Grupo (matemática)

| Estruturas algébricas |
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Em matemática, um grupo é um conjunto de elementos associados a uma operação que combina dois elementos quaisquer para formar um terceiro. Para se qualificar como grupo o conjunto e a operação devem satisfazer algumas condições chamadas axiomas de grupo: associatividade, elemento neutro e elementos inversos. Apesar destes serem comuns a muitas estruturas matemáticas familiares - e.g. os números inteiros munidos da adição formam um grupo - a formulação dos axiomas é independente da natureza concreta do grupo e sua operação. Isso permite lidar-se com entidade de origens matemáticas completamente diferentes de uma maneira flexível, mas retendo os aspectos estruturais essenciais de muitos objetos da álgebra abstrata e além. A ubiquidade dos grupos em inúmeras áreas - dentro e fora da matemática - os tornam um princípio organizador central da matemática contemporânea.
Grupos compartilham um parentesco fundamental com a noção de simetria. Um grupo de simetria guarda informações sobre as simetrias de um objeto geométrico. Ele consiste do conjunto de transformações que preservam o objeto inalterado e a operação de combinar duas dessas transformações aplicando-as uma após a outra. Tais grupos de simetria, particularmente os grupos de Lie contínuos, têm um importante papel em muitas disciplinas. Grupos de matrizes, por exemplo, podem ser usados para compreender leis físicas fundamentais da relatividade especial e fenômenos em química molecular.
O conceito de grupo emergiu do estudo de equações de polinômios com Évariste Galois na década de 1830. Após contribuições vindas de outros ramos da matemática, como teoria dos números e geometria, a noção de grupo foi generalizada e se estabeleceu firmemente por volta de 1870. A teoria dos grupos moderna - uma área muito ativa de pesquisa - estuda os grupos em si mesmos. Para explorá-los, matemáticos formularam várias noções para quebrar grupos em partes menores e mais compreensíveis, como subgrupos, grupos quocientes e grupos simples. Além das propriedades abstratas, matemáticos estudam as diferentes maneiras em que um grupo pode ser expresso concretamente (as representações do grupo), tanto de um ponto-de-vista teorético quanto prático-computacional. Em particular, uma teoria ricamente desenvolvida é a dos grupos finitos, que culminou com a monumental classificação dos grupos simples finitos, completada em 1983.
Grupos estão por trás de muitas estruturas algébricas, como corpos e espaços vetoriais, e são uma importante ferramenta para o estudo de simetrias. Por estas razões, a Teoria de Grupos é considerada uma área importante da matemática moderna, e tem muitas aplicações em Física Matemática, por exemplo em física de partículas.
Definição e ilustração
Primeiro exemplo: os inteiros
Um dos grupos mais familiares é o conjunto dos inteiros junto com a adição.[1] Para quaisquer dois inteiros e , a soma também é um inteiro; esta propriedade de fechamento diz que a é uma operação binária em . As seguintes propriedades da adição de inteiros servem como um modelo para os axiomas de grupo na definição abaixo.[2]
- Para todos os inteiros , e , tem-se . Expresso em palavras, adicionar e primeiro, e depois adicionar o resultado a dá o mesmo resultado final que adicionar à soma de e . Esta propriedade é conhecida como associatividade.[2]
- Se é um inteiro qualquer, então e . O zero é chamado de elemento neutro da adição porque adicioná-lo a qualquer inteiro retorna o mesmo inteiro.[2]
- Para todo inteiro , existe um inteiro tal que e . O inteiro é chamado de elemento inverso (ou oposto) do inteiro e é denotado por .[2]
Os inteiros, junto com a operação , formam um objeto matemático pertencente a uma ampla classe que compartilha aspectos estruturais semelhantes. Para entender adequadamente essas estruturas como um coletivo, a seguinte definição é desenvolvida.
Definição
Um grupo é um conjunto junto com uma operação binária em , aqui denotada por "", que combina quaisquer dois elementos e de para formar um elemento de , denotado por , tal que os três seguintes requisitos, conhecidos como axiomas de grupo, sejam satisfeitos:[3][4][5][a]
- Associatividade
- Para todos , , em , tem-se .
- Elemento neutro
- Existe um elemento em tal que, para todo em , tem-se e .
- Tal elemento é único. Ele é chamado de elemento neutro (ou às vezes elemento identidade) do grupo.
- Elemento inverso
- Para cada em , existe um elemento em tal que e , onde é o elemento neutro.
- Para cada , o elemento é único; ele é chamado de o inverso de e é comumente denotado por .
Nota: A unicidade do elemento neutro e a unicidade dos elementos inversos não fazem parte dos axiomas; elas são consequências dos três axiomas.
Notação e terminologia
Formalmente, um grupo é um par ordenado de um conjunto e uma operação binária neste conjunto que satisfaz os axiomas de grupo. O conjunto é chamado de conjunto subjacente do grupo, e a operação é chamada de operação de grupo ou lei de grupo.
Um grupo e seu conjunto subjacente são, portanto, dois objetos matemáticos diferentes. Para evitar uma notação pesada, é comum cometer um abuso de notação usando o mesmo símbolo para denotar ambos. Isso também reflete uma forma informal de pensar: de que o grupo é o mesmo que o conjunto, exceto por ter sido enriquecido por uma estrutura adicional fornecida pela operação.
Por exemplo, considere o conjunto dos números reais , que possui as operações de adição e multiplicação . Formalmente, é um conjunto, é um grupo, e é um corpo. Mas é comum escrever para denotar qualquer um desses três objetos.
O grupo aditivo do corpo é o grupo cujo conjunto subjacente é e cuja operação é a adição. O grupo multiplicativo do corpo é o grupo cujo conjunto subjacente é o conjunto dos números reais não nulos e cuja operação é a multiplicação.
De modo mais geral, fala-se de um grupo aditivo sempre que a operação do grupo é notada como adição; neste caso, a identidade é tipicamente denotada por , e o inverso de um elemento é denotado por . Semelhantemente, fala-se de um grupo multiplicativo sempre que a operação do grupo é notada como multiplicação; neste caso, a identidade é tipicamente denotada por , e o inverso de um elemento é denotado por . Em um grupo multiplicativo, o símbolo da operação é frequentemente omitido por completo, de modo que a operação é denotada por justaposição, em vez de .
A definição de um grupo não exige que para todos os elementos e em . Se essa condição adicional for válida, então a operação é dita ser comutativa, e o grupo é chamado de grupo abeliano. É uma convenção comum que, para um grupo abeliano, pode-se usar tanto a notação aditiva quanto a multiplicativa, mas para um grupo não abeliano utiliza-se apenas a notação multiplicativa.
