O Escrivão Coimbra

O Escrivão Coimbra é um conto do escritor brasileiro Machado de Assis, publicado no Almanaque Brasileiro Garnier de 1907. É notável por ser o último publicado pelo escritor, um ano e oito meses antes de morrer. Trata-se de uma história sobre a velhice, cujo protagonista é um idoso obcecado por ganhar na loteria.[1]
Enredo
O conto acompanha Coimbra, um escrivão viúvo, descrente e solitário, que encontra na loteria o único hábito ao qual se apega, apesar das repetidas tentativas fracassadas. Na véspera de Natal, porém, Coimbra se depara com a notícia inesperada de que foi agraciado com um prêmio de quinhentos contos de réis, soma capaz de transformar completamente sua situação.
Cumpre imediatamente uma promessa que fez, doando cem contos de réis à escola de São Bernardo, que passa a prosperar graças a esse legado. Pouco tempo depois, porém, Coimbra morre, após servir de testemunha no casamento de um colega.
TRECHO: Aparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião comprando um bilhete de loteria. Bem considerado, é alegre; essa persistência em crer, quando tudo se ajusta ao descrer, mostra que a pessoa é ainda forte e moça. Que os dias passem e com eles os bilhetes brancos, pouco importa; o ancião estende os dedos para escolher o número que há de dar a sorte grande amanhã - ou depois -, um dia, enfim, porque todas as coisas podem falhar neste mundo, menos a sorte grande a quem compra um bilhete com fé. Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. Uma coisa não vai sem outra. Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa.[2]
Análise da trama
Desde o início do conto, já se instaura o clima da duplicidade e da contradição. A narração é longa, até monótona e autobiográfica. Trata da vida do escrivão Coimbra, que tinha fé e esperança, mas paradoxalmente já não cria em nada, fosse do céu ou da terra, exceto de loteria. Mas o escrivão morreria, deixando como testamento conselhos que podem todos resumir-se nesta palavra: persistir. Talvez porque, antes de morrer, tivesse, enfim, alcançado o que tanto almejara. Comprara o bilhete para o dia de Natal, prometendo a si mesmo e aos amigos que, se não tirasse nada, deixaria de jogar na loteria. Pôs a alma nos dois extremos: nada ou quinhentos contos. Prometeu também dar cem contos de réis para a Escola de São Bernardo, se tirasse a sorte grande.
E pela primeira vez, Machado de Assis dirige-se ao seu caro leitor: "Desconfias o que lhe aconteceu? Às quatro horas e meia, acabado o trabalho, saiu com a alma nas pernas e correu à primeira casa de loterias. Lá estavam, escritos a giz em tábua preta, o número do bilhete dele e os quinhentos contos." Resgatou logo sua promessa, e tudo se cumpriu com lealdade. Pergunta-se, então e afinal: nesse último relato não estaria o próprio Machado de Assis explicando-se, aos poucos e dubiamente? Os relacionamentos possíveis com os fatos de sua existência pessoal e o balanço que fez dela metaforicamente — aludindo à morte, à solidão, à força da amizade, às realizações concretas, como a da Academia, sem dúvida conduzem a essa especulação.[3]
No acabamento formal do personagem Coimbra, os detalhes dos quais ele é composto, o seu mundo interior e exterior compondo o mesmo homem, ancião de sessenta anos, obcecado por loteria, tendo fundado a irmandade de São Bernardo. Tudo no conto é em função dele, o narrador o compõe à distância, mesmo quando lhe penetra a consciência, porque a excedência do narrador sobre seu personagem é igual ao domínio de sua visão sobre a criatura criada, o mundo organizado na forma contista é de pleno domínio do narrador, espaço em que ele exerce a suma autoridade sobre o personagem. "O Escrivão Coimbra" traz muito do conto "Um Erradio", em termos de acabamento e construção do personagem, se considerada a relação narrativa do autor criador com o mundo organizado, na forma,e as criaturas criadas que habitam tal mundo. A composição formal de Elisário é a mesma de Coimbra, embora suas ideologias sejam diferentes. A distância do narrador em relação ao personagem é um dado do estilo individual de Machado de Assis, que se realiza na comparação desses dois personagens e respectivos narradores.[4]
"O Escrivão Coimbra" é talvez o mais otimista dos contos machadianos. Apesar do desequilíbrio inicial, dadas as repetidas tentativas e a perda na loteria, o escrivão acaba ganhando na loteria. A ideia da loteria foi igualmente aludida em "Teoria do Medalhão", em que o pai ensinou ao filho a necessidade de lutar pela vida, comparando a vida a uma loteria. Aqui, a loteria é comparada a uma mulher, "pode acabar cedendo um dia", e foi exatamente a experiência do escrivão. O fio otimista neste conto é chocante, mas uma leitura cuidadosa de Machado sempre retém sua ambiguidade.[5]
Referências
- ↑ ASSIS, Machado de. O escrivão Coimbra e outros contos. Seleção e apresentação de Luiz Ruffato; projeto gráfico Ao Quadrado. São Paulo: Carambaia, 2021. 272 p. ISBN 978-65-86398-47-2.
- ↑ «Machado de Assis». Machado de Assis. Consultado em 28 de dezembro de 2025. Cópia arquivada em 17 de janeiro de 2025
- ↑ CUNHA, Patrícia Lessa Flores da. O conto machadiano: releituras e reconfigurações. Organon, Porto Alegre, v. 17, edição especial, p. 101–107, dez. 2003. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), 2003.
- ↑ NAS CARRERAS, Juliano Carrupt do Nascimento. A produção dos contos de Machado de Assis. Universidade Federal Fluminense (RIUFF), 2014.
- ↑ Afolabi, Niyi (13 de março de 2000). «Machado de assis: uma teorização de ambigüidade». Revista Iberoamericana (190): 121–138. doi:10.5195/reviberoamer.2000.3596. Consultado em 28 de dezembro de 2025
