Equação do quarto grau
Em matemática, uma equação quártica é aquela que pode ser expressa como uma função quártica igual a zero. A forma geral de uma equação quártica é

onde a ≠ 0.
A quártica é a equação polinomial de ordem mais alta que pode ser resolvida por radicais no caso geral.
História
Atribui-se a Lodovico Ferrari a descoberta da solução para a quártica em 1540, mas uma vez que essa solução, como todas as soluções algébricas da quártica, exige que seja encontrada a solução de uma cúbica, ela não pôde ser publicada imediatamente.[1] A solução da quártica foi publicada em conjunto com a da cúbica pelo mentor de Ferrari, Gerolamo Cardano, no livro Ars Magna (1545).
A demonstração de que este era o polinômio geral de ordem mais alta para o qual tais soluções poderiam ser encontradas foi dada pela primeira vez no Teorema de Abel-Ruffini em 1824, provando que todas as tentativas de solucionar polinômios de ordem mais alta seriam inúteis. As anotações deixadas por Évariste Galois antes da sua morte em um duelo em 1832 levaram, posteriormente, a uma elegante teoria completa das raízes de polinômios, da qual este teorema foi um dos resultados.[2]
Soluções para casos especiais
Considere uma equação quártica expressa na forma :
Existe uma fórmula geral para encontrar as raízes de equações quárticas, desde que o coeficiente do termo dominante seja diferente de zero. No entanto, pelo fato de o método geral ser muito complexo e suscetível a erros de execução, é melhor aplicar um dos casos especiais descritos a seguir, se possível.
Caso degenerado
Se o termo constante a4 = 0, então uma das raízes é x = 0, e as demais raízes podem ser encontradas dividindo-se a equação por x e resolvendo a equação cúbica resultante:
Raízes evidentes: 1, −1 e −k
Vamos chamar o nosso polinômio quártico de Q(x). Como 1 elevado a qualquer potência é 1,
Portanto, se temos Q(1) = 0 e, assim, x = 1 é uma raiz de Q(x). De maneira semelhante, pode-se demonstrar que se então x = −1 é uma raiz.
Em ambos os casos, a quártica completa pode então ser dividida pelo fator (x − 1) ou (x + 1) , respectivamente, produzindo um novo polinômio cúbico, que pode ser resolvido para encontrar as outras raízes da quártica.
Se e então é uma raiz da equação. A quártica completa pode então ser fatorada desta maneira:
Alternativamente, se e então x = 0 e x = −k tornam-se duas raízes conhecidas. A divisão de Q(x) por x(x + k) resulta em um polinômio quadrático.
Equações biquadráticas
Uma equação quártica onde a3 e a1 são iguais a 0 assume a forma
e, portanto, é uma equação biquadrática, que é fácil de resolver: seja , logo nossa equação se torna
que é uma equação quadrática simples, cujas soluções são facilmente encontradas usando a fórmula quadrática (fórmula de Bhaskara):
Quando a tivermos resolvido (isto é, encontrado esses dois valores de z), podemos extrair o x a partir deles:
Se alguma das soluções de z for um número negativo ou complexo, então algumas das soluções de x serão números complexos.
Equações quase-simétricas
Passos:
- Divida por x 2.
- Use a mudança de variável z = x + m/x.
- Assim, z 2 = x 2 + (m/x) 2 + 2m.
Isto leva a:
- ,
- ,
- (uma equação quadrática em z = x + m/x)
Raízes múltiplas
Se a quártica possuir uma raiz dupla, ela pode ser encontrada calculando o máximo divisor comum do polinômio com a sua derivada. Em seguida, eles podem ser divididos e a equação quadrática resultante solucionada.
Em geral, existem apenas quatro casos possíveis de equações quárticas com raízes múltiplas, os quais estão listados abaixo:[3]
- Multiplicidade-4 (M4): quando a equação quártica geral puder ser expressa como , para algum número real . Este caso pode sempre ser reduzido a uma equação biquadrática.
- Multiplicidade-3 (M3): quando a equação quártica geral puder ser expressa como , onde e são dois números reais diferentes. Este é o único caso que nunca pode ser reduzido a uma equação biquadrática.
- Dupla Multiplicidade-2 (DM2): quando a equação quártica geral puder ser expressa como , onde e são dois números reais diferentes ou um par de números complexos conjugados não reais. Este caso também pode sempre ser reduzido a uma equação biquadrática.
- Simples Multiplicidade-2 (SM2): quando a equação quártica geral puder ser expressa como , onde , e são três números reais diferentes ou é um número real e e são um par de números complexos conjugados não reais. Este caso é dividido em dois subcasos: os que podem ser reduzidos a uma equação biquadrática e os que não podem.
