Posições de parto

Posições de parto (ou posições maternas de parto)[1] são as posturas físicas que a gestante pode assumir durante o processo de parto. Também podem ser chamadas de posições de entrega ou posições de trabalho de parto.

Além da posição de litotomia (de costas com os pés apoiados), ainda comumente usada por muitos obstetras, outras posições são utilizadas com sucesso por parteiras e assistentes de parto tradicionais em todo o mundo. A obra seminal de Engelmann de 1882, Labor among primitive peoples, divulgou as posições de parto entre culturas chamadas primitivas para o mundo ocidental. Frequentemente utilizam a posição de cócoras, em pé, ajoelhada e de quatro, muitas vezes em sequência.[2] São chamadas de posições de parto eretas.[3]

Compreender os efeitos físicos de cada posição de parto sobre a mãe e o bebê é importante. No entanto, os efeitos psicológicos também têm grande relevância. O conhecimento sobre as posições pode ajudar as mães a escolherem a opção com que se sintam mais confortáveis. Ter autonomia e autocontrole para mudar de posição durante o trabalho de parto influencia positivamente o conforto e a experiência da mãe, o que aumenta a qualidade do parto e sua satisfação.[4]

Posição de litotomia

Na posição de litotomia, a pessoa em trabalho de parto está deitada de costas com as pernas apoiadas em perneiras e as nádegas próximas à borda da mesa.[5] Essa posição é conveniente para o profissional de saúde porque permite maior acesso ao períneo.

A posição tornou-se bastante popular nos Estados Unidos e em outros países ocidentais nos últimos dois séculos, embora, em termos históricos e interculturais, seja rara (cerca de 18%) a adoção de posição prona ou dorsal durante o parto. Posições reclinadas tornaram-se comuns na França durante o século XVII, quando a obstetrícia passou a ser um campo mais respeitado e se difundiu a ideia do parto como uma aflição, e não como algo natural. O padrão das mulheres deitadas de costas surgiu no início do século XIX nos EUA, recomendado por obstetras homens sob a alegação de que era mais conveniente para a equipe médica e mais confortável para as mulheres.[6]

No entanto, a litotomia não é confortável para a maioria das pacientes, devido à pressão sobre as paredes vaginais, já que a cabeça do bebê é irregular e o processo contraria a gravidade.[7] Pesquisas sugerem que as posições corporais maternas influenciam significativamente a dor durante o parto, e que posições como a de cócoras reduzem bastante a dor em comparação à litotomia.[8]

Posições de parto eretas em geral

Diversas pessoas defenderam a adoção de posições de parto eretas, particularmente a de cócoras, nos países ocidentais, como Grantly Dick-Read, Janet Balaskas, Moysés Paciornik e Hugo Sabatino. A adoção de posições não litotômicas também é incentivada pelo movimento do parto natural.

Estar ereta durante o trabalho de parto pode aumentar o espaço disponível na pelve em 28–30%, dando mais espaço ao bebê para rotação e descida. Também há uma redução de 54% na incidência de anormalidades da frequência cardíaca fetal quando a mãe está ereta.[9] Essas posições também podem reduzir a duração do segundo estágio do parto[10] e diminuir o risco de cesarianas de emergência em 29%.[11] Também estão associadas à menor necessidade de anestesia peridural.[11]

Diferentes posições podem estar associadas a diferentes taxas de lesões perineais.[12][13]

Posição de cócoras

A Figura de parto de Dumbarton Oaks

A posição de cócoras proporciona maior pressão na cavidade pélvica com mínimo esforço muscular. O canal de parto se abre de 20 a 30% mais nessa posição do que em qualquer outra. É recomendada para o segundo estágio do parto.[14]

Como a maioria dos adultos ocidentais encontra dificuldade para se agachar com os calcanhares no chão, frequentemente se fazem adaptações, como colocar um apoio sob os calcanhares ou contar com outra pessoa para dar suporte.[15]

No Egito Antigo, as mulheres davam à luz agachadas sobre um par de tijolos, conhecidos como tijolos de parto.[16]

De quatro

Algumas mães podem escolher a posição de quatro apoios instintivamente. Ela pode ajudar o bebê a girar em casos de má apresentação da cabeça. Como utiliza a gravidade, reduz a dor nas costas,[7] permitindo que a mãe incline o quadril.[17]

