Marinha do Brasil na Segunda Guerra Mundial

Caça-submarinos Guajará em exercício de lançamento de bombas de profundidade (1944)

A Marinha do Brasil participou da Segunda Guerra Mundial na Batalha do Atlântico, do ingresso do Brasil na guerra em 1942 até seu fim em 1945. Sua campanha foi de defesa do tráfego marítimo contra submarinos alemães e italianos, em conjunto com a Força Aérea Brasileira e as Forças Armadas dos Estados Unidos, com estas últimas exercendo o comando operacional no Atlântico Sul. As principais atividades foram a escolta de comboios entre o Rio de Janeiro e Trinidad, no Caribe, com missões adicionais como a escolta da Força Expedicionária Brasileira a caminho da Europa.

Ataques submarinos contra a marinha mercante brasileira foram o fator imediato do ingresso brasileiro na guerra e colocavam em risco o fornecimento de matérias-primas aos Aliados e o abastecimento das grandes cidades do litoral. A frota brasileira pré-guerra, composta em sua maioria de remanescentes da Esquadra de 1910, estava despreparada para a guerra antissubmarino. Estrategistas navais estavam até então mais preocupados com uma guerra regional entre forças de superfície. Um programa naval traçado em 1932 reativava, com dificuldades, a construção de navios de guerra em solo nacional. Durante a guerra, a adaptação dos navios existentes, a incorporação, via Lend-Lease, de dezesseis caça-submarinos (as classes G e J) e oito contratorpedeiros de escolta (a classe Bertioga), e a instrução em novos equipamentos criou uma frota voltada à guerra antissubmarino, com navios pequenos, mas modernos.

Duas forças-tarefa foram organizadas, a Força Naval do Nordeste (FNNE) e o Grupo Patrulha Sul (GPS), respectivamente a norte e a sul do Rio de Janeiro, com outros meios designados aos Comandos Navais no litoral. Fuzileiros navais guarneceram vários portos e a Ilha de Trindade. Com o esforço combinado dos Aliados, a ameaça submarina estava quase suprimida ao final de 1943. A Marinha do Brasil comboiou 3 164 navios, dos quais 99,01% chegaram aos seus destinos.[1] Três navios e 486 militares foram perdidos em operação. Nenhum submarino inimigo foi diretamente afundado pela Marinha do Brasil, sendo a aviação, que ela não tinha, a grande destruidora de submarinos nas operações. A participação naval brasileira em missões de caça e destruição só começaria na etapa final da guerra.

No pós-guerra, a Marinha do Brasil alinhou-se aos Estados Unidos na aquisição de navios e no preparo conjunto para a guerra antissubmarino, com os submarinos soviéticos substituindo os alemães no pensamento naval da Guerra Fria. Haveria distanciamento em ambos pontos algumas décadas depois. O discurso histórico institucional sobre o conflito se opõe à visão que só dá atenção ao Exército e culpa o descaso político pelo estado de despreparo e improvisação com o qual o país se encontrou.

A Marinha pré-guerra

Cruzador Bahia

O governo brasileiro declarou-se neutro após a deflagração da Segunda Guerra Mundial na Europa, em setembro de 1939, e declarou guerra contra a Alemanha e a Itália em agosto de 1942, ingressando no conflito no lado dos Aliados.[2] No mar, a ameaça consistia em submarinos do Eixo (alemães e italianos) afundando navios mercantes brasileiros.[3][4] A Marinha de Guerra brasileira encontrava-se despreparada para esta ameaça.[5][6] A maioria dos navios eram os remanescentes da Esquadra de 1910, usados na Primeira Guerra Mundial.[7][6] O estado de manutenção era péssimo e os estoques de munição eram pequenos.[8]

A maioria dos meios subordinavam-se à Esquadra, cujo capitânia era o encouraçado Minas Gerais. Seu irmão São Paulo, outro remanescente de 1910, permanecia em atividade, assim como os cruzadores Bahia e Rio Grande do Sul e cinco contratorpedeiros da classe Pará, um dos quais, o Paraíba, não tinha condições de mar. Havia outro contratorpedeiro de classe mais recente, isto é, da Primeira Guerra, o Maranhão. O Minas Gerais havia sido reformado em 1935–1939, substituindo o carvão pelo óleo. Os cruzadores, com três mil toneladas de deslocamento, eram pouco maiores que contratorpedeiros modernos, e seus canhões eram de 120 milímetros de calibre, inferior ao padrão de 127 milímetros nos contratorpedeiros americanos. Os contratorpedeiros da classe Pará eram chamados de torpedeiros em algumas fontes.[9][10]

A força de alto-mar incluía ainda o submarino Humaitá e três submarinos da classe T, dois tênderes, dois navios-tanque e quatro rebocadores. A Flotilha de Navios Mineiros Varredores tinha dez navios, e a Diretoria de Hidrografia e Navegação, três navios hidrográficos e dois navios-faroleiros. O navio-escola era o veleiro Almirante Saldanha.[11] Tais meios concentravam-se no Rio de Janeiro, então capital federal, mas havia flotilhas fluviais em Ladário, Mato Grosso, e Belém, Pará.[11][12] Uma base naval estava em construção em Natal, e consideravam-se outras em Recife e Salvador para operações no Nordeste.[13] Patrulhava-se o litoral com os poucos meios disponíveis, especialmente entre a foz do Rio Pará até Santa Catarina, incluindo os arquipélagos de Fernando de Noronha e Trindade e Martim Vaz.[12]

Não havia conhecimento nem equipamentos para táticas antissubmarino modernas. Os navios careciam de radares e sonares e as tripulações não estavam adestradas em técnicas modernas de controle de avarias, combate a incêndio, salvamento no mar e outros procedimentos.[13] A rotina de treinamento dos couraçados no entreguerras limitava-se a eventuais exercícios de tiro na Ilha Grande, indo e voltando ao porto no mesmo dia. Os oficais que quisessem servir mais tempo em alto-mar voluntariavam-se ao serviço hidrográfico. Havia nichos de competência na Flotilha de Submarinos e Aviação Naval,[14] mas esta última foi extinta em 1941, juntamente com sua equivalente no Exército, para criar a Força Aérea Brasileira. Até então ela possuía 97 aviões.[15]

O Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) tinha efetivo nominal de 2 638 homens desde 1940.[16] Eram essencialmente uma infantaria de guarda com procedimentos típicos do Exército. Os regulamentos previam que fizessem operações de desembarque, mas não havia equipamento e treinamento especializado para tal.[17][18] Com a abertura de cursos na Escola Naval para oficiais fuzileiros navais e intendentes em 1936,[19] substituíam-se no CFN os oficiais promovidos a partir da tropa, que eram desprezados pelo Corpo da Armada.[20]

Ordem de batalha

Articulação das unidades navais em 1940[21]
Divisão de Encouraçados Minas Gerais e São Paulo
Divisão de Cruzadores Rio Grande do Sul e Bahia
Flotilha de Contratorpedeiros Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe, Santa Catarina e Mato Grosso
Flotilha de Submarinos Humaitá, Tupi, Timbira e Tamoio
Trem Tênderes Belmonte e Ceará, navios-tanque Novais de Abreu e Marajó, rebocadores Aníbal de Mendonça, Muniz Freire, Henrique Perdigão e DNOG
Flotilha de Navios Mineiros Varredores Dez navios
Flotilha da Diretoria de Hidrografia e Navegação Três navios hidrográficos e dois navios faroleiros
Navio isolado Navio-escola Almirante Saldanha
Flotilha do Amazonas (fluvial) Canhoneira Amapá e rebocador Mário Alves
Flotilha de Mato Grosso (fluvial) Monitores Parnaíba, Paraguaçu e Pernambuco, avisos Oiapoque e Voluntários e navio-tanque Potengi

Pensamento naval entreguerras

A política naval brasileira no período entreguerras não tinha orientação bem definida. As prioridades gerais eram o cenário regional, especialmente na rivalidade com a Argentina, e as operações e unidades de superfície.[22] As aquisições navais eram explicadas com base na defesa dos oito mil quilômetros de costa e paridade com as esquadras argentina e chilena. A Escola de Guerra Naval (EGN) estudava hipóteses de conflito sul-americano com interceptações, proteção de bases, transporte de tropas do Exército e manutenção de linhas de comunicação marítimas para a Europa e Estados Unidos. Entretanto, a guerra antissubmarina era ignorada.[23][24] Quanto à composição da esquadra, competiam os proponentes de encouraçados e navios de dimensões menores.[25] Jogos de guerra nos anos 1930 já incluíam a aviação, desembarques anfíbios e guerras contra potências europeias, mas os inimigos usavam somente forças de superfície.[26]

O período foi de dificuldades econômicas e profundas reformas. O pensamento estratégico e a tática eram modificados pela influência da Missão Naval Norte-Americana (MNNA) sobre a Escola de Guerra Naval (EGN) e o Estado-Maior da Armada. Oficiais de baixa patente que estagiaram nos EUA, os "arquiduques", propunham atualizações no pensamento naval.[27] O contrato da MNNA foi assinado em 1922, abandonado em 1931 e retomado em 1935. Instrutores americanos lecionavam na EGN.[28][14] A Marinha dos Estados Unidos suplantava a Marinha Real britânica na posição de principal influência na Marinha do Brasil.[29]

Administração naval na Era Vargas

Almirante Aristides Guilhem (de uniforme branco) com Vargas (à direita) e outros de seus ministros (1939)

A Presidência da República foi ocupada por Getúlio Vargas de 1930 a 1945. De 1937 em diante, Vargas chefiou, com apoio das Forças Armadas, a ditadura do Estado Novo.[30] Na maior parte deste período o Ministério da Marinha esteve com os almirantes Protógenes Guimarães (1931–1935) e Aristides Guilhem (1935–1945).[31] Protógenes era um dos ex-rebeldes tenentistas dos anos 1920,[32] anistiados pelo presidente numa de suas primeiras medidas no poder. Na Marinha, os anistiados eram poucos e sua reintegração não foi difícil como no Exército.[33] A longa gestão de Aristides garantiu alguma continuidade nos planos navais,[31][34] pois a tomada de decisões centralizada e personalista, apesar da estrutura de assessoramento do Estado-Maior da Armada e da missão americana.[31] O presidente podia ou não executar o planejamento apresentado pelos militares.[34]

A força naval combateu a Revolução Constitucionalista de 1932, contribuindo à manutenção de Vargas no poder,[35] mas muitos oficiais simpatizavam com os rebeldes.[36] Vargas acabou liberando verbas à Marinha por precisar de apoio militar, mesmo no quadro da Grande Depressão,[34] e por necessidades de política externa, com duas guerras em países fronteiriços: Colômbia-Peru (1932–1933) e Bolívia-Paraguai (1932–1935).[37] O projeto de reativação da construção naval brasileira era compatível com a política de industrialização por substituição de importações.[38][39] O aço para a construção naval era importado dos Estados Unidos, interessando os ministros na causa da nacionalização da indústria siderúrgica.[40] A propaganda do Estado Novo explorou as cerimônias de batimento de quilha e lançamento ao mar, apresentando-as como afirmações da nacionalidade, modernidade e desenvolvimento.[41]

Mais dois movimentos tentariam derrubar Vargas nos anos 1930: os comunistas (1935) e integralistas (1938). O primeiro caso não envolveu diretamente a Marinha, enquanto o segundo resultou na prisão de muitos de seus oficiais e praças.[42][43] Em resposta, Vargas não reduziu o programa naval, mas restringiu o combustível e munição disponíveis à Esquadra até 1942.[28] Uma decisão presidencial seria controversa dentro da Marinha: a extinção das aviações do Exército e da Marinha para criar uma nova pasta militar, o Ministério da Aeronáutica, que redistribuiu as bases de apoio político-militar.[44]

