Operação El Junquito

Massacre de El Junquito
Parte da Crise na Venezuela

Forças governamentais disparam um lança-foguetes contra o esconderijo de Óscar Pérez
Data15 de janeiro de 2018
LocalEl Junquito, Distrito Capital, Venezuela
DesfechoMorte de Óscar Alberto Pérez e de outros integrantes de seu grupo
Beligerantes
Governo da Venezuela
* Exército Venezuelano
* Guarda Nacional da Venezuela
* SEBIN
* Polícia Nacional Bolivariana
Apoio: Coletivos
Rebeldes venezuelanos
Apoio: civis opositores
Comandantes
Nicolás Maduro
Néstor Reverol
Vladimir Padrino López
Óscar Alberto Pérez  
Forças
≈ 500 13
Baixas
3 mortos
8 feridos
7 mortos
6 presos

A Operação El Junquito (codinome Operação Gideon) foi uma operação policial e militar ocorrida em 15 de janeiro de 2018 em El Junquito, Distrito Capital (Venezuela), que resultou na morte do rebelde Óscar Alberto Pérez e de membros de seu movimento.[1][2]

Antecedentes

Ataque de helicóptero em Caracas de 2017

Durante anos, a Venezuela vem sofrendo uma crise política e econômica após a presidência de Hugo Chávez e seu sucessor Nicolás Maduro. Óscar Alberto Pérez declarou que, enquanto trabalhava como agente da lei, testemunhou altos níveis de corrupção na estrutura do governo bolivariano, presenciando a colaboração entre autoridades estatais e gangues pró-governo conhecidas como coletivos em atos de roubo e extorsão, além de observar a movimentação de cocaína por funcionários do governo com impunidade. Ele apontou Néstor Reverol como um dos oficiais que atrapalhavam suas investigações.[3]

Pérez afirmou em entrevistas que pensava há algum tempo em utilizar suas habilidades como piloto de helicóptero em um protesto.[3] Finalmente, em meados de junho de 2017, o irmão de Pérez foi assassinado próximo ao Parque Carabobo, em Caracas. Determinou-se que ele foi esfaqueado até a morte durante um assalto para roubo de celular.[4][3]

Semanas depois, na tarde de 27 de junho de 2017, foi divulgado um vídeo mostrando homens armados ao lado de Pérez, declarando: "Somos nacionalistas, patriotas e institucionalistas. Esta luta não é contra as forças do Estado, é contra a tirania deste governo".[5][6]

Horas após o vídeo ser publicado, Pérez foi visto pilotando um helicóptero do CICPC sobre o Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela com uma faixa lateral onde se lia "350 Liberdade", referência ao Artigo 350 da Constituição, que estabelece que "O povo da Venezuela ... deve desconhecer qualquer regime, legislação ou autoridade que viole os valores, princípios e garantias democráticas ou atente contra os direitos humanos".[7] Enquanto o helicóptero sobrevoava o Supremo, tiros foram ouvidos na área.[7] O presidente Maduro declarou que ocorrera uma rebelião militar, enquanto autoridades da oposição disseram que a ação foi encenada para justificar repressão contra opositores e a Assembleia Nacional Constituinte de 2017.[7]

Operação em quartel da Guarda Nacional

Em 18 de dezembro, Pérez executou com sucesso a "Operação Gênesis", que resultou no roubo de 26 fuzis e 3 pistolas automáticas de um quartel da Guarda Nacional em Los Teques, estado de Miranda. O ataque surpresa não deixou mortos, com Pérez e cerca de 50 rebeldes amordaçando e amarrando os guardas nacionais, ridicularizando-os por apoiar o governo bolivariano e perguntando: "Por que vocês continuam a defender narcotraficantes, verdadeiros terroristas? ... Sejam dignos do uniforme que vestem, são irresponsáveis, traidores da pátria por não fazerem nada". O grupo então destruiu imagens do presidente Maduro e de Hugo Chávez.[8][9]

O presidente Maduro respondeu afirmando: "Onde quer que apareçam, ordenei às Forças Armadas: 'Bala para os grupos terroristas! Metam bala, compadre!' ... tolerância zero com grupos terroristas que ameaçam com armas a paz da República."[carece de fontes?]