Decúbito lateral

O decúbito lateral pode ajudar a retardar a descida do bebê pelo canal de parto, dando ao períneo mais tempo para se alongar naturalmente. Para assumir essa posição, a mãe deita de lado com os joelhos dobrados. Para empurrar, usa-se um leve movimento de rotação, de modo que a mãe se apoie em um cotovelo enquanto uma perna é erguida. Essa posição não utiliza a gravidade, mas ainda apresenta vantagem em relação à litotomia, pois não posiciona as veias cavas sob o útero, o que diminui o fluxo sanguíneo para mãe e filho.[7]

Ver também

Referências

  1. Olson R, Olson C, Cox NS (maio de 1990). «Maternal birthing positions and perineal injury». J Fam Pract. 30 (5): 553–7. PMID 2332746 
  2. Engelmann GJ Labor among primitive peoples (1883)
  3. Non-Supine (e.g., Upright or Side-Lying) Positions for Birth. Lamaze International Education Council, Keen R, DiFranco J, Amis D, Albers L, Journal of Perinatal Education. 2004 spring; 13(2): 30–34.
  4. Gizzo, Salvatore; Di Gangi, Stefania; Noventa, Marco; Bacile, Veronica; Zambon, Alessandra; Battista Nardelli, Giovanni (maio de 2014). «Women's Choice of Positions during Labour: Return to the Past or a Modern Way to Give Birth? A Cohort Study in Italy». BioMed Research International. 2014: 1–7. PMC 4052104Acessível livremente. PMID 24955365. doi:10.1155/2014/638093Acessível livremente 
  5. «Lithotomy Position for Labor». Consultado em 25 de outubro de 2010. Arquivado do original em 25 de outubro de 2010 
  6. Dundes, L. (1987). «The evolution of maternal birthing position». American Journal of Public Health. 77 (5): 636–641. PMC 1647027Acessível livremente. PMID 3551639. doi:10.2105/AJPH.77.5.636 
  7. a b c Campbell, Jennifer. «Pushing Positions during Childbirth». Consultado em 25 de outubro de 2010. Arquivado do original em 24 de outubro de 2010 
  8. Research suggests that maternal bodily positions have a notable influence on pain experienced during labor and delivery, and that positions such as squatting show significantly reduced pain compared to the lithotomy position.
  9. Gupta, JK; Sood, A; Hofmeyr, GJ; Vogel, JP (25 de maio de 2017). «Position in the second stage of labour for women without epidural anaesthesia.». The Cochrane Database of Systematic Reviews. 2017 (5): CD002006. PMC 6484432Acessível livremente. PMID 28539008. doi:10.1002/14651858.CD002006.pub4 
  10. Position in the second stage of labour for women without epidural anaesthesia: RHL commentary. Lavender T and Mlay R. The WHO Reproductive Health Library; Geneva: World Health Organization. (last revised: December 15, 2006).
  11. a b Lawrence A (2013). Lawrence, Annemarie, ed. «Maternal positions and mobility during first stage labour». Reviews (10): CD003934. PMC 4164173Acessível livremente. PMID 24105444. doi:10.1002/14651858.CD003934.pub4 
  12. Shorten A, Donsante J, Shorten B (março de 2002). «Birth position, accoucheur, and perineal outcomes: informing women about choices for vaginal birth». Birth. 29 (1): 18–27. PMID 11843786. doi:10.1046/j.1523-536x.2002.00151.x 
  13. Hastings-Tolsma M, Vincent D, Emeis C, Francisco T (2007). «Getting through birth in one piece: protecting the perineum». MCN Am J Matern Child Nurs. 32 (3): 158–64. PMID 17479052. doi:10.1097/01.NMC.0000269565.20111.92 
  14. Russell JG. Moulding of the pelvic outlet. J Obstet Gynaecol Br Commonw 1969;76:817–20.
  15. «Balaskas J Using the squatting position during labour and for birth» (PDF). Consultado em 24 de novembro de 2013. Arquivado do original (PDF) em 9 de março de 2012 
  16. Wilkinson, Richard H. (2003). The complete gods and goddesses of ancient EgyptRegisto grátis requerido. London: Thames & Hudson. pp. 152–53. ISBN 978-0-500-05120-7 
  17. «Childbirth: Coping with Pain: Positions for Labour and Birth». Consultado em 25 de outubro de 2010. Arquivado do original em 9 de janeiro de 2011