Programa naval de 1932

Incorporação dos navios-mineiros da classe Carioca (1940)

No despontar da guerra, em 1939, estaleiros brasileiros trabalhavam em um monitor, seis navios-mineiros e três contratorpedeiros. Outro monitor de mesma origem entrou em serviço em 1937. Seis contratorpedeiros, encomendados pela Marinha do Brasil, eram construídos no Reino Unido,[45][46] e três submarinos italianos já haviam sido incorporados alguns anos antes.[47] Todos integravam um programa naval instituído em 1932 e revisado nos anos seguintes.[37][48] Só uma pequena parte do planejado chegaria a ser implementada nos anos 1930.[8]

Para financiar o programa, em 11 de junho de 1932 o governo aprovou créditos anuais de 40 mil contos de réis ao longo de dez anos.[49] O objetivo era uma força naval modesta, dentro das possibilidades financeiras e técnicas do país. Não havia um planejamento estratégico ou político,[50] somente uma preocupação em reduzir a inferioridade ante as armadas argentina e chilena.[8] O diagnóstico oficial do relatório do Ministério da Marinha de 1932 era que a "Esquadra agoniza pela idade e, perdido com ela o hábito das viagens, substituído pela vida parasitária e burocrática dos portos, morrem todas as tradições".[51]

A proposta original era de comprar no exterior dois cruzadores, nove contratorpedeiros, quatro submarinos, dois submarinos mineiros, seis navios-mineiros e três navios-tanque.[32] As aquisições foram dificultadas por acordos internacionais de limitação naval e a falta de moeda forte ou ouro. Nos Estados Unidos, legislações restringiam as exportações[37] e a política externa preferia manter um equilíbrio entre as potências sul-americanas, negando, por exemplo, o fornecimento de oito contratorpedeiros por protestos do governo argentino.[52] A alternativa era construir em território brasileiro, ressuscitando uma indústria dormente:[37] o último navio de guerra moderno de projeto e construção brasileira havia sido o cruzador Tamandaré, de 1890. A importação era desde então o principal meio de obtenção de navios, incluindo os da Esquadra de 1910.[53] O Brasil era país de poucas indústrias,[54] mas em industrialização relativamente acelerada.[55]

A principal instalação industrial foi o novo Arsenal de Marinha, em construção na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, desde os anos 1920.[56] O batimento de quilha do monitor Parnaíba, em junho de 1936, assinala o reinício da construção naval brasileira após décadas de abandono. Um casco abandonado foi aproveitado para outro monitor, o Paraguaçu.[57] Seis navios-mineiros, a classe Carioca, seriam construídos no Brasil, seis contratorpedeiros, a classe Javari, no Reino Unido,[58] e seis submarinos, a classe Perla/Tupi, na Itália.[59]

O caso italiano foi um movimento de diversificação de fornecedores, no qual o Brasil contornava a escassez de divisas pagando diretamente em produtos agrícolas.[60] A Alemanha forneceu máquinas ao Arsenal de Marinha, e a Itália, os submarinos, entregues em 1938 após a intervenção pessoal de Benito Mussolini para garantir a venda.[59] Os americanos reagiram ao avanço comercial italiano e alemão no Brasil. Contornando suas próprias dificuldades de exportação, venderam a preço simbólico os planos de construção da classe Mahan. No Brasil, tornaram-se os três contratorpedeiros da classe Marcílio Dias, cujas quilhas foram batidas em 1937.[58] Em 1938 o planejamento já havia crescido a três cruzadores, dezoito contratorpedeiros, nove submarinos e doze navios-mineiros.[58] No horizonte, vislumbrava-se construir no Brasil um cruzador e submarinos.[61]

Entrada na guerra

A guerra aos submarinos alemães em cartaz de propaganda de 1943

Desde 1939 havia sinais de que as hostilidades se aproximariam do Brasil.[8] Ao Eixo, interessava cortar o fornecimento brasileiro de matérias-primas aos EUA e Grã-Bretanha,[62][2] embora o tráfego marítimo ao largo do litoral brasileiro fosse de importância secundária: o teatro principal das operações submarinas estava na costa leste dos EUA.[63] Os americanos temiam um alinhamento brasileiro ao Eixo e tentaram negociar bases em território brasileiro.[64] As marinhas brasileira e americana eram melhor relacionadas do que os exércitos dos dois países, e a opinião na Marinha do Brasil favorecia os Aliados, mas ela tinha menos influência política que o Exército Brasileiro.[65][66]

Se a diplomacia falhasse, havia um plano americano de invasão. Projetava-se que a Marinha do Brasil seria incapaz de oferecer resistência significativa.[67] Também no caso de uma campanha do Eixo, o Brasil estaria vulnerável. Seria fácil aos submarinos inimigos adentrarem as baías da Guanabara e de Todos-os-Santos, que não tinham nenhuma rede antissubmarina, para afundar os navios ali ancorados.[68] O comércio marítimo era a artéria da economia brasileira, por carência de comunicações entre os grandes centros.[69] As cidades costeiras ao norte do Rio de Janeiro — Vitória, Salvador, Maceió, Recife, Natal, Fortaleza, São Luís e Belém — eram na realidade ilhas. Nada se movia entre elas sem passar pelo Atlântico.[68]

Na Conferência de Havana de 1940, representantes dos países da América estabeleceram uma zona de segurança marítima em torno do continente. Com base nesta diretriz, "patrulhas da neutralidade" da Marinha dos Estados Unidos passaram a frequentar o porto do Recife em maio de 1941 e estabeleceram ali sua base naval em outubro.[8] Os EUA ingressaram na guerra em 7 de dezembro de 1941. No dia 10, patrulhas marítimas americanas já partiam de Natal,[12] e ao final do mês, os EUA já transferiam bombas de profundidade para navios brasileiros.[70]

