Capítulo dos Chapéus

Capítulo dos Chapéus é um conto do escritor brasileiro Machado de Assis, que foi publicado originalmente na revista A Estação de 15 e 31 de agosto e 15 de setembro de 1883, sendo posteriormente incluído na coletânea Histórias sem Data. Trata-se de um conto espirituoso sobre uma desavença conjugal causada por um chapéu.
Enredo
O conto apresenta um conflito entre Mariana e seu marido, Conrado Seabra, provocado pelo uso de um chapéu que ela considera inadequado à posição social de um advogado. Ela pede que Conrado troque o chapéu, mas ele reage, e defende o chapéu como parte de sua identidade. Mariana sai de casa com a amiga Sofia, mulher independente, que a estimula a enfrentar o marido.
Durante o passeio pela cidade, Mariana entra em contato com um ambiente agitado e sedutor, reencontra um antigo namorado e observa a vida social intensa, mas sente-se cada vez mais cansada e deslocada. Ao voltar para casa, recupera o conforto na rotina doméstica, reconhecendo que exagerou no conflito. Porém, Conrado chega em casa usando um chapéu novo. Ela, incomodada com a mudança, pede que ele volte ao antigo.
TRECHO: Musa, canta o despeito de Mariana, esposa do bacharel Conrado Seabra, naquela manhã de abril de 1879. Qual a causa de tamanho alvoroço? Um simples chapéu, leve, não deselegante, um chapéu baixo.[1]
Análise da trama
Em "Capítulo dos Chapéus", Machado de Assis discorre sobre a posição da mulher na nova sociedade que se forma no Brasil na segunda metade do século XIX. Por meio de ironia, com uma pitada de tom trágico, o conto narra a situação de duas mulheres: Mariana e Sofia. Personalidades opostas, representando dois mundos diferentes, mas próximos entre si. Mariana ainda é infantil e alienada em um ambiente doméstico: sua vida resume-se à sua casa e seus objetos; Sofia é uma mulher da nova sociedade: independente, resoluta, com limites que vão além da vida doméstica, estendendo-se para a rua. É no confronto entre estas duas personagens que se pode perceber com clareza a situação de subalternidade de uma em contraponto com a de liberdade da outra, ou seja, uma subalterna ao marido e a outra completamente independente dele.[2]
A trama do conto articula duas camadas de representação: a moda e a cidade. A diferença entre os espaços de moradia e de trabalho ilustra a divisão em curso entre as "duas cidades" existentes no Rio. A diferenciação entre os ambientes de trabalho e moradia demandava da nova elite urbana o conhecimento das diferentes regras de convívio em um e outro espaço.[3]
Uniformidade e Monotonia são características que conferem plena homogeneidade ao dia a dia de Mariana. A casa é seu espaço da felicidade, onde tudo está sob seu domínio e responde às suas vontades. Nada escapa ao regime de organização imposto por ela. Nada nesse microcosmos doméstico rigidamente organizado e controlado pode assustar Mariana. Mas essa situação de segurança e monotonia caseiras, que faz tão bem à Mariana, é reduzida a pó durante o passeio pelas ruas mais movimentadas da cidade.[4]
Ligações externas
Referências
- ↑ ASSIS, Machado de. Capítulo dos Chapéus. Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/capitulo-dos-chapeus/29341 . Acesso em: 26 dez. 2025.
- ↑ Cordeiro, A. C. de A. (2021). A figura da mulher subalterna em Machado de Assis: Uma análise do conto “Capítulo dos Chapéus”. Letrônica, 14(3), e39082. https://doi.org/10.15448/1984-4301.2021.3.39082
- ↑ NUNES, Bruna da Silva; ESTACIO, Denise. As tramas da cidade: moda e urbanismo em “Capítulo dos Chapéus”. Latitude, v. 15, n. 2, p. 12–33, jul./dez. 2021. DOI: 10.28998/lte.2021.n.2.13025.
- ↑ FARINACCIO, P. Cidade moderna e doença: as impressões de Kafka e Machado de Assis. Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, [S. l.], n. 38, p. 153–163, 2023. DOI: 10.24261/2183-816x1138. Disponível em: https://revistaveredas.org/index.php/ver/article/view/747. Acesso em: 27 dez. 2025.
