O Caso da Vara

Machado de Assis, o autor de o Caso da Vara

O Caso da Vara é um dos contos mais famosos de Machado de Assis, publicado inicialmente na Gazeta de Notícias, no ano de 1891, e republicado no livro Páginas Recolhidas. O conto fala sobre a história de Damião, um fugitivo do seminário, que tem uma difícil escolha a fazer.[1]

Enredo

Damião, um seminarista, tem medo de voltar para casa, pois sabe que o pai o levará de volta ao seminário. Portanto, Damião foge e se esconde na casa da viúva Sinhá Rita. A mulher promete ajudá-lo e por isso Damião permanece. Ela é amante de João Cosme, padrinho do rapaz. Ela intima o padrinho a convencer o pai de Damião a não mandá-lo de volta ao seminário.

Porém, Sinhá Rita tem uma escrava chamada Lucrécia, uma garota que é maltratada por ela. Damião, vendo a situação, promete a si mesmo que irá apadrinhar Lucrécia. Mas chega um momento em que Sinhá Rita vai castigar Lucrécia e pede a vara a Damião, que fica em dúvida entre ajudar Lucrécia ou entregar a vara e receber a ajuda de Sinhá Rita. Por fim, ele decide entregar a vara.

TRECHO: Sinhá Rita pegou de uma vara que estava ao pé da marquesa, e ameaçou-a: – Lucrécia, olha a vara! A pequena abaixou a cabeça, aparando o golpe, mas o golpe não veio. Era uma advertência; se à noitinha a tarefa não estivesse pronta, Lucrécia receberia o castigo do costume.[2]

Análise da trama

Este conto de crítica social foi escrito menos de dois anos após a libertação dos escravos, e é um dos poucos contos – os outros são “Mariana” (primeira versão, no Jornal das Famílias de janeiro de 1871) e “Pai Contra Mãe” (Relíquias de Casa Velha) – em que Machado denuncia abertamente a situação degradante dos escravizados. "O conto reafirma o quanto Machado era crítico de sua sociedade, não o escritor alienado que às vezes se imagina."[3] “O espancamento de Lucrécia não é nem ilegal, nem contra os costumes ou a moral. E isso é o pior de tudo – é o que nos diz esse conto de Machado.”[4]

Neste conto, os bastidores da sociedade escravista são revelados. Embora o conto datasse de 1891, quando o Brasil já havia proclamado sua República, o tempo cronológico da narrativa retorna ao Brasil escravagista, no período do Segundo Reinado. Criticando a sociedade da época em "O Caso da Vara", Machado desmascarou a violência com a qual os negros eram tratados, ao narrar o modo brutal e ameaçador de sinhá Rita, uma representante da elite branca senhorial, em relação à sua jovem escrava, uma criança, pelo fato de não conseguir executar com primor a função ordenada.[5]

Para Luiz Antonio Aguiar, o conto é, "no seu início, muito semelhante ao conflito inicial de Dom Casmurro, mas o desenvolvimento, com toda a sutileza de Machado, coloca em xeque nossa pretensão de saber separar quem (e o que) é Bom e quem (e o que) é Mal neste mundo."[6]

Ligações externas

Referências

  1. Povo, Hora do (27 de fevereiro de 2025). «"O caso da vara" e a luta pelo fim da escravatura: obra de Machado de Assis ganha nova edição». Hora do Povo. Consultado em 12 de novembro de 2025 
  2. ASSIS, Machado de. O Caso da Vara. Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/o-caso-da-vara/31723 . Acesso em: 27 dez. 2025.
  3. Daniel Piza, Machado de Assis: Um Gênio Brasileiro. 2a edição revista e corrigida pelo autor. São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006, p. 313.
  4. Luiz Antonio Aguiar, Almanaque Machado de Assis, Editora Record, 2008, p. 242.
  5. VILARINHO, Murilo Chaves. O Caso da Vara (1891): um conto de Machado de Assis que revela a face da escravidão brasileira do século XIX. Revista Mosaico – Revista de História, Goiânia, v. 14, n. 2, p. 273–282, 2021. DOI: 10.18224/mos.v14i2.8780. Disponível em: https://seer.pucgoias.edu.br/index.php/mosaico/article/view/8780. Acesso em: 27 dez. 2025.
  6. AGUIAR, Luiz Antonio. Almanaque Machado de Assis: vida, obra, curiosidades e bruxarias literárias. Rio de Janeiro: Record, 2008. ISBN 978-85-01-08099-8.