Literatura LGBT do Brasil






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| Parte da série sobre a |
| Diversidade sexual no Brasil |
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A literatura LGBT do Brasil, entendida como a literatura escrita por autores brasileiros que envolve tramas ou personagens que fazem parte ou se relacionam com a diversidade sexual, tem uma tradição que remonta ao século XVII, especificamente à obra do poeta Gregório de Matos, que ao longo de toda a sua vida escreveu uma série de poemas satíricos de carácter homossexual sobre os seus adversários políticos. As primeiras obras narrativas a fazerem referência à homossexualidade, surgiram quase dois séculos depois, nas décadas de 1870 e 1880, das mãos de escritores como Joaquim Manuel de Macedo, Aluísio Azevedo e Raul Pompeia.[1] As obras desses autores, em sua maioria enquadradas na tendência do naturalismo, apresentavam uma visão da homossexualidade baseada em concepções da época, sob um estereótipo negativo de desvio sexual.[2] Em meio a esse contexto, surgiu o romance "Bom-Crioulo" (1895), escrito por Adolfo Caminha e tradicionalmente apontado como o iniciador da literatura LGBT brasileira, além de ser considerado o primeiro romance LGBT da América Latina.[3] Embora também compartilhasse uma visão negativa da homossexualidade, foi a primeira obra a focar sua trama em um relacionamento entre pessoas do mesmo sexo.[4]
Visão geral
O início do século XX viu a entrada de autores como João do Rio, que abordava a diversidade sexual em algumas de suas histórias e que era conhecido por ser homossexual, e a publicação de obras como "Pílades e Orestes", uma história homoerótica de Machado de Assis, e "O menino do Gouveia" (1914), história anônima considerada a primeira obra pornográfica LGBT do Brasil. O romance "Vertigem" (1926), de Laura Villares, destaca-se por ser o primeiro a abordar o lesbianismo escrito por uma brasileira,[5] embora também tenha um olhar moralista e condenatório sobre a protagonista.[5][6]
Durante a era pós-Estado Novo, vários textos continuaram a apresentar temas LGBT de forma sutil. A obra paradigmática desta tendência foi "Frederico Paciência" (1947), um conto de Mário de Andrade sobre uma amizade masculina com conotações homoeróticas que, apesar de não explicitar a orientação sexual das personagens, foi um dos primeiros a evidenciar esta atração de forma positiva.[7][8] A década de 1950 foi caracterizada pela publicação de dois romances clássicos da literatura brasileira que incluíam subtramas LGBT: "Grande Sertão: Veredas" (1956), de João Guimarães Rosa, e "Crônica da casa assassinada" (1959) de Lúcio Cardoso.[9] Esses romances abordavam a diversidade sexual de forma marcadamente diferente das obras anteriores, em tramas que exploravam conceitos como espiritualidade, travestismo, metafísica e desejo proibido.[10]
Até a segunda metade do século XX, a literatura homossexual masculina brasileira, diferentemente da tradição anglo-saxônica, tinha entre suas características comuns a reprodução de papéis bem definidos nas relações que retratava, com a figura de um homem forte e de características masculinas e outro mostrado como fraco e submisso, num análogo dos papéis sociais da época presentes nas relações heterossexuais, como pode ser visto em "Bom-Crioulo".[11] Além disso, era comum que figuras homossexuais masculinas e femininas fossem retratadas de forma caricatural ou exótica.[12] Destaca-se também a figura do Carnaval brasileiro, que na ficção foi mostrado por diversos autores como um momento em que as pessoas podiam esconder suas identidades enquanto desfrutavam de maior liberdade sexual e praticavam atos geralmente considerados ilícitos.[13]
O período da ditadura militar brasileira é caracterizado pela forte censura exercida pelo regime, embora eventos como os motins de Stonewall e o nascimento do movimento LGBT internacional também tenham ajudado a iniciar um boom na publicação de obras LGBT.[4][14] A escritora mais importante desse período foi Cassandra Rios, que, apesar de ser alvo recorrente de censura pelas temáticas lésbicas de suas obras, tornou-se a escritora brasileira de maior sucesso de todos os tempos, com períodos em que atingiu vendas de 300 mil livros por ano,[4] embora, simultaneamente, tenha sido ignorada pela crítica.[15] Com o tempo, Rios passou a ser considerada a iniciadora da tradição literária lésbica brasileira. Outros notáveis autores de temática LGBT dos anos da ditadura, foram Gilberto Freyre e Aguinaldo Silva, este especialmente com o romance "Primeira carta aos andróginos" (1975).[4][16]
Também dessa época são as figuras de Caio Fernando Abreu, Silviano Santiago e João Silvério Trevisan, que iniciaram uma nova etapa na narrativa LGBT brasileira, influenciada pela literatura LGBT global. Abreu abordou a diversidade sexual e a homofobia desde sua primeira coletânea de contos e continuou a explorá-la nos anos posteriores, em contos como "Terça-feira gorda", de Morangos mofados (1982), que narra o encontro entre dois homens homossexuais durante o Carnaval do Brasil;[17] ou o romance Pela Noite (1983), talvez a primeira obra brasileira a abordar o HIV.[18] Destaca-se o romance Stella Manhattan (1985), de Silviano Santiago, um dos primeiros a ter uma personagem travesti como protagonista;[19] enquanto João Silvério Trevisan é reconhecido pelo romance Em nome do desejo (1983) e pela obra de não ficção Devassos no paraíso (1986).[11][20][12]
Da poesia do final do século XX podem ser citados autores como Francisco Bittencourt e Roberto Piva, que exploraram a homossexualidade e o corpo masculino em suas obras;[21] Waldo Motta, reconhecido por vincular questões relacionadas à diversidade sexual com motivos religiosos;[22] e os poetas Glauco Mattoso e Horácio Costa, com obras focadas na abordagem de práticas tabus e críticas à sociedade heteropatriarcal brasileira.[21]
