História da Marinha do Brasil

Batalha do Riachuelo, na Guerra do Paraguai (1865)

A história da Marinha do Brasil começa com a adesão de segmentos da Marinha Portuguesa ao Brasil recém-independente em 1822. A Armada Imperial foi crucial para a consolidação do Império Brasileiro e suas campanhas contra países vizinhos na região do Prata, numa época em que a infraestrutura terrestre era mínima. A principal influência externa era a Marinha Real britânica. Ao final da Guerra do Paraguai em 1870, o Brasil era o quinto país do mundo em número de navios, embora esta força fosse principalmente fluvial. A construção naval era significativa, mas não conseguiu acompanhar os avanços tecnológicos. A Proclamação da República e as Revoltas da Armada deram a primazia política ao Exército, e a Marinha entrava no século XX em decadência.

Em 1910, a incorporação pelo Brasil de dois poderosos dreadnoughts e outros navios encomendados na Grã-Bretanha deflagrou uma corrida armamentista naval com a sua principal rival, a Armada Argentina, e a outra potência regional, a Armada Chilena. A dependência externa para a manutenção não permitiu o pleno aproveitamento dos novos navios, e o abismo social entre oficiais e praças resultou na Revolta da Chibata. O Brasil entrou em ambas guerras mundiais após ataques de submarinos alemães à sua marinha mercante. Em ambas havia basicamente a esquadra de 1910 (embora a construção naval começasse a recuperar no programa naval de 1932). As forças em operação subordinaram-se a outras potências atlânticas, primeiro à Grã-Bretanha e depois aos Estados Unidos. Uma missão naval americana, contratada em 1922, e a experiência compartilhada na Segunda Guerra colocaram os EUA como principal influência externa.

A Marinha no início da Guerra Fria era uma força equipada com excedentes da Marinha dos Estados Unidos e voltada a uma hipotética campanha antissubmarino contra a Marinha Soviética. Surgiam um porta-aviões (o Minas Gerais), embora desprovido de aeronaves de ataque, e capacidades anfíbias para o Corpo de Fuzileiros Navais. A questão social na hierarquia foi a base de outra Revolta dos Marinheiros em 1964, um fator imediato no golpe militar no mesmo ano. Os programas navais de 1967 e 1977 representavam um movimento por maior autonomia, num ciclo de expansão que culminava em 1980.

No final do século XX, ameaças tradicionais desapareciam e novos compromissos foram assumidos na Antártica, África e com a própria Argentina. Mas a conjuntura político-econômica desacelerou os projetos até 2009. Sob o otimismo com os recursos da plataforma continental, foi feito um plano para adquirir dois porta-aviões, seis submarinos nucleares e numerosas outras unidades. Ele não saiu do papel, mas vários projetos de construção naval seguem adiante, enquanto outras lacunas no inventário naval continuam a ser preenchidas por compras no exterior. Isto não chega a compensar a diminuição do número de meios que tem ocorrido nas primeiras décadas do século XXI.

Origens

Desde a descoberta do Brasil, o poder naval era o que conectava a colônia à sede do Império Português.[1] Em séculos de batalhas de Portugal pela posse e controle das águas brasileiras, a participação da população local foi cada vez maior.[2] Como os navios eram de madeira, havia até construção naval no território, embora a artilharia viesse da Europa.[3] A transferência da sede do Reino de Portugal para o Brasil, em 1808, fez com que a Marinha Portuguesa se instalasse no Rio de Janeiro com uma parte importante da sua estrutura.[4] O Corpo de Fuzileiros Navais brasileiro, por exemplo, é herdeiro da Brigada Real da Marinha portuguesa.[5]

No processo de Independência do Brasil, em 1822, a nacionalização de uma parcela dessa força originou a Marinha do Brasil.[4] Aproveitando navios e marinheiros portugueses que aderiram ao recém-formado Império do Brasil e órgãos criados por João VI de Portugal, tais como a Secretaria da Marinha, o Quartel-General, a Intendência e Contadoria, o Arsenal de Marinha, a Academia Real dos Guardas-Marinhas, o Hospital, a Auditoria, o Conselho Supremo Militar, a Fábrica de Pólvora, os Cortes de Madeira e outros, um brasileiro nato, o capitão de mar e guerra Luís da Cunha Moreira, foi nomeado primeiro Ministro da Marinha em 28 de outubro de 1822. Oficiais estrangeiros completaram o quadro de pessoal, entre eles o primeiro almirante, o britânico Thomas Cochrane.[6] A doutrina, práticas e tradição seriam fortemente influenciadas pela Marinha Real britânica no século que se sucederia.[7]

Império

Batalha de 4 de maio de 1823, com a Armada Imperial liderada por Thomas Cochrane, na Independência da Bahia

A primeira tarefa era expulsar as bases portuguesas remanescentes no litoral brasileiro em Belém (Pará), São Luís, Recife, Salvador e Montevidéu, o que se conseguiu em 1823.[6] Somente a Marinha podia transportar e abastecer o Exército nas frentes de combate, cortar, pelo bloqueio e guerra de corso, as linhas de comunicação inimigas e defender as próprias do corso oponente; todas tarefas navais típicas do período, que se veriam nos conflitos seguintes.[8][9] Num país "arquipelágico", com toda a população ao largo do litoral e dos rios navegáveis, não havia alternativa logística.[10][8] Na economia nacional, a marinha mercante, os portos e a construção naval eram expressivas.[11]

A Marinha apoiava o regime monárquico.[12] Sua participação na Independência e na supressão das revoltas internas — a Confederação do Equador de 1824 e a "guerra civil" do Período Regencial (1831—1840) — foi questão de integridade nacional. Embora os únicos rebeldes com forças navais fossem os Farrapos, a logística naval não deixou de ser decisiva.[10] Até 1831 a Armada cresceu a duas naus, dez fragatas, vinte corvetas, dezessete brigues-escunas, duas canhoneiras, doze bombardeiras, três barcas a vapor, catorze transportes e várias lanchas de grande porte, num total de pelo menos oitenta navios de guerra.[13] Após a adoção plena da propulsão a vapor, nos anos 1860 havia quarenta navios com mais de 250 canhões.[14]

O apogeu da Armada Imperial foi no Segundo Reinado (1841–1889).[15] O quadro de oficiais já se compunha nos anos 1860 inteiramente de brasileiros natos, dentre eles líderes alistados na Guerra da Independência, como Joaquim Marques Lisboa, marquês de Tamandaré, Francisco Manuel Barroso da Silva, barão do Amazonas e Joaquim José Inácio de Barros, visconde de Inhaúma.[14] Para a base da pirâmide hierárquica, o recrutamento, inicialmente fornecido pelo voluntariado e recrutamento forçado ("tributo de sangue"),[16] foi complementado pelas Companhias de Aprendizes-Marinheiros, pelas quais se esperava melhorar a qualidade do material humano.[17] Ainda assim, não desapareceram problemas de indisciplina e deserção e a prática de castigos corporais.[18] As relações hierárquicas na Marinha espelhavam a sociedade brasileira escravista.[19]