Operação

Em 15 de janeiro de 2018, o Exército da Venezuela e a Guarda Nacional da Venezuela lançaram uma operação após descobrirem a localização de Pérez, que estava refugiado na paróquia El Junquito, no Distrito Capital.[10] Por volta das 4h da manhã (VST) (8h UTC), cerca de 500 soldados foram mobilizados para atacar Pérez e seus companheiros.[11][12] Por volta das 6h45 VST (10h45 UTC), Pérez divulgou vídeo dizendo que seu grupo havia sido atacado, mas que estavam em negociação.[12]

Cerco

BTR-80As semelhantes ao usado durante a operação

Por volta das 8h30 VST (12h30 UTC), iniciou-se um tiroteio entre os dois lados.[12] Pérez e sua equipe resistiram inicialmente ao ataque, mas, ao perceberem que estavam cercados, ele tentou se render para poupar a vida dos rebeldes e da família que morava na casa.[10] Por volta das 9h07 VST (13h07 UTC), as tropas começaram a disparar lança-foguetes em direção ao local.[12] Pérez então publicou um vídeo na internet com o rosto coberto de sangue, afirmando que a polícia não havia parado de atacá-los com atiradores de elite, granadas, lançadores de granadas e lança-foguetes, dizendo que as autoridades estavam ali apenas com ordens de matá-los.[13][14][10]

Durante a operação, Pérez telefonou para diversas pessoas, incluindo seu ex-chefe no CICPC, pedindo que enviasse membros do Ministério Público e da imprensa para cobrir o cerco e permitir uma rendição segura.[10] Finalmente, um BTR-80A de fabricação russa foi enviado à área, chegando ao local por volta das 11h45 VST (15h45 UTC), onde abriu fogo contra os rebeldes.[12]

Fim do cerco

Após horas de tiroteio, o grupo de Pérez sucumbiu às forças venezuelanas por volta do meio-dia VST (16h UTC), sendo que membros do grupo provavelmente foram executados pelas tropas, segundo o Bellingcat e o Forensic Architecture.[1][11][12] Pérez e cinco de seus homens (Daniel Enrique Soto Torres, Abraham Lugo Ramos, Jairo Lugo Ramos, José Alejandro Díaz Pimentel e Abraham Israel Agostini) foram mortos a tiros, enquanto outros seis foram presos.[1] Sua morte foi confirmada pela polícia venezuelana um dia depois.[15] Pérez foi visto no necrotério com três tiros na cabeça,[16] com atestados de óbito mostrando padrão semelhante de tiros na cabeça entre seus companheiros.[12] Dois dias depois, revelou-se que também uma mulher grávida e uma criança foram mortas durante a operação.[17]

A polícia e os coletivos também sofreram baixas: dois oficiais foram mortos, cinco ficaram feridos e um membro de um coletivo do 23 de Enero foi morto.[1][12] A operação foi descrita como altamente desorganizada, com soldados venezuelanos sendo vistos rindo e atirando indiscriminadamente contra a posição de Pérez, possivelmente causando casos de fogo amigo.[12] O Bellingcat relatou uma notória falta de coordenação e profissionalismo entre as forças de segurança, conforme revelam gravações interceptadas.[18][12]

Nenhuma prova foi revelada pelo governo venezuelano, e a casa onde os rebeldes foram encontrados foi rapidamente destruída.[11][12]

Em 2019, o jornal espanhol ABC publicou fotos dos corpos que sugeriam tiros à queima-roupa e execuções extrajudiciais.[19]

Reações

Internas

Manifestantes da oposição protestando contra a operação

A operação gerou indignação da oposição venezuelana e acusações de execução extrajudicial.[20][21]

O presidente Nicolás Maduro aplaudiu a operação, descrevendo-a como "ordem cumprida" e declarou que "todo grupo armado e financiado para trazer terrorismo terá o mesmo destino".[10] Algumas figuras da oposição, como Maria Corina Machado, Antonio Ledezma e Luisa Ortega Díaz, condenaram a morte.[22]

Internacionais

A mídia internacional e diversos políticos e cidadãos em todo o mundo classificaram o ocorrido em El Junquito como um massacre e criticaram duramente Maduro e seu governo.