As primeiras décadas do século XXI foram caracterizadas pela normalização e aumento da presença de protagonistas LGBT nas obras literárias brasileiras, muitos dos quais deixaram de ser apresentados com os estereótipos existentes em obras passadas.[23] Temas relacionados à diversidade sexual também começaram a aparecer. em obras de gêneros como histórico, policial, utópico,[24] e particularmente, na literatura juvenil.[25] Entre os autores de obras LGBT premiadas nas últimas décadas estão narradores como Santiago Nazarian, Natalia Borges Polesso, Tobias Carvalho e Cristina Judar.[24][26][27] Do lado da poesia, têm se destacado figuras como Angélica Freitas, Tatiana Nascimento e Ryane Leão.[14]
Histórico
Século XIX

A primeira referência conhecida à homossexualidade na ficção brasileira foi no romance "As mulheres de mantilha" (1870), de Joaquim Manuel de Macedo. Nesta obra, uma jovem chamada Inês se apaixona por uma visitante conhecida como Isidora, que é descrita como tendo traços tradicionalmente considerados masculinos.[28] No entanto, no final do romance, é revelado que Isidora era, na verdade, um homem que se disfarçou de mulher para evitar ser convocado para o exército, permitindo que os dois finalmente se casassem.[29] Embora a revelação final sugira uma intenção moralizadora, estudiosos modernos como Maria Cristina Ferraz afirmaram a natureza transgressiva da obra ao retratar inicialmente o desejo de Inês como lésbico.[29]
Em 1882, Aluísio Azevedo publicou o romance "A Condessa Vésper", que incluía uma personagem coadjuvante lésbica, embora a representação fosse negativa e a mulher parecesse ver sua orientação sexual como incompatível com sua própria humanidade, afirmando: "meu corpo hoje tem a forma primitiva de uma mulher, mas agora é habitado pela alma de um demônio unissexual que se sente enojado por carícias masculinas triviais".[12] Uma representação igualmente negativa apareceu no romance naturalista "Um homem gasto" (1885), publicado sob pseudônimo do médico e escritor Ferreira Leal e considerado a primeira obra narrativa brasileira a fazer referência à homossexualidade masculina. O enredo do romance, que gerou acirrado debate entre os críticos literários da época, segue a história de um homem chamado Alberto que viveu uma vida de excessos e perversões, incluindo a homossexualidade, um "erro nefasto" que começou a praticar na juventude. No final da obra, Alberto comete suicídio.[30]
Nos anos seguintes, surgiram obras como o romance "O Ateneu" (1888), de Raul Pompéia, também naturalista, que conta a história de um jovem em um internato masculino onde as relações homossexuais são comuns, em que "meninos tímidos e ingênuos" tornam-se "dominados, celebrados e pervertidos como meninas indefesas".[1][31] Em 1890, foi publicado "O cortiço", de Aluísio Azevedo. Além de apresentar Albino como um personagem masculino efeminado e um estereótipo do homossexual da época, retrata uma relação sexual entre duas mulheres. A cena, que foi criticada na época por "promover o lesbianismo", envolve uma virgem de 18 anos chamada Pombinha que é seduzida por uma prostituta chamada Léonie. Embora Pombinha inicialmente resista, ela posteriormente se rende ao prazer do ato sexual, como Azevedo revela em sua descrição do evento:[1][32]
| “ | Pombinha arfava, relutando; mas o atrito daquelas duas grossas pomas irrequietas sobre seu mesquinho peito de donzela impúbere e o rogar vertiginoso daqueles cabelos ásperos e crespos nas estações mais sensitivas da sua feminilidade, acabaram por foguear-lhe a pólvora do sangue, desertando-lhe a razão ao rebate dos sentidos. | ” |
Bom-Crioulo

Embora personagens LGBT secundários tenham aparecido nas obras citadas, a primeira obra brasileira cujo enredo central abordou diretamente uma relação homoafetiva foi Bom-Crioulo (1895), romance do autor aracatiense Adolfo Caminha, que, além de ser o iniciador da literatura LGBT no país, é frequentemente citado como o primeiro romance LGBT da América Latina. A obra, que também se insere na tradição do naturalismo, acompanha a história de um escravo fugitivo chamado Amaro, que se apaixona perdidamente por um rapaz loiro chamado Aleixo após ingressar na Marinha brasileira. Após um relacionamento amoroso no navio em que viajavam, os dois se mudam para o Rio de Janeiro, mas Amaro logo descobre que Aleixo o havia traído com uma mulher e, num acesso de ciúmes, o assassina.[33]
No romance, Caminha reproduz a homofobia da sociedade da época e aborda seus personagens sob o paradigma de um homem mais velho e viril, no caso Amaro, apaixonado por um rapaz com características tradicionalmente consideradas femininas que assume o papel passivo, papel cumprido por Aleixo.[33] Entretanto, apesar de ser narrada a partir da idiossincrasia da época, a obra também explora com linguagem direta a sensualidade e o desejo homoerótico entre ambas as personagens, algo inédito na literatura local da época, como pode ser observado no seguinte fragmento:[31]
| “ | Uma vez lado a lado com o grumete, sentindo-lhe o calor do corpo roliço, a branda tepidez daquela carne desejada e virgem de contatos impuros, um apetite selvagem cortou a palavra ao negro. A claridade não chegava sequer à meia distância do esconderijo onde eles tinham se refugiado. Não se viam um ao outro: sentiam-se, adivinhavam-se por baixo dos cobertores. Depois de um silêncio cauteloso e rápido, Bom-Crioulo, aconchegando-se ao grumete, disse-lhe qualquer cousa no ouvido. | ” |
Décadas após sua publicação, o romance foi proibido e retirado das bibliotecas, possivelmente devido ao seu tema, pelo governo do presidente Getúlio Vargas durante o Estado Novo. Permaneceu proibido por vários anos até ser relançado na década de 1980.[4]
Primeira metade do século XX
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Com a chegada do século XX, o escritor e cronista João do Rio estreou na literatura. Embora nunca tenha assumido publicamente sua orientação sexual, ela era amplamente conhecida, razão pela qual hoje ele é lembrado como o primeiro homossexual brasileiro a alcançar fama e prestígio.[34] A influência que o escritor irlandês Oscar Wilde exerceu sobre ele foi notável, e João do Rio o traduziu e emulou.[35] Sua primeira obra de ficção foi o conto "Impotência", publicado em 1899 no jornal A Cidade do Rio, quando o autor tinha 18 anos. A história explora a trajetória de um homem de 70 anos e seus desejos homossexuais não realizados.[36][37] João do Rio exploraria novamente temas homoeróticos em dois contos posteriores, "Ódio, ou Páginas de um diário" (1900), sobre um homem chamado Fábio que relembra a mistura de desejo e desprezo que sentiu por um vizinho durante anos,[13][36] e "O bebê da tarlatana rosa" (1908), onde a protagonista conhece um homem durante o Carnaval, mas ao tocá-lo descobre que ele é, na verdade, uma mulher travestida.[13]
