Reprodução assistida por parceira

Reprodução assistida por parceira, recepção de oócitos da parceira (ROPA), fertilização in vitro recíproca, maternidade compartilhada, FIV de parceira ou co-FIV é um método de formação de família usado por casais que possuem órgãos reprodutores femininos. O método utiliza a fertilização in vitro (FIV), em que os óvulos são retirados dos ovários, fertilizados em laboratório e, em seguida, um ou mais dos embriões resultantes são colocados no útero para gerar uma possível gravidez. A FIV recíproca difere da FIV convencional porque envolve duas parceiras: os óvulos são retirados de uma, enquanto a outra carrega a gestação.[1]

No Brasil, o método ROPA é reconhecido como uma das técnicas de reprodução assistida voltadas para casais homoafetivos femininos, permitindo que ambas as mulheres participem ativamente do processo gestacional. O procedimento consiste na coleta de óvulos de uma das parceiras, que são fertilizados em laboratório com sêmen de doador, e na transferência dos embriões para o útero da outra parceira, que gestará o bebê.[2]

De acordo com o Conselho Federal de Medicina, as técnicas de reprodução assistida podem ser utilizadas por casais homoafetivos formados por mulheres, incluindo o método ROPA, desde que respeitados os critérios éticos e a idade máxima de 50 anos para gestação.[3]

Estudos apontam que a taxa de sucesso do método ROPA é semelhante à da fertilização in vitro convencional, variando conforme a idade e a qualidade dos gametas utilizados. O ambiente uterino exerce influência sobre a expressão genética do embrião, fenômeno descrito pela epigenética, o que reforça o papel biológico da parceira gestante no desenvolvimento fetal.[4]

Assim, o processo é mecanicamente idêntico à FIV com doação de óvulos.[5][6] A FIV recíproca oferece maior chance de gravidez e menor risco de gestação múltipla.

Esse processo foi introduzido pela primeira vez na Espanha em 2007, no instituto CEFER.[6]

Processo da FIV recíproca

A FIV recíproca envolve etapas tanto para a mãe genética quanto para a mãe gestacional. Abaixo estão listadas as etapas pelas quais o casal deve passar:

  1. Consulta inicial: ambas as parceiras passam por exames de saúde para avaliar fatores de fertilidade e condição geral.[7] Essas informações ajudam o casal a decidir quem doará os óvulos e quem carregará o bebê.
  2. Amostra de esperma: escolhe-se um doador, que pode ser anônimo ou conhecido. A qualidade do esperma aumenta a chance de sucesso.[7]
  3. Estimulação ovariana: a parceira que doará os óvulos passa por estimulação hormonal para desenvolver vários óvulos, que são coletados depois.[8][9]
  4. Punção ovariana: procedimento simples, feito sob sedação, no qual uma cânula é inserida pela vagina para aspirar os óvulos, que são enviados ao laboratório.
  5. Fertilização in vitro: os óvulos coletados são fertilizados com o esperma do doador, por FIV convencional ou técnica ICSI.[10][11]
  6. Preparação endometrial: o útero da parceira gestante é preparado para receber o embrião.[12]
  7. Teste genético: embriões no estágio de blastocisto podem passar por teste genético pré-implantacional para verificar cromossomos.[7]
  8. Transferência embrionária: os embriões mais viáveis são transferidos para a mãe gestante.[13]
  9. Teste de gravidez: após duas semanas, verifica-se se ocorreu implantação.[14]

Escolha dos papéis

A decisão de quem será a doadora de óvulos e quem será a gestante pode ter razões médicas ou pessoais.[15] Normalmente, a doadora é a parceira mais jovem ou com melhor reserva ovariana, enquanto a gestante é quem tem útero saudável ou já teve gravidez prévia.[15]

Razões pessoais e psicológicas também influenciam. Algumas parceiras podem não desejar a gestação por identidade de gênero ou tratamentos hormonais.[15] Há registro de FIV recíproca bem-sucedida com óvulos de um homem trans que manteve uso de testosterona durante todo o processo.[16]

Linha do tempo

  • Ciclo fresco: dura cerca de 17–20 dias, mais 10 dias de espera para o teste de gravidez.[17]
  • Ciclo com embrião congelado: exige dois ciclos, um da mãe genética e outro da mãe gestante, prolongando o processo.[17]

Epigenética

Epigenética refere-se a alterações na expressão gênica sem mudança na sequência do DNA. Estudos mostram que o ambiente uterino pode influenciar o desenvolvimento embrionário.[18] Isso pode ajudar mulheres a superarem a ausência genética, pois ainda influenciam o fenótipo do bebê.[19]

Outros procedimentos relacionados

Há variações, como a FIV recíproca dupla, em que ambas engravidam simultaneamente com embriões da parceira.[20] Outra opção é a Effortless IVF, que utiliza a cápsula INVOcell, aprovada pela FDA.[20]

Custos

A cobertura de FIV varia nos Estados Unidos, sendo raramente obrigatória por lei. Apenas 25% dos americanos têm cobertura.[17] O custo médio de um ciclo é de cerca de US$ 12.000, sem incluir medicamentos (US$ 3.000–10.000). A FIV recíproca chega a ultrapassar US$ 20.000.[17]

Taxas de sucesso

Um estudo de 2017 mostrou 60% de sucesso entre casais com idade média da doadora de 32 anos.[21] Outro estudo de 2018 encontrou taxa de 60% de nascidos vivos em 120 casais lésbicos.[22] A idade da gestante é o principal fator de sucesso.[23]