Política externa

Abordagem de monitor brasileiro por canoas paraguaias na passagem de Humaitá, em 1868

A política externa focou-se nas guerras na bacia do Pratada Cisplatina (1825–1828), contra Oribe e Rosas (1851–1852) e do Paraguai (1864–1870). O predomínio naval brasileiro atingido em meados do século foi o esteio da política externa imperial pelo qual se mantiveram dois países-tampão, Uruguai e Paraguai, na fronteira com o maior rival, a Argentina, e vias de acesso fluviais à província de Mato Grosso.[20][21] Uma segunda bacia precisava ser defendida, a do rio Amazonas,[22] onde uma flotilha foi instalada em 1868, em resposta à abertura do rio ao comércio internacional.[23] Outra junção das políticas naval e externa foi na repressão ao tráfico negreiro, ponto de atrito com o Império Britânico.[24]

Destacaram-se nessas campanhas o bloqueio do porto de Buenos Aires, na Guerra da Cisplatina,[25] a passagem de Tonelero, no rio Paraná, em 1851,[10] a Batalha do Riachuelo, em 1865, e as passagens forçadas de margens fortificadas em Curupaiti e Humaitá.[26][22] Esta última campanha, no Paraguai, foi a maior guerra da América do Sul[27] e suas batalhas são os destaques da história de combate naval do Brasil.[28] Para o terreno dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai, foi preciso criar uma nova frota e mantê-la abastecida a uma grande distância do Rio de Janeiro.[27] A manutenção e o clima eram difíceis e as doenças mataram mais do que a ação inimiga. Os paraguaios tinham canhões nas barrancas e abordavam os navios com canoas, lutando com armas brancas nos conveses. A Marinha, em conjunto com o Exército, gradativamente subiu os rios.[26][22] Sem a campanha fluvial, teria sido muito difícil manter o sul de Mato Grosso, ao qual não havia conexão terrestre.[29]

Queda do Império

A Armada Imperial em treino nos anos 1870

Vencida a Guerra do Paraguai em 1870, a Armada brasileira era a quinta maior do mundo em número de navios. Tratava-se, porém, de uma frota defasada (de madeira) e adequada basicamente às operações fluviais. Os avanços tecnológicos não mais permitiam a um país não industrializado sustentar por conta própria uma frota moderna.[24] Havia Arsenais da Marinha no Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Pará e Mato Grosso, construindo navios de casco de ferro,[30] mas começava a transição do Brasil a país importador de navios. Ao mesmo tempo, terminava o ciclo de guerras externas, diminuindo o interesse político no poder naval. Alguns recursos extraordinários ainda foram providos por conta de tensões fronteiriças com a Argentina e do rearmamento chileno.[31] A esquadra em 1888 consistia em dezessete navios: três encouraçados, três encouraçados fluviais, três monitores, duas corvetas de casco de madeira e cinco cruzadores híbridos (ora denominados cruzadores, ora corvetas encouraçadas). Onze eram nacionais. Ainda era uma força considerável e com infraestrutura extensa.[32]

O corpo de oficiais da Marinha, aristocrático, isolado e pouco influenciado pelo positivismo, divergia socialmente do corpo de oficiais do Exército.[33][34][a] Foi o Exército que tomou a iniciativa de proclamar a República num golpe militar em 15 de novembro de 1889.[33] A República começou com duas Revoltas da Armada, em 1891 e 1893–1895, lideradas pelos almirantes Custódio de Melo e Saldanha da Gama contra os presidentes-marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. A primeira teve sucesso, e a segunda foi derrotada por uma "esquadra de papel", comprada a regime de emergência. A anistia pós-guerra civil não apagou de imediato os rancores entre os comandantes navais contrários e favoráveis ao movimento.[37] Daquele momento em diante, o Exército teria a hegemonia política na República.[33][12][38]

Primeira República

Encouraçado Minas Gerais, capitânia da "Esquadra de 1910", que inaugurou a era dos grandes canhões no Brasil, deflagrou uma corrida armamentista naval e durou em serviço até a Segunda Guerra Mundial

A última década do século XIX viu uma progressiva desmobilização e a sucessão de quatro ministros da Marinha em apenas seis anos.[39][40] A construção naval praticamente parou, e assim permaneceria por muitas décadas.[41] No equilíbrio estratégico continental, que girava em torno dos três "países ABC",[42] Argentina e Chile tinham larga superioridade qualitativa sobre o Brasil.[43] A decadência do poder naval tornou-se objeto de debate público entre políticos, jornalistas e oficiais.[44] Repercutiam pensadores como o americano Mahan e os franceses da Jeune École.[45]

A consolidação da República Oligárquica,[46] a alta dos ciclos do café e da borracha[47] e o interesse do ministro das Relações Exteriores, o Barão do Rio Branco, pelo poder naval enquanto instrumento de política externa foram as condições políticas para a "Esquadra de 1910".[48][49] Encomendada em estaleiros britânicos, ela foi composta dos dreadnoughts Minas Gerais e São Paulo, os cruzadores Bahia e Rio Grande do Sul e dez contratorpedeiros da classe Pará.[50][51] O mesmo programa ainda incorporou três submersíveis da classe F em 1913 e navios auxiliares.[52]

A Marinha do Brasil fazia um salto tecnológico para a era dos grandes canhões.[53] O par de couraçados, os mais poderosos no mundo no instante em que foram lançados,[54] deflagrou uma corrida armamentista naval com a Argentina e o Chile, cada qual encomendando dreadnoughts de tonelagem e canhões ainda maiores que os brasileiros.[55][42] Em pouco tempo, a Esquadra de 1910 era inferior até na sua região. O atraso industrial e humano e a dependência externa para a manutenção, todos decorrentes das deficiências estruturais do país na economia e educação, não permitiram que os navios adquiridos fossem plenamente aproveitados.[56][57] A administração naval era personalista, os oficiais tinham ensino excessivamente teórico e faltavam marinheiros para funções especializadas.[58]

Na estrutura de pessoal, havia um forte dualismo[59] entre o corpo de oficiais elitista e os marinheiros, identificados com o "esgoto da sociedade".[b] As relações hierárquicas eram tingidas pelo racismo e os castigos corporais. Os marinheiros, liderados por João Cândido, reagiram na Revolta da Chibata de 1910.[61] Apossando-se de parte da Esquadra, incluindo os encouraçados, ameaçaram bombardear a cidade do Rio de Janeiro.[62][63] A demanda acabaria atendida: os castigos corporais não voltariam a ser aplicados.[64] A versão oficial dos fatos é negativa para com os revoltosos. O volume da História Naval Brasileira de 1997, ao mesmo tempo que ecoa esta visão, reconhece a "causa justa" dos rebeldes e aponta para a necessidade de profissionalização da Marinha daquela época.[65]

Primeira Guerra Mundial

A DNOG regressa ao Rio de Janeiro (1919)