Em janeiro de 1942, o Brasil cortou relações diplomáticas e comerciais com as potências do Eixo, criou uma comissão de cooperação naval com os EUA[71] e transferiu ao Recife a Divisão de Cruzadores e alguns navios-mineiros para manterem contato com as forças americanas lideradas pelo almirante Jonas H. Ingram.[70] De fevereiro a agosto de 1942, submarinos do Eixo torpedearam dezessete cargueiros, navios-tanque e transportes brasileiros,[71] entre eles o Baependi, que carregava parte do efetivo do 7.° Grupo de Artilharia de Dorso do Exército. Ele não tinha escolta da Marinha, pois as duas forças não tinham o costume de cooperar e a Marinha carecia de meios antissubmarino.[72]

Os afundamentos culminaram na declaração de guerra pelo governo brasileiro.[71] Pairava a ameaça sobre o o abastecimento às grandes cidades do litoral. As interrupções do tráfego marítimo logo afligiram a população com racionamentos de alimentos e combustíveis.[73][74] Nos primeiros momentos, a reação era de pânico, a ponto de se propor a transferência da capital para Belo Horizonte.[75]

Expansão durante a guerra

A vantagem brasileira era a aliança a uma potência industrial, os Estados Unidos. Os americanos participaram da defesa do tráfego marítimo brasileiro,[73] disponibilizaram materiais bélicos através da Lei de Empréstimo e Arrendamento (Lend-Lease) e auxiliaram a construção naval brasileira e a adaptação dos navios existentes à guerra antissubmarino.[76][77] Tripulações e guarnições foram instruídas em novas técnicas e equipamentos de origem americana.[7] Vargas pessoalmente solicitou navios aos americanos, e o almirante Ingram intercedeu junto aos seus superiores em favor do Brasil.[78] Partindo "do zero",[79] no despreparo e improvisação,[80] a Marinha do Brasil modernizou-se em termos administrativos, profissionais e de bases e material flutuante para se transformar numa força antissubmarina. Foi um ciclo de expansão naval ditado pelos acontecimentos internacionais — a estratégia americana de defesa hemisférica — e não por intenções prévias das autoridades brasileiras, até então mais preocupadas com os contextos regional e interno.[79][61]

Construção local

Lançamento ao mar do contratorpedeiro Mariz e Barros, da classe Marcílio Dias, no Arsenal de Marinha

O programa naval vigente perdeu o acesso ao mercado de material bélico europeu em 1939. Os americanos eram agora os únicos fornecedores viáveis.[46] Os seis contratorpedeiros da classe Javari foram requisitados pela Marinha Real britânica e o Brasil recebeu de volta os valores pagos.[41] Da mesma forma, a entrada da Itália na guerra em 1940 deixou incompleta a encomenda de submarinos.[59] Os Javari teriam sido ideais para a luta que o Brasil enfrentaria: o HMS Hesperus [en], ex-Juruena, afundou cinco submarinos alemães.[75] Em seu lugar, o Arsenal de Marinha aproveitou os planos britânicos para construir a classe Amazonas. As obras foram demoradas e os navios da classe só seriam incorporados de 1949 a 1960.[81][61] No caso dos submarinos, planos de construção no Brasil foram abandonados por falta de prioridade.[59]

Dentre as construções iniciadas antes da guerra, os seis navios-mineiros da classe Carioca (Carioca, Cananeia, Camocim, Cabedelo, Caravelas e Camaquã) foram comissionados entre setembro de 1939 e junho de 1940,[82] o monitor Paraguaçu em 1940[83] e os três contratorpedeiros da classe Marcílio Dias (Marcílio Dias, Mariz e Barros e Greenhalgh) em novembro de 1943.[82] O Estaleiro Laje, em Niterói, produziu seis corvetas (na realidade, traineiras) da classe Matias de Albuquerque.[84] Seis caça-submarinos da classe Piranha, encomendados no mesmo estaleiro só ficariam prontos depois da guerra.[85] Os americanos auxiliaram os projetos brasileiros, especialmente nos primeiros anos da guerra, quando incentivar a produção dos aliados liberava a produção bélica americana para áreas mais importantes. Ao final da guerra, a produção do "Arsenal da Democracia" excedia a demanda dos militares americanos e o interesse na indústria brasileira se esvaiu.[76]

O programa naval de 1932 resultou na construção de dezesseis navios de combate principais (corvetas e contratorpedeiros), contra nove fragatas, corvetas e submarinos construídas no período de 1945 a 2005. Não houve muita relação com a construção civil e o índice de nacionalização era baixíssimo: chapas e perfis para casco, máquinas, caldeiras, eixos, hélices, materiais e equipamentos eletrônicos, armamentos e até tintas eram importadas.[86] Ainda assim, ao final da guerra havia uma produção limitada de canhões, munições, torpedos e alguns equipamentos eletrônicos e uma crescente independência em navios menores.[85]

Adaptações

Os navios existentes foram modernizados com a instalação de calhas para lançamento de bombas de profundidade nos cruzadores, contratorpedeiros, monitores navios mineiros da classe Carioca e navios hidrográficos, sonar nos cruzadores, na classe Carioca e nos navios hidrográficos, morteiros K na classe Carioca e navios hidrográficos, canhões de 120 milímetros no navio-tanque Marajó e tênder Belmonte e metralhadoras Oerlikon de 20 milímetros nos navios hidrográficos, navio-tanque Marajó, monitores e rebocadores e demais auxiliares.[87][88] Os navios hidrográficos e mineiros foram reclassificados como corvetas.[84]

Lend-Lease

Cerimônia de entregua dos caça-submarinos Jaguarão e Jaguaribe dos EUA ao Brasil (1943)

Foi acordado em outubro de 1941 que o Brasil receberia dos EUA um crédito de duzentos milhões de dólares pelo Lend-Lease, dos quais cinquenta milhões caberiam à Marinha. Dois milhões de dólares foram destinados a armar navios mercantes.[89] À medida que os meios eram fornecidos, os americanos transferiam suas unidades a teatros de operações mais importantes, deixando os brasileiros aumentarem sua participação nas operações.[90]

