A Chinela Turca

Machado de Assis

A Chinela Turca é um conto do escritor brasileiro Machado de Assis. Conto precursor do "surrealismo" do século XX, foi publicado pela primeira vez no periódico A Época, em 14 de novembro de 1875, assinado por Manassés. Foi posteriormente incluído em Papéis Avulsos, sendo o mais antigo da coletânea.[1]

Enredo

A ação do conto transcorre no Rio de Janeiro, no ano de 1850, e conta a história do bacharel Duarte, que enquanto se prepara para ir a um baile com Cecília, recebe a visita de um sujeito enfadonho, o Major Lopo Alves. A visita noturna não seria um problema, se o major não tivesse em mãos um drama de 180 páginas que escreveu e pretendia ler para Duarte.

Durante a interminável leitura do manuscrito, Duarte dorme e sonha receber a visita da polícia, que o acusa do furto de uma chinela turca. O personagem se envolve em uma série alucinante e caótica de acontecimentos, até reencontrar o Major ao acordar.

TRECHO: A chinela de que se trata vale algumas dezenas de contos de réis; é ornada de finíssimos diamantes, que a tornam singularmente preciosa. Não é turca só pela forma, mas também pela origem. A dona, que é uma de nossas patrícias mais viajeiras, esteve, há cerca de três anos no Egito, onde a comprou a um judeu. A história, que este aluno de Moisés referiu acerca daquele produto da indústria muçulmana, é verdadeiramente miraculosa, e, no meu sentir, perfeitamente mentirosa. Mas não vem ao caso dizê-la. O que importa saber é que ela foi roubada e que a polícia tem denúncia contra o senhor.[2].

Análise da trama

O folhetinesco é um elemento fundamental do enredo do conto, imprimindo-lhe ação e dinamismo. Ainda assim, promove a "objetivação" dramática de um estado íntimo da personagem. Passamos da narrativa de aventuras para as aventuras dos mundos e movimentos subjetivos modernos. Sua posição é ambígua em relação às ditas fases "romântica" e "madura" de Machado, uma vez que o conto, escrito em 1875, passa a compor uma publicação de 1882, reforçando uma reavaliação dessa fissura e nos ajudando a perceber a coerência interna da obra do autor.[3]

O leitor se solidariza com o tédio de Duarte. Tudo leva a crer que a narrativa se tornaria lenta e fastidiosa, afinal "nada havia de novo naquela cento e oitenta páginas, senão a letra do autor". Mas o leitor é surpreendido, não só pela narrativa inverossímil, mas também pela revelação de que tudo não passou de um sonho. Apesar do conto ser engenhoso, o desfecho talvez tenha como estratégia frustrar o leitor, na medida em que o autor faz o que ele não havia feito até então: tenta esclarecer, explicar.[4]

Referências

  1. Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, Imprensa Oficial do Governo do Estado de São Paulo, 2a edição, 2021, verbete "Chinela Turca (A)".
  2. ASSIS, Machado de. Papéis Avulsos. Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/papeis-avulsos/27340 . Acesso em: 26 dez. 2025.
  3. BOECHAT, Maria Cecília. “A chinela turca”: Machado de Assis e a tradição folhetinesca. O Eixo e a Roda: Revista de Literatura Brasileira, v. 19, n. 2, p. 87-95, 2010. DOI: 10.17851/2358-9787.19.2.87-95. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/o_eixo_ea_roda/article/view/28145 . Acesso em: 26 dez. 2025.
  4. FORTUNA, Daniele Ribeiro. O leitor entre “A Chinela” e “A Cartomante”. Revista Alere, v. 6, n. 2, p. 15-xx, 2015. Disponível em: https://periodicos.unemat.br/index.php/alere/article/view/510 . Acesso em: 26 dez. 2025