As responsabilidades técnicas assumidas com a "Esquadra de 1910" excediam as capacidades brasileiras.[66] Quando a Primeira Guerra Mundial começou em 1914, o Brasil declarou-se neutro. A dependência externa cobrou seu preço: as indústrias estrangeiras, mobilizadas para a guerra na Europa, não puderam fornecer materiais para a manutenção. Faltaram sobressalentes e mesmo carvão.[67] Por outro lado, foi neste período, em agosto de 1916, que foi criada a Aviação Naval.[68]

A Esquadra foi reorganizada em divisões de patrulha no Norte, Centro e Sul do litoral.[69][70] Após ataques de submarinos alemães contra navios mercantes brasileiros, o Brasil declarou formalmente guerra ao Império Alemão em 26 de outubro de 1917. A participação brasileira deu-se com o envio da Divisão Naval em Operações de Guerra (DNOG) ao teatro de operações do Mar Mediterrâneo e de doze pilotos à Real Força Aérea Britânica.[71] A DNOG operou sob as ordens do Almirantado britânico na proteção ao tráfego marítimo.[72] Sua tripulação viria a ser gravemente atingida pela gripe espanhola, sofrendo muitas baixas.[71] O que se ganhou na campanha foi o aprendizado tático, um grande avanço em relação aos procedimentos herdados do século XIX.[73]

Pós-Primeira Guerra

O período entreguerras foi de novo abandono da Armada,[74][c] e ao mesmo tempo, de profundas reformas, apesar das dificuldades econômicas.[76] O presidente Epitácio Pessoa contratou nos EUA uma missão naval de assessoria, contrariando o forte sentimento anglófilo ainda presente no oficialato. Começava uma era de influência americana na Marinha do Brasil.[77][33] No ano do contrato, em 1922, o o Brasil tinha dezessete navios principais, herdados do programa naval de Alexandrino, e mais algumas embarcações de uso costeiro do final do século anterior. No total, deslocavam 59 193 toneladas, contra a Argentina, com 29 navios principais e 108 137 toneladas, e o Chile, com trinta navios e 79 528 toneladas. Nenhuma das três marinhas projetava poder no oceano aberto, mas a brasileira era claramente inferior.[78][79]

As revoltas militares tenentistas dos anos 1920 agitaram segmentos da Marinha, embora de repercussão menor do que no Exército. A extração social dos oficiais da Marinha relacionava-os melhor com as elites políticas civis.[59] A força naval era legalista, mas não totalmente confiável. Em defesa do governo ela participou da supressão de revoltas no Rio de Janeiro, São Paulo, Amazonas e Pará, entre outras, mas também ela mesma protagonizou rebeliões, incluindo uma sublevação do São Paulo em 1924.[80] As vitórias legalistas produziram centenas de prisioneiros, parte dos quais foram retidos em navios requisitados pela Marinha como navios-prisão.[81] Um novo movimento contra o regime, a Revolução de 1930, teve sucesso. Divisões navais enviadas contra os revolucionários não surtiram efeito.[82] Uma junta militar foi instalada em 24 de outubro, tendo o almirante Isaías de Noronha entre seus integrantes.[83] A novidade era a participação conjunta de almirantes e generais num golpe; sem poder disputar com o Exército, a Marinha aliava-se a ele.[84]

Era Vargas

A Revolução de 1930 alçou à presidência Getúlio Vargas, que permaneceria no poder até 1945. Em defesa do governo na Revolução Constitucionalista de 1932, a Marinha bloqueou o porto de Santos e enviou fuzileiros navais ao vale do Paraíba.[85] Apesar das dificuldades econômicas na Grande Depressão, Vargas precisava de apoio militar.[46] No mesmo ano, aprovou o financiamento para um programa naval modesto, que visava recuperar a paridade com a Argentina e o Chile.[86][48] A política naval não era bem definida e priorizava genericamente as operações de superfície.[87] A novidade era a reativação da construção naval após décadas de abandono, o que casava com a política de industrialização do governo.[88][89]

Vargas instalou uma ditadura com apoio das Forças Armadas em 1937, o Estado Novo,[90] e enfrentou no ano seguinte outra insurreição, tentada pelos integralistas, incluindo muitos oficiais e praças da Marinha.[91][92] Um rearranjo na base de apoio político-militar, bastante polêmico na Marinha, foi feito em 1941, quando a Aviação Naval e sua equivalente no Exército foram extintas para criar um terceiro ramo nas Forças Armadas, a Força Aérea Brasileira.[93]

Segunda Guerra Mundial

Lançamento de uma bomba de profundidade pelo cruzador Bahia, remanescente da Esquadra de 1910, na campanha antissubmarino de defesa do tráfego marítimo

O início da Segunda Guerra Mundial na Europa, em 1939, cortou o acesso aos fornecedores europeus, incluindo uma encomenda de contratorpedeiros em construção na Grã-Bretanha.[94] A Marinha do Brasil era mais favorável aos Aliados do que o Exército, mas sua influência política era menor.[95] Ataques de submarinos do Eixo ao comércio marítimo trouxeram bases aéreas e navais americanas ao território brasileiro e o ingresso do Brasil na guerra em 1942.[96] Os próprios americanos tinham planos para tomar as bases à força, se o Brasil não consentisse, e não esperavam grande resistência.[97] A frota ainda era basicamente o que sobrava de 1910.[98] A escassez de comunicações terrestres deixava o fornecimento de matérias-primas aos Aliados e o abastecimento das grandes cidades litorâneas à mercê da experiente força submarina alemã.[99][100]

Não havia radares, sonares e outros equipamentos apropriados para a guerra antissubmarino.[101] Através do programa americano de Lend-Lease, os navios existentes foram adaptados e o Brasil recebeu dezesseis caça-submarinos e oito contratorpedeiros de escolta da classe Bertioga.[102][103] Embora pequenos, eram navios modernos para a missão de defesa do tráfego marítimo.[102] A construção naval continuou: de 1937 a 1946 os estaleiros brasileiros lançaram ao mar dois monitores, seis navios mineiros e nove contratorpedeiros, três da classe Marcílio Dias e seis da classe Amazonas.[104] O novo ciclo de expansão culminava em 1945.[105] Chegava-se à paridade de forças com a Argentina.[106]

No Nordeste, as forças aéreas e navais brasileiras foram colocadas sob comando único dos EUA. Outro grupo de patrulha brasileiro operava na parte meridional da costa. As principais operações foram a escolta de comboios no trecho entre o Rio de Janeiro e Trindade, no Caribe, com outras missões como a escolta da Força Expedicionária Brasileira a caminho da Europa. Os velhos encouraçados serviram de plataformas de artilharia em Recife e Salvador.[107] Até o final da guerra a Marinha do Brasil comboiou 3 164 navios e perdeu três navios e 486 militares.[108]

Quarta República

Cruzador Tamandaré, ao centro, numa força-tarefa com contratorpedeiros, todos de procedência americana, na "Guerra da Lagosta"