Dentro do programa, ao longo da guerra os EUA transferiram ao Brasil 24 navios de três classes: oito caça-submarinos de casco de ferro da classe Guaporé ou classe G (SC- 497, nos EUA), recebidos entre setembro de 1942 e novembro de 1943, oito caça-submarinos de casco de madeira da classe Javari ou classe "J" (PC-461, nos EUA), entre dezembro de 1942 e abril de 1943, e oito contratorpedeiros de escolta da classe Bertioga (Cannon, nos EUA), entre agosto de 1944 e maio de 1945.[91][92] Eram navios de pequena dimensão, mas modernos para a guerra antissubmarino.[93] Finda a guerra na Europa, ainda seria transferrido o navio de transporte de tropas Duque de Caxias, em julho de 1945.[94]

Os caça-submarinos da classe J, Javari, Jutaí, Juruá, Juruema, Jaguarão, Jaguaribe, Jacuí e Jundiaí,[94] eram produzidos em massa nos EUA para aliviar navios maiores a operações oceânicas. 435 unidades da classe SC-497 foram construídas ao longo da guerra.[95] Os "cacinhas"[96] ou "caça-paus", como foram apelidados no Brasil, deslocavam apenas 136 toneladas em plena carga. Eles não superavam a velocidade ou poder de fogo de um submarino emerso, mas conseguiriam ameaçar um submarino submerso com bombas de profundidade, morteiros K e estativas de foguetes antissubmarino, as "mousetraps". Para detecção, usavam um sonar. Os caça-submarinos da classe G, ou "caça-ferros", Guaporé, Gurupi, Guaíba, Gurupá, Guajará, Goiana, Grajaú e Graúna, tinham radar, sonar e maior armamento, deslocando 463 toneladas carregadas.[97] Os contratorpedeiros de escolta Bertioga, Beberibe, Bracuí, Bauru, Baependi, Benevente, Babitonga e Bocaina, com 1 520 toneladas carregadas, eram mais adequados para enfrentar submarinos, mas só foram recebidos no período final da guerra.[98]

Em 1943 Vargas escreveu ao presidente americano Franklin D. Roosevelt para pedir "meia dúzia de cruzadores de sete a dez mil toneladas e dez destróieres semelhantes aos Marcílios", para que a Marinha brasileira pudesse operar mais longe da costa. No ano seguinte, enquanto o governo argentino estava em crise com os EUA, Vargas apresentou um programa naval elaborado pelo Estado-Maior da Armada, que incluiria quatro cruzadores, dois porta-aviões e quinze contratorpedeiros. Roosevelt simpatizava com as demandas, mas respondeu que os meios eram necessários no teatro do Pacífico. Foi este pedido que resultaria na transferência da classe Bertioga.[93]

Outro programa, apresentado em 1945, propunha a obtenção via Lend-Lease de dois encouraçados da classe Nevada, dois porta-aviões da classe Independence, quatro cruzadores da classe Cleveland, 24 contratorpedeiros, treze submarinos e doze lanchas torpedeiras. A insistência numa poderosa esquadra de superfície mostrava a sobrevivência do antigo pensamento naval, focado na rivalidade com a Argentina, mesmo quando havia uma orientação clara à guerra antissubmarino. Os militares americanos exibiram simpatia pelo projeto, interessando-se no monopólio de fornecimento de material bélico e na padronização das forças latinoamericanas em moldes americanos. Já o embaixador americano Adolf A. Berle argumentou a seus superiores que o Brasil seria incapaz de fazer a manutenção de um maquinário tão complicado e o dinheiro e esforço seriam melhor gastos na infraestrutura e educação. Foi o Departamento de Estado que bloqueou a proposta, temeroso de fomentar uma potência militar sul-americana.[99][100]

Defesa portuária e costeira

O Minas Gerais no porto de Salvador

Temia-se o torpedeamento de navios atracados em portos e desembarques hostis para atos de sabotagem. As três Forças Armadas tinham responsabilidade pela defesa do litoral.[101] O Exército reforçava o litoral nordestino, transferindo unidades do centro-sul do país, desde 1941. Sua artilharia de costa, antes presente só entre o Rio de Janeiro e Santos, foi estendida a todas as regiões do país, com novos grupos insalados em Belém, Natal, Fernando de Noronha, Recife, Salvador, Imbituba e Rio Grande.[102][103] A Marinha dividiu o litoral e os rios navegáveis em Comandos Navais, assim sediados: Norte (Belém), Nordeste (Recife), Leste (Salvador), Centro (Rio de Janeiro), Sul (Florianópolis) e Mato Grosso (Ladário). Os Comandos Navais eram subordinados diretamente ao Estado-Maior da Armada e atuaram no apoio logístico e defesa local.[101]

Ainda antes da declaração de guerra, já se iniciavam medidas de defesa de porto. No Rio de Janeiro, a baía de Guanbara era protegida pelas fortalezas do Exército e por uma rede de aço antitorpédica, instalada no eixo Boa Viagem-Ilha de Villegagnon e movimentada por rebocadores. Navios-mineiros (Itacurujá, Itajaí e Itapemirim) foram organizados na "Flotilha João das Botas" para o patrulhamento interno, enquanto os antigos contratorpedeiros da classe Pará fizeram o patrulhamento externo.[104] O Piauí, Santa Catarina e Sergipe deram baixa em julho de 1944, enquanto o Mato Grosso e Rio Grande do Norte serviram até o final da guerra. Não há informações sobre a data de baixa do Paraíba, sem condições de mar desde antes da guerra.[105]