Outras obras do início do século XX que são frequentemente notadas por seu caráter homoerótico incluem o conto "Pílades e Orestes", publicado por Machado de Assis em 1903 no Almanaque Brasileiro Garnier;[38] assim como alguns textos publicados na Rio Nu, revista masculina que frequentemente abordava temas sexuais tabus, como o capítulo intitulado "Extravagância" do folhetim A casadinha (1902), escrito sob o pseudônimo de Symphrônio Perillo, que conta a história de um homem que decide ter relações com um profissional do sexo chamado Oscar, e que na manhã seguinte dá pouca importância ao fato, afirmando que se tratou apenas de uma "extravagância".[35]
A revista Rio Nu também publicou o conto "O menino do Gouveia" (1914), escrito sob o pseudônimo de Capadócio Maluco, que é a mais antiga história brasileira pornográfica homossexual conhecida. O texto apresenta um homem que visita um prostituto passivo chamado Bembem, que lhe conta a história de sua vida e seu desejo sexual insaciável. Bembem, que assumiu sua orientação sexual após sentir-se atraído pelo tio, é descrito como tendo características femininas e é apresentado como incapaz de sentir qualquer tipo de prazer sexual além daquele que recebe durante o sexo anal.[39] Embora fique claro que o objetivo do autor era gerar excitação no leitor e não um propósito estético, a história se destaca pela descrição do ambiente em que ocorriam os encontros sexuais entre homens no Rio de Janeiro da época.[40]
A homossexualidade assume um tom mais negativo no romance "Serafim Ponte Grande" (1933), de Oswald de Andrade, obra em que o protagonista é um mulherengo que, por vezes, vivencia desejos homoeróticos, que o romance trata de forma cômica e que ele vê como uma doença: "Vem-me à cabeça a toda hora, uma ideia idiota e absurda. Enrabar o Pinto Calçudo. Cheguei a ficar com o pau duro. Preciso consultar um médico!" A obra também mostra um casal de lésbicas, uma das quais Serafim seduz, com a ideia de que nem uma lésbica resistiria aos seus encantos.[41]
Outra representação negativa aparece em "Vertigem" (1926), de Laura Villares, considerado o primeiro romance escrito por uma mulher brasileira a incluir uma representação do lesbianismo.[5][4] A obra, ignorada por décadas e resgatada pelo crítico Luiz Mott em "O lesbianismo no Brasil" (1987), utiliza elementos da corrente naturalista do século passado para contar a história de Luz, uma jovem que viaja do interior para São Paulo e se prostitui. "Vertigem" tem uma marcada carga moralista e apresenta uma visão antipática da sociedade paulistana, que Villares caracteriza como lasciva e imoral, sendo o motivo que leva Luz à prostituição. Os elementos lésbicos, apresentados de forma sutil, estão presentes na amizade entre Luz e Liliane, a prostituta que a treina na arte do sexo. O desejo erótico entre as duas é até mesmo reconhecido por outras personagens, embora nunca seja consumado. Essa atração pode ser percebida no trecho a seguir, em que Liliane ajuda Luz a se preparar para um de seus clientes:[6]
| “ | E lentamente esfregou-lhe as costas, o pescoço, o peito, demorando a mão onde a pele era mais quente e macia.
- És em verdade linda, Luz. Que braços de estátua! E os seios? Usas corpinho. Que loucura! Porque apertar estes lindos seios assim? Tire este corpinho... deixe que se veja, como são bem feitos e rijos! |
” |
A ditadura de Getúlio Vargas, ocorrida entre 1937 e 1945, foi caracterizada por um alto nível de censura e perseguição a obras consideradas transgressoras. Isso afetou livros com referências homoeróticas, embora duas obras notáveis sobre o tema tenham sido publicadas nesse período. A primeira foi Mundos mortos (1936), de Octávio de Faria,[4] romance que se passa em uma escola religiosa e cujos arcos narrativos mais importantes incluem a paixão de um adolescente chamado Roberto Dutra por outro chamado Carlos Eduardo, fato que causa consternação nos padres da escola, que descrevem o amor de Roberto pelo colega como "perversão", "monstruosidade" e "impureza".[42] No ano seguinte, foi a vez de Jorge Amado escrever "Capitães da areia" (1937), que gira em torno de uma gangue de jovens criminosos de classe baixa, muitos deles com tendências homossexuais. Devido ao seu tema, mais de 800 cópias do romance foram queimadas após sua publicação.[4]

Um fator influente tanto nas atitudes sociais em relação à diversidade sexual quanto nas representações literárias de personagens LGBT em obras locais, foi a natureza patriarcal e conservadora da sociedade brasileira. Como resultado, diversas obras do século XX com enredos LGBT incluíam o tema apenas de forma sugestiva. Isto pode ser verificado, por exemplo, no já referido "Pílades e Orestes" (1903),[38] bem como no texto paradigmático desta tendência, "Frederico Paciência", conto de Mário de Andrade publicado no seu livro póstumo Contos novos (1947). Na história, um homem chamado Juca se lembra de seu colega de classe Frederico, com quem compartilhou uma grande amizade e carinho durante os anos de escola. Isso fez com que os demais colegas começassem a atacá-lo verbalmente e a acusá-lo de homossexualidade. Embora nenhum dos dois aceite que o que sentem seja mais do que amizade, o texto mostra que o carinho deles vai além disso, como revela o seguinte fragmento:[43]
| “ | Sentei na borda da cama, como que pra tomar conta dele, e olhei o meu amigo. Ele tinha o rosto iluminado por uma frincha de janela vespertina. Estava tão lindo que o contemplei embevecido.(...) Com os lábios se movendo rubros, naquele ondular de fala propositalmente fatigada. Eu olhava só. Frederico Paciência percebeu, parou de falar de repente, me olhando muito também. Percebi o mutismo dele, entendi por que era, mas não podia, custei a retirar os olhos daquela boca tão linda. E quando os nossos olhos se encontraram, quase assustei porque Frederico Paciência me olhava, também como eu estava, com olhos de desespero, inteiramente confessado. | ” |