Aspectos legais

As questões jurídicas variam por país ou estado.[8] Pode ser necessário reconhecer legalmente a doadora de óvulos como mãe, seja no registro de nascimento ou por adoção.[7][8] Em 2023, o Tribunal Superior de Hong Kong reconheceu uma lésbica que doou óvulo como mãe em direito comum.[24][25]

Referências

  1. «Shared motherhood: The amazing way lesbian couples are having babies». Cosmopolitan (em inglês). 14 de fevereiro de 2018. Consultado em 21 de março de 2018 
  2. «Método ROPA e maternidade compartilhada». Consultado em 6 de novembro de 2025 
  3. «Resolução CFM nº 2.294/2021» (PDF). Conselho Federal de Medicina. Consultado em 6 de novembro de 2025 
  4. «Recepção de oócitos da parceira (ROPA)». Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida. Consultado em 6 de novembro de 2025 
  5. Klatsky, Dr Peter (22 de junho de 2017). «Co-Maternity And Reciprocal IVF: Empowering lesbian parents with options». Huffington Post (em inglês). Consultado em 21 de março de 2018 
  6. a b Marina, S.; Marina, D.; Marina, F.; Fosas, N.; Galiana, N.; Jove, I. (9 de fevereiro de 2010). «Sharing motherhood: biological lesbian co-mothers, a new IVF indication». Human Reproduction. 25 (4): 938–941. PMID 20145005. doi:10.1093/humrep/deq008Acessível livremente 
  7. a b c d «Reciprocal IVF | LGTBQ Families | Reproductive Science Center NJ». Reproductive Science Center of New Jersey (em inglês). Consultado em 2 de dezembro de 2021 
  8. a b c «Reciprocal IVF». RESOLVE: The National Infertility Association (em inglês). 27 de agosto de 2021. Consultado em 2 de dezembro de 2021 
  9. «What is ovarian stimulation? - Process, medications and symptoms». inviTRA (em inglês). 21 de fevereiro de 2022. Consultado em 11 de março de 2022 
  10. «Reciprocal IVF – What Lesbian Couples Need to Know | WINFertility». www.winfertility.com (em inglês). 2 de março de 2016. Consultado em 5 de dezembro de 2021 
  11. «Intracytoplasmic sperm injection (ICSI) | HFEA». www.hfea.gov.uk. Consultado em 11 de março de 2022 
  12. «Reciprocal IVF for Lesbian Couples». www.gayivf.com. Consultado em 8 de dezembro de 2021 
  13. «Embryo Transfer». American Pregnancy Association (em inglês). 25 de abril de 2018. Consultado em 11 de março de 2022 
  14. «Reciprocal IVF - Northern California Fertility Medical Center». Northern California Fertility Medical Center - Sacramento IVF (em inglês). 4 de junho de 2019. Consultado em 7 de dezembro de 2021 
  15. a b c Fertility, C. N. Y. (14 de junho de 2021). «Reciprocal IVF: What It Is, How It Works & What It Costs» (em inglês). Consultado em 2 de dezembro de 2021 
  16. Greenwald, Phoebe; Dubois, Bethany; Lekovich, Jovana; Pang, John Henry; Safer, Joshua (16 de junho de 2021). «Successful In Vitro Fertilization in a Cisgender Female Carrier Using Oocytes Retrieved From a Transgender Man Maintained on Testosterone». AACE Clinical Case Reports (em inglês). 8 (1): 19–21. ISSN 2376-0605. PMC 8784719Acessível livremente. PMID 35097196. doi:10.1016/j.aace.2021.06.007 
  17. a b c d Erro de citação: Etiqueta <ref> inválida; não foi fornecido texto para as "refs" nomeadas :3
  18. Vilella, Felipe; Moreno-Moya, Juan M.; Balaguer, Nuria; Grasso, Alessia; Herrero, Maria; Martínez, Sebastian; Marcilla, Antonio; Simón, Carlos (15 de setembro de 2015). «Hsa-miR-30d, secreted by the human endometrium, is taken up by the pre-implantation embryo and might modify its transcriptome». Development. 142 (18): 3210–3221. ISSN 0950-1991. PMID 26395145. doi:10.1242/dev.124289Acessível livremente 
  19. «▷ Epigenetic Inheritance in the ROPA Method: What you should know». 6 de abril de 2023 
  20. a b «Reciprocal IVF». RESOLVE: The National Infertility Association (em inglês). 27 de agosto de 2021. Consultado em 7 de dezembro de 2021 
  21. «What is reciprocal IVF, and how can it benefit LGBTQ couples?». Extend Fertility (em inglês). 20 de junho de 2019. Consultado em 8 de dezembro de 2021 
  22. Bodri, D.; Nair, S.; Gill, A.; Lamanna, G.; Rahmati, M.; Arian-Schad, M.; Smith, V.; Linara, E.; Wang, J. (fevereiro de 2018). «Shared motherhood IVF: high delivery rates in a large study of treatments for lesbian couples using partner-donated eggs». Reproductive Biomedicine Online. 36 (2): 130–136. ISSN 1472-6491. PMID 29269265. doi:10.1016/j.rbmo.2017.11.006Acessível livremente 
  23. PFCLA. «Reciprocal IVF: Success Rates and Outcomes». www.pfcla.com (em inglês). Consultado em 2 de dezembro de 2021 
  24. «NF v R [2023] HKCFI 2233». HKLII. Consultado em 28 de agosto de 2024 
  25. Tsang, Frances (9 de outubro de 2023). «Lesbian Couple's Victory in Recent IVF Case in Hong Hong». Hugill & Ip Solicitors. Consultado em 28 de agosto de 2024 

Ligações externas