No pós-guerra, a percepção de ameaça era baixa na América do Sul e crescente no Atlântico.[109] O Brasil ingressou na Organização dos Estados Americanos (OEA) e no Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR). Este sistema de defesa coletiva do Hemisfério Ocidental tinha um líder, os Estados Unidos, e um inimigo implícito, o bloco oriental da Guerra Fria.[110][111] Para as marinhas regionais, os submarinos soviéticos tomaram o lugar dos submarinos alemães. A maior prioridade das próximas décadas seria a preparação para a guerra antissubmarino.[112][113]

Expectativas de tratamento privilegiado pelos americanos foram desfeitas em 1951, quando da transferência de dois cruzadores leves da classe Brooklyn, o Tamandaré e o Barroso, que tomavam o lugar dos velhos encouraçados. Os americanos ofecereram outros pares à Argentina e ao Chile, impedindo que o Brasil ferisse o equilíbrio regional. Ainda assim, no ano seguinte foi assinado o Acordo Militar Brasil-Estados Unidos,[114] pelo qual havia acesso a preço baixo aos excedentes da Segunda Guerra. Até 1977 o Brasil recebeu quatorze contratorpedeiros das classes Fletcher, Allen M. Sumner e Gearing, onze submarinos Fleet Type e Guppy, quatro navios-varredores, um navio-oficina e dois navios de desembarque de carros de combate.[115] A indústria naval foi deixada à míngua diante da oferta fácil de materiais.[116] Operações conjuntas das marinhas latinoamericanas com a dos EUA — Unitas, Veritas e Springboard — disseminavam o padrão tático americano na região, apesar do desnível tecnológico.[109]

Ainda nos anos 1950 houve uma ligeira diversificação dos fornecedores com a compra de dez corvetas nos Países Baixos, a classe Imperial Marinheiro, dois navios hidrográficos e quatro navios de transporte de tropas no Japão e um porta-aviões leve no Reino Unido, o Minas Gerais, ex-HMS Vengeance.[117][115] Com os transportes de tropa, o Corpo de Fuzileiros Navais realizou seus primeiros exercícios anfíbios, deixando de ser mera tropa de guarda.[118] O Minas Gerais foi um caminho tortuoso para a recriação da Aviação Naval, que enfrentou oposição da Força Aérea em torno do problema da aviação embarcada.[119] Tal como nos encouraçados e submarinos, o Brasil foi o primeiro país da região a incorporar porta-aviões. A Argentina, sem objeções próprias a uma aviação de ataque embarcada, recuperou sua primazia no poder naval ao adquirir seu próprio porta-aviões.[106] A "Guerra da Lagosta" de 1963 pôs em relevo a indisponibilidade da frota e a escassez de munição quando foi preciso fazer frente a uma mobilização naval francesa no litoral do Nordeste. A diplomacia afastou os franceses sem que houvesse confronto direto.[120]

A transferência da capital para Brasília, em 1960, tal como a Marcha para o Oeste, representava a orientação continental das políticas públicas e consciência coletiva no século XX.[121] Nas cisões partidárias da "República Populista" de 1945–1964, a opinião do oficialato pendia para o lado antivarguista ou "udenista",[122] intervindo nas crises da sucessão presidencial em 1955, quando a Marinha foi derrotada pelo Exército no Movimento de 11 de Novembro,[123] e 1961, quando aliada a ele, tentou impedir a posse do presidente João Goulart. A Campanha da Legalidade, da qual participaram marinheiros, garantiu a posse.[124]

Os marinheiros deste período já eram um corpo tecnificado e especializado, mas tinham frustrações, como a restrição ao casamento, e viviam num meio de vulnerabilidade social (alcoolismo, prostituição, jogo, etc.).[125] As baixas patentes da Marinha participaram da Revolta dos Sargentos de 1963[126] e protagonizaram a Revolta dos Marinheiros de 1964, conflito entre as autoridades navais e a Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFNB). O oficialato das três forças sentia que a hierarquia e disciplina estavam em perigo, o que foi fator no golpe militar de 1964, dias depois.[127] A junta militar instalada pelo golpe por um curto período incluiu o almirante Augusto Rademaker, que ainda integraria a junta de 1969 e chegaria à Vice-Presidência. Outro almirante, Sílvio Heck, integrou a junta de 1961.[128]

Ditadura militar

Porta-aviões Minas Gerais, com aviões antissubmarino da FAB no convés, e contratorpedeiro Marcílio Dias

Ao início da ditadura militar de 1964–1985, a Marinha foi a força mais afetada por expurgos de militares associados ao governo deposto.[129] Na prevenção e repressão de focos de guerrilha, a Marinha participou de "ações cívico-sociais" e engajou o Centro de Inteligência da Marinha (Cenimar) e os fuzileiros navais,[130] alguns dos quais lutaram contra a Guerrilha do Araguaia.[131] A doutrina de guerra anfíbia preconizava desembarques no litoral brasileiro contra territórios dominados por guerrilheiros ou tropas rebeladas.[132] Segundo a Comissão Nacional da Verdade, os ministros da Marinha neste período tiveram "responsabilidade político-institucional pela instituição e manutenção de estruturas e procedimentos destinados à prática de graves violações de direitos humanos".[133]

O problema da aviação embarcada foi resolvido pelo presidente Castelo Branco em 1965: o Minas Gerais passou a operar com helicópteros da Marinha e aviões antissubmarino da Força Aérea.[119] O programa naval de 1967, implementado no milagre econômico brasileiro,[134] inovou ao adquirir navios de projeto recente e fornecedores europeus: as seis fragatas da classe Niterói, os três submarinos da classe Oberon e os seis navios-varredores da classe Aratu, entre outros.[115] A Marinha entrava na era dos mísseis e da informática,[135][136] e helicópteros já operavam de quase todos os tipos de navio.[137] Os fuzileiros navais estabilizaram num efetivo de quinze a dezesseis mil,[138] equipados com seus primeiros veículos blindados.[139] A Força de Submarinos ganhava potencial tático e não era mais usada apenas para adestrar os contratorpedeiros na guerra antissubmarino.[140] Parte da classe Niterói foi construída no AMRJ, reavivando a indústria naval;[141] no mesmo período, a construção para a marinha mercante chegaria ao ápice.[142] A necessidade de autonomia na produção de armamentos era consenso no oficialato.[143]

O ponto de discórdia no pensamento naval, a partir dos anos 1970, foi se a doutrina deveria afastar-se da liderança americana, defesa coletiva e guerra antissubmarino.[143] A resposta "sim" era dada por uma nova corrente de oficiais como Mário César Flores, Armando Ferreira Vidigal, Alex Bastos e Henrique Saboia.[144] Em contexto, o presidente Ernesto Geisel rompeu o Acordo Militar Brasil-EUA em 1977 e a Missão Naval Americana foi despedida.[132] As guerrilhas estavam suprimidas[145] e a guerra com a União Soviética parecia menos provável que um conflito regional.[146] Diplomatas e militares interessavam-se nas relações norte-sul.[147] As tensões com a Argentina eram altas, mas seriam pacificadas após 1979.[148] O petróleo começava a ser explorado na plataforma continental brasileira, e o mar territorial brasileiro foi estendido unilateralmente a 200 milhas náuticas do litoral em 1970.[149]