Várias outras notações são comumente usadas para grupos cujos elementos não são números. Para um grupo cujos elementos são funções, a operação é frequentemente a composição de funções ; então o elemento neutro pode ser denotado por id. Nos casos mais específicos de grupos de transformações geométricas, grupos de simetria, grupos de permutações e grupos de automorfismos, o símbolo é frequentemente omitido, assim como para grupos multiplicativos. Muitas outras variantes de notação podem ser encontradas.
Segundo exemplo: um grupo de simetria
Duas figuras no plano são congruentes se uma pode ser transformada na outra usando uma combinação de rotações, reflexões e translações. Qualquer figura é congruente a si mesma. No entanto, algumas figuras são congruentes a si mesmas de mais de uma maneira, e essas congruências extras são chamadas de simetrias. Um quadrado tem oito simetrias. Elas são:[6]
- a operação identidade que deixa tudo inalterado, denotada por ;
- rotações do quadrado em torno de seu centro em 90°, 180° e 270° no sentido horário, denotadas por , e , respectivamente;
- reflexões em torno da linha média horizontal e vertical ( e ), ou através das duas diagonais ( e ).
Essas simetrias são funções. Cada uma envia um ponto no quadrado para o ponto correspondente sob a simetria. Por exemplo, envia um ponto para sua rotação de 90° no sentido horário em torno do centro do quadrado, e envia um ponto para sua reflexão através da linha média vertical do quadrado. Compor duas dessas simetrias dá outra simetria. Essas simetrias determinam um grupo chamado de grupo diedral de grau quatro, denotado por . O conjunto subjacente do grupo é o conjunto de simetrias acima, e a operação do grupo é a composição de funções. Duas simetrias são combinadas compondo-as como funções, isto é, aplicando a primeira ao quadrado e a segunda ao resultado da primeira aplicação. O resultado de realizar primeiro e depois é escrito simbolicamente da direita para a esquerda como ("aplicar a simetria depois de realizar a simetria "). Esta é a notação usual para a composição de funções.[7]
Uma tabela de Cayley lista os resultados de todas essas composições possíveis. Por exemplo, rotacionar 270° no sentido horário () e depois refletir horizontalmente () é o mesmo que realizar uma reflexão ao longo da diagonal (). Usando os símbolos acima, destacados em azul na tabela de Cayley:
| Os elementos , , e formam um subgrupo cuja tabela de Cayley é destacada em vermelho (região superior esquerda). Uma classe lateral à esquerda e à direita deste subgrupo são destacadas em verde (na última linha) e amarelo (última coluna), respectivamente. O resultado da composição , a simetria , é destacado em azul (abaixo do centro da tabela). | ||||||||
Dado este conjunto de simetrias e a operação descrita, os axiomas de grupo podem ser entendidos da seguinte forma:
- Operação binária: A composição é uma operação binária. Isto é, é uma simetria para quaisquer duas simetrias e . Por exemplo, Ou seja, rotacionar 270° no sentido horário após refletir horizontalmente é igual a refletir ao longo da contra-diagonal (). De fato, todas as outras combinações de duas simetrias ainda dão uma simetria, como pode ser verificado usando a tabela de Cayley.
- Associatividade: O axioma de associatividade lida com a composição de mais de duas simetrias: Começando com três elementos , e de , existem duas maneiras possíveis de usar essas três simetrias nesta ordem para determinar uma simetria do quadrado. Uma dessas maneiras é primeiro compor e em uma única simetria, e depois compor essa simetria com . A outra maneira é primeiro compor e , e depois compor a simetria resultante com . Essas duas maneiras devem sempre dar o mesmo resultado, isto é, Por exemplo, pode ser verificado usando a tabela de Cayley:
- Elemento neutro: O elemento neutro é , pois ele não altera nenhuma simetria quando composto com ela, seja à esquerda ou à direita.
- Elemento inverso: Cada simetria tem um inverso: , as reflexões , , , e a rotação de 180° são seus próprios inversos, porque realizá-los duas vezes traz o quadrado de volta à sua orientação original. As rotações e são inversos uma da outra, porque rotacionar 90° e depois rotacionar 270° (ou vice-versa) resulta em uma rotação de 360° que deixa o quadrado inalterado. Isso é facilmente verificado na tabela.
Em contraste com o grupo de inteiros acima, onde a ordem da operação é imaterial, ela importa em , pois, por exemplo, , mas . Em outras palavras, não é abeliano.
Consequências elementares dos axiomas de grupo
Fatos básicos sobre todos os grupos que podem ser obtidos diretamente a partir dos axiomas de grupo são comumente englobados pela teoria elementar de grupos.[8] Por exemplo, aplicações repetidas do axioma da associatividade mostram que a falta de ambiguidade de se generaliza para mais de três fatores (por exemplo, também não é ambíguo). Como isso implica que os parênteses podem ser inseridos em qualquer lugar dentro de tal série de termos, eles são geralmente omitidos.[9]
Unicidade do elemento neutro
Os axiomas de grupo implicam que o elemento neutro é único; isto é, existe apenas um elemento neutro: quaisquer dois elementos neutros e de um grupo são iguais, porque os axiomas de grupo implicam . É, portanto, costume falar de o elemento neutro do grupo.[10]
Unicidade dos inversos
Os axiomas de grupo também implicam que o inverso de cada elemento é único. Suponha que um elemento do grupo tenha tanto quanto como inversos. Então
Portanto, é costume falar de o inverso de um elemento.[10]
Divisão
Dados os elementos e de um grupo , existe uma solução única em para a equação , a saber, .[b][11] Segue-se que, para cada em , a função que mapeia cada para é uma bijeção; ela é chamada de multiplicação à esquerda por ou translação à esquerda por .
Semelhantemente, dados e em , a única solução para é . Para cada , a função que mapeia cada para é uma bijeção chamada de multiplicação à direita por ou translação à direita por .