Alguns dos países que reagiram foram: Brasil,[23][24][25] Colômbia, com críticas do ex-presidente Andrés Pastrana,[26][27] Estados Unidos, com declarações do senador Marco Rubio,[28] Guatemala,[29] Paraguai,[30] Uruguai,[31] Espanha,[32][33] o ex-presidente da Bolívia Jorge Quiroga,[34] e França.[35] Além disso, a grande imprensa da Itália (incluindo Corriere della Sera, La Stampa, Repubblica, Il Giornale) destacou a notícia do "massacre" na primeira página por uma semana inteira.[36]

Referências

  1. a b c d Romero-Castillo, Evan (19 de janeiro de 2018). «Maduro and the "El Junquito massacre"». Deutsche Welle (em espanhol). Consultado em 20 de janeiro de 2018 
  2. «Four days after the El Junquito massacre, relatives await the release of the bodies». La Patilla (em espanhol). 19 de janeiro de 2018. Consultado em 20 de janeiro de 2018 
  3. a b c Casey, Nicholas (25 de janeiro de 2018). «Venezuela's most-wanted rebel shared his story, just before being gunned down». The Independent 
  4. González, Tahiana (30 de junho de 2017). «Director de Muerte Suspendida: Óscar Pérez ayudaba a niños necesitados». El Nacional (em espanhol). Consultado em 18 de janeiro de 2018. Arquivado do original em 18 de janeiro de 2018 
  5. Rincón, Arminda (25 de outubro de 2015). «Funcionario del Cicpc se convirtió en protagonista de una película». Diario Panorama. Consultado em 28 de junho de 2017. Arquivado do original em 28 de junho de 2017 
  6. «Militar roba helicóptero y lanza granadas contra sede de TSJ de Venezuela». El Heraldo (em espanhol). 27 de junho de 2017. Consultado em 28 de junho de 2017 
  7. a b c Goodman, Joshua (27 de junho de 2017). «Maduro Says Helicopter Fired on Venezuela's Supreme Court». NBC 6 South Florida (em inglês). Consultado em 28 de junho de 2017. Cópia arquivada em 1 de julho de 2017 
  8. «Óscar Pérez se atribuyó robo de armas a cuartel de la GNB». El Universal. 19 de dezembro de 2017. Consultado em 15 de janeiro de 2018. Cópia arquivada em 16 de janeiro de 2018 
  9. M. Camargo, Joan (18 de dezembro de 2017). «Grupo comando se robó 26 fusiles de una comandancia de la GNB en Los Teques». El Universal. Consultado em 15 de janeiro de 2017. Arquivado do original em 21 de dezembro de 2017 
  10. a b c d e Erro de citação: Etiqueta <ref> inválida; não foi fornecido texto para as "refs" nomeadas MHperez
  11. a b c «Investigación revela lo ocurrido durante las últimas horas de Óscar Pérez». Efecto Cocuyo (em espanhol). 13 de maio de 2018. Consultado em 23 de maio de 2018 
  12. a b c d e f g h i j k «"¡Nos vamos a entregar! ¡No sigan disparando! ": Reconstruyendo las últimas horas de Óscar Pérez». Bellingcat (em inglês). 13 de maio de 2018. Consultado em 23 de maio de 2018 
  13. «SIERRA OSCAR SIERRA Venezuela - January 15, 2018». YouTube. Consultado em 18 de janeiro de 2018 
  14. Zabludovsky, Karla (16 de janeiro de 2018). «Police Killed A Man Who Stole A Helicopter. He Put The Whole Standoff On Instagram.». Buzzfeed. Consultado em 18 de janeiro de 2018 
  15. Charner, Flora; Hernandez, Osmary; Barnes, Taylor (16 de janeiro de 2018). «Source: Rogue Venezuelan helicopter pilot killed by police». CNN. Consultado em 16 de janeiro de 2018 