No ano de 1980 culminava mais um ciclo de expansão.[105] Os principais meios eram o Minas Gerais, oito submarinos, doze contratorpedeiros, seis fragatas, dois navios anfíbios, dois navios-tanque e 22 embarcações de patrulha. A maior parte ainda consistia em navios antigos, de origem americana, mas 38% eram da última década e 13% eram de construção brasileira.[150] Contra um oponente sofisticado, a Marinha do Brasil poderia ter uma derrota comparável à da Armada Argentina na Guerra das Malvinas de 1982, mas a maioria das marinhas sul-americanas e africanas estavam em posição pior, e o Brasil era mais autônomo na logística.[151] Um novo programa naval, desenhado em 1977, previa aeronaves de ataque, corvetas e submarinos,[115] mas ele seria implementado nas duas últimas décadas do século XX, momento de crise do modelo econômico brasileiro, no qual o poder naval tinha demandas crescentes para recursos minguantes.[152][d] Ainda foi possível, neste período, implementar um programa nuclear e o Programa Antártico Brasileiro.[115]

Nova República

Submarino Timbira em manutenção no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, onde foi construído

Uma nova Constituição democrática entrou em vigor em 1988. A não-intervenção era a diretriz de política externa, o que não favorecia uma esquadra forte. A Guerra Fria terminou três anos depois. A Marinha da União Soviética deixou de existir e a da Argentina entrou em declínio. Não havia mais ameaça nítida.[154][155] O Brasil tem procurado afastar potências extrarregionais, assumir a liderança no Atlântico Sul e aproximar-se da África com a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, a cooperação com a Namíbia para a criação de sua Marinha, desde 1994, e iniciativas congêneres.[156][157] Com a Argentina, desenvolveu-se uma rotina de exercícios conjuntos, pelo qual "as Marinhas dos dois países anteciparam-se ao Mercosul", segundo o almirante Mário César Flores.[158]

Com a entrada em vigor da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar em 1994, o mar territorial brasileiro retraiu de duzentas para doze milhas náuticas,[159] dando lugar a uma zona econômica exclusiva de mesma largura. A ocupação do arquipélago de São Pedro e São Paulo e os levantamentos geológicos do leito marinho, todos com a parceria da Marinha com a comunidade científica, permitiram a expansão da ZEE e da plataforma continental em 2004.[160][161] Estes espaços marítimos foram rotulados pelo conceito político da "Amazônia Azul", que almeja unir a sociedade num "retorno efetivo ao inexorável destino marítimo brasileiro".[162][163] A Amazônia "Verde" também tem recebido atenção, embora a Marinha, responsável pelas operações fluviais, tenha menos entusiasmo que o Exército.[164]

Sob cortes de verbas, a Marinha modernizou a classe Niterói e construiu e comissionou cinco corvetas da classe Inhaúma/Barroso em 1989–2008, de um total de dezesseis planejadas, e cinco submarinos da classe Tupi/Tikuna em 1989–2006. Voltaram as compras de segunda mão, como os quatro contratorpedeiros da classe Garcia/Pará, quatro fragatas Tipo 22/classe Greenhalgh, três navios anfíbios, um navio-tanque e o porta-aviões São Paulo, ex-Foch, adquirido da Marinha Francesa em 2000 para substituir o Minas Gerais.[155][165][153] A Aviação Naval de asas fixas foi reativada com um lote de aviões A-4 Skyhawk, mas tanto o São Paulo quanto essas aeronaves sofreriam de elevada indisponibilidade.[166] Em 1998 o Ministério da Marinha foi rebaixado a Comando da Marinha e subordinado ao novo Ministério da Defesa, mas o Estado-Maior da Armada não perdeu sua autonomia na formulação da estratégia naval.[167][168] O comandante da Marinha em 2007, o almirante Júlio Soares de Moura Neto, admitiu um "estado crítico de obsolescência material e tecnológica".[169]

Estratégia Nacional de Defesa

A Esquadra em formação em 2023, com fragatas à frente e o porta-helicópteros Atlântico ao fundo

Nos anos 2000 o panorama econômico era positivo[170] e grandes reservas de petróleo e gás natural foram descobertas na camada pré-sal, abaixo da plataforma continental. O Brasil atingiu a autossuficiência petrolífera e quase toda a produção estava no mar.[171] A Marinha, obedecendo à Estratégia Nacional de Defesa publicada pelo governo 2008, elaborou um ambicioso Plano de Articulação e Equipamento que praticamente dobraria seu tamanho, incluindo uma 2.ª Esquadra a ser instalada no Norte ou Nordeste, dois porta-aviões e seis submarinos nucleares,[172][173] recorrendo ao máximo possível à indústria nacional.[174] Uma postura de negação do uso do mar prepararia o Brasil ao pior cenário, a guerra contra uma potência extrarregional mais poderosa. A defesa das plataformas petrolíferas e ativos litorâneos seria mais importante do que as linhas de comunicação marítimas.[175] Esta prioridade é uma novidade na história naval brasileira, na qual sempre predominaram a projeção de poder e o controle de área marítima.[176]

Outra crise econômica começou na década seguinte e não houve condições financeiras para implementar essa visão. Alguns projetos seguiram adiante,[172] como os submarinos da classe Riachuelo,[177] as fragatas da Tamandaré[178] e os navios de patrulha oceânica da classe Amazonas, e prosseguiram as compras de navios de segunda mão, como os navios de desembarque multipropósito Bahia (2015) e Oiapoque (2025) e o porta-helicópteros Atlântico.[179][180] As prioridades foram os submarinos, a Aviação Naval e a reforma do São Paulo, deixando passar várias oportunidades para compra de escoltas.[181] Militares queixavam-se da inconstância de verbas para os projetos estratégicos, mas a instituição era também criticada por decisões como prolongar a vida do São Paulo até 2017.[182] Nas duas primeiras décadas do século XXI, os descomissionamentos excederam as incorporações. Grande parte da frota restante em 2022 aproximava-se de quatro décadas de idade, com previsão de descomissionar mais 40% até 2028.[183]

As operações navais no século XXI têm incluído esforços de busca, como nos desaparecimentos do voo Air France 447 em 2009[184] e do submarino argentino ARA San Juan (S-42) em 2017;[185] as missões de manutenção de paz das Nações Unidas, com fuzileiros navais na MINUSTAH, de 2004 a 2017,[186] e um almirante e navio-capitânia no comando da UNIFIL, de 2011 a 2021;[187] e a segurança pública em território nacional, sob o instituto jurídico da garantia da lei e da ordem, que ganhou visibilidade nas favelas do Rio de Janeiro a partir de 2010.[188] No meio político, o almirante Almir Garnier Santos, comandante da Marinha em 2021–2022, foi preso em 2025 após as investigações por tentativa de golpe de Estado em 2022.[189]

