Uma Ode de Anacreonte

Uma Ode de Anacreonte é um poema dramático do escritor brasileiro Machado de Assis, publicado na coletânea de poesias Falenas em 1870.[1][2]

Composta em versos alexandrinos, "Uma Ode de Anacreonte" tem o subtítulo "Quadro Antigo", foi dedicada a Manoel de Mello, e possui oito cenas, com seis personagens (Lísias, Cleon, Mirto e três escravos), tendo por cenário a cidade grega de Samos.

Personagens

  • Lysias: Anfitrião rico e hedonista, cético quanto ao amor idealizado.
  • Cleon: Poeta jovem e apaixonado, idealista e intenso.
  • Myrto: Cortesã bela e astuta, marcada por um passado trágico.
  • Três escravos: Servos silenciosos que executam tarefas do banquete.

Enredo

Em um banquete na casa de Lysias, o poeta Cleon e a cortesã Myrto se aproximam. Cleon se apaixona intensamente, idealizando o amor como absoluto e redentor. Já Myrto, marcada por um passado de perdas, hesita entre o sentimento e a prudência. Lysias, cético e hedonista, desconfia da sinceridade da cortesã e defende uma visão prática do amor.

No fim, Myrto acaba por escolher Lysias, seduzida pela estabilidade que ele oferece. Cleon, desiludido, parte sozinho, reconhecendo a fragilidade das ilusões amorosas e o conflito inevitável entre a poesia e a realidade.

Fonte

A ode usada na peça é "Metamorfoses de Cobiçar", parte das poesias Anacreônticas, traduzida por António Feliciano de Castilho e incluída no volume A Lírica de Anacreonte, publicado em 1866.[3] Consta da Cena V, página 155 da edição original, quando Mirto abre um papiro e lê a ode. Em nota, no final do livro, o autor esclarece: "É do Sr. António Feliciano de Castilho a tradução desta odezinha, que deu lugar à composição do meu quadro. Foi imediatamente à leitura da Lírica de Anacreonte, do imortal autor dos Ciúmes do Bardo,[4] que eu tive a ideia de pôr em ação a ode do poeta de Teos, tão portuguezmente saída das mãos do Sr. Castilho que mais parece original que tradução."[5]

Análise

Com "Uma ode de Anacreonte", Machado dá um salto para o campo da fantasia, "de alva poesia e murta delicada”, onde "há tanta vida, e luz, e alegria elevada”. Agora, não é apenas o verso o indicador de poesia, a própria matéria tratada, toda ela, é ficcional, criação poética. Embora nesta obra os personagens sejam desprovidos de uma dimensão brasileira, a peça não é desprovida de interesse no tocante às relações entre ficção e realidade, e é provável que Machado buscasse "formas ficcionais que dramatizassem a estrutura social do Brasil."[6]

"Ainda que a ação de sua peça tenha sido deslocada para outro contexto histórico, distante no tempo e no espaço, Machado de Assis não deixa de tocar, de forma sutil, em temas relevantes de sua época: a visão racional da realidade, as relações com o mundo material, a questão da mulher cortesã. "Uma Ode de Anacreonte” se apresenta no conjunto da obra teatral machadiana como uma peça sofisticada, bem elaborada, em que as cenas se articulam de forma harmoniosa, compondo um quadro lírico em que a poesia e o teatro se harmonizam."[7]

Dentre os poemas que compõem Falenas, salta à vista do leitor, que já sabe que Macha­do abandonará a poesia, o longo poema dramático "Uma Ode de Anacreonte”, cujo recorte dos versos não deixa de lembrar a técnica de Victor Hugo em Hernani. Encontramos em "Uma Ode de Anacreonte”, como nos poemas dramáticos românticos, personagens individualizados, um conflito que se arquiteta e se deslinda em determinado espaço de tempo, portanto com princípio, meio e fim.[8]

Referências

  1. Os dois primeiros livros de poesias de Machado de Assis: seus títulos, suas semelhanças e diferenças – interrelações. (2017). Caligrama: Revista De Estudos Românicos, 22(1), 87-107. https://doi.org/10.17851/2238-3824.22.1.87-107
  2. «Domínio Público - Pesquisa Básica». www.dominiopublico.gov.br. Consultado em 15 de novembro de 2021 
  3. SANDMANN, Marcelo. Aquem-alem-mar: presenças portuguesas em Machado de Assis. 2004. 487 p. Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem, Campinas, SP. Disponível em: 20.500.12733/1597352. Acesso em: 31 dez. 2025.
  4. "Os Ciúmes do Bardo", poema narrativo de Castilho, de 1836.
  5. Uma análise pormenorizada da peça encontra-se neste artigo da Machadiana Eletrônica: Nilton de Paiva Pinto. «"Uma ode de Anacreonte": poesia dramática"». Consultado em 26 de dezembro de 2025 
  6. PINTO, Nilton de Paiva. "Uma ode de Anacreonte”: poesia dramática. Machadiana Eletrônica, Vitória, v. 5, n. 9, p. 259-279, jan./jun. 2022.
  7. PINTO, Nilton de Paiva. O teatro de Machado de Assis – 1860-1870. 2021. Tese (Doutorado em Letras – Estudos Literários) — Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2021.
  8. Santiago, S. (2005). Jano, janeiro Silviano Santiago com nota introdutória de John Gledson. Teresa: Revista De Literatura Brasileira, 6-7, 429-452. https://revistas.usp.br/teresa/article/view/116635