  16. «Fueron presuntamente detenidos tres Dgcim por divulgar foto de Óscar Pérez sin vida». El Informador (em espanhol). 16 de janeiro de 2018. Consultado em 18 de janeiro de 2018. Arquivado do original em 18 de janeiro de 2018 
  17. Torres, Andrea. «Relatives of Venezuela's El Junquito siege victims demand...». Local 10. Consultado em 18 de janeiro de 2018 
  18. «"We are going to surrender! Stop shooting!": Reconstructing Óscar Pérez's Last Hours». bellingcat (em inglês). 13 de maio de 2018. Consultado em 21 de maio de 2021 
  19. Trillo, Manuel (12 de dezembro de 2019). «Las imágenes que prueban el asesinato de Óscar Pérez en la masacre de El Junquito en Venezuela». ABC (em espanhol). Consultado em 21 de maio de 2021. Cópia arquivada em 1 de novembro de 2020 
  20. Torres, Andrea. «Venezuelan deposed chief prosecutor denounces 'extrajudicial...». www.Local10.com. Consultado em 18 de janeiro de 2018. Arquivado do original em 18 de janeiro de 2018 
  21. «Rogue ex-cop Oscar Pérez, six others killed by police in Venezuela». PRI.org. Consultado em 18 de janeiro de 2018 
  22. «Quem é o policial e ator Óscar Pérez e o que se sabe da operação contra ele na Venezuela». terra.com.br. 15 de janeiro de 2018. Consultado em 17 de janeiro de 2018 
  23. «NOVO 30 on Twitter». Consultado em 10 de julho de 2018 
  24. «EDUARDO BOLSONARO FALA SOBRE A MORTE DE ÓSCAR PÉREZ PELA DITADURA DA VENEZUELA». YouTube. Consultado em 10 de julho de 2018 
  25. «Delegado Francischini». www.facebook.com. Consultado em 10 de julho de 2018 
  26. [url=http://sumarium.com/grupo-de-masones-de-ecuador-repudia-asesinato-de-su-hermano-oscar-perez/ Arquivado em 2018-01-19 no Wayback Machine Grupo de Masones de Ecuador repudia asesinato de su “hermano” Óscar Pérez]
  27. «Acorralado y herido, piloto Óscar Perez denuncia en vivo que régimen de Maduro lo quiere matar». 15 de janeiro de 2018. Consultado em 10 de julho de 2018 
  28. Web, El Nacional (17 de janeiro de 2018). «Marco Rubio: Mataron a alguien que quería entregarse pacíficamente». Consultado em 10 de julho de 2018. Arquivado do original em 18 de janeiro de 2018 
  29. «Gloria Álvarez (@GloriaAlvarez85) - Twitter». twitter.com. Consultado em 10 de julho de 2018 
  30. «Masones de Paraguay denuncian "cruel y cobarde asesinato" de Óscar Pérez». Consultado em 10 de julho de 2018. Arquivado do original em 19 de janeiro de 2018 
  31. «Partido Colorado: Indignación y repudio ante el asesinato en Venezuela de Oscar Pérez». 18 de janeiro de 2018. Consultado em 10 de julho de 2018. Arquivado do original em 19 de janeiro de 2018 
  32. «El Pais: La Masacre de El Junquito». Consultado em 10 de julho de 2018 [ligação inativa]
  33. Web, El Nacional (18 de janeiro de 2018). «Las últimas palabras de una de las asesinadas en la masacre de El Junquito». Consultado em 10 de julho de 2018 
  34. «A Nicolás Maduro le "espera una hamaca caliente en Cuba o en una celda fría en La Haya": expresidente boliviano Jorge Quiroga». NTN24. Consultado em 10 de julho de 2018. Arquivado do original em 19 de janeiro de 2018 
  35. «Le CEV a dénoncé un horrible massacre opérationnel contre Óscar Pérez». mediapress24.fr. Consultado em 10 de julho de 2018. Arquivado do original em 19 de janeiro de 2018 
  36. «Il primo massacro del 2018 in Venezuela.». 16 de janeiro de 2018. Consultado em 10 de julho de 2018. Arquivado do original em 19 de janeiro de 2018