Historiografia

Fontes históricas

Edição de 1929 da Revista Marítima Brasileira

Pela própria natureza de uma marinha, suas fontes históricas são primeiramente estatais e contidas em arquivos públicos.[190] No Brasil, o órgão responsável por esses registros é a Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha (DPHDM), que administra o Arquivo da Marinha, a Biblioteca da Marinha, o Museu Naval, a Revista Marítima Brasileira e a Divisão de História Marítima.[191][192] Em 2022 o Arquivo da Marinha custodiava aproximadamente trinta milhões de documentos em papel, do século XVIII até o presente, 120 mil fotografias e mais acervos audiovisuais e sonoros. Os documentos são organizados em fundos, a maioria categorizada pela organização militar produtora, com alguns doados de arquivos particulares.[193]

Antes de sua criação em 1943, sob o nome de "Serviço de Documentação da Marinha", não havia preocupação sistemática de preservar e publicizar o acervo documental em prol da memória e identidade institucionais.[191] O Arquivo da Marinha operava desde 1907, mas atendia principalmente às demandas burocráticas do Ministério da Marinha: registros de funcionários, conjuntos de normas e regulamentos e documentações técnicas de navios e equipamentos em uso.[194]

Fora da Marinha, alguns códices, somando cerca de quinhentos metros lineares, foram repassados do Arquivo da Marinha ao Arquivo Público Nacional, onde constituem a "Série Marinha". Uma pequena porção foi remetida ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) em 1914, constituindo o fundo "Documentos Navais". Seu teor é operacional, com documentos de comandantes de navios e forças navais das intervenções nas províncias e guerras no Prata, consoante à missão do IHGB de construir a identidade nacional. Isto contrasta com os documentos essencialmente administrativos no Arquivo Nacional: consumo de gêneros, requisição de sobressalentes, punições, embarques e outros lugares-comuns do cotidiano.[195]

Produção historiográfica

Manuseio de atlas e mapas por uma bibliotecária da DPHDM

A história naval brasileira começou a ser escrita por oficiais da Marinha nos anos 1870. Pioneiros como Theotonio Meirelles da Silva (1823—1887) dialogavam com o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).[196] Até a segunda metade do século XX, seria uma produção historiográfica predominantemente dos próprios militares. Era caracteristicamente tradicionalista, nacionalista e valorizadora de conquistas e grandes personagens, com pouca ênfase em análises estruturais. Transpareciam ideias da herança portuguesa como fator de desenvolvimento, do acompanhamento da evolução histórica do país e da perspectiva de objetividade. Suas fontes eram documentos históricos, memórias e discursos laudatórios. Era um mundo periférico à historiografia acadêmica.[197]

Para os historiadores civis, a história naval tem alguns obstáculos inerentes ao próprio campo de estudo: a formação profissional e vida diferenciada dos seus sujeitos e a tecnologia e concepções estratégicas cuja compreensão exige também uma técnica diferenciada e complexa.[198] Em retrospecto, o almirante Hélio Leôncio Martins lamentou em 2004 que a "historiografia brasileira, através de historiadores, intelectuais, mesmo militares, inclusive da Marinha, e naturalmente refletindo-se na opinião pública, é muito injusta com a nossa memória naval". Quanto à Guerra do Paraguai, por exemplo, a detalhada narrativa militar de Tasso Fragoso limitava-se nos aspectos navais a copiar um relatório do ministro Ouro Preto. Numa obra mais recente e de boa cobertura dos aspectos políticos, Maldita Guerra, de Francisco Doratioto, "o seu autor confessou-me, pessoalmente, que não sabia ter tido a Marinha presença preponderante nas operações".[199][200]

A Divisão de História Marítima do Brasil, criada pelo Estado-Maior da Armada em 1937 e depois subordinada ao SDM, expandiu a produtividade historiográfica naval com a publicação dos Subsídios para a História Marítima do Brasil (atual revista Navigator). Sua tiragem original durou até 1985, tendo publicado pesquisadores de renome.[201] A coleção "História Naval Brasileira", iniciada em 1975, integrou contribuições de especialistas brasileiros e estrangeiros e evita a exaltação a grandes heróis e momentos.[202] Seu objetivo subjacente é demonstrar a relevância da Marinha nos processos históricos em que ela é vista como secundária. A corporação é apresentada como a força mais antiga, profissional e afastada da política. Há uma preocupação com minúcias técnicas e com a veracidade da narrativa histórica convencional.[203]

A partir dos anos 1980 a Marinha incorporou especializações afetas às ciências sociais nos seus quadros auxiliares[204] e se aproximou do campo acadêmico.[200] Na virada do milênio, a história naval brasileira é parte da "nova história militar", um campo interdisciplinar.[200] A revista Navigator retornou à editoração em 2005 e publica preferencialmente artigos de cunho acadêmico.[205] Especialistas de outros campos da História (social, cultural, do tempo presente, das instituições) adentraram a história naval com seus olhares próprios,[206] e oficiais da ativa têm mestrados e doutorados em instituições civis da área.[207] A história política — da guerra, das instituições e do poder — permanece a mais conectada à história naval.[208]

Ver também

Notas

  1. Os oficiais da Marinha ao final do Império representavam a alta classe média e a aristocracia, enquanto os oficiais do Exército eram extraídos da baixa classe média.[33] O jornalista Tobias Monteiro analisava em 1917 que os filhos das famílias ricas queriam ser doutores em Direito, Medicina ou Engenharia e, falhando isso, talvez oficais da Marinha.[35] Nelson Werneck Sodré descreveu uma força naval "fechada em redoma, desde a revolta de 1893, de efetivos reduzidos, recrutamento discriminatório da oficialidade, tendo feito da adoração de Saldanha seu culto lareiro".[36]
  2. Segundo o relatório ministerial de 1910, as Escolas de Aprendizes "encontravam nos xadrezes da polícia a maior fonte de alistamento de pessoal".[60]
  3. Inicialmente, esperava-se renovar a frota aproveitando a rivalidade anglo-americana e a oferta de navios excedentes. O clima pacifista dos acordos de desarmamento naval, como o Tratado Naval de Washington (1922), o orçamento restrito e as revoltas militares fizeram limitaram as aquisições de relevo em 1918–1930 ao contratorpedeiro Maranhão, ex-HMS Porpoise, e ao submarino Humaytá.[75]
  4. "Em fins dos anos 1970 e nos anos 1980, tentou-se dar-lhe [o programa de 1967] continuidade com um "miniprograma", empregando os parcos recursos então disponíveis, pelo qual foram construídas no País cinco corvetas aqui projetadas e cinco submarinos de projeto alemão, mas com tal lentidão de desembolsos que o último submarino (S Tikuna) só foi lançado ao mar em 2004 e a última corveta (Cv Barroso), em 2008".[153]