Definição equivalente com axiomas relaxados
Os axiomas de grupo para o elemento neutro e os inversos podem ser "enfraquecidos" para afirmar apenas a existência de um elemento neutro à esquerda e de inversos à esquerda. A partir desses axiomas unilaterais, pode-se provar que o elemento neutro à esquerda também é um elemento neutro à direita e que um inverso à esquerda também é um inverso à direita para o mesmo elemento. Como eles definem exatamente as mesmas estruturas que os grupos, coletivamente os axiomas não são mais fracos.[12]
Em particular, assumindo a associatividade e a existência de um elemento neutro à esquerda (isto é, ) e um inverso à esquerda para cada elemento (isto é, ), segue-se que todo inverso à esquerda também é um inverso à direita do mesmo elemento da seguinte forma.[12] De fato, tem-se
Semelhantemente, o elemento neutro à esquerda também é um elemento neutro à direita:[12]
Esses resultados não se mantêm se qualquer um desses axiomas (associatividade, existência de elemento neutro à esquerda e existência de inverso à esquerda) for removido. Para uma estrutura com uma definição mais solta (como um semigrupo), pode-se ter, por exemplo, que um elemento neutro à esquerda não é necessariamente um elemento neutro à direita.
O mesmo resultado pode ser obtido assumindo-se apenas a existência de um elemento neutro à direita e um inverso à direita.
No entanto, assumir apenas a existência de um elemento neutro à esquerda e de um inverso à direita (ou vice-versa) não é suficiente para definir um grupo. Por exemplo, considere o conjunto com o operador satisfazendo e . Esta estrutura possui um elemento neutro à esquerda (a saber, ), e cada elemento possui um inverso à direita (que é para ambos os elementos). Além disso, esta operação é associativa (já que o produto de qualquer número de elementos é sempre igual ao elemento mais à direita nesse produto, independentemente da ordem em que essas operações são aplicadas). No entanto, não é um grupo, pois carece de um elemento neutro à direita.
Exemplos e aplicações

Exemplos e aplicações de grupos são abundantes. Um ponto de partida é o grupo dos inteiros com a adição como operação de grupo, introduzido acima. Se, em vez da adição, a multiplicação for considerada, obtém-se os grupos multiplicativos. Esses grupos são predecessores de construções importantes na álgebra abstrata.
Os grupos também são aplicados em muitas outras áreas matemáticas. Objetos matemáticos são frequentemente examinados associando-se grupos a eles e estudando as propriedades dos grupos correspondentes. Por exemplo, Henri Poincaré fundou o que hoje é chamado de topologia algébrica ao introduzir o grupo fundamental.[13] Por meio dessa conexão, propriedades topológicas como proximidade e continuidade traduzem-se em propriedades de grupos.[c]

Os elementos do grupo fundamental de um espaço topológico são classes de equivalência de laços, onde laços são considerados equivalentes se um puder ser suavemente deformado no outro, e a operação do grupo é a "concatenação" (traçar um laço e depois o outro). Por exemplo, como mostrado na figura, se o espaço topológico for o plano com um ponto removido, então os laços que não envolvem o ponto ausente (azul) podem ser suavemente contraídos para um único ponto e são o elemento neutro do grupo fundamental. Um laço que envolve o ponto ausente vezes não pode ser deformado em um laço que envolve vezes (com ), porque o laço não pode ser suavemente deformado através do buraco, de modo que cada classe de laços é caracterizada por seu número de voltas ao redor do ponto ausente. O grupo resultante é isomorfo aos inteiros sob a adição.
Em aplicações mais recentes, a influência também foi revertida para motivar construções geométricas por um referencial teórico de grupos.[d] Em uma linha semelhante, a teoria geométrica de grupos emprega conceitos geométricos, por exemplo, no estudo de grupos hiperbólicos.[14] Outros ramos que aplicam grupos crucialmente incluem a geometria algébrica e a teoria dos números.[15]
Além das aplicações teóricas acima, existem muitas aplicações práticas de grupos. A criptografia baseia-se na combinação da abordagem da teoria abstrata de grupos juntamente com o conhecimento algorítmico obtido na teoria computacional de grupos, em particular quando implementada para grupos finitos.[16] As aplicações da teoria de grupos não se restringem à matemática; ciências como a física, a química e a ciência da computação beneficiam-se do conceito.
Números
Muitos sistemas numéricos, como os inteiros e os racionais, desfrutam de uma estrutura de grupo dada naturalmente. Em alguns casos, como com os racionais, tanto as operações de adição quanto de multiplicação dão origem a estruturas de grupo. Tais sistemas numéricos são predecessores de estruturas algébricas mais gerais conhecidas como anéis e corpos. Outros conceitos algébricos abstratos, como módulos, espaços vetoriais e álgebras também formam grupos.
Inteiros
O grupo dos inteiros sob a adição, denotado por , foi descrito acima. Os inteiros, com a operação de multiplicação em vez da adição, não formam um grupo. Os axiomas de associatividade e do elemento neutro são satisfeitos, mas os inversos não existem: por exemplo, é um inteiro, mas a única solução para a equação neste caso é , que é um número racional, mas não um inteiro. Portanto, nem todo elemento de possui um inverso (multiplicativo).[e]
Racionais
O desejo pela existência de inversos multiplicativos sugere considerar as frações
Frações de inteiros (com diferente de zero) são conhecidas como números racionais.[f] O conjunto de todas essas frações irredutíveis é comumente denotado por . Ainda há um pequeno obstáculo para que , os racionais com a multiplicação, seja um grupo: como o zero não tem um inverso multiplicativo (isto é, não há tal que ), ainda não é um grupo.
No entanto, o conjunto de todos os números racionais não nulos forma um grupo abeliano sob a multiplicação, também denotado por .[g] Os axiomas de associatividade e do elemento neutro seguem das propriedades dos inteiros. O requisito de fechamento ainda se mantém verdadeiro após a remoção do zero, porque o produto de dois racionais não nulos nunca é zero. Por fim, o inverso de é , portanto, o axioma do elemento inverso é satisfeito.
Os números racionais (incluindo o zero) também formam um grupo sob a adição. O entrelaçamento das operações de adição e multiplicação produz estruturas mais complicadas chamadas de anéis e – se a divisão por um número diferente de zero for possível, como em – corpos, que ocupam uma posição central na álgebra abstrata. Argumentos da teoria dos grupos, portanto, fundamentam partes da teoria dessas entidades.[h]
Aritmética modular

A aritmética modular para um módulo define quaisquer dois elementos e que diferem por um múltiplo de como sendo equivalentes, denotado por . Todo inteiro é equivalente a um dos inteiros de a , e as operações da aritmética modular modificam a aritmética normal substituindo o resultado de qualquer operação por seu representante equivalente. A adição modular, definida dessa maneira para os inteiros de a , forma um grupo, denotado como ou , com como o elemento neutro e como o elemento inverso de .
