Fulano (conto)

Fulano é um conto do escritor brasileiro Machado de Assis, que foi publicado originalmente na Gazeta de Notícias de de 4 de janeiro de 1884, e incluído na coletânea Histórias sem Data, publicada no mesmo ano.[1]
Enredo
O narrador convida o leitor a acompanhar a abertura do testamento de seu amigo Fulano Beltrão, e, enquanto aguardam o ato formal, reconstrói a trajetória de sua vida. Inicialmente um homem reservado, Fulano passa por uma transformação decisiva quando um artigo elogioso sobre ele é publicado anonimamente no Jornal do Comércio. Ele então toma gosto por se exibir e se autopromover na mídia.
Fulano faz doações filantrópicas, envolve-se em causas públicas, promove subscrições para alforria de escravos e participa de eventos patrióticos, tudo amplamente divulgado pela imprensa e buscando a aprovação da opinião pública. Sua vida privada passa a ser sacrificada em nome da presença social, o que provoca tensões com sua esposa. Mais tarde, fracassa ao tentar ingressar na política, sem convicções ideológicas reais, movido mais pela vaidade do que por princípios.
Após a morte da esposa e anos de exposição pública, Fulano adoece e morre mantendo até o fim a preocupação com sua imagem e notoriedade. A leitura do testamento revela legados grandiosos e simbólicos, culminando na proposta de iniciar uma subscrição para erguer uma estátua de Pedro Álvares Cabral. O narrador sugere que, se a estátua for construída, deveria conter também o retrato do próprio Fulano.
TRECHO: Venha o leitor comigo assistir à abertura do testamento do meu amigo Fulano Beltrão. Conheceu-o? Era um homem de cerca de sessenta anos. Morreu ontem, dous de janeiro de 1884, às onze horas e trinta minutos da noite. Não imagina a força de ânimo que mostrou em toda a moléstia. Caiu na véspera de Finados, e a princípio supúnhamos que não fosse nada; mas a doença persistiu, e ao fim de dous meses e poucos dias a morte o levou.[2]
Análise da trama
"A imprensa é uma grande invenção, disse ele à mulher". Em 'Fulano', Machado revela como a imprensa, uma das tecnologias emergentes, poderia transformar hábitos e reputações. Um sujeito tranquilo como Fulano Beltrão virou um homem público. A autopublicação de seus feitos – mesmo que prosaicos – provocavam comentários na praça. Antecipando quase um século, Machado já sabia que o meio era a mensagem.”[3]
O conto estabelece uma relação muito próxima com o jornal, que, além de ser seu suporte primeiro de publicação e de possuir muita relevância no enredo, é um elemento aproveitado formalmente no texto. A partir de uma faísca de publicidade, Fulano sai de sua condição de bicho do mato para a “vida pública”. Fica patente neste conto a importância destinada à moeda social, como se o reconhecimento simbólico fosse tão – se não mais – importante do que o reconhecimento material. [4]
"Fulano" é um conto que pertence à família dos contos "Teoria do Medalhão", "O Espelho", "O Segredo do Bonzo" e "Evolução". Ele exemplifica suas teorias no relato curto de uma vida inserida numa sociedade que assumiu estrutura independente do homem, de uma vida que se realizou no completo espelhamento com essa sociedade.[5]
Referências
- ↑ Machado de Assis: Histórias sem data. Publicado originalmente pela Editora Garnier, Rio de Janeiro, 1884.
- ↑ ASSIS, Machado de. Fulano. Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/fulano/29803 . Acesso em: 27 dez. 2025.
- ↑ Paulo Henrique Ferreira. «Fulanos Beltrões». Consultado em 5 de janeiro 2025
- ↑ DIAS, Rodrigo Cézar; SANSEVERINO, Antônio Marcos Vieira. Quando os fulanos se reúnem em um público: imprensa, publicidade e narrativas em Machado de Assis. Anais do SIHL / PUCRS, Porto Alegre, 2015. Disponível em: https://ebooks.pucrs.br/edipucrs/anais/sihl/assets/2015/65.pdf . Acesso em: 27 dez. 2025.
- ↑ FRAIETTA, Eugênia de Souza. O não-trabalho no arranjo narrativo dos contos de Machado de Assis. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2012. 152 f. (Dissertação de Mestrado). Disponível em: https://repositorio.bc.ufg.br/tede/items/31dfa0d4-4c3a-44f8-a726-a6af59eb1594/full . Acesso em: 27 dez. 2025.