Os antigos couraçados foram movidos para Recife (São Paulo) e Salvador (Minas Gerais) como plataformas de artilharia, em cooperação com o Exército.[106] Salvador foi reforçada em abril de 1943 pelos monitores Parnaíba e Paraguaçu, transferidos do Comando Naval de Mato Grosso.[107] Rebocadores artilhados patrulharam Santos e Rio Grande. Em Vitória, a Marinha cedeu canhões navais de 120 milímetros ao Exército.[107] Companhias Regionais de Fuzileiros Navais foram instaladas em Natal (3.ª Companhia, em 1942), Salvador (4.ª Companhia, em 1943) e Recife (5.ª Companhia), em 1944. Um destacamento foi instalado na Ilha da Trindade.[108] Houve discussões sobre quem deveria guarnecer Fernando de Noronha, a Marinha ou o Exército, e o Conselho de Segurança Nacional optou em 1941 pelo Exército. Segundo o almirante Alberto Lemos Bastos, esta ocupação "deveria, penso, ter sido feita pela Marinha. Quando nisto falei ao Ministro, ele me disse que a Marinha não tinha como fazê-la".[18]

As colônias de pescadores do litoral foram incorporadas ao sistema de vigilância, e para tanto, em outubro de 1942 o governo transferiu a jurisdição sobre as colônias do Ministério da Agricultura ao Ministério da Marinha, onde foram subordinadas aos Comandos Navais e Capitanias dos Portos. O fomento à pesca e industrialização do pescado permaneceram na competência do Ministério da Agricultura, que foi encarregado de organizar instituições cooperativas, médicas e de ensino. A ideia não era nova: a própria Marinha organizou as colônias de pescadores depois da Primeira Guerra Mundial. Um documento exemplificativo, baixado pelo Capitão dos Portos da Paraíba em janeiro de 1942, determinava aos pescadores a "obediência absoluta a tudo o que for determinado pelo capataz desta Capitania [...] no que diz respeito à informação relativa à fiscalização da costa" e a "comunicação imediata de qualquer embarcação vista ao largo".[109] Ao mesmo tempo, a infantaria e artilharia do Exército estavam presentes entre os pescadores. Os Estados-Maiores das duas forças demoraram até 1943 para acordar uma estrutura de compartilhamento de informações.[110]

Batalha do Atlântico

O principal oponente marítimo, a força submarina alemã, era talvez a melhor da época, com embarcações modernas e tripulações veteranas.[73][74] Contra ela, a campanha da Marinha do Brasil foi defensiva: a tarefa mais realizada foi a escolta de comboios marítimos no trecho entre Trinidad (no Caribe) e o Rio de Janeiro e vice-versa. Não havia navios para manobras ofensivas.[84] Obsoleta em meios navais e incapaz de garantir a segurança no litoral brasileiro, a força viu-se obrigada a subordinar-se à Marinha dos Estados Unidos.[111][112] O almirante Jonas H. Ingram assumiu o comando de todas as forças Aliadas no Atlântico Sul, e bases aéreas e navais americanas operavam do saliente nordestino.[113]

Organização

Comboio no litoral brasileiro

O comando conjunto Aliado para ações aeronavais era denominado Força do Atlântico Sul, exercido pelo almirante Ingram cumulativamente com o comando da 4.ª Esquadra, seu componente americano. Como tal, eram os americanos que constituíam grupos-tarefa, atribuíam missões e designavam objetivos. Em 12 de setembro de 1942 o componente naval brasileiro foi reorganizado na Força Naval do Nordeste (FNNE), inicialmente ao comando do capitão de mar e guerra Alfredo Carlos Soares Dutra. Dentro da estrutura da Força do Atlântico Sul, a FNNE constituiria, a partir de maio de 1943, a FT-46. Elementos da Força Aérea Brasileira compunham a FT-49.[114] Para operações ao sul do Rio de Janeiro, o Grupo de Patrulha Sul (GPS) foi criado em 25 de agosto de 1942 e renomeado Força Naval do Sul (FNS) em 24 de abril de 1944. Outros meios foram atribuídos aos Comandos Navais.[70]

A composição original da FNNE era dos cruzadores Bahia e Rio Grande do Sul, navios-mineiros Carioca, Caravelas, Camaquã e Cabedelo e caça-submarinos Guaporé e Gurupi. O Cananeia e Camocim, da mesma classe, foram transferidos à FNNE, respectivamente em 1942 e 1943. A FNNE ainda incorporaria os submarinos Tamoio, em 1942, e Tupi, em 1944, o tênder Belmonte, em 1942, e os três contratorpedeiros da classe Marcílio Dias e os navios hidrográficos Rio Branco e Jaceguai, em 1944. O Bahia foi um dos navios de melhor serviço, e navegou mais tempo de 1942 a 1945 do que em toda sua carreira de 1910 a 1942. O navio-tanque Marajó integrou comboios diversos.[9] O emprego dos submarinos limitava-se ao treinamento de táticas antissubmarino. Os dois encouraçados usados para defesa local não eram parte da FNNE.[115]

A composição original do GPS era dos contratorpedeiros Santa Catarina, Rio Grande do Norte e Sergipe. Dois meses depois eles foram substituídos pelo contratorpedeiro Maranhão e as corvetas Cananeia e Camocim. O submarino Timbira foi incluído em 1944. Os navios-mineiros Caravelas, Camaquã e Cabedelo foram transferidos da FNNE em 1944.[70]

O tráfego marítimo foi organizado em comboios, grupos de mercantes escoltados por navios de guerra. Os mercantes tinham um comandante comum, o comodoro, e uma identificação de duas letras, a primeira para o porto de saída e a segunda para o de chegada, e um número de sequência.[116] Um comboio TJ, por exemplo, seguia de Trinidad ao Rio de Janeiro.[90] As letras eram T - Trinidad, R - Recife, B - Salvador, J - Rio de Janeiro, S - Santos e F - Florianópolis.[90] Havia comboios do norte, para navios oriundos da América do Norte e Caribe, que seguiam ao sul da África e Oceano Índico; comboios do sul, entre o Rio de Janeiro e Florianópolis, para navios que se destinavam ao sul do Brasil e ao Uruguai; comboios especiais, com escolta unicamente brasileira, e comboios a serviço do Exército e Força Aérea, no trecho Recife-Fernando de Noronha.[90]