Um exemplo familiar é a adição de horas no mostrador de um relógio de 12 horas, onde o 12, em vez do 0, é escolhido como o representante da identidade. Se o ponteiro das horas estiver no e for avançado em horas, ele terminará no , conforme mostrado na ilustração. Isso é expresso dizendo que é congruente a "módulo " ou, em símbolos,
Para qualquer número primo , existe também o grupo multiplicativo de inteiros módulo .[17] Seus elementos podem ser representados de a . A operação do grupo, a multiplicação módulo , substitui o produto usual por seu representante, o resto da divisão por . Por exemplo, para , os quatro elementos do grupo podem ser representados por . Neste grupo, , porque o produto usual é equivalente a : quando dividido por , resulta em um resto igual a . A primalidade de garante que o produto usual de dois representantes não é divisível por , e, portanto, que o produto modular é não nulo.[i] O elemento neutro é representado por , e a associatividade segue da propriedade correspondente dos inteiros. Por fim, o axioma do elemento inverso exige que, dado um inteiro não divisível por , exista um inteiro tal que ou seja, tal que divida de forma exata. O inverso pode ser encontrado usando a Identidade de Bézout e o fato de que o máximo divisor comum é igual a .[18] No caso de acima, o inverso do elemento representado por é aquele representado por , e o inverso do elemento representado por é representado por , pois . Portanto, todos os axiomas de grupo são cumpridos. Este exemplo é semelhante a acima: ele consiste exatamente naqueles elementos do anel que possuem um inverso multiplicativo.[19] Estes grupos, denotados por , são cruciais para a criptografia de chave pública.[j]
Grupos cíclicos

Um grupo cíclico é um grupo no qual todos os seus elementos são potências de um elemento específico .[20] Na notação multiplicativa, os elementos do grupo são onde significa , representa , etc.[k] Tal elemento é chamado de gerador ou elemento primitivo do grupo. Na notação aditiva, a exigência para que um elemento seja primitivo é que cada elemento do grupo possa ser escrito como
Nos grupos introduzidos acima, o elemento é primitivo, de modo que esses grupos são cíclicos. De fato, cada elemento é expressível como uma soma onde todos os termos são . Qualquer grupo cíclico com elementos é isomorfo a este grupo. Um segundo exemplo de grupos cíclicos é o grupo das -ésimas raízes complexas da unidade, dado por números complexos que satisfazem . Esses números podem ser visualizados como os vértices de um polígono regular de lados, como mostrado em azul na imagem para . A operação do grupo é a multiplicação de números complexos. Na imagem, multiplicar por corresponde a uma rotação no sentido anti-horário de 60°.[21] Da teoria dos corpos, o grupo é cíclico para o primo : por exemplo, se , o é um gerador pois , , e .
Alguns grupos cíclicos possuem um número infinito de elementos. Nesses grupos, para cada elemento não nulo , todas as potências de são distintas; apesar do nome "grupo cíclico", as potências dos elementos não entram em ciclo. Um grupo cíclico infinito é isomorfo a , o grupo dos inteiros sob a adição introduzido acima.[22] Como esses dois protótipos são ambos abelianos, o mesmo ocorre com todos os grupos cíclicos.
O estudo de grupos abelianos finitamente gerados é bastante maduro, incluindo o teorema fundamental dos grupos abelianos finitamente gerados; e refletindo este estado de coisas, muitas noções relacionadas a grupos, como o centro e o comutador, descrevem até que ponto um determinado grupo não é abeliano.[23]
Grupos de simetria

Grupos de simetria são grupos consistindo em simetrias de objetos matemáticos dados, principalmente entidades geométricas, como o grupo de simetria do quadrado fornecido como exemplo introdutório acima, embora eles também surjam na álgebra, como as simetrias entre as raízes de equações polinomiais tratadas na teoria de Galois (veja abaixo).[25] Conceitualmente, a teoria dos grupos pode ser pensada como o estudo da simetria.[l] As simetrias na matemática simplificam muito o estudo de objetos geométricos ou analíticos. Diz-se que um grupo atua em outro objeto matemático se cada elemento do grupo puder ser associado a alguma operação em e a composição dessas operações seguir a lei do grupo. Por exemplo, um elemento do grupo de triângulo (2,3,7) atua sobre um ladrilhamento triangular do plano hiperbólico permutando os triângulos.[24] Por meio de uma ação de grupo, o padrão do grupo é conectado à estrutura do objeto no qual atua.
Na química, os grupos pontuais descrevem as simetrias moleculares, enquanto os grupos espaciais descrevem as simetrias de cristais na cristalografia. Essas simetrias estão na base do comportamento químico e físico desses sistemas, e a teoria dos grupos permite a simplificação da análise mecânica quântica dessas propriedades.[26] Por exemplo, a teoria dos grupos é usada para mostrar que as transições ópticas entre certos níveis quânticos não podem ocorrer simplesmente por causa da simetria dos estados envolvidos.[27]
A teoria dos grupos ajuda a prever as mudanças nas propriedades físicas que ocorrem quando um material passa por uma transição de fase, por exemplo, de uma forma cristalina cúbica para uma tetraédrica. Um exemplo são os materiais ferroelétricos, onde a mudança de um estado paraelétrico para um estado ferroelétrico ocorre na temperatura de Curie e está relacionada a uma mudança do estado paraelétrico de alta simetria para o estado ferroelétrico de menor simetria, acompanhada por um chamado modo de fônon mole, um modo vibracional de rede que vai a frequência zero na transição.[28]
Tal quebra espontânea de simetria encontrou aplicação adicional na física de partículas elementares, onde sua ocorrência está relacionada ao surgimento de bósons de Goldstone.[29]
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| O Buckminsterfulereno exibePredefinição:Brsimetria icosaédrica[30] | Amônia, NH3. Seu grupo de simetria é de ordem 6, gerado por uma rotação de 120° e uma reflexão.[31] | O cubano C8H8 apresentaPredefinição:Br simetria octaédrica.[32] | O íon tetracloroplatinato(II), [PtCl4]2−, exibe geometria plano-quadrada |
Grupos de simetria finitos, como os grupos de Mathieu, são usados na teoria da codificação, que por sua vez é aplicada na correção de erros (forward error correction) de dados transmitidos e em reprodutores de CD.[33] Outra aplicação é a teoria de Galois diferencial, que caracteriza funções que possuem antiderivadas de uma forma prescrita, dando critérios da teoria dos grupos para quando as soluções de certas equações diferenciais são bem comportadas.[m] Propriedades geométricas que permanecem estáveis sob ações de grupo são investigadas na teoria dos invariantes (geométrica).[34]
Grupo linear geral e teoria da representação

