Pílades e Orestes (conto de Machado de Assis)
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"Pílades e Orestes" é um conto escrito por Machado de Assis e publicado no livro Relíquias de Casa Velha em 1906. Remete aos mitos gregos de Pílades e Orestes, conhecidos por uma amizade inseparável. O conto é notável por tratar de uma relação homossexual, homoafetiva, homoerótica no século 19 entre Quintanilha e Gonçalves, os dois protagonistas.[1][2][3][4][5][6][7] Machado já havia retratado o lesbianismo no conto "D. Benedita" de Papéis Avulsos (1882).
"A vida que viviam os dous era a mais unida deste mundo".[8] Apesar de idades mais ou menos parecidas, Quintanilha trata Gonçalvez como um pai trataria seu filho: "um pai não se desfaria mais em carinhos, cautelas e pensamentos".[9] Andavam sempre juntos de dia e à noite, e "Quintanilha acordava, pensava no outro".[8] Uma senhora os chamava de "casadinhos de fresco"[10] e um letrado, justamente de Pílades e Orestes, remetendo à mitologia. Os gestos e palavras e olhares de Gonçalves para com Quintanilha, para o aprovar ou acentuar a intimidade entre os dois, faziam com que o ascendesse o cérebro e "derretê-lo de prazer".[10]
Porém, além do tom romântico e do homoerotismo, como em toda obra madura mais realista de Machado também neste conto apresentam-se intrigas de classe social, casamento enquanto obrigação sem amor, interesses materiais e familiares, fatos históricos etc., não sem forte ironia e muita ambiguidade por parte do narrador. Quintanilha é ex-político e herdeiro rico, e Gonçalves, advogado esforçado e pobre. Quando Quintanilha acaba por ter de se casar com a prima Camila e acha que Gonçalves gosta dela, abre mão da moça a favor do amigo, inclusive realizando um testamento legando tudo à prima com a condição desta desposar Gonçalves, depois legando tudo ao amigo. Termina morrendo vítima de uma "bala revoltosa" em 1893[11], ou seja, uma bala perdida da Revolta da Armada, na Praça Quinze de Novembro, enquanto levava doces para os seus afilhados, filhos de Gonçalves com Camila. Enquanto "Orestes vive ainda, sem os remorsos do modelo grego", "Pílades é agora o personagem mudo de Sófocles".[11]
Publicações e edições
"Pílades e Orestes" foi publicado primeiramente no Almanaque Brasileiro Garnier de 1903, e posteriormente em 1906 no livro de coletânea Relíquias de Casa Velha.
Desde então, tem figurado em todas as edições dos contos completos do autor (por exemplo, Todos os Contos de Machado de Assis, Editora Nova Fronteira, 2019, e Machado de Assis - Obra Completa, 3 volumes, Editora Nova Aguilar, c. 1997).
Também está presente em antologias temáticas de homossexualidade, como na Entre Nós: Contos Sobre a Homossexualidade (2007), organizada por Luiz Ruffato.
Ver também
- Literatura LGBT do Brasil
- Temas LGBT na mitologia greco-romana
- Temática de Machado de Assis
- Pílades
- Orestes
Referências
Bibliografia
- AGUIAR, Luiz Antonio. Almanaque Machado de Assis. Editora Record, 2008.
- DE ASSIS, Machado. Todos os Contos. Editora Nova Fronteira, 2019.
- MACIEL, Jessé dos Santos. "Pílades e Orestes: a sedução das faces mudas". Revista Urutágua, Maringá, n. 9, abr./ maio/ jun./ jul. 2006.
- MACIEL, José dos Santos. "Momentos do Homoerotismo. A Atualidade: Homocultura e Escrita Pós-Identitária" in: Terra Roxa e outras terras Revista de Estudos Literários. Volume 7 (2006) – 26-38. ISSN 1678-2054
- MACHADO, Márcia; MARIANO, Ana Caldas. "Homoafetividade e construção moral no conto “Pílades e Orestes” de Machado de Assis: proibição e homofobia". Revista Diálogos Interdisciplinares, v. 13, p. 181-197, 2023.
- RAMOS, Rodrigo ; AGUIAR, A.. "Narração e dissimulação do discurso homoerótico em 'Pílades e Orestes', de Machado de Assis, e 'Aqueles Dois', de Caio Fernando Abreu. Revista Primeira Escrita, v. 4, p. 42-49, 2017.
- RUFFATO, Luiz (org.). Entre Nós: Contos Sobre a Homossexualidade. Língua Geral, 2007.
- SILVA, Luciano Marques da; ROSITO, Valeria. "O legado homoerótico em Machado de Assis". Revista África e Africanidades, ano 9, nº 22, jul. 2016. ISSN 1983-2354
- TREVIZAM, Matheus. "Palimpsesto Erótico: ecos da literatura precedente e a expressão do proibido no conto “Pílades e Orestes”, de Machado de Assis". Revista Scripta, Belo Horizonte, v.11, n.21, p. 161-174, jul/dez 2007.
