Missa do Galo (conto)

 Nota: Se procura o nome dado em países católicos à missa celebrada depois do jantar da Véspera de Natal, veja Missa do Galo.
Machado de Assis

"Missa do Galo" é um conto do escritor brasileiro Machado de Assis, que foi publicado originalmente na revista A Semana de 12 de maio de 1894. Posteriormente, foi incluído no livro Páginas Recolhidas em 1899.

Enredo

O conto é narrado em primeira pessoa pelo jovem Nogueira, um rapaz de 17 anos que veio ao Rio de Janeiro para estudar. Hospeda-se na casa do escrivão Meneses, às vezes chamado de Chiquinho, viúvo de uma prima sua, que agora é casado com Conceição, uma mulher de temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. Meneses mantém um relacionamento extraconjugal e, uma vez por semana, sob o pretexto de ir ao teatro, vai encontrar-se com a amante. Conceição tem conhecimento deste relacionamento e se mostra submissa.

O conto se desenvolve na véspera do Natal, numa dessas noites em que o escrivão sai de casa e Nogueira fica na sala de estar aguardando um vizinho para ir à Missa do Galo. Enquanto espera e os outros dormem, Conceição vai ao seu encontro na sala da casa, onde conversam assuntos variados e não veem o tempo passar, até que o companheiro bate à porta chamando-o para a Missa do Galo. No dia seguinte, Conceição age como se nada tivesse acontecido, sem que sequer se lembrasse da conversa que teve com Nogueira na noite anterior. No Ano Novo, Nogueira volta à sua cidade e não mais encontra Conceição. Quando retorna ao Rio de Janeiro, Nogueira descobre que Meneses falecera e fica sabendo que Conceição se casou com o juramentado do marido.

TRECHO: Pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas, as mangas caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros, e menos magros do que se poderiam supor.[1]

Análise da trama

O que torna o conto bem característico do estilo machadiano é o diálogo entre Nogueira e Conceição de forte teor sensual, ainda que escrito com a sutileza própria do autor. A história, de uma simplicidade franciscana, narra a conversa, na noite de Natal, entre um rapaz de dezessete anos e uma mulher casada de trinta, cujo marido a trai. O principal aqui não é o dito, mas o não dito, não é a conversa em si, mas o que passa pela cabeça dos dois interlocutores durante a conversa, que Machado deixa para a imaginação do leitor. Naquela época o Natal brasileiro ainda não se germanizara. Em vez de árvore de Natal e troca de presentes, ia-se à Missa do Galo.[2]

José Veríssimo, em resenha na “Revista Literária” do Jornal do Comércio de 19 de setembro de 1899, escreveu sobre este conto: “Dos contos coligidos neste livro 'Missa do Galo' me parece um dos melhores que haja escrito o autor. A análise de certo sentimento ou antes de um desejo, que eu não posso dizer aqui, é feita com uma sutileza, aguda e delicada a um tempo, raramente vista. É com isto verdadeiro, humano, como é […] toda a obra do Sr. Machado de Assis.”[3]

O narrador do conto parece trapacear quando afirma sua incerteza sobre uma experiência de sedução. Sua estratégia discursiva estava investida na construção de uma trama em cujo interior se esconde outra historia, cuja versão colide com a da historia visível. Ainda que movido por uma espécie de recusa da verdade ou da incapacidade de afirmá-la, o narrador parece conhecer aquilo que simula desconhecer. As cenas narradas, se contadas por outros, certamente teria sua duplicidade multiplicada.[4]

Para Luiz Antonio Aguiar, o conto traz sedução, dúvidas, e "uma estrutura genial para uma história em que Nogueira conta suas lembranças, que nunca deixaram de perturbá-lo, de quando, ainda adolescente, conheceu Conceição, a mulher do parente com quem se hospedava em sua estada no Rio de Janeiro. Considerado por muitos um dos melhores contos da Literatura Brasileira."[5]

Adaptações

O conto já foi adaptado como dois curta-metragens, lançados em 1973 e 1982. O primeiro foi dirigido por Roman Stulbach, e tem no elenco Fernanda Montenegro como Dona Conceição e Fernando Torres como Meneses.[6] O segundo foi dirigido por Nelson Pereira dos Santos, e tem no elenco Isabel Ribeiro como Dona Conceição e Nildo Parente como Meneses.[7]

Ligações externas

Referências

  1. ASSIS, Machado de. Missa do Galo. Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/missa-do-galo/32191 . Acesso em: 27 dez. 2025.
  2. Ivo Korytowski, MACHADO DE ASSIS: TREZE MELHORES CONTOS, ebook publicado na Amazon.
  3. VERÍSSIMO, José. Revista Literária, Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 19 set. 1899.
  4. SCARPELLI, Marli Fantini. Entre ditos e interditos: Missa do Galo, de Machado de Assis. O Eixo e a Roda: Revista de Literatura Brasileira, v. 7, p. 29–44, 31 maio 2001. DOI: 10.17851/2358-9787.7..29-44. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/o_eixo_ea_roda/article/view/27859 . Acesso em: 27 dez. 2025.
  5. AGUIAR, Luiz Antonio. Almanaque Machado de Assis: vida, obra, curiosidades e bruxarias literárias. Rio de Janeiro: Record, 2008. ISBN 978-85-01-08099-8.
  6. «Missa do Galo». Cinemateca Brasileira. Consultado em 20 de junho de 2022 
  7. «A Missa do Galo». Cinemateca Brasileira. Consultado em 20 de junho de 2022