Grupos de matrizes consistem em matrizes juntamente com a multiplicação de matrizes. O grupo linear geral consiste em todas as matrizes -por- invertíveis com entradas reais.[35] Seus subgrupos são chamados de grupos de matrizes ou grupos lineares. O exemplo do grupo diedral mencionado acima pode ser visto como um (muito pequeno) grupo de matrizes. Outro importante grupo de matrizes é o grupo ortogonal especial . Ele descreve todas as rotações possíveis em dimensões. As matrizes de rotação neste grupo são usadas na computação gráfica.[36]
A teoria da representação é tanto uma aplicação do conceito de grupo quanto importante para uma compreensão mais profunda dos grupos.[37][38] Ela estuda o grupo por suas ações de grupo em outros espaços. Uma ampla classe de representações de grupos são as representações lineares nas quais o grupo atua em um espaço vetorial, como o espaço euclidiano tridimensional . Uma representação de um grupo em um espaço vetorial real de dimensões é simplesmente um homomorfismo de grupos do grupo para o grupo linear geral. Desta forma, a operação do grupo, que pode ser dada de forma abstrata, se traduz na multiplicação de matrizes tornando-a acessível a cálculos explícitos.[n]
Uma ação de grupo fornece meios adicionais para estudar o objeto no qual se atua.[o] Por outro lado, isso também produz informações sobre o grupo. As representações de grupos são um princípio organizador na teoria dos grupos finitos, grupos de Lie, grupos algébricos e grupos topológicos, especialmente os grupos compactos (localmente).[37][39]
Grupos de Galois
Os grupos de Galois foram desenvolvidos para ajudar a resolver equações polinomiais, capturando suas características de simetria.[40][41] Por exemplo, as soluções da equação quadrática são dadas por Cada solução pode ser obtida substituindo o sinal por ou ; fórmulas análogas são conhecidas para equações cúbicas e quárticas, mas não existem em geral para o grau 5 e superiores.[42] Na fórmula quadrática, a mudança de sinal (permutando as duas soluções resultantes) pode ser vista como uma operação de grupo (muito simples). Grupos de Galois análogos atuam sobre as soluções de equações polinomiais de grau superior e estão intimamente relacionados à existência de fórmulas para sua resolução. Propriedades abstratas desses grupos (em particular sua solubilidade) fornecem um critério para a capacidade de expressar as soluções desses polinômios usando apenas adição, multiplicação e raízes, semelhante à fórmula acima.[43]
A teoria de Galois moderna generaliza o tipo de grupos de Galois acima, mudando para a teoria de corpos e considerando as extensões de corpos formadas como o corpo de decomposição de um polinômio. Esta teoria estabelece — por meio do teorema fundamental da teoria de Galois — uma relação precisa entre corpos e grupos, sublinhando mais uma vez a onipresença dos grupos na matemática.[44]
Propriedades Imediatas
A identidade de um grupo é única. Demonstração: suponha e são duas identidades. Então, para todo ∈ é verdade que Em particular, temos Também é verdade que, para todo ∈ Em particular, para temos Portanto, Note-se que esta prova não usa nenhuma outra propriedade do grupo além da existência da identidade.
Um elemento de um grupo G possui apenas um inverso. Demonstração: seja ∈ e sejam e inversos de Então
Está visto que o elemento inverso de é único. Representa-se por
Em um grupo temos Demonstração: Temos que Aplicando nos dois lados da igualdade temos: Pela associatividade e definição de elemento neutro temos: Repetindo o procedimento para no lugar de finalmente obtemos
Conceitos básicos
Ao estudar conjuntos, utilizam-se conceitos como subconjunto, função e quociente por uma relação de equivalência. Ao estudar grupos, usam-se, em vez disso, subgrupos, homomorfismos e grupos quocientes. Esses são os análogos que levam em conta a estrutura do grupo.[p]
Homomorfismos de grupos
Homomorfismos de grupos[q] são funções que preservam a estrutura do grupo; eles podem ser usados para relacionar dois grupos. Um homomorfismo de um grupo para um grupo é uma função tal que
Seria natural exigir também que preserve os elementos neutros, , e os inversos, para todo em . No entanto, esses requisitos adicionais não precisam ser incluídos na definição de homomorfismos, porque já estão implícitos na exigência de preservar a operação do grupo.[45]
O homomorfismo identidade de um grupo é o homomorfismo que mapeia cada elemento de em si mesmo. Um homomorfismo inverso de um homomorfismo é um homomorfismo tal que e , isto é, tal que para todo em e tal que para todo em . Um isomorfismo é um homomorfismo que possui um homomorfismo inverso; equivalentemente, é um homomorfismo bijetivo. Grupos e são chamados de isomorfos se existe um isomorfismo . Neste caso, pode ser obtido de simplesmente renomeando seus elementos de acordo com a função ; então, qualquer afirmação verdadeira para é verdadeira para , desde que quaisquer elementos específicos mencionados na afirmação também sejam renomeados.
A coleção de todos os grupos, juntamente com os homomorfismos entre eles, forma uma categoria, a categoria de grupos.[46]
Um homomorfismo injetivo fatora-se canonicamente como um isomorfismo seguido de uma inclusão, para algum subgrupo de . Homomorfismos injetivos são os monomorfismos na categoria de grupos.
Subgrupos
Informalmente, um subgrupo é um grupo contido em um grupo maior, : ele possui um subconjunto dos elementos de , com a mesma operação.[47] Concretamente, isso significa que o elemento neutro de deve estar contido em , e sempre que e estiverem ambos em , então e também estarão, de modo que os elementos de , equipados com a operação de grupo de restrita a , de fato formam um grupo. Neste caso, o mapa de inclusão é um homomorfismo.
No exemplo das simetrias de um quadrado, a identidade e as rotações constituem um subgrupo , destacado em vermelho na tabela de Cayley do exemplo: quaisquer duas rotações compostas ainda são uma rotação, e uma rotação pode ser desfeita pelas (ou seja, tem como inversas as) rotações complementares de 270° para 90°, 180° para 180°, e 90° para 270°. O teste do subgrupo fornece uma condição necessária e suficiente para que um subconjunto não vazio de um grupo seja um subgrupo: é suficiente verificar que para todos os elementos e em . Conhecer o reticulado de subgrupos de um grupo é importante para entender o grupo como um todo.[r]
Dado qualquer subconjunto de um grupo , o subgrupo gerado por consiste em todos os produtos de elementos de e seus inversos. É o menor subgrupo de contendo .[48] No exemplo das simetrias de um quadrado, o subgrupo gerado por e consiste nesses dois elementos, no elemento neutro e no elemento . Mais uma vez, este é um subgrupo, porque combinar quaisquer dois desses quatro elementos ou seus inversos (que são, neste caso particular, esses mesmos elementos) produz um elemento deste subgrupo.
