiere borrar de la prensa». Panam Post. Consultado em 13 de setembro de 2018