Conto de Escola

Conto de Escola é um conto do escritor brasileiro Machado de Assis, que foi publicado originalmente na Gazeta de Notícias em 8 de setembro de 1884, e posteriormente incluído na coletânea Várias Histórias em 1896.[1] A narrativa trata de temas como infância, corrupção, delação e repressão escolar no Brasil do século XIX.
Enredo
O conto narra o primeiro contato de um menino, Pilar, com a corrupção e a delação. Raimundo, o angustiado corruptor, filho do professor, oferece uma moeda a Pilar em troca de umas lições de sintaxe. Curvelo os denuncia ao professor e ambos, Raimundo e Pilar, são violentamente castigados com "doze bolos" de palmatória cada.[2]
Humilhado e ressentido, Pilar pensa em se vingar do delator, mas não consegue encontrá-lo. Em casa, mente para a mãe para justificar as mãos inchadas. No dia seguinte, acorda animado com a ideia de recuperar a moeda jogada fora, mas acaba se deixando levar pelo som de um tambor militar na rua. Fascinado, segue os soldados e falta à escola, passando a manhã na praia.
TRECHO: Para cúmulo de desespero, vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, por cima do morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que bojava no ar, uma cousa soberba. E eu na escola, sentado, pernas unidas, com o livro de leitura e a gramática nos joelhos.
Análise da trama
O conto, que transcorre em 1840, quando o autor tinha um ano, reconstitui o ambiente escolar daquela época. A escola fica na Rua do Costa, atual Rua Alexandre Mackenzie, aos pés do Morro do Livramento, onde nasceu Machado. O narrador em primeira pessoa fica dividido entre ir à escola ou matar aula. Vai com medo do castigo do pai, mas a visão de um papagaio de papel no alto do Morro do Livramento faz com que se arrependa.
A aula naquele tempo, a julgar pelo conto, era uma bagunça, já que o professor passava parte do tempo lendo várias “folhas” (jornais). O filho do professor, que também é aluno, oferece uma moedinha antiga de prata para que o narrador ensine uma lição, mas a transação é delatada por um colega, e os dois meninos são castigados com “bolos” (pancadas) de palmatória. No dia seguinte, após aquele seu primeiro contato na vida com a “corrupção” e a “delação”, o narrador prefere matar aula, indo atrás de uma companhia do batalhão de fuzileiros, que marchava ao som de um tambor. “Um conto excepcional, em muitos aspectos rompedor de toda uma linhagem de literatura enfocando o universo da criança.”[3]
O cerne temático do conto é o sistema de ensino, mas especificamente a sala aula. Ao longo do século XIX, a educação brasileira passou por grandes transformações. O protagonista Pilar descreve a escola como "um sobradinho de grade de pau". É uma sala modesta, um simples espaço destinado à instrução, o que demonstra a precariedade do ensino na época. O professor aparece como centro do saber. É uma submissão consentida e legitimada pela distância de conhecimento que separa o professor de seus alunos. A escola configura-se como um espaço de relações de poder, onde a autoridade do professor contrasta com a passividade dos alunos. A "palmatória" pendurada, como observa Pilar, é o símbolo da autoridade do mestre.[4]
Para Luiz Antonio Aguiar, é "um conto excepcional, em muitos aspectos rompedor de toda uma linhagem de literatura enfocando o universo da criança. Divertido, amado pelo leitor jovem."[5]
Adaptação
Em 2011, o Ilustrador e quadrinista Laerte Silvino adaptou o conto para os quadrinhos no livro Conto de Escola em Quadrinhos. A publicação foi indicada para o prêmio de Melhor Adaptação para os Quadrinhos no 24.º Troféu HQ Mix.
Referências
- ↑ ASSIS, Machado de. Conto de escola. Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/conto-de-escola/31326 . Acesso em: 26 dez. 2025.
- ↑ KLOSS, Milene Vânia; SANTOS, Pedro Brum; UMBACH, Rosani. O “Conto de escola”, de Machado de Assis. Revista Urutágua: revista acadêmica multidisciplinar, Maringá, PR, Ano I, n. 4, maio 2002. Quadrimestral. ISSN 1519-6178. Disponível em: http://www.urutagua.uem.br/04lit_kloss.htm . Acesso em: 26 dez. 2025.
- ↑ Luiz Antonio Aguiar, Almanaque Machado de Assis, Editora Record, 2008, p. 92.
- ↑ VARES, Sidnei Ferreira de. Análise do discurso pedagógico no “Conto de Escola” de Machado de Assis: encontro entre literatura, estética e educação. Revista Sul-Americana de Filosofia e Educação (RESAFE), v. 10, p. 46-64, 2008. DOI: 10.26512/resafe.v0i10.4193. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/resafe/article/view/4193 . Acesso em: 26 dez. 2025.
- ↑ AGUIAR, Luiz Antonio. Almanaque Machado de Assis: vida, obra, curiosidades e bruxarias literárias. Rio de Janeiro: Record, 2008. ISBN 978-85-01-08099-8.
