Álgebra sobre um corpo
Uma álgebra sobre um corpo é um espaço vetorial com uma operação binária de multiplicação de vetores, que tem a propriedade distributiva sobre a soma de vetores e associativa quando faz sentido.
Explicitamente:
- Seja A um espaço vetorial sobre um corpo K. Se existe uma operação binária de A x A em A (chamada de multiplicação de vetores), A será uma álgebra sobre o corpo K quando:
- (distributividade)
Quando a multiplicação de vetores é associativa:
temos uma álgebra associativa. Nesse caso, o conjunto de vetores A com suas operações de soma e produto forma um anel.
Definição e motivação
Exemplos motivadores
| Álgebra | espaço vetorial | operador bilinear | associatividade | comutatividade |
|---|---|---|---|---|
| números complexos | produto de números complexos
|
sim | sim | |
| produto vetorial de vetores 3D | Produto vetorial
|
não | não (anticomutativo) | |
| quatérnios | produto de Hamilton
|
sim | não | |
| polinômios | Multiplicação de polinômios | sim | sim | |
| matrizes quadradas | Multiplicação de matrizes | sim | não |
Definição
Seja K um corpo, e seja A um espaço vetorial sobre K equipado com uma operação binária adicional de A × A para A, denotada aqui por · (isto é, se x e y são quaisquer dois elementos de A, então x · y é um elemento de A que é chamado de produto de x e y). Então A é uma álgebra sobre K se as seguintes identidades forem válidas para todos os elementos x, y, z em A, e todos os elementos (frequentemente chamados de escalares) a e b em K:
- Distributividade à direita: (x + y) · z = x · z + y · z
- Distributividade à esquerda: z · (x + y) = z · x + z · y
- Compatibilidade com escalares: (ax) · (by) = (ab) (x · y).
Estas três condições são outra maneira de dizer que a operação binária é bilinear. Uma álgebra sobre K às vezes também é chamada de K-álgebra, e K é chamado de corpo base de A. A operação binária é frequentemente referida como multiplicação em A. A convenção adotada neste artigo é que a multiplicação de elementos de uma álgebra não é necessariamente associativa, embora alguns autores usem o termo álgebra para se referir a uma álgebra associativa.
Quando uma operação binária num espaço vetorial é comutativa, a distributividade à esquerda e a distributividade à direita são equivalentes e, neste caso, apenas uma distributividade exige uma demonstração. Em geral, para operações não comutativas, a distributividade à esquerda e a distributividade à direita não são equivalentes e requerem demonstrações separadas.
Conceitos básicos
Homomorfismos de álgebra
Dadas as -álgebras e , um homomorfismo de -álgebras ou homomorfismo de -álgebra é uma transformação -linear tal que para todos os em . Se e são unitárias, então um homomorfismo que satisfaz é dito ser um homomorfismo unitário. O espaço de todos os homomorfismos de -álgebra entre e é frequentemente escrito como:
Um isomorfismo de -álgