Garimpeiros do Rio Guaire

O Rio Guaire visto da ponte Veracruz em Las Mercedes, Caracas.

Os Garimpeiros do Rio Guaire, também conhecidos como Mineiros do Rio Guaire, são as pessoas que buscam metais no Rio Guaire, um rio de 72 quilômetros de extensão que atravessa Caracas, Venezuela, altamente contaminado por esgoto. Os garimpeiros são, em sua maioria, menores de idade, pessoas em situação de rua ou trabalhadores braçais que perderam seus empregos devido ao fechamento de obras do governo ou cujos salários não são suficientes para subsistir e não querem recorrer ao crime. Apesar de ser uma prática que remonta a pelo menos 1994, a partir de 2016 o número de pessoas envolvidas nesta atividade aumentou para dezenas e até centenas durante a crise econômica venezuelana, caracterizada pela hiperinflação e escassez.[1]

História

A busca por metais no Rio Guaire é uma prática que existe há décadas em Caracas. Em 1994, a jornalista Anna Vaccarella, no programa "Alerta", transmitido pela Radio Caracas Televisión, mostrou como alguns venezuelanos em situação de rua se dedicavam a esta atividade.[2] Entretanto, durante a Crise na Venezuela, a desvalorização dos salários e o fechamento de obras do governo forçaram mais pessoas a recorrer à mineração, incluindo pessoas que não são sem-teto.[3] Desde 2016, dezenas de pessoas passaram a buscar metais diariamente nos esgotos e, no ponto mais movimentado do curso d'água, no setor de Caño Amarillo, foi relatada a presença de até trezentas pessoas.[4][5]

O rio Guaire atravessa grande parte de Caracas, para onde continuamente fluem lixo e resíduos. Em 2005, durante o governo do presidente Hugo Chávez, foi organizado um plano para sua despoluição diante de vários líderes regionais, e em 18 de agosto ele prometeu que "No próximo ano convido vocês todos e você, Daniel Ortega, convido para se banhar no Guaire no próximo ano". Jacqueline Faría, então Ministra do Meio Ambiente, foi responsável pelo projeto. Em 2006, foram destinados 772 bilhões de bolívares para a obra, e em 2007 Jacqueline Faría assegurou que, embora a limpeza de um rio como o Guaire pudesse levar até 15 anos, o "processo revolucionário" entregaria um rio limpo em 2014.[4] Em julho de 2016, o Banco Interamericano de Desenvolvimento investiu US$ 83,6 milhões na limpeza do Rio Guaire,[5] e no mesmo ano a Comissão Parlamentar de Administração e Serviços da Assembleia Nacional, presidida pelo deputado Stalin González, juntamente com a Comissão de Meio Ambiente e Recursos Naturais, denunciou que US$ 77 milhões haviam sido gastos na limpeza do rio, quando a execução do projeto era de apenas 26%.[2]

Em 19 de abril de 2017, durante a Marcha das Mães de Todas as Marchas nos protestos de 2017, vários manifestantes da oposição tiveram que atravessar o Rio Guaire para escapar do gás lacrimogêneo usado pelas forças de segurança; um usuário do Twitter perguntou a Faría sobre o destino dos dólares destinados ao projeto de saneamento, ao que ela respondeu "Foram investidos completinhos, pergunte ao seu povo que tomou um bom banho!". Sua resposta gerou uma grande quantidade de respostas condenando a declaração. Segundo Juan Bautista González, professor da Universidade Central da Venezuela que coordenou o componente social do Projeto de Saneamento do Rio Guaire de Catia a Quinta Crespo, US$ 14 bilhões haviam sido investidos na recuperação do Rio Guaire, que foram "roubados", segundo ele.[6] Em 2018, o destino do investimento do projeto ainda era desconhecido.[5]

Localização e trabalho

Embora Caño Amarillo seja um dos locais mais frequentados pelos garimpeiros, sua presença também foi relatada em outros pontos ao longo do rio, como nos córregos de Lídice e Manicomio, em Antímano (perto da passarela da Universidade Católica Andrés Bello), em Quinta Crespo, na Praça Venezuela, atrás do Estádio Universitário e na Universidade Central da Venezuela, em Las Mercedes e Bello Monte, na La California Sur e El Llanito, em San Martín (após a ponte Ayacucho),[5] em El Paraíso,[7] na Carapita e na cidade de Los Teques.[3]

Os garimpeiros passam minutos e até horas procurando e cavando na água por itens como anéis, correntes, broches, pingentes e joias feitas de metais preciosos como ouro, prata ou cobre. Geralmente não usam nenhuma proteção, luvas ou botas, e alguns chegam a trabalhar sem camisas ou sapatos, vestindo apenas bermudas, apesar das doenças que podem ser contraídas no esgoto. Entre 2017 e 2018, os garimpeiros relataram que podiam ganhar diariamente entre 100.000 e até 500.000 bolívares em peças,[5][7] ou até 19 milhões de bolívares por semana, muito mais que o salário mínimo na Venezuela ou o salário de trabalhadores como serventes, pedreiros ou pintores.[3][8][9] Os metais são vendidos no Mercado de los Corotos em Quinta Crespo ou na Capitolio,[10] onde, em março de 2018, vendedores informais compravam um grama de ouro 18 quilates por valores entre 10 e 15 milhões de bolívares, e por um pouco menos se a compra fosse feita em dinheiro.[5]

Riscos

Segundo José Félix Oletta, ex-Ministro da Saúde, doenças como cólera (uma enfermidade infecciosa grave), leptospirose e todas as doenças de transmissão hídrica podem ser contraídas no Rio Guaire. Ele afirma que todos os agentes negativos do sistema digestivo estão presentes no Guaire, incluindo salmonella e escherichia coli, bem como vírus de transmissão fecal-oral, como hepatite A e parasitas protozoários, alertando que não se adquire imunidade natural, que algumas doenças podem se desenvolver várias vezes e que pessoas infectadas podem ser portadoras e transmitir a doença a outros.[5] De acordo com o infectologista Julio Castro, as bactérias do rio são rapidamente contagiosas e podem espalhar doenças como leptospirose, hepatite viral ou tétano.[2]

Os garimpeiros relatam sofrer estigmatização devido ao seu ofício, sendo alvo de zombarias ou julgados como criminosos.[3] Alguns garimpeiros também morreram ao serem arrastados pela correnteza do rio.[5]

Segundo os garimpeiros, vários policiais, incluindo forças de segurança do Palácio de Miraflores,[2] os revistam, agridem e extorquem, roubando as peças obtidas no Guaire, às vezes esperando-os em Capitolio quando vão vender os metais.[3] Grupos de garimpeiros costumam ser detidos pela Guarda Nacional ou pela Polícia Nacional Bolivariana.[9][11]

Ver também

Referências

  1. Quintero, Luisa (2 de fevereiro de 2018). «Garimpeiros del Guaire fueron trasladados a carpa de misión Negra Hipólita». Tal Cual Digital. Consultado em 13 de julho de 2018 
  2. a b c d Ashley, Flores Montesinos (16 de fevereiro de 2018). «El tesoro escondido con el que los "Mineros del Guaire" sobrellevan la crisis». Runrun.es. Consultado em 13 de julho de 2018 
  3. a b c d e González Caldea, Erick (14 de dezembro de 2016). «"Garimpeiros" hacen turno completo en el río Guaire (+Fotos y video)». 2001. Consultado em 13 de julho de 2018 
  4. a b Rivas, David (5 de fevereiro de 2018). «Los "mineros" del Guaire y el hambre del pueblo». La Izquierda Diario. Consultado em 13 de julho de 2018 
  5. a b c d e f g h Avendaño, Emily (4 de março de 2018). «Mineros del Guaire: oro es oro, así esté sucio». El Estímulo. Consultado em 13 de julho de 2018 
  6. «Jacqueline Faría: Recursos para el Guaire "se invirtieron completicos, si no pregunta a tu gente que se bañó sabroso"» (em espanhol). 28 de abril de 2017. Consultado em 28 de abril de 2017 
  7. a b Ponte Eponte, Eduardo (17 de fevereiro de 2017). «El infierno de los "garimpeiros del Guaire"». El Nacional. Consultado em 13 de julho de 2018 
  8. «"Mineros del Guaire" pueden ganar hasta 19 millones de bolívares a la semana». NTN24. 11 de abril de 2018. Consultado em 13 de julho de 2018 
  9. a b «Los Mineros del río Guaire viven de las cloacas de Caracas». El Nacional. AFP. 13 de março de 2018. Consultado em 13 de julho de 2018 
  10. Machado, Sabrina (21 de outubro de 2017). «Garimpeiros del río Guaire». Panorama. Consultado em 13 de julho de 2018. Arquivado do original em 17 de julho de 2018 
  11. Herrera, Jesús (2 de abril de 2018). «Retenidos al menos 15 "garimpeiros" del río Guaire por PNB». El Nacional. Consultado em 13 de julho de 2018