Operações

Lançamento de foguetes antissubmarino pelo caça-submarino Guajará

Os comboios eram um mau necessário: era preciso aguardar a chegada de outros mercantes para formar o comboio, e navegar à velocidade do mercante mais vagaroso.[117] Nos comboios, os navios protegidos assumiam formação com frente maior do que a profundidade. O comandante do comboio aplicava regras de segurança como as comunicações diurnas por holofotes e bandeiras, fonia de alta frequência com alcance visual, silêncio de rádio e restrições à fumaça e lixo. A entrada e saída de portos eram precedidas de ações como a varredura de minas. No planejamento, era muito importante selecionar as rotas, áreas de encontro e movimentações nas entradas e saídas de portos. Os navios de escolta não necessariamente faziam todo o percurso, podendo ser substituídos por outros ao longo do caminho. Aviões contribuíam à escolta patrulhando rotas preestabelecidas.[118]

Os primeiros comboios Rio-Recife foram organizados em setembro de 1942 e estendidos no mês seguinte a Trinidad, onde os alemães afundaram 375 mil toneladas de navios mercantes entre setembro a novembro. Nessa região, as escoltas eram principalmente americanas. Do Rio a Recife, eram majoritariamente brasileiras, e de Recife ou Salvador a Trinidad, eram mistas.[116] Um caça-submarino escoltava as viagens quinzenais Fortaleza-Belém ou São Luís-Belém que traziam os "soldados da borracha" para extrair este produto essencial à indústria de guerra dos Aliados.[119] Estes comboios do norte atendiam em sua maioria as rotas internacionais. A participação brasileira só começaria a partir de fevereiro de 1943.[96] Ao sul do Rio de Janeiro, uma das primeiras missões foi escoltar o carvão que seguia às fábricas de gás em São Paulo e Rio.[73]

O auge da ofensiva submarina alemã foi de junho a julho de 1943, quando doze submarinos navegaram ao longo da costa brasileira ao mesmo tempo. Porém, os alemães encontraram uma defesa Aliada melhor preparada.[120] A organização de comboios e patrulhas antissubmarino reduziu o número de navios brasileiros afundados de 24 em 1942 para oito em 1943.[121] A ameaça estava praticamente eliminada ao final do ano, de forma que apenas um navio brasileiro, o Vital de Oliveira, foi afundado em 1944.[122]

Os caça-submarinos de madeira não atenderam a rotas internacionais. Nos comboios TJ e JT, era padrão a substituição da escolta na passagem por Salvador. A autonomia era pequena e os comboios de longa duração esgotavam suas tripulações.[123] Os americanos procuravam usar seus caça-submarinos apenas em patrulhas nas redondezas dos portos. No Brasil, a extensão do litoral a patrulhar exigiu viagens longas, ainda que pouco distantes da costa. Segundo o almirante Artur Oscar Saldanha da Gama, "a falta de comodidade era realmente incrível nesses pequenos navios, de boa estabilidade mas que jogavam muito e eram cobertos pelas vagas". "Nos cruzeiros maiores, Trinidad-Belém ou Recife-Belém, as condições de vida eram realmente péssimas".[78] A vida nestas condições informalizava a disciplina, tal como nas trincheiras da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na campanha da Itália. Segundo o então capitão-tenente Oswaldo Cortes, primeiro comandante do Jaguarão, "Eu considerava todos como amigos, grandes amigos. Estávamos ali sofrendo as mesmas intempéries, as mesmas vicissitudes, tudo. Todos prontos para morrer". Segundo outro comandante, Hélio Leôncio Martins, a vantagem de chefiar uma unidade tão pequena era a liberdade de ação.[124] Nos "caça-ferros", a tripulação tinha mais confortos, como o banho.[97]

Como a saída de uma escolta de um comboio cria uma lacuna na sua defesa, somente com uma reserva de navios de guerra adicionais era possível formar grupos de caça e destruição.[125] Estes constituíam patrulhas oceânicas de navios velozes e bem armados, em missões de quinze dias de interceptação de submarinos, raiders e furadores de bloqueio em áreas predeterminadas do Atlântico entre o Brasil e a África. Somente após a incorporação do primeiro contratorpedeiro da classe Marcílio Dias à FNNE, em 1944, o Brasil começou a participar das patrulhas oceânicas.[126] Coube ainda à Marinha a escolta do transporte da FEB até Gibraltar.[127] Após o final da guerra na Europa, quando tropas e materiais eram transferidas ao teatro do Pacífico, navios brasileiros participaram do serviço de salvamento e orientação a aeronaves americanas entre os litorais brasileiro e africano.[128] Com o final da guerra, a FNNE retornou ao Rio de Janeiro em 7 de novembro de 1945 e foi extinta.[128]

Resultados

Lançamento de bomba de profundidade pelo cruzador Bahia, visto da corveta Carioca

Entre 1942 e 1945, foram comboiados cerca de 3 164 navios em 575 comboios, sendo 1 577 brasileiros e 1 041 americanos, tendo 99,01% dos navios protegidos chegado aos seus destinos.[1] Nos comboios escoltados, as únicas perdas foram de navios desgarrados ou obrigados a deixar o comboio por causa da fumaça de suas máquinas.[128] Mais de mil brasileiros morreram na Batalha do Atlântico em 33 afundamentos.[1][112] Dois pequenos navios torpedeados não foram identificados, mas por terem sido afundados junto à costa brasileira, concluiu-se que eram navios brasileiros, provavelmente veleiros.[129] Em tonelagem bruta, foram perdidos 21,47% da frota nacional.[1]

As perdas da Marinha do Brasil foram o navio-auxiliar Vital de Oliveira, afundado por um submarino alemão no trajeto Vitória-Rio em 19 de julho de 1944, a corveta Camaquã, tombada pelas ondas em 21 de julho de 1944, a doze milhas da barra do Recife, quando retornava da escolta do comboio JT-18, e o cruzador Bahia, que afundou a si mesmo com a detonação acidental de uma de suas cargas de profundidade num exercício de tiro em 4 de julho de 1945. Nos três navios perdidos a Marinha teve 463 mortos. Outros 23 militares morreram embarcado em outros navios, para um total de 486 mortos.[130]