Considere o caso em que os três coeficientes não mônicos da equação quártica deprimida, , podem ser expressos em termos dos cinco coeficientes da equação quártica geral da seguinte forma:
- ,
Então, os critérios para identificar a priori cada caso de equações quárticas com raízes múltiplas e as suas respectivas soluções são mostrados abaixo.
- M4. A equação quártica geral corresponde a este caso sempre que , logo as quatro raízes desta equação são dadas como se segue:
- .
- M3. A equação quártica geral corresponde a este caso sempre que e , logo as quatro raízes desta equação são dadas a seguir se :
- Caso contrário, se :
- .
- DM2. A equação quártica geral corresponde a este caso sempre que , logo as quatro raízes desta equação são dadas como se segue:
- .
- SM2 Biquadrática. A equação quártica geral corresponde a este subcaso das equações SM2 sempre que , logo as quatro raízes desta equação são dadas da seguinte forma:
- .
- SM2 Não-Biquadrática. A equação quártica geral corresponde a este subcaso das equações SM2 sempre que , de modo que as quatro raízes desta equação são dadas pela seguinte fórmula:[4]
- ,
- onde:
- .
O caso geral

Para começar, a quártica deve primeiro ser convertida em uma quártica deprimida.
=== Convertendo para uma quártica deprimida ===Seja
-
(1')
a equação quártica geral que se deseja solucionar. Divida ambos os lados por A,
O primeiro passo, se B ainda não for zero, deve ser eliminar o termo x3. Para isso, mude a variável de x para u, de tal modo que
Então
A expansão das potências dos binômios produz
Agrupando as mesmas potências de u, obtém-se
Agora, renomeie os coeficientes de u. Seja
A equação resultante é
-
(1)
a qual é uma equação quártica deprimida.
Se então temos o caso especial de uma equação biquadrática, que é facilmente resolvida, conforme explicado acima. Note que a solução geral, dada a seguir, não funcionará para o caso especial A equação deve ser resolvida como uma biquadrática.
Em qualquer dos casos, assim que a quártica deprimida for resolvida para u, substituir esses valores em
produz os valores de x que resolvem a quártica original.
Resolvendo uma quártica deprimida quando b ≠ 0
Após a conversão para uma equação quártica deprimida
e excluindo o caso especial b = 0, que é resolvido como uma biquadrática, assumiremos daqui em diante que b ≠ 0 .
Separaremos os termos para a esquerda e para a direita como
e adicionaremos termos em ambos os lados de modo a transformá-los em quadrados perfeitos.
Seja y qualquer solução desta equação cúbica:
Então (uma vez que b ≠ 0)
de modo que podemos dividir por esse termo, obtendo
Assim,
Subtraindo, obtemos a diferença de dois quadrados, que é o produto da soma e da diferença de suas raízes
a qual pode ser resolvida aplicando-se a fórmula quadrática a cada um dos dois fatores. Portanto, os possíveis valores de u são:
- ou
Usar um outro y dentre as três raízes da cúbica simplesmente faz com que esses mesmos quatro valores de u apareçam numa ordem diferente. As soluções da cúbica são:
usando qualquer uma das três possíveis raízes cúbicas. Uma estratégia sensata é escolher o sinal da raiz quadrada que torne o valor absoluto de w o maior possível.
Solução de Ferrari
De outra maneira, a quártica deprimida pode ser resolvida através de um método descoberto por Lodovico Ferrari. Uma vez obtida a quártica deprimida, o próximo passo é somar a identidade válida
à equação (1), gerando
-
(2)
O efeito gerado foi dobrar o termo u4 transformando-o num quadrado perfeito: (u2 + a)2. O segundo termo, au2 não desapareceu, mas seu sinal foi alterado e ele foi movido para o lado direito.
O passo seguinte é inserir uma variável y no quadrado perfeito do lado esquerdo da equação (2), e um 2y correspondente no coeficiente de u2 do lado direito. Para realizar estas inserções, as seguintes fórmulas válidas serão adicionadas à equação (2),
e
Estas duas fórmulas, somadas, produzem
a qual adicionada à equação (2) produz
Isso é equivalente a
-
(3)
O objetivo agora é escolher um valor para y tal que o lado direito da equação (3) se torne um quadrado perfeito. Isso pode ser feito zerando-se o discriminante da função quadrática. Para explicar isto, primeiro expanda um quadrado perfeito de forma que ele se iguale a uma função quadrática:
A função quadrática no lado direito tem três coeficientes. É possível verificar que elevar o segundo coeficiente ao quadrado e depois subtrair quatro vezes o produto do primeiro com o terceiro coeficiente resulta em zero:
Portanto, para fazer com que o lado direito da equação (3) se torne um quadrado perfeito, a seguinte equação deve ser resolvida:
Multiplique o binômio pelo polinômio,
Divida ambos os lados por −4, e mova o −b2/4 para a direita,
Divida ambos os lados por 2,
-
(4)
Isto é uma equação cúbica em y. Resolva para y usando qualquer método para resolver tais equações (por exemplo, a conversão para uma cúbica deprimida e a aplicação da fórmula de Cardano). Qualquer uma das três raízes possíveis servirá.