Embora os personagens não assumam sua orientação sexual, "Frederico Paciência" é lembrado como um dos primeiros textos em que uma relação homossexual não é narrada de forma negativa e que foca no afeto entre os personagens. Segundo o acadêmico Luiz Fernando Lima Braga, a história também traz vislumbres da vida do próprio autor, cuja homossexualidade era conhecida, embora não a admitisse publicamente.[8]
A primeira metade do século XX culminou com a publicação da obra de temática lésbica Volúpia do pecado (1948), o romance de estreia de Cassandra Rios, que rapidamente lhe trouxe fama. Nas décadas seguintes, Rios tornou-se uma das autoras brasileiras de maior sucesso de todos os tempos e a primeira a atingir um milhão de exemplares vendidos (entre escritores e escritoras). Essas obras continuaram a explorar a vida de protagonistas lésbicas, embora ela também tenha explorado relacionamentos heterossexuais em vários de seus romances. Devido aos temas recorrentes em sua obra, incluindo violência e sadomasoquismo, durante décadas sua literatura foi considerada pornográfica,[4] além de ignorada pela crítica.[15] Com o passar dos anos, Rios passou a ser considerada a iniciadora da tradição da literatura lésbica brasileira.[44]
Segunda metade do século XX
Em 1951, o escritor Paulo Hecker Filho publicou o romance Internato, que, embora tematizado com obras como O Ateneu (1888) e Mundos Mortos (1936), por se passar em um internato, foi o primeiro a apresentar a homossexualidade entre adolescentes do sexo masculino de forma muito mais explícita. No romance, um jovem de feições delicadas chamado Jorge se vê profundamente apaixonado por um companheiro musculoso e promíscuo chamado Eli, a quem o narrador descreve como um protótipo da imagem tradicional de masculinidade, um "ideal de Miguel Ângelo" com um "tronco poderoso, (...) nádegas rijas e coxas grossas de atleta". A obra descreve em detalhes um ambiente escolar em que as relações homossexuais eram comuns entre os adolescentes, embora apenas os meninos que assumiam o papel passivo fossem considerados homossexuais, enquanto os ativos, que se relacionavam tanto com homens quanto com mulheres, entre os quais estava Eli, eram considerados modelos masculinos:[45]
| “ | (...) era o predileto sem rival dos pederastas. Em boa parte por ter sido ele que deflorara a maioria deles, e os amantes, de qualquer sexo, sempre guardam fidelidade ao primeiro parceiro. A aparência simpática e mesmo bela que possuía, auxiliava-o nas conquistas, que não se limitavam aliás ao colégio, tendo, segundo ele próprio afirmava, desvirginado mais de uma moça, executando com outras atos de onanismo e cópulas sem imissão. | ” |
A exploração da sexualidade feminina foi abordada pela primeira vez em 1954 pela escritora Lygia Fagundes Telles em seu romance Ciranda de Pedra. Nesta obra, Fagundes apresenta Virgínia, uma jovem que, após ser rejeitada por um homem, começa a explorar sua sexualidade com a amiga Letícia, que se sente atraída pela protagonista. Após ceder à sedução de Letícia e experimentar com ela, Virgínia decide buscar novamente o afeto masculino. Nas décadas seguintes, Fagundes continuou a explorar temas LGBT femininos, como, por exemplo, em seu conto "Uma branca sombra pálida" (1995).[46]
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A década de 1950 também é notável pela publicação dos romances Grande Sertão: Veredas (1956), de João Guimarães Rosa, e Crônica da casa assassinada (1959), de Lúcio Cardoso, duas obras clássicas da literatura brasileira que incluíam subtramas LGBT com personagens marcadamente diferentes daqueles presentes em obras anteriores e onde o homoerotismo assumia traços espirituais.[10] O romance de Guimarães Rosa narra em primeira pessoa a vida aventureira do jagunço Riobaldo. Nele, um papel de destaque é desempenhado por Diadorim, um rapaz que se junta ao protagonista e por quem este começa a sentir uma forte atração a ponto de "cobiçasse de comer e beber os sobejos dele, queria pôr a mão onde ele tinha pegado".[10] Em meio aos temas metafísicos explorados no romance, Diadorim passa a representar para Riobaldo uma constante dualidade de conceitos em que a sexualidade lhe é apresentada como um enigma, com o ideal masculino esperado dos jagunços de um lado e o desejo proibido por Diadorim de outro. Somente no final do romance, quando Diadorim morre, Riobaldo aceita o amor que sentia por ele, momentos antes de descobrir que seu amado tinha um corpo feminino.[47]
Em Crônica da casa assassinada, a diversidade sexual é expressa por meio da transgressão do personagem Timóteo, que se veste com roupas femininas e afirma estar possuído pelo espírito de um ancestral rebelde de sua família. As ações do personagem, que mancham o orgulho de sua família e expõem suas atitudes hipócritas, são descritas por ele como uma forma de denúncia das expectativas restritivas da sociedade:[10]
| “ | (...) houve tempo em que achei que devia seguir o caminho de todo o mundo.(...) Apertava-me em gravatas, exercitava-me em conversas banais, imaginava-me igual aos outros. Até o dia em que senti que não me era possível continuar: por que seguir leis comuns se eu não era comum, por que fingir-me igual aos outros, se era totalmente diferente? Ah, Betty, não veja em mim, nas minhas roupas, senão uma alegoria: quero erguer para os outros uma imagem da coragem que não tive.(...) Mas um dia, está ouvindo? -- um dia eu me libertarei do medo que me retém, e mostrarei a eles, ao mundo, quem na verdade eu sou. | ” |
Do lado do conto, entre as histórias reconhecidas da década de 1950, estavam relatos como "O iniciado do vento" (1956), de Aníbal Machado, e "A paixão segundo João" (1959), de Dalton Trevisan.[48]
A época da ditadura militar no Brasil coincidiu com eventos internacionais como a Revolta de Stonewall e a ascensão do movimento LGBT, eventos que influenciaram fortemente a cultura local e a visibilidade da população LGBT. Como resultado, apesar da censura e da ameaça de exílio, a literatura brasileira viu um boom de obras que começaram a apresentar uma visão mais positiva e solidária da diversidade sexual. Exemplos disso são algumas obras dramáticas de Nelson Rodrigues, a antologia de contos LGBT "Histórias do amor maldito" (1967), editada por Gasparino Damata, ou a coletânea de contos "A meta" (1976), de Darcy Penteado. Na novela, destaca-se o sociólogo Gilberto Freyre, com obras como "Dona Sinhá e o filho padre" (1964) e "O outro amor do Dr. Paulo" (1977); o romance "João Ternura" (1965), de Aníbal Machado;[20] e "Passagem para o próximo sonho" (1982), autobiografia de Herbert Daniel sobre sua passagem por um grupo guerrilheiro e seu exílio em Paris.[4]