Foram percorridos pelos escoltas, sem contar com as manobras (ziguezagues) realizadas para dificultar a detecção submarina e o desvio de torpedos lançados dos inimigos, um total de 600 mil milhas náuticas, o equivalente a 28 voltas em redor do globo pela linha do equador. A Marinha do Brasil comboiou o equivalente a cinquenta navios mercantes por cada navio de guerra brasileiro. Em comparação, a Marinha dos Estados Unidos comboiou dezesseis mercantes para cada navio de guerra.[1][129] O navio de guerra que mais tempo passou no mar foi o caça-submarinos Guaporé, num total de 427 dias de mar, em pouco mais de três anos de operação, com uma média anual de 142 dias de mar. Já o navio que participou no maior número de comboios foi a corveta Caravelas, com 77 participações.[1]

66 ataques foram efetuados contra submarinos alemães, segundo documentação da Marinha Alemã.[127] Dez submarinos alemães e um italiano foram afundados perto da costa brasileira durante a guerra, nenhum deles pela Marinha do Brasil. Os verdadeiros eliminadores de submarinos eram os aviões, que participaram de todos os onze abates. Mesmo a frota americana só atingiu diretamente um deles, o U-128 [en], em maio de 1943. Em toda a guerra, de 805 submarinos perdidos pelos alemães, 382 foram destruídos por aviões, 252 por navios e 51 por ações combinadas.[131] O Brasil só recebeu os contratorpedeiros de escolta, mais poderosos contra submarinos, e só teve meios para formar grupos de caça e destruição no final da guerra, quando o mar já estava razoavelmente seguro.[132]

No caso dos caça-submarinos brasileiros, registraram-se vários contatos de sonar e ataques com cargas de profundidade. É possível, mas difícil de provar, que alguns dos ataques tenham causado danos, como no caso do U-590, atacado pelo Jacuí e Jundiaí em julho de 1943. Mesmo entre os caça-submarinos da Marinha dos EUA, só houve um caso confirmado de afundamento de submarino do Eixo, segundo a história naval oficial de Samuel Eliot Morison. Destruir submarinos não era imprescindível para o papel deste tipo de navio, que já produzia efeito quando os afugentava de atacar os navios escoltados.[133] Conforme o relato histórico oficial de 1985, cada travessia de comboio bem-sucedida "era uma vitória, embora indireta, que se repetiu centenas de vezes durante a guerra", numa campanha "sem grandes lances heroicos nem a motivação dos resultados imediatos", que exigia "continuidade, permanência no mar, sacrifícios diários".[134]

Legado

Cerimônia em memória aos mortos navais na Segunda Guerra em 2024

Ao final do conflito, o Brasil era a primeira potência militar sul-americana,[61] ainda que só na guerra antissubmarino e só a nível tático.[79] Culminava um dos ciclos de cerca de quatro décadas de expansão moderada e encolhimento da esquadra, após 1910 e antes de 1980.[135] A cessão dos navios do programa Lend-Lease foi tornada permanente. Os EUA não indenizaram seu uso de instalações em território brasileiro, mas deixaram as benfeitorias realizadas e materiais nos armazéns em posse brasileira.[94]

No pós-guerra, o Brasil ingressou num sistema de defesa coletiva do Hemisfério Ocidental, sob liderança americana, tendo como inimigo tácito a União Soviética no contexto da Guerra Fria.[136] No pensamento naval brasileiro, os submarinos soviéticos tomaram o lugar dos submarinos alemães.[137] Em operação, a Marinha do Brasil seria auxiliar da Marinha dos Estados Unidos em operações antissubmarino contra a Marinha Soviética.[138][139]

Sobravam estoques de navios usados e de manutenção excessiva para os países de origem.[140] Para a Marinha do Brasil, a influência americana, consolidada pelo Lend-Lease, continuou pelo Acordo Militar Brasil-Estados Unidos, pelo qual ela teve acesso a baixos preços aos excedentes da Marinha dos Estados Unidos.[141] Diversas classes de contratorpedeiros de origem americana seriam o esqueleto da frota pelas próximas três décadas, aposentando os velhos couraçados. A Marinha ingressou na era do radar e do sonar.[142] Em vez de navios imensos, eram unidades pequenas e ágeis, que substituíam as máquinas alternativas pela propulsão a motores a diesel e os grandes canhões de longo alcance por canhões leves de duplo emprego, torpedos de superfície e armas antissubmarino.[143]

As facilidades do Acordo Militar levaram à negligência com a indústria naval, que não sustentou a escala de produção atingida na guerra.[140] Materiais americanos obsoletos continuariam a preencher o inventário naval até o programa de 1967, quando a Marinha fez encomendas modernas, construídas na Europa ou no Brasil.[144][145] Em 1977 o governo de Ernesto Geisel rompeu com o Acordo Militar e despediu a Missão Naval Americana.[146] O novo pensamento naval deixou de priorizar a guerra antissubmarino.[147]

É comum a opinião de que os combates do Exército na Força Expedicionária Brasileira foram uma participação mais "real" do que as escoltas de comboio da Marinha. O discurso histórico naval se contrapõe a esta imagem e tenta afirmar a relevância da campanha marítima. A edição de 1985 da História Naval Brasileira extrai também um sentido político dos eventos, culpando a "falta de visão dos nossos homens públicos" pelo despreparo do país a uma emergência.[148] A data de memória aos mortos da Marinha em guerra é 21 de julho, dia do afundamento da corveta Camaquã, instituída por aviso do Ministério da Marinha em 1969. Cerimônias anuais são realizadas no Aterro do Flamengo, onde está o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial.[149][150] O contratorpedeiro Bauru foi conservado como navio-museu dedicado à Segunda Guerra.[98][151]

Referências

Citações

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Bibliografia

Livros

Periódicos

Trabalhos acadêmicos

Páginas web