Referências

Citações

  1. Paula 2004, p. 318.
  2. DEM, SDM 2006, p. 44–62.
  3. Paula 2004, p. 303.
  4. a b Rodrigues & Silva 2022, p. 539-540.
  5. DEM, SDM 2006, p. 67.
  6. a b Paula 2004, p. 304-305.
  7. Vidigal 1983, p. 32.
  8. a b Cabral 2022, p. 456-457.
  9. Paula 2004, p. 309, 318.
  10. a b c Vidigal 1983, p. 33.
  11. Marreiro 2021, p. 125–126.
  12. a b Alves 2005, p. 3.
  13. Maia 1975, p. 133–135.
  14. a b Doratioto 2002, p. 481.
  15. Maia 1975, p. 216.
  16. Antunes 2011, p. 27.
  17. Santos 2022, p. 245-247.
  18. Carvalho 2006, p. 20-21.
  19. Antunes 2011, p. 133.
  20. Alves 2005, p. 2-3.
  21. Vidigal 1983, p. 33-34.
  22. a b c Cabral 2022, p. 458.
  23. Com4DN 2023.
  24. a b Vidigal 1983, p. 34.
  25. Cabral 2022, p. 457.
  26. a b História Naval (s/d).
  27. a b Ferreira 1983, p. 7.
  28. McCann 2017, p. 83.
  29. Paula 2004, p. 318-319.
  30. Maia 1975, p. 225.
  31. Vidigal 1983, p. 35.
  32. Val 2015, p. 52.
  33. a b c d e Vidigal 1983, p. 36.
  34. Carvalho 2006, p. 26-27.
  35. Carvalho 2006, p. 19.
  36. Martins 2010, p. 176.
  37. Martins 2010, p. 33-34.
  38. Carvalho 2006, p. 57.
  39. Apostila 2017, p. 29.
  40. DEM, SDM 2006, p. 124.
  41. Waldmann 2014, p. 72.
  42. a b Garcia 2003, p. 174–175.
  43. Martins 2010, p. 50-51.
  44. Martins 2009, p. 109.
  45. Cabral 2022, p. 460-461.
  46. a b Waldmann 2019, p. 64.
  47. Martins 2009, p. 110.
  48. a b Moura 2015, p. 114.
  49. Cabral 2022, p. 460.
  50. DEM, SDM 2006, p. 125–126.
  51. Apostila 2017, p. 29–30.
  52. Gardiner & Gray 1985, p. 406-407.
  53. Martins 2009, p. 106.
  54. Alves 2005, p. 19.
  55. Waldmann 2019, p. 51, 68.
  56. Alves 2005, p. 4-5.
  57. Cabral 2022, p. 463.
  58. Martins 2010, p. 177-178, 181.
  59. a b Carvalho 2006, p. 52.
  60. Carvalho 2006, p. 20.
  61. Martins 2010, p. 182-185.
  62. Martins 2010, p. 187–192.
  63. Apostila 2017, p. 32.
  64. Almeida 2017, p. 64–65.
  65. Mancuso 2008, p. 194-196.
  66. Cascardo 2005, p. 22.
  67. Waldmann 2019, p. 53.
  68. Val 2013, p. 32–33.
  69. DEM, SDM 2006, p. 126–127.
  70. Apostila 2017, p. 30.
  71. a b DEM, SDM 2006, p. 127–129.
  72. Moura 2014, p. 286.
  73. Cabral 2022, p. 464.
  74. DEM, SDM 2006, p. 138.
  75. Waldmann 2019, p. 54–57.
  76. Cabral 2022, p. 465.
  77. Val 2013, p. 26–27.
  78. Val 2013, p. 25.
  79. Garcia 2003, p. 176.
  80. Cascardo 2005, p. 22–23, 242.
  81. Aragão 2011, p. 210.
  82. Mancuso 2008, p. 232-233.
  83. Carvalho 2006, p. 51.
  84. Carvalho 2006, p. 54.
  85. Daróz 2025, p. 138.
  86. DEM, SDM 2006, p. 138–139.
  87. Waldmann 2019, p. 64-65.
  88. Waldmann 2019, p. 58–60.
  89. Val 2013, p. 29–30.
  90. Carvalho 2006, p. 43.
  91. Mancuso 2008, p. 234–235.
  92. Carvalho 2006, p. 98.
  93. Val 2013, p. 37.
  94. Waldmann 2019, p. 61.
  95. Oliveira 2000, p. 61, 90.
  96. Assis 2013, p. 118-123.
  97. Oliveira 2000, p. 64.
  98. Assis 2013, p. 134.
  99. Moura 2015, p. 113.
  100. Vidigal 1983, p. 37.
  101. Assis 2013, p. 119.
  102. a b Waldmann 2019, p. 61-62.
  103. DEM, SDM 2006, p. 148-150.
  104. Val 2013, p. 31.
  105. a b Pesce 2013, p. 438.
  106. a b Gardiner, Chumbley & Budzbon 1995, p. 29.
  107. Assis 2013, p. 124-126, 128.
  108. DEM, SDM 2006, p. 155-156.
  109. a b Cabral 2022, p. 469.
  110. Alves 2005, p. 17.
  111. Vidigal 1983, p. 38.
  112. Moura 2015, p. 116-117.
  113. Pivatto 2024, p. 165.
  114. Alves 2005, p. 20-22.
  115. a b c d e Galante 2016.
  116. Salles & Galante 2023, "Historical background".
  117. Alves 2005, p. 22-23.
  118. Cantídio 1993, p. 40, 42.
  119. a b Poggio 2020.
  120. Lopes 2014, p. 241-251.
  121. Ventura 2020, p. 277-278.
  122. Carvalho 2006, p. 115, 162.
  123. CPDOC FGV 2001, Movimento do 11 de novembro.
  124. Rolim 2009, p. 158-159.
  125. Castro 2022, p. 217-224.
  126. Rolim 2009, p. 166-167.
  127. Almeida 2017, p. 129-140.
  128. CPDOC FGV 2001, Juntas Militares.
  129. BNM 1985, p. 118, 120.
  130. Marques 2001, p. 60.
  131. Cabral et al. 2011.
  132. a b Marques 2001, p. 58.
  133. Terra 2014.
  134. Moura 2015, p. 117.
  135. Martins 2009, p. 106, 115.
  136. Moura 2015, p. 127.
  137. Pivatto 2024, p. 200.
  138. Gioseffi 2014, p. 57-58.
  139. Carneiro 2010.
  140. Pivatto 2024, p. 169.
  141. Martins 2009, p. 115-116.
  142. CEMBRA 2022, cap. X, p. 2-12.
  143. a b Martins 2006, p. 81.
  144. Pivatto 2024, p. 134.
  145. Hilton 1987, p. 332.
  146. Cabral 2022, p. 474.
  147. Pivatto 2024, p. 117-118.
  148. Hilton 1987, p. 332-333.
  149. Carvalho 1999, p. 111-113.
  150. Jenkins 1991, p. 53.
  151. Ferreira 1983, p. 37.
  152. Cabral 2022, p. 475-476.
  153. a b Moura 2015, p. 118-119.
  154. Pivatto 2024, p. 293-294.
  155. a b Galante 2018.
  156. Lopes 2014, Livro II, cap. 32.
  157. Pivatto 2024, p. 225.
  158. Vidigal 2002, p. 133.
  159. Carvalho 1999, p. 123.
  160. Silva 2020, p. 8, 11-13.
  161. Ventura 2020, p. 271-273.
  162. Lopes 2014, Livro II, cap. 1.
  163. Ventura 2020, p. 278-281.
  164. McCann 2017, p. 65, 83.
  165. Vidigal 2002, p. 52-53, 104-109.
  166. Caiafa 2017.
  167. Cabral 2022, p. 477.
  168. Pivatto 2024, p. 312-315.
  169. Lopes 2014, Livro II, cap. 3.
  170. Moura 2015, p. 125.
  171. Moura 2015, p. 127-128.
  172. a b Salles & Galante 2023, "The 'PAEMB' dream fleet".
  173. Moura 2014, p. 147-149.
  174. Lopes 2014, Livro II, cap. 13.
  175. Moura 2015, p. 130-131.
  176. Moura 2014, p. 285.
  177. Salles & Galante 2023, PROSUB submarines.
  178. Salles & Galante 2023, Tamandaré class frigates.
  179. Salles & Galante 2023, Other recent acquisitions.
  180. Maia 2025.
  181. Lopes 2018.
  182. Gielow 2019.
  183. Maia 2023.
  184. CCSM & CCSA 2009.
  185. La Nación 2017.
  186. CGCFN, MINUSTAH (s/d).
  187. MD 2025.
  188. Soares 2015, p. 31-32, 48-49.
  189. Boechat & Cury 2025.
  190. Rodrigues & Silva 2022, p. 538.
  191. a b Rodrigues & Silva 2022, p. 543-544.
  192. Gama 2022, p. 49.
  193. Rodrigues & Silva 2022, p. 544-545.
  194. Rodrigues & Silva 2022, p. 541-542.
  195. Rodrigues & Silva 2022, p. 542-543.
  196. Gama 2022, p. 41.
  197. Gama 2022, p. 48-50.
  198. Gama 2022, p. 61.
  199. Martins 2004, p. 40.
  200. a b c Gama 2022, p. 56.
  201. Gama 2022, p. 49-50.
  202. Gama 2022, p. 53-54.
  203. Mancuso 2008, p. 171, 260-261.
  204. Gama 2022, p. 53.
  205. Gama 2022, p. 50.
  206. Gama 2022, p. 59.
  207. Gama 2022, p. 57.
  208. Gama 2022, p. 60.