Reduzindo o segundo quadrado perfeito
Com o valor de escolhido dessa maneira, sabe-se agora que o lado direito da equação (3) é um quadrado perfeito da forma
-
- (Isso está correto para ambos os sinais da raiz quadrada, desde que o mesmo sinal seja assumido para ambas as raízes quadradas. Um ± é redundante, pois seria absorvido por outro ± algumas equações mais abaixo nesta página.)
de forma que ele pode ser faturado (reduzido):
-
- Nota: Se então . Se então esta seria uma equação biquadrática, a qual resolvemos anteriormente.
Portanto, a equação (3) se torna
-
(5)
A equação (5) possui um par de quadrados perfeitos reduzidos, um em cada lado da equação. Os dois quadrados perfeitos equilibram-se um ao outro.
Se dois quadrados são iguais, então os lados dos dois quadrados também são iguais, como demonstrado por:
-
(5')
Reunir potências semelhantes de resulta em
-
(6)
- Nota: O subscrito de e serve para indicar que eles são dependentes.
A equação (6) é uma equação quadrática em . A sua solução é
Simplificando, obtém-se
Esta é a solução da quártica deprimida, portanto as soluções da equação quártica original são
-
(6')
- Lembre-se: Os dois provêm do mesmo lugar na equação (5'), e ambos devem ter o mesmo sinal, enquanto o sinal de é independente.
Resumo do método de Ferrari
Dada a equação quártica
a sua solução pode ser encontrada através dos seguintes cálculos:
Se então
Caso contrário, continue com
(qualquer sinal da raiz quadrada servirá)
(existem 3 raízes complexas, qualquer uma delas servirá)
- Os dois ±s devem possuir o mesmo sinal, o ±t é independente. Para obter todas as raízes, calcule x para (±s,±t) = (+,+); (+,−); (−,+); (−,−). Esta fórmula lida com raízes repetidas sem nenhum problema.
Ferrari foi o primeiro a descobrir uma destas soluções labirínticas[carece de fontes]. A equação que ele resolveu foi
que já estava em formato deprimido. Ela possui um par de soluções que pode ser encontrado com o conjunto de fórmulas demonstrado acima.
Solução de Ferrari no caso especial de coeficientes reais
Se os coeficientes da equação quártica são reais, então a equação cúbica deprimida aninhada (5) também possui coeficientes reais, logo ela tem pelo menos uma raiz real.
Além disso, a função cúbica
onde P e Q são dados por (5), possui as propriedades de que
- e
onde e são dados por (1).
Isso significa que (5) tem uma raiz real maior que , e, portanto, que (4) tem uma raiz real maior que .
Usando esta raiz, o termo em (6) é sempre real, o que garante que as duas equações quadráticas (6) possuam coeficientes reais.[5]
Obtendo soluções alternativas do jeito difícil
Pode acontecer de se obter apenas uma solução através das fórmulas acima, porque nem todos os quatro padrões de sinais são testados para as quatro soluções, e a solução obtida é um número complexo. Também pode ser o caso de se estar procurando apenas por uma solução real. Seja a solução complexa. Se todos os coeficientes originais , , , e forem reais — o que deve ser o caso quando se deseja apenas soluções reais — então há outra solução complexa que é o complexo conjugado de . Se as outras duas raízes forem denotadas como e , então a equação quártica pode ser expressa como
mas esta equação quártica é equivalente ao produto de duas equações quadráticas:
-
(9)
e
-
(10)
Como
então
Seja
de modo que a equação (9) se torna
-
(11)
Também sejam w e v variáveis (desconhecidas) tais que a equação (10) se torne
-
(12)
Multiplicando as equações (11) e (12) obtém-se
-
(13)
Comparando a equação (13) com a equação quártica original, pode-se ver que
e
Portanto
A equação (12) pode ser resolvida para x resultando em
Uma destas duas soluções deve ser a solução real desejada.
Métodos alternativos
Cúbica resolvente
A cúbica resolvente ilustra como uma equação cúbica resolvente pode ser usada para encontrar as raízes de uma equação quártica deprimida mônica ao encontrar as raízes de duas equações quadráticas. Especialmente simples é a Terceira Definição. Seja
Esta equação cúbica em é conhecida como a Resolvente de Descartes [6][7] . Existem três maneiras de particionar as quatro raízes da equação quártica em dois pares de raízes e, em seguida, duas maneiras para cada uma ordenar as quadráticas (). Adicione e subtraia as duas primeiras equações de coeficiente para obter q e s.