Classes laterais
Em muitas situações, é desejável considerar dois elementos de um grupo como sendo iguais se eles diferirem por um elemento de um dado subgrupo. Por exemplo, no grupo de simetria de um quadrado, uma vez que uma reflexão é realizada, as rotações sozinhas não podem retornar o quadrado à sua posição original, de modo que pode-se pensar nas posições refletidas do quadrado como sendo todas equivalentes umas às outras, e inequivalentes às posições não refletidas; as operações de rotação são irrelevantes para a questão de se uma reflexão foi realizada. Classes laterais são usadas para formalizar essa intuição: um subgrupo determina classes laterais à esquerda e à direita, que podem ser pensadas como translações de por um elemento de grupo arbitrário . Em termos simbólicos, as classes laterais à esquerda e à direita de , contendo um elemento , são
As classes laterais à esquerda de qualquer subgrupo formam uma partição de ; isto é, a união de todas as classes laterais à esquerda é igual a e duas classes laterais à esquerda são iguais ou têm uma interseção vazia.[50] O primeiro caso ocorre precisamente quando , ou seja, quando os dois elementos diferem por um elemento de . Considerações semelhantes se aplicam às classes laterais à direita de . As classes laterais à esquerda de podem ou não ser iguais às suas classes laterais à direita. Se forem (isto é, se todo em satisfizer ), então diz-se que é um subgrupo normal.
Em , o grupo de simetrias de um quadrado, com seu subgrupo de rotações, as classes laterais à esquerda são iguais a , se for um elemento do próprio , ou de outra forma iguais a (destacado em verde na tabela de Cayley de ). O subgrupo é normal, porque e de forma análoga para os outros elementos do grupo. (De fato, no caso de , as classes laterais geradas por reflexões são todas iguais: .)
Grupos quocientes
Suponha que seja um subgrupo normal de um grupo , e denote seu conjunto de classes laterais. Então, existe uma única lei de grupo em para a qual o mapa que envia cada elemento para é um homomorfismo. Explicitamente, o produto de duas classes laterais e é , a classe lateral serve como o elemento neutro de , e o inverso de no grupo quociente é . O grupo , lido como " módulo ",[51] é chamado de grupo quociente ou grupo fator. O grupo quociente pode alternativamente ser caracterizado por uma propriedade universal.
Os elementos do grupo quociente são e . A operação de grupo no quociente é mostrada na tabela. Por exemplo, . Tanto o subgrupo quanto o quociente são abelianos, mas não é. Às vezes, um grupo pode ser reconstruído a partir de um subgrupo e de um quociente (mais alguns dados adicionais), por meio da construção de um produto semidireto; é um exemplo.
O primeiro teorema do isomorfismo implica que qualquer homomorfismo sobrejetivo fatora-se canonicamente como um homomorfismo quociente seguido por um isomorfismo: . Homomorfismos sobrejetivos são os epimorfismos na categoria de grupos.
Apresentações
Todo grupo é isomorfo a um quociente de um grupo livre, de muitas maneiras.
Por exemplo, o grupo diedral é gerado pela rotação à direita e pela reflexão em uma linha vertical (cada elemento de é um produto finito de cópias destes e de seus inversos). Portanto, existe um homomorfismo sobrejetivo do grupo livre com dois geradores para enviando para e para . Os elementos em são chamados de relações; os exemplos incluem . De fato, constata-se que é o menor subgrupo normal de que contém esses três elementos; em outras palavras, todas as relações são consequências desses três. O quociente do grupo livre por este subgrupo normal é denotado por . Isso é chamado de apresentação de por geradores e relações, porque o primeiro teorema do isomorfismo para produz um isomorfismo .[52]
Uma apresentação de um grupo pode ser usada para construir o Grafo de Cayley, uma representação gráfica de um grupo discreto.[53]
Grupos finitos
Um grupo é chamado de finito se tiver um número finito de elementos. O número de elementos é chamado de ordem do grupo.[54] Uma classe importante é a dos grupos simétricos , os grupos de permutações de objetos. Por exemplo, o grupo simétrico em 3 letras é o grupo de todos os reordenamentos possíveis dos objetos. As três letras ABC podem ser reordenadas em ABC, ACB, BAC, BCA, CAB, CBA, formando no total 6 (fatorial de 3) elementos. A operação do grupo é a composição desses reordenamentos, e o elemento neutro é a operação de reordenamento que deixa a ordem inalterada. Essa classe é fundamental na medida em que qualquer grupo finito pode ser expresso como um subgrupo de um grupo simétrico para um inteiro adequado, de acordo com o teorema de Cayley. Paralelamente ao grupo de simetrias do quadrado acima, também pode ser interpretado como o grupo de simetrias de um triângulo equilátero.
A ordem de um elemento em um grupo é o menor inteiro positivo tal que , onde representa isto é, a aplicação da operação "" a cópias de . (Se "" representa a multiplicação, então corresponde à -ésima potência de .) Em grupos infinitos, tal pode não existir, caso em que se diz que a ordem de é infinita. A ordem de um elemento é igual à ordem do subgrupo cíclico gerado por este elemento.
Técnicas de contagem mais sofisticadas, por exemplo, a contagem de classes laterais, produzem afirmações mais precisas sobre grupos finitos: o Teorema de Lagrange afirma que, para um grupo finito , a ordem de qualquer subgrupo finito divide a ordem de . Os teoremas de Sylow fornecem uma recíproca parcial.
O grupo diedral de simetrias de um quadrado é um grupo finito de ordem 8. Neste grupo, a ordem de é 4, assim como a ordem do subgrupo que este elemento gera. A ordem dos elementos de reflexão etc. é 2. Ambas as ordens dividem 8, como previsto pelo teorema de Lagrange. Os grupos de multiplicação módulo um primo têm ordem .
Grupos abelianos finitos
Qualquer grupo abeliano finito é isomorfo a um produto de grupos cíclicos finitos; esta afirmação é parte do teorema fundamental dos grupos abelianos finitamente gerados.