Bibliografia

Livros

  • Almeida, Anderson da Silva (2017). ...como se fosse um deles. Almirante Aragão: memórias, silêncios e ressentimentos em tempos de ditadura e democracia (PDF). Niterói: Eduff. ISBN 978-85-228-1267-7. Cópia arquivada (PDF) em 15 de maio de 2021 
  • Apostila História Naval - Escola de Aprendizes-Marinheiros do Espírito Santo. Escola Naval: Marinha do Brasil. 2017 
  • Brasil: nunca mais 10ª ed. Petrópolis: Vozes. 1985 
  • Cabral, Ricardo Pereira (2022). «Pensamento estratégico naval brasileiro». In: Silva, Francisco Carlos Teixeira da, et al. (org.). Dicionário de história militar do Brasil (1822-2022): volume II. Rio de Janeiro: Autografia. ISBN 978-85-51849-10-1 
  • Carvalho, José Murilo de (2006). Forças Armadas e política no Brasil 2ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. ISBN 85-7110-856-0 
  • Cascardo, Francisco Carlos Pereira (2005). O Tenentismo na Marinha: os primeiros anos — (1922 a 1924). São Paulo: Paz e Terra. ISBN 85-219-0766-4 
  • CEMBRA (2022). O Brasil e o mar no século XXI: Relatório aos tomadores de decisão do país 3.ª ed. Niterói: Centro de Excelência para o Mar Brasileiro. ISBN 978-65-991881-2-1 
  • CPDOC FGV (2001). Dicionário histórico-biográfico brasileiro, pós-1930. Rio de Janeiro: Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil 
  • Doratioto, Francisco (2002). Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras 
  • Gama, Edina Laura Nogueira da (2022). «Historiadores navais brasileiros». In: Francisco Carlos Teixeira da Silva et al. (org.). Dicionário de história militar do Brasil (1822-2022): volume II. Rio de Janeiro: Autografia. ISBN 978-85-51849-10-1 
  • Gardiner, Robert; Gray, Randal (1985). Conway's All the World's Fighting Ships: 1906–1921. Annapolis, Maryland: Naval Institute Press. ISBN 0-87021-907-3. OCLC 12119866 
  • Gardiner, Robert; Chumbley, Stephen; Budzbon, Przemysław, eds. (1995). Conway's All the world's fighting ships 1947–1995. Annapolis, Maryland: Naval Institute Press. ISBN 1-55750-132-7 
  • Introdução à História Marítima Brasileira (PDF). Rio de Janeiro: Diretoria de Ensino da Marinha, Serviço de Documentação da Marinha. 2006. ISBN 85-7047-076-2. Arquivado do original (PDF) em 4 de agosto de 2016 
  • Lopes, Roberto (2014). As garras do cisne: o ambicioso plano da Marinha brasileira de se transformar na nona frota mais poderosa do mundo. Rio de Janeiro: Record. ISBN 978-85-01-04255-2 
  • Maia, João do Prado (1975). A Marinha de Guerra do Brasil na Colônia e no Império: tentativa de reconstituição histórica. Rio de Janeiro: Cátedra 
  • Martins Filho, João Roberto (2010). A marinha brasileira na era dos encouraçados, 1895–1910. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas. ISBN 85-225-0803-8. OCLC 679733899 
  • Moura, José Augusto Abreu de (2014). A estratégia naval brasileiras no pós-Guerra Fria: uma análise comparativa com foco em submarinos. Rio de Janeiro: Fundação de Estudos do Mar. ISBN 978-85-85966-25-6 
  • Paula, Eurípedes Simões de (2004). «A Marinha». In: Sérgio Buarque de Holanda (dir.). O Brasil monárquico, v. 6: declínio e queda do império. Col: História geral da civilização brasileira. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. ISBN 85-286-0506-X 
  • Rodrigues, Fernando Silva; Silva, Carlos André Lopes da (2022). «Fontes históricas navais». In: Francisco Carlos Teixeira da Silva et al. (org.). Dicionário de história militar do Brasil (1822-2022): volume I. Rio de Janeiro: Autografia. ISBN 978-85-518-4909-5 
  • Salles, Felipe; Galante, Alexandre (2023). «The Brazilian Navy entering its third century». In: Conrad Waters (ed.). Seaforth World Naval Review 2024. [S.l.]: Pen & Sword. ISBN 978-1-3990-2312-2 
  • Santos, Wagner Luiz Bueno dos (2022). «Corpo de Imperiais Marinheiros e as Companhias de Aprendizes-Marinheiros». In: Francisco Carlos Teixeira da Silva et al. (org.). Dicionário de história militar do Brasil (1822-2022): volume I. Rio de Janeiro: Autografia. ISBN 978-85-518-4909-5 

Periódicos

Trabalhos acadêmicos

Páginas web