As Bodas de Luís Duarte

Machado de Assis

As Bodas de Luís Duarte é um conto do escritor brasileiro Machado de Assis, que foi publicado originalmente no Jornal das Famílias em junho e julho de 1873 com o título "As Bodas do Dr. Duarte", sob o pseudônimo Lara. Foi incluído na coletânea Histórias da Meia-Noite, publicada em novembro do mesmo ano.[1] A narrativa ironiza a cristalização de costumes e rituais familiares ao apresentar os preparativos e a realização de um casamento.[2]

Neste conto, como em outros da coletânea, o autor se aproxima do espírito mais irônico de suas crônicas, num “estilo temperado de humorismo”[3]. “Há um tom de conversa e estudo, não a narração que busca sentimentalizar o leitor.”[4]

Enredo

Toda a narrativa se passa num mesmo sábado, quando Carlota, filha do casal Lemos, se casa com Luis Duarte. Descreve uma história onde há uma cerimônia a que familiares e amigos das duas famílias comparecem. Após, são apontados vários tipos sociais da época, cada um deles com seu papel demarcado. O personagem mais relevante é o Tenente Porfírio, que com sua retórica um tanto quanto exagerada, mas apreciada, é considerado um homem imprescindível para qualquer cerimônia da região.

TRECHO:

- V. Exas. confundem-me - respondeu Porfírio curvando-se -. Não tenho esse talento; mas sobra-me boa vontade, aquela boa vontade com que os apóstolos plantaram no mundo a religião do Calvário, e graças a este sentimento poderei resumir em duas palavras o brinde aos noivos. Senhores, duas flores nasceram em diverso canteiro, ambas pulcras, ambas recendentes, ambas cheias de vitalidade divina. Nasceram uma para outra; era o cravo e a rosa; a rosa vivia para o cravo, o cravo vivia para a rosa: veio uma brisa e comunicou os perfumes das duas flores, e as flores, conhecendo que se amavam, correram uma para a outra. A brisa apadrinhou essa união. A rosa e o cravo ali estão consorciados no amplexo da simpatia: a brisa ali está honrando a nossa reunião.

Análise da trama

Num período em que Machado produzia romances inseridos no espírito romântico, nesta "sátira aos ritos pequeno-burgueses"[3] dá um primeiro passo na direção ao realismo literário, ao descrever nos mínimos detalhes, quase em tempo real (sem saltos temporais), com forte carga de ironia, a cerimônia de casamento de Carlota com o mancebo Luís Duarte.

"Ao longo da narrativa aparecem cenas e personagens que dão sucessão à sociedade de aparências, preocupada, sobretudo, com o efeito de seus atos, deixando de lado a essência dos acontecimentos. Com uma espécie de câmera cinematográfica, sendo assim, o narrador machadiano percorre todas as personagens presentes na cerimônia, tecendo comentários sobre elas ou flagrando algumas de suas ações. A intenção é de apresentá-las de modo irônico e ambíguo, causando humor na leitura."[5]

Um dos artifícios utilizados pelo jovem Machado é o de criar contextos que não contrariam por completo as expectativas de quem pudesse tentar censurar escritos menos moralizadores. Ainda assim, o autor não deixa de criar situações que incluam a "experiência" dos leitores, apresentando suas dúvidas e receios diante de normas impostas às mulheres de sua época.[6]

Referências

  1. ASSIS, Machado de. As bodas de Luís Duarte. Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/as-bodas-de-luis-duarte/26124 . Acesso em: 26 dez. 2025.
  2. PEREIRA, Cilene Margarete. A personagem feminina e a experiência da maternidade nos primeiros contos de Machado de Assis. Revista de Letras, Curitiba, v. 12, n. 13, p. [páginas do artigo], 2014. DOI: 10.3895/rl.v12n13.2427. Disponível em: https://periodicos.utfpr.edu.br/rl/article/view/2427 . Acesso em: 26 dez. 2025.
  3. a b Prefácio a Histórias da Meia Noite (1977) das Edições Críticas de Obras de Machado de Assis da Editora Civilização Brasileira em Convênio com o Instituto Nacional do Livro do MEC.
  4. Daniel Piza, Machado de Assis: Um gênio brasileiro, 2a edição, São Paulo, Imprensa Oficial, 2006, p. 154.
  5. Dayane Mussulini. «O CASAMENTO E A SOCIABILIDADE BURGUESA EM HISTÓRIAS DA MEIA-NOITE, DE MACHADO DE ASSIS». Consultado em 20 de setembro de 2021 
  6. SILVEIRA, Daniela Magalhães da. As lições de Machado de Assis: literatura e ciência no Jornal das Famílias. Locus: Revista de História, Juiz de Fora, v. 16, n. 1, p. 151-166, 2010. Disponível em: https://periodicos.ufjf.br/index.php/locus/article/view/20140 . Acesso em: 26 dez. 2025.