Qualquer grupo de ordem prima é isomorfo ao grupo cíclico (uma consequência do teorema de Lagrange). Qualquer grupo de ordem é abeliano, isomorfo a ou . Mas existem grupos não abelianos de ordem ; o grupo diedral de ordem acima é um exemplo.[55]
Grupos simples
Quando um grupo possui um subgrupo normal que não seja e o próprio , questões sobre às vezes podem ser reduzidas a questões sobre e . Um grupo não trivial é chamado de simples se não possuir tal subgrupo normal. Grupos simples finitos estão para os grupos finitos assim como os números primos estão para os inteiros positivos: eles servem como blocos de construção, em um sentido tornado preciso pelo teorema de Jordan-Hölder.
Classificação dos grupos simples finitos
Sistemas algébricos computacionais têm sido usados para listar todos os grupos de ordem até 2000.[s] Mas classificar todos os grupos finitos é um problema considerado muito difícil de ser resolvido.
Os axiomas para um grupo são curtos e naturais... No entanto, de alguma forma escondido por trás desses axiomas está o grupo simples monstro, um objeto matemático enorme e extraordinário, que parece depender de inúmeras coincidências bizarras para existir. Os axiomas para grupos não dão nenhuma dica óbvia de que algo assim exista.
Richard Borcherds, Mathematicians: An Outer View of the Inner World[56]
A classificação de todos os grupos simples finitos foi uma grande conquista na teoria dos grupos contemporânea. Existem várias famílias infinitas de tais grupos, bem como 26 "grupos esporádicos" que não pertencem a nenhuma das famílias. O maior grupo esporádico é chamado de grupo monstro. As conjecturas do monstrous moonshine, provadas por Richard Borcherds, relacionam o grupo monstro a certas funções modulares.[57]
A lacuna entre a classificação de grupos simples e a classificação de todos os grupos reside no problema da extensão.[58]
Grupos com estrutura adicional
Uma definição equivalente de grupo consiste em substituir a parte "existe" dos axiomas de grupo por operações cujo resultado é o elemento que deve existir. Assim, um grupo é um conjunto equipado com uma operação binária (a operação do grupo), uma operação unária (que fornece o inverso) e uma operação nulária, que não possui operando e resulta no elemento neutro. De resto, os axiomas de grupo são exatamente os mesmos. Esta variante da definição evita quantificadores existenciais e é usada na computação com grupos e para provas auxiliadas por computador.
Esta forma de definir grupos se presta a generalizações, como a noção de objeto grupo em uma categoria. Em resumo, trata-se de um objeto com morfismos que imitam os axiomas de grupo.[59]
Grupos topológicos

Alguns espaços topológicos podem ser dotados de uma lei de grupo. Para que a lei de grupo e a topologia se entrelacem bem, as operações do grupo devem ser funções contínuas; informalmente, e não devem variar descontroladamente se e variarem apenas um pouco. Tais grupos são chamados de grupos topológicos, e eles são os objetos grupo na categoria de espaços topológicos.[60] Os exemplos mais básicos são o grupo dos números reais sob a adição e o grupo dos números reais não nulos sob a multiplicação. Exemplos semelhantes podem ser formados a partir de qualquer outro corpo topológico, como o corpo dos números complexos ou o corpo dos números p-ádicos. Esses exemplos são localmente compactos, de modo que possuem medidas de Haar e podem ser estudados por meio da análise harmônica. Outros grupos topológicos localmente compactos incluem o grupo de pontos de um grupo algébrico sobre um corpo local ou anel de adeles; estes são fundamentais para a teoria dos números.[61] Grupos de Galois de extensões algébricas infinitas de corpos são equipados com a topologia de Krull, que desempenha um papel na teoria de Galois infinita.[62] Uma generalização usada na geometria algébrica é o grupo fundamental étale.[63]
Grupos de Lie
Um grupo de Lie é um grupo que também possui a estrutura de uma variedade diferenciável; informalmente, isso significa que ele se parece localmente com um espaço euclidiano de alguma dimensão fixa.[64] Novamente, a definição exige que a estrutura adicional, aqui a estrutura de variedade, seja compatível: os mapas de multiplicação e inverso devem ser suaves.
Um exemplo padrão é o grupo linear geral introduzido acima: ele é um conjunto aberto do espaço de todas as matrizes -por-, porque é dado pela desigualdade onde denota uma matriz -por-.[65]
Os grupos de Lie são de importância fundamental na física moderna: o teorema de Noether liga simetrias contínuas a quantidades conservadas.[66] A rotação, bem como as translações no espaço e no tempo, são simetrias básicas das leis da mecânica. Elas podem, por exemplo, ser usadas para construir modelos simples — impor, digamos, simetria axial a uma situação tipicamente levará a uma simplificação significativa nas equações que se precisa resolver para fornecer uma descrição física.[t] Outro exemplo é o grupo de transformações de Lorentz, que relacionam medições de tempo e velocidade de dois observadores em movimento relativo um ao outro. Elas podem ser deduzidas de uma maneira puramente teórica de grupos, expressando as transformações como uma simetria rotacional do espaço de Minkowski. Este último serve — na ausência de gravitação significativa — como um modelo de espaço-tempo na relatividade restrita.[67] O grupo de simetria completo do espaço de Minkowski, ou seja, incluindo as translações, é conhecido como o grupo de Poincaré. Pelo exposto acima, ele desempenha um papel fundamental na relatividade restrita e, por implicação, nas teorias quânticas de campos.[68] Simetrias que variam com a localização são centrais para a descrição moderna das interações físicas com a ajuda da teoria de calibre. Um exemplo importante de uma teoria de calibre é o Modelo Padrão, que descreve três das quatro forças fundamentais conhecidas e classifica todas as partículas elementares conhecidas.[69]
Subgrupos
Definição: Dado um grupo dizemos que um subconjunto de é um subgrupo, quando é um grupo.
Generalizações
| Estruturas algébricas |
|---|
Estruturas mais gerais podem ser definidas relaxando alguns dos axiomas que definem um grupo.[46][70][71] A tabela fornece uma lista de várias estruturas que generalizam os grupos.
Por exemplo, se a exigência de que todo elemento tenha um inverso for eliminada, a estrutura algébrica resultante é chamada de monoide. Os números naturais (incluindo o zero) sob a adição formam um monoide, assim como os inteiros não nulos sob a multiplicação . A adjunção de inversos de todos os elementos do monoide produz um grupo , e, de modo semelhante, a adjunção de inversos a qualquer monoide (abeliano) produz um grupo conhecido como o grupo de Grothendieck de .
