Casa Velha

 Nota: Não confundir com Relíquias de Casa Velha.
Casa Velha
Autor(es)Machado de Assis
Idiomaportuguês
PaísBrasil
Gêneroromance
IlustradorSanta Rosa
Formatobrochura
Lançamento1885
Páginas64

Casa Velha é um romance de Machado de Assis, publicado em folhetins na revista carioca A Estação, de janeiro de 1885 a fevereiro de 1886.[1]

A primeira edição saiu em livro somente em 1943, graças aos esforços da crítica literária Lúcia Miguel Pereira. A edição contou com introdução crítica da estudiosa e ilustrações de Santa Rosa.

Embora tenha sido publicado na fase dita "realista" do autor, supõe-se que Machado de Assis tenha aproveitado material não-publicado de sua fase "romântica".[2] A obra permaneceu no esquecimento durante décadas, até ser resgatada por John Gledson, em Machado de Assis - Ficção e História.

Enredo

O texto não tem tempo de discurso revelado; porém, o tempo de diegese se passa nos anos de 1838 e 1839. Com o fim de escrever um livro sobre a história do Primeiro Reinado, um cônego procura conhecer uma casa onde morou um ex-ministro, na qual havia papéis que o ajudariam na sua pesquisa.

Durante esta pesquisa, o cônego tornou-se grande amigo da família, ficando íntimo dela, inclusive. Deste modo, vê na amizade de Félix - filho da dona da casa, D. Antônia - e Lalau - praticamente, agregada da casa - uma possível paixão. No desenrolar da trama, descobre que sua observação estava correta e os dois realmente se amavam.

Contudo, esta união não era possível, pois D. Antônia, embora considerasse Lalau como filha, não aceitava que eles ficassem juntos devido à relação social de ambos. Para fim de obter a separação do casal, D. Antônia chegou a pedir ao cônego que levasse seu filho, Félix, para conhecer a Europa (tendo como desculpa a formação pessoal deste). A derradeira tentativa de D. Antônia foi a de revelar - falsamente - que Lalau era filha do falecido ministro, pai de Félix.

Com esta revelação, há grande espanto por parte de todos, inclusive do padre, que, então, ajuda D. Antônia a separar o casal; para isto, ele revela a ambos a paternidade de Lalau. Ao revelar esta falsa verdade à tia de Lalau - com quem esta morava devido a morte de seus pais na sua infância -, ela lhe revela a verdade, que o verdadeiro pai de Lalau não era o ex-ministro; mas diz, também, que houve relação deste com a mãe de Lalau gerando um filho que morreu aos 2 meses de idade.

O cônego, portanto, vai ter com D. Antônia, esta diz que realmente inventara a paternidade, e que, inclusive, não desconfiara jamais de traição por parte do marido. E que descobrindo isto da forma como descobriu, viu que deveria cumprir pena por ter feito revelação em falso. Segundo ela, parte da pena estava cumprida (descobrir-se traída), a outra metade seria casar seu filho com Lalau.

Com esta notícia, o cônego sente-se muito alegre, embora um pouco triste pelo fato de ter feito a traição ser revelada; ao contatar os principais envolvidos na história, o cônego tem uma surpresa ao perceber que Lalau não se casaria com Félix do mesmo modo. Esta não tem sua ideia mudada mesmo por intervenção de sua tia, Félix, e nem D. Antônia.

Félix e Lalau casam-se com outras pessoas, sendo este o fecho do livro: "Se ele e Lalau foram felizes, não sei; mas foram honestos, e basta." O livro implica uma linguagem perfeitamente correta narrado em primeira pessoa.

Análise

Ao organizar a narrativa, o cônego, além de criar laços com a família, cria laços de afinidade também com o leitor. Machado de Assis elabora, em cada um de seus romances, uma maneira específica de dialogar com os leitores. A figura do leitor é problematizada, propondo uma discussão de quem seria esse e qual seria a sua "participação no processo literário". Em Casa Velha, o cônego-narrador tem uma relação amigável com o seu leitor, pois é ele quem informa e lembra situações importantes. A estratégia utilizada pelo cônego de Casa Velha assemelha-se aos narradores de Helena e Iaiá Garcia, pois eles criam uma relação na qual se comportam como guias de seus leitores.[3]

Casa Velha se apresenta resistente a uma compreensão de tempo histórico linear e evolutivo normalizada no Brasil, apesar de não romper plenamente com os paradigmas de articulação da historicidade hegemônicos e representacionais da cultura de história e historiográfica em vigor no século XIX. O próprio padre-historiador demonstra-se crítico à concepção de história cara à tradição do reformismo ilustrado luso-brasileiro. Também podemos perceber a importância conferida à documentação para a escrita da história. Casa Velha se inicia com a tensão entre a escrita historiográfica, que parte da revisão crítica das obras históricas precedentes e da investigação de documentos, e a memória do estadista monumentalizada.[4]

Tanto Memórias Póstumas de Brás Cubas como Casa Velha colocam em foco um "ancien régime", com o domínio de uma oligarquia segura de si, baseada na escravidão, um domínio que pôde ser mantido com relativa facilidade, embora por vezes com a consciência da possibilidade de uma rebelião, ou, simplesmente, da necessidade de uma autojustificação. Dessa maneira, é possível realizar uma leitura "alegórica" de Casa Velha, com riqueza de comparações, paralelismos e interpretações. Alegoria, deve-se registrar, que está certamente no diálogo simbólico da representação realidade-na-ficção.[5]

Referências

  1. Machado de Assis, Casa Velha, com introdução de Lúcia Miguel Pereira e ilustrações de Santa Rosa. Livraria Martins Editora, 1.a edição, São Paulo: 1943.
  2. A trama e a sua forma: uma leitura de Casa Velha, de Machado de Assis. 2010. Dissertação (Mestrado em Estudos Literários) — Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 03 set. 2010. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/items/f6f0a95d-eb18-4965-810f-fa954157f795/full
  3. A trama e a sua forma: uma leitura de Casa Velha, de Machado de Assis. 2010. Dissertação (Mestrado em Estudos Literários) — Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 03 set. 2010. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/items/f6f0a95d-eb18-4965-810f-fa954157f795/full
  4. RAMOS, André da Silva. Machado de Assis e a experiência da historicidade: sobre historiadores assombrados e a presença fantasmagórica do passado em Casa Velha. História da Historiografia: International Journal of Theory and History of Historiography, Ouro Preto, v. 14, n. 36, p. 257–288, 2021. DOI: 10.15848/hh.v14i36.1700. Disponível em: https://www.historiadahistoriografia.com.br/revista/article/view/1700. Acesso em: 1 fev. 2026.
  5. LEÃO, A.; CARVALHO, E. As vozes do Império em Casa velha, de Machado de Assis. Revista de Literatura, História e Memória, [S. l.], v. 18, n. 32, 2023. DOI: 10.48075/rlhm.v18i32.28339. Disponível em: https://e-revista.unioeste.br/index.php/rlhm/article/view/28339. Acesso em: 2 fev. 2026.