De particular impacto também foi o romance "Primeira carta aos andróginos" (1975), de Aguinaldo Silva, inspirado em aspectos da vida do próprio autor e que conta a história de um narrador homossexual que se envolve no universo da prostituição masculina adolescente. De natureza experimental e com múltiplas metáforas sobre a situação da população LGBTQIA+ após a chegada da liberação sexual ao país, o romance toma seu título da Primeira Epístola aos Coríntios e emprega um estilo semelhante em algumas seções. Embora a carta de Paulo de Tarso estabeleça uma série de mandamentos morais, o romance de Silva usa esse estilo para fornecer uma perspectiva educativa sobre sexualidade.[49]

Entre as décadas de 1960 e 1980, Cassandra Rios atingiu seu auge, com vendas atingindo 300.000 exemplares por ano.[4] No entanto, suas personagens lésbicas a tornaram vítima recorrente da censura da ditadura, que proibiu pelo menos 36 dos cerca de 50 livros que ela publicou até o fim do regime. Sobre a censura sofrida por sua obra, Rios declarou em uma entrevista: "se o homem escreve, ele é sábio, experiente. Se a mulher escreve, é ninfomaníaca, uma tarada". A obra de Rios nesse período inclui contos como "Eu sou uma lésbica" (1980), que acompanha uma mulher lésbica chamada Flávia enquanto ela relembra sua primeira paixão na infância por uma vizinha chamada Kênia, e os relacionamentos que teve com mulheres na vida adulta. Embora Flávia inicialmente compartilhe algumas das crenças sociais conservadoras sobre sua orientação sexual, ao longo da obra sua perspectiva evolui e ela passa a perceber sua sexualidade como parte natural e fundamental de sua identidade como indivíduo, adotando assim uma visão mais positiva de sua vida. Essa postura autoafirmativa, que ainda era pouco comum na narrativa LGBT brasileira, é expressa pela protagonista com o seguinte comentário que faz sobre si mesma:[50]
| “ | O que eu quero afirmar é que em mim tudo é natural, consciente, vivo, espontâneo. Sou definida, autêntica, honesta, mas um tanto covarde, ainda. | ” |
Nessa época, também emergiu a figura de Caio Fernando Abreu,[16] que, juntamente com Silviano Santiago e João Silvério Trevisan, inaugurou uma nova etapa na narrativa LGBT brasileira, influenciada pela literatura LGBT global.[4] A partir de sua primeira obra, a coletânea de contos Inventário do Irremediável (1970), Abreu passou a explorar diferentes aspectos da diversidade sexual e da homofobia da época. Em "Madrugada", dois homens se encontram em um bar e iniciam uma conversa que os leva a se identificarem cada vez mais. A conexão entre os dois desperta homofobia no restante da plateia, levando-os a serem expulsos do bar. No final da história, ambos decidem seguir caminhos separados.[51] O conto "O Ovo", por outro lado, acompanha um homem que, após ser abandonado pela noiva, decide seduzir um sargento efeminado como forma de vingança contra o sistema que o soldado representa. Após conseguir fazer sexo com ele, onde o protagonista assume o papel ativo, a homofobia interna leva o sargento ao suicídio.[2]
De Morangos mofados (1982), considerada a obra-prima de Abreu, podemos citar contos como "Aqueles dois", que, assim como os contos anteriores, é marcado pela homofobia. A história acompanha dois trabalhadores que se tornam amigos e descobrem cada vez mais semelhanças, aproximando-se cada vez mais. No entanto, o chefe de ambos ouve rumores de que o relacionamento deles se tornara uma "aberração descarada" e os demite.[52] Um final semelhante ocorre em "Terça-feira gorda", que conta a história de dois homens que se conhecem no Carnaval brasileiro, ao qual comparecem sem máscaras, e começam a dançar juntos e depois se beijam, recebendo uma série de insultos homofóbicos dos homens mascarados.[53] A história, diferentemente de outras de Abreu, destaca-se pela narrativa em primeira pessoa, que expressa seus desejos homoeróticos abertamente e sem qualquer culpa. O momento em que os dois personagens se encontram é narrado nos seguintes termos:[17]
| “ | Na minha frente, ficamos nos olhando. Eu também dançava agora, acompanhando o movimento dele. Assim: quadris, coxas, pés, onda que desce, olhar para baixo, voltando pela cintura até os ombros, onda que sobe, então sacudir os cabelos molhados, levantar a cabeça e encarar sorrindo. Ele encostou o peito suado no meu. Tínhamos pelos, os dois. Os pelos molhados se misturavam. Ele estendeu a mão aberta, passou no meu rosto, falou qualquer coisa. O quê, perguntei. Você é gostoso, ele disse. E não parecia bicha nem nada: apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o meu, que por acaso era de homem também. | ” |
Da obra do escritor e crítico literário Silviano Santiago, destacam-se romances como Stella Manhattan (1985), um dos primeiros a trazer uma personagem travesti como protagonista,[19] e Uma história de família (1993). João Silvério Trevisan, mais conhecido pelo livro de não ficção Devassos no Paraíso (1986), considerado uma obra fundamental sobre a história da homossexualidade no Brasil, é autor de obras narrativas como Em nome do desejo (1983), romance que conta a história de dois seminaristas que se apaixonam e precisam enfrentar a repressão que encontram por causa do relacionamento. Embora os protagonistas da obra continuem a exibir estereótipos físicos, com um dos homens retratado como delicado e o outro como musculoso, o romance de Trevisan simultaneamente descontrói várias das concepções de masculinidade da época.[11]
Outro autor que se destacou nos últimos anos do século XX foi João Gilberto Noll, que desde sua primeira obra, O cego e a dançarina (1980), incluiu temas LGBT e que continuaria a abordar o tema com mais destaque em romances como A céu aberto (1996), Berkeley em Bellagio (2002) e Lorde (2004).[54] Merecem destaque também a novela Pela noite (1983), escrita por Caio Fernando Abreu e que, segundo o professor Marcelo Secron Bessa, foi provavelmente a primeira obra literária brasileira a abordar o HIV;[18] Duas iguais (1998), de Cíntia Moscovich,[55] uma história de amor entre duas moças que quebrou muitos dos estereótipos das obras lésbicas comuns até hoje;[12] O terceiro travesseiro (1998), romance de Nelson Luiz de Carvalho sobre a descoberta sexual de um adolescente gay chamado Marcus, que se tornou um best-seller;[56] e Cinema Orly (1999), de Luís Capucho, que narra em linguagem crua a vida de um homem entre seus dias de trabalho e os encontros sexuais casuais que tem com outros homens durante as noites no cinema, e que Capucho usa para questionar os estereótipos binários da diversidade sexual e explorar a marginalização a que as pessoas LGBT são submetidas.[57]
Século XXI
Os primeiros anos do século XXI testemunharam um aumento considerável no número de obras narrativas publicadas no Brasil com temas relacionados à diversidade sexual. Entre elas, personagens LGBT, a maioria das quais rompia com os estereótipos vigentes até o século anterior.[23] O crítico Antônio de Pádua da Silva destaca romances como Olívio (2003) e O Prédio, o Tédio e o Menino Cego (2009),[57] de Santiago Nazarian (escolhido em 2007 como um dos 39 melhores escritores latino-americanos com menos de 39 anos pela Bogotá39);[58] assim como Rato (2007), de Luís Capucho, que, assim como Cinema Orly, aborda o universo homossexual suburbano e a cultura do sexo casual e da marginalidade, embora com uma linguagem mais poética e elaborada do que em seu romance anterior:[57]
| “ | Pulo o muro do Alistamento Militar e o encontro na varanda. Nos abraçamos. É aconchegante seu cheiro. Minha língua, como uma esponja encharcada, lambe o sal do seu rosto de barba feita. Beijo sua boca quente e gostosa. Ele, enquanto me beija, aperta minha bunda com as mãos. Me vira de costas, continua, estou de quatro, continua, estou deitado de barriga para baixo, continua, befeja em minha nuca, continua, continua, ai, ai. | ” |

Durante a década de 2010, diversas obras LGBTQIA+ foram publicadas e reconhecidas com prêmios literários.[26] Entre elas, obras como o romance Todos nós adorávamos caubóis (2013), de Carol Bensimon, que conta a história de amor de duas mulheres, Júlia e Cora, que decidem embarcar em uma viagem planejada desde a adolescência; ou a coletânea de contos Amora (2015),[26] da escritora Natalia Borges Polesso, que reúne 33 contos com protagonistas lésbicas e que ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura em 2016.[59]
O ano de 2016, em particular,[24] viu o surgimento de uma onda de romances notáveis com protagonistas LGBT, que transcenderam seus círculos de leitura tradicionais. Entre eles estava Homens elegantes, de Samir Machado de Machado, um romance histórico ambientado no século XVIII, que acompanha um fiscal de alfândega investigando o contrabando de um livro obsceno para o Brasil (e que nomeia o principal vilão como Conde de Bolsonaro).[60] O Amor dos Homens Avulsos, de Victor Heringer,[23] esteve entre os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura,[27] com a história de um homem branco que, na adolescência, teve um caso amoroso com um rapaz mulato, posteriormente assassinado, e que agora acolhe em sua casa o neto do assassino de seu antigo amante da juventude.[24] Também de 2016 foram Simpatia pelo demônio, de Bernardo Carvalho, e Meia-noite e vinte, de Daniel Galera.[23]
Outras obras LGBT notáveis da década de 2010 incluíram os romances Pai, pai (2017) de João Silvério Trevisan, finalista do Prêmio Jabuti de Literatura;[61] e Cloro (2018) de Alexandre Vidal Porto; além das coletâneas de contos Todo esse amor que inventamos para nós (2019), de Raimundo Neto, vencedor do Prêmio Paraná de Literatura; e As coisas (2018) de Tobias Carvalho,[24] que ganhou o Prêmio Sesc de Literatura entre 720 obras participantes, e que retrata diferentes facetas da vida de homens gays.[62] Carvalho continuou a abordar temas LGBT em obras posteriores, como o romance Quarto aberto (2023), que explora relacionamentos abertos em casais homossexuais.[63]
Do lado da literatura lésbica, entre as obras notáveis dos últimos anos está Oito do Sete (2017), romance de Cris Judar que ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura e que tem como protagonistas um casal de mulheres numa narrativa que adquire elementos alegóricos.[24] Também merecem destaque o romance Elas marchavam sob o sol (2021), da mesma Judar, e A extinção das abelhas (2021), de Natalia Borges Polesso.[64]
A escritora e política Atena Beauvoir, por sua vez, é reconhecida por abordar em seus escritos diferentes facetas da vida de pessoas transgênero no Brasil contemporâneo, com obras como as coletâneas de contos Contos Transantropológicos (2018) e A Segunda Humanidade (2022).[65][66]
Poesia
Antes do século XIX

As primeiras alusões à homossexualidade, tanto na poesia como na literatura brasileira em geral, ocorreram na obra do poeta Gregório de Matos (1636-1696), que no final do século XVII escreveu uma série de poemas satíricos nos quais descrevia atos homossexuais supostamente cometidos por seus adversários políticos, como forma de desacreditá-los. Entre eles está "Marinícolas", poema cujo título, segundo João Silvério Trevisan, mistura o nome Nicolau com o termo "maricas". No poema, Matos descreve um homem que herda o "humor meretriz" de mulheres, prefere "olhar para as calças" e numa cena quase é descoberto enquanto mantém relações sexuais com um homem quando este estava "com a boca na botija".[67]
Uma das figuras mais atacadas por Matos foi Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho, então Governador Geral do Brasil e que protagoniza pelo menos cinco de seus poemas com alusões homossexuais. Retratam Câmara Coutinho como um homossexual hipócrita que se apresenta como religioso e descreve as suas alegadas relações com outros homens como pecados contra a natureza. Um exemplo dessa abordagem pode ser visto no poema "Apologia cavilosa em defensa do mesmo governador Antônio Luís", onde Matos o repreende:[68]
Mandou-vos acaso El-Rei
com as fêmeas não dormir,
senão com vosso criado,
que é bomba dos vossos rins?