Método de transformação de Möbius
Uma transformação de Möbius adequadamente escolhida pode transformar uma equação quártica em uma equação quadrática na nova variável elevada ao quadrado. Este é um método conhecido.[8]
Encontrar tal transformação de Möbius envolve resolver uma equação cúbica e assim simplifica o problema. Por exemplo, comece com a equação quártica deprimida com coeficiente dominante unitário e com nem nem iguais a zero:
e faça a transformação de Möbius:
Defina o primeiro e o terceiro coeficientes de ordem da equação quártica resultante em como zero. Após alguma álgebra, descobre-se que deve ser obtido a partir da equação cúbica
e, considerando como conhecido, deve ser obtido a partir da equação quadrática
A resolução da equação quadrática resultante para fornece dois valores para e cada raiz quadrada de possui dois valores, resultando em um total de quatro soluções, como esperado.
A equação cúbica em dada anteriormente é a mesma que , onde
Aqui bi são os coeficientes do polinômio quártico em y. Isto mostra como essa equação foi obtida.
Teoria de Galois e fatoração
O grupo simétrico S4 em quatro elementos tem o grupo de quatro de Klein como um subgrupo normal. Isso sugere o uso de uma resolvente cujas raízes podem ser descritas de várias maneiras como uma transformada discreta de Fourier ou uma transformação de matriz de Hadamard das raízes. Suponha que ri para i de 0 a 3 sejam raízes de
Se definirmos agora
então, como a transformação é uma involução, podemos expressar as raízes em termos dos quatro si exatamente da mesma maneira. Uma vez que conhecemos o valor de s0 = −b/2, na realidade só precisamos dos valores para s1, s2 e s3. Estes valores podem ser encontrados expandindo o polinômio
o qual, se assumirmos a hipótese simplificadora de que b = 0, é igual a
Este polinômio é de grau seis, porém é de grau três apenas em z2, e, portanto, a equação correspondente é resolúvel. Por tentativa, podemos determinar quais três raízes são as corretas e, consequentemente, encontrar as soluções da quártica.
Podemos remover qualquer necessidade de tentativa usando uma raiz do mesmo polinômio resolvente para fatoração; se w é uma raiz qualquer de (3), e se
então
Nós podemos, portanto, resolver a quártica resolvendo para w e, em seguida, resolvendo as raízes dos dois fatores usando a fórmula quadrática.
Métodos aproximados
Os métodos descritos acima são, em princípio, métodos exatos para a busca de raízes. Também é possível usar métodos de aproximação sucessiva que convergem iterativamente para as raízes, como o método de Durand-Kerner.
Ver também
- Equação linear
- Equação quadrática
- Equação cúbica
- Equação quíntica
- Polinômio
- Método de Newton
- Equação cúbica resolvente
Referências
- ↑ «Lodovico Ferrari»
- ↑ Stewart, Ian, Galois Theory, Third Edition (Chapman & Hall/CRC Mathematics, 2004)
- ↑ Chávez-Pichardo, Mauricio; Martínez-Cruz, Miguel A.; Trejo-Martínez, Alfredo; Martínez-Carbajal, Daniel; Arenas-Resendiz, Tanya (julho de 2022). «A Complete Review of the General Quartic Equation with Real Coefficients and Multiple Roots». Mathematics (em inglês). 10 (14). 2377 páginas. ISSN 2227-7390. doi:10.3390/math10142377

- ↑ Chávez-Pichardo, Mauricio; Martínez-Cruz, Miguel A.; Trejo-Martínez, Alfredo; Vega-Cruz, Ana Beatriz; Arenas-Resendiz, Tanya (março de 2023). «On the Practicality of the Analytical Solutions for all Third- and Fourth-Degree Algebraic Equations with Real Coefficients». Mathematics (em inglês). 11 (6). 1447 páginas. ISSN 2227-7390. doi:10.3390/math11061447

- ↑ Carstensen, Jens, Komplekse tal, Primeira Edição, (Systime 1981), ISBN 87-87454-71-8. (em dinamarquês)
- ↑ Kishan, Harry (2013). Theory of Equations. Nova Deli: Atlantic Publishers & Distributors (P) LTD. p. 252. ISBN 978-8126924998
- ↑ Hartshorne, Robin (2000). Geometry: Euclid and Beyond. Col: Undergraduate Texts in Mathematics. Nova Iorque: Springer-Verlag. p. 273. ISBN 978-1-4419-3145-0
- ↑ Kulkarni, R. G. (outono de 2016). «Tailored Quartic Roots»
Ligações externas
- Calculadora para a resolução de quárticas
- A conquista de Ferrari
- Predefinição:PlanetMath