Um grupo pode ser pensado como uma categoria pequena com um objeto no qual todo morfismo é um isomorfismo: dada tal categoria, o conjunto é um grupo; inversamente, dado um grupo , pode-se construir uma categoria pequena com um objeto na qual . Mais genericamente, um grupoide é qualquer categoria pequena na qual todo morfismo é um isomorfismo. Em um grupoide, o conjunto de todos os morfismos na categoria geralmente não é um grupo, porque a composição é apenas parcialmente definida: é definido apenas quando a origem de corresponde ao destino de . Os grupoides surgem na topologia (por exemplo, o grupoide fundamental) e na teoria das pilhas (stacks).
Por fim, é possível generalizar qualquer um desses conceitos substituindo a operação binária por uma operação n-ária (ou seja, uma operação que recebe n argumentos, para algum número inteiro não negativo n). Com a generalização adequada dos axiomas de grupo, isso fornece uma noção de grupo n-ário.[72]
| Conjunto | Números naturais | Inteiros | Números racionais Números reais Números complexos | Inteiros módulo 3 | ||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Operação | + | × | + | × | + | − | × | ÷ | + | × |
| Total | ||||||||||
| Elemento neutro | ||||||||||
| Inverso | apenas se | apenas se | ||||||||
| Divisibilidade | apenas se | apenas se | ||||||||
| Associativa | ||||||||||
| Comutativa | ||||||||||
| Estrutura | monoide | monoide | grupo abeliano | monoide | grupo abeliano | quase-grupo | monoide | quase-grupo (com o 0 removido) | grupo abeliano | monoide |
Ver também
- Acção de um grupo
- Grupóide (estrutura algébrica), apenas um conjunto com uma operação binária
- Monóide, quando a operação binária é associativa e tem elemento neutro, mas não necessariamente tem elemento inverso
- Semigrupo
- Grupo topológico, quando existe uma topologia consistente com a operação binária
- Grupo abeliano, um grupo em que a operação binária é comutativa
- Grupo ordenado, um grupo com uma relação de ordem compatível com a sua operação binária
- Grupo de simetria
- Grupo diedral
Notas e referências
Notas
- ↑ Alguns autores incluem um axioma adicional referido como fechamento sob a operação "⋅", o que significa que a ⋅ b é um elemento de G para todo a e b em G. Esta condição é englobada ao exigir que "⋅" seja uma operação binária em G. Veja Lang 2002.
- ↑ Geralmente evita-se usar a notação de fração b/a a menos que G seja abeliano, devido à ambiguidade de se isso significa a−1 ⋅ b ou b ⋅ a−1.)
- ↑ Veja o teorema de Seifert-van Kampen para um exemplo.
- ↑ Um exemplo é a coomologia de grupos de um grupo que é igual à coomologia singular de seu espaço de classificação, veja Weibel 1994, §8.2.
- ↑ Elementos que possuem inversos multiplicativos são chamados de unidades, veja Lang 2002, §II.1, p. 84.
- ↑ A transição dos inteiros para os racionais pela inclusão de frações é generalizada pelo corpo de frações.
- ↑ O mesmo é verdade para qualquer corpo F em vez de Q. Veja Lang 2005, §III.1, p. 86.
- ↑ Por exemplo, um subgrupo finito do grupo multiplicativo de um corpo é necessariamente cíclico. Veja Lang 2002, Teorema IV.1.9. As noções de torção de um módulo e álgebras simples são outros exemplos desse princípio.
- ↑ A propriedade declarada é uma possível definição de números primos. Veja Elemento primo.
- ↑ Por exemplo, o protocolo de troca de chaves Diffie-Hellman usa o logaritmo discreto. Veja Gollmann 2011, §15.3.2.
- ↑ A notação aditiva para os elementos de um grupo cíclico seria t ⋅ a, onde t está em Z.
- ↑ Mais rigorosamente, todo grupo é o grupo de simetria de algum grafo; veja o teorema de Frucht, Frucht 1939.
- ↑ Mais precisamente, a ação de monodromia no espaço vetorial de soluções das equações diferenciais é considerada. Veja Kuga 1993, pp. 105–113.
- ↑ Isso foi crucial para a classificação dos grupos simples finitos, por exemplo. Veja Aschbacher 2004.
- ↑ Veja, por exemplo, o Lema de Schur para o impacto de uma ação de grupo em módulos simples. Um exemplo mais complexo é a ação de um grupo de Galois absoluto na coomologia étale.
- ↑ Veja, por exemplo, Lang 2002, Lang 2005, Herstein 1996 e Herstein 1975.
- ↑ A palavra homomorfismo deriva do grego antigo ὁμός — igual, e μορφή — forma ou estrutura. Veja Schwartzman 1994, p. 108.
- ↑ No entanto, um grupo não é determinado pelo seu reticulado de subgrupos. Veja Suzuki 1951.
- ↑ A menos de isomorfismo, existem cerca de 49 bilhões de grupos de ordem até 2000. Veja Besche, Eick & O'Brien 2001.
- ↑ Veja a métrica de Schwarzschild para um exemplo onde a simetria reduz grandemente a análise de complexidade de sistemas físicos.
Referências
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- 1 2 3 4 Krantz 2011, p. 159.
- ↑ Artin 2018, p. 40, §2.2.
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- ↑ Herstein 1975, p. 54, §2.6.
- ↑ Ledermann 1953, pp. 4–5, §1.2.
- ↑ Ledermann 1973, p. 3, §I.1.
- 1 2 Lang 2005, p. 17, §II.1.
- ↑ Artin 2018, p. 40.
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- ↑ Coornaert, Delzant & Papadopoulos 1990.
- ↑ Por exemplo, os grupos de classes e grupos de Picard; veja Neukirch 1999, em particular §§I.12 e I.13.
- ↑ Seress 1997.
- ↑ Lang 2005, Chapter VII.
- ↑ Rosen 2000, p. 54, (Theorem 2.1).
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- ↑ Lang 2005, p. 22, §II.1.
- ↑ Lang 2005, p. 26, §II.2.
- ↑ Lang 2005, p. 22, §II.1 (example 11).
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- 1 2 Ellis 2019.
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- ↑ Robinson 1996, p. viii.
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- ↑ Lang 2002, Chapter VI (see in particular p. 273 for concrete examples).
- ↑ Lang 2002, p. 292, (Theorem VI.7.2).
- ↑ Stewart 2015, §12.1.
- ↑ Lang 2005, p. 34, §II.3.
- 1 2 Mac Lane 1998.
- ↑ Lang 2005, p. 19, §II.1.
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- ↑ Artin 2018, Proposition 6.4.3. Veja também Lang 2002, p. 77 para resultados semelhantes.
- ↑ Cook 2009, p. 24.
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