[...]
Mandou-vos El-Rei acaso
a Sodoma, ou ao Brasil?
A homossexualidade feminina também é abordada por Matos, como mostra seu poema "A uma dama que macheava outras mulheres",[70] apontado por figuras como o historiador Luiz Mott como o mais antigo poema lésbico conhecido na América.[71] Nele, Matos fala sobre uma mulher chamada Nise que "não se entrega a nenhum homem" e toma a "toda mulher". No entanto, tal como nos seus poemas sobre a homossexualidade masculina, Matos expressa uma opinião marcadamente negativa em relação às relações entre casais do mesmo sexo e compara-as constantemente a atos animais e pecaminosos, nascidos de vícios, com a intenção de difamar as pessoas a que se refere.[68][70]
Século XIX
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No século XIX, destaca-se a figura do poeta romântico Álvares de Azevedo, que escreveu alguns poemas que autores como João Silvério Trevisan apontaram como homoeróticos e que,[4] pouco antes de morrer aos 21 anos, deixou uma carta a um amigo chamado Luís, que tem sido interpretada em leituras contemporâneas como amorosa, na qual lhe disse: "Luis, há algo no meu coração que me diz que talvez tudo tenha acabado entre nós (...) Luis, é meu destino ter amado muito e ninguém ter me amado. Assim como eu te amo, ame-me".[16]
Motivos homoeróticos também foram identificados em poemas da escritora afro-brasileira Maria Firmina dos Reis, publicados em sua obra Cantos à beira-mar (1871),[72] considerada o primeiro livro de poesia publicado por uma mulher no país. Um exemplo é o poema "A minha carinhosa amiga Exma. Srª. D. Inez Estelina Cordeiro", no qual Reis descreve uma de suas amigas em linguagem sensual e a compara à deusa romana Diana, além de descrevê-la como independente, com sorriso de arcanjo e beleza celestial; todas essas imagens análogas às utilizadas pelos poetas homens da época em poemas de amor dedicados a mulheres. Referências à atração lésbica também podem ser encontradas no poema "Ela", onde Reis descreve apaixonadamente uma mulher, usando adjetivos para destacar sua beleza e sem ousar pronunciar seu nome, como pode ser visto em sua primeira estrofe:[73]
Ela! Quanto é bela, essa donzela,
A quem tenho rendido o coração!
A quem voltei minh’alma,
a quem meu peito num êxtase de amor vive sujeito...
Seu nome!...não – meus lábios não dirão.
Outros autores que publicaram poemas com temas LGBT durante o século XIX foram Laurindo Rabelo e o religioso Junqueira Freire.[74] Este último, que entrou para um mosteiro aos 19 anos, desenvolveu uma obra poética marcada por sentimentos de culpa, desejo reprimido e ansiedade em relação ao seu voto de celibato. Seu poema "A um moçoilo" destaca-se pela explicitude quanto ao gênero do interlocutor masculino, bem como por apresentar o desejo sem o peso moralista e religioso, algo incomum na poesia da época. Essa característica pode ser apreciada nos seguintes versos:[75]
Eu que te amo deveras
A quem tu, louro moçoilo,
Me fazes chiar e amolas,
Qual canivete em rebolo;
Eu que, qual anjo, te adoro,
então, menino, eu sou tolo?
Século XX
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Durante o período do modernismo brasileiro, uma das figuras mais proeminentes foi o poeta e romancista Mário de Andrade. Devido à sua orientação sexual, que Andrade não confirmou pessoalmente, mas que era de conhecimento público, foi ridicularizado pelos demais integrantes do movimento, principalmente por Oswald de Andrade, que se referiu a Mário como "nossa Miss São Paulo traduzida para o masculino".[4] A homossexualidade do escritor só seria confirmada em 2015, quando foi publicada uma carta de 1928 na qual ele a admitia.[76] Embora as leituras tradicionalmente homoeróticas de suas obras tenham sido pouco exploradas, o tema pode ser identificado em poemas como "Cabo Machado" (1926), onde expressa:[43]
Cabo Machado é cor de jambo.
Pequenino que nem todo brasileiro que se preza.
Cabo Machado é moço bem bonito.
É como si a madrugada andasse na minha frente.
Entreabre a boca encarnada num sorriso perpétuo
Adonde alumia o Sol de oiro, dos dentes
Obturados com um luxo oriental.
Durante a segunda metade do século, a poesia brasileira começou a abordar uma ampla gama de temas LGBT, incluindo denúncias de homofobia, prostituição masculina, desejo aberto pelo mesmo sexo, BDSM e HIV. Francisco Bittencourt, que na década de 1970 foi um dos fundadores do jornal gay Lampião da Esquina, explorou a homossexualidade em poemas como "O ritmo", em que compara a musicalidade da poesia com o ritmo dos movimentos numa relação sexual entre dois homens. O papel do ânus como espaço de prazer heterossexual e homossexual, por sua vez, foi discutido por Roberto Piva.[21]
Embora seu trabalho fosse voltado principalmente para a narrativa, Cassandra Rios também incluiu temas LGBT em sua poesia, como é o caso da coletânea de poemas Minha Metempsicose (1964),[78] bem como Canção das Ninfas (1971). Devido ao conteúdo do seu poema "Prisão da Liberdade", Rios chegou a ser detida pela polícia.[79] Outras escritoras representativas do tema foram Hilda Hilst (apesar de não pertencer à diversidade sexual),[80] que escreveu poemas com personagens LGBT em mundos de contos de fadas, entre eles um jovem rei gay, um anão bissexual e uma fada lésbica;[21] e Ana Cristina César, considerada um ícone da poesia marginal e que focou sua poesia na sexualidade e no prazer feminino.[14]

O poeta Waldo Motta, que começou a publicar poesia LGBT explícita desde o início dos anos 1980,[22] destaca-se por expressar motivos homoeróticos por meio da dessacralização de imagens bíblicas.[21] Isso ocorre com destaque em sua coletânea de poemas Bundo e outros poemas (1996), obra que o tornou conhecido nacionalmente.[22] No poema "Exortação", por exemplo, Motta eleva o ânus à categoria de santo e incita os neófitos a adorá-lo para alcançar "prodígios e encantos". Já o "Encantamento" é apresentado como uma espécie de oração a um deus em forma de falo (descrito com o neologismo "serpentecostal") e que vive entre as nádegas da voz poética, que são descritas como montanhas e repositórios de prazeres intensos:[81]
Ó Deus serpentecostal
que habitais os montes gêmeos
e fizeste do meu cu
o trono do vosso reino,
santo, santo, santo espírito
que, em amor, nos forjais,
felai-me com vossas línguas,
atiçai-me o vosso fogo,
dai-me as graças do gozo
das delícias que guardais
no paraíso do corpo
Entre os autores que iniciaram sua carreira literária no século 20, mas que continuaram a publicar no século seguinte, estão personalidades como Glauco Mattoso, poeta gay cego que abordou explicitamente os tabus em torno da sexualidade diversa em sua obra, além de Horácio Costa, que em poemas como "Êxtase" fala sobre práticas como o fisting e ao mesmo tempo questiona sarcasticamente o falocentrismo da sociedade brasileira.[21]
Século XXI

Uma das vozes mais proeminentes da poesia LGBT brasileira nas primeiras décadas do século XXI foi a da escritora Angélica Freitas, autora da coletânea de poemas Um útero é do tamanho de um punho (2012). A obra, que a autora definiu como "um livro sobre mulheres escrito por uma mulher lésbica", gerou controvérsia em 2019 depois que um deputado evangélico de Santa Catarina apresentou uma moção de repúdio contra o livro devido ao seu tema e ao fato de ser uma das leituras obrigatórias para o vestibular.[82][83]
A obra de Horácio Costa continuou a se destacar na poesia LGBT durante esses anos e alcançou maior aclamação da crítica, particularmente após a publicação de Ravenalas (2008) e, posteriormente, de A hora e vez de Candy Darling (2016), obras nas quais o ativismo LGBT desempenha um papel central.[84] Desta última coletânea vem, por exemplo, o poema "Ayers Rock ou A Ocupação Política do Cartão Postal", que começa com uma referência às protagonistas drag queens do filme The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert (1994) e, em seguida, convoca uma mobilização de drag queens brasileiras para uma ocupação política do monumento do Cristo Redentor.[85]
Outras vozes poéticas de destaque que surgiram na década de 2010, incluem Tatiana Nascimento, cujo trabalho explora o conceito de "cuírlombismo" (uma combinação de queer e quilombo) e cuja coleção de poesia lundu (2016) foi selecionada como um dos melhores livros do projeto Leia Mulheres,[86][87] e Ryane Leão, que ganhou significativa popularidade nas redes sociais, e cujo livro Tudo nela brilha e queima (2017) tornou-se um best-seller.[14] Destacam-se também Rafael João,[24] Nívea Sabino,[74] Luciany Aparecida, Cidinha da Silva e Simone Brantes.[88]
Em 2017, as autoras Amanda Machado e Marina Moura publicaram a coletânea Poesia Gay Brasileira, considerada a primeira antologia de poesia homossexual do país, que reuniu obras de 44 autores que escreveram entre os séculos XIX e XXI.[21][80][89]
Literatura juvenil

A partir da década de 2010, a popularidade da literatura juvenil LGBT começou a crescer notavelmente no Brasil, primeiro com traduções de obras de autores como o estadunidense David Levithan, e depois com o surgimento de obras de autores locais, incluindo Karina Dias e Rafaella Vieira.[25]
Em 2017, foi publicado Quinze dias, de Vitor Martins, enquanto em 2018 foi publicado Você tem a vida inteira, de Lucas Rocha, ambos romances LGBT para jovens adultos que alcançaram sucesso local e foram traduzidos para o inglês,[90] o que lhes permitiu ganhar conjuntamente o prêmio de melhor obra traduzida de literatura para jovens adultos da Global Literature in Libraries Initiative em 2021.[91] Nos anos seguintes, Martins continuou publicando romances do gênero que alcançaram grande popularidade.[92] Outros autores brasileiros contemporâneos de literatura jovem LGBT incluem Eric Novello, Elayne Baeta e Felipe Cabral.[93]
Ver também
Referências
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- Este artigo foi inicialmente traduzido, total ou parcialmente, do artigo da Wikipédia em castelhano cujo título é «Literatura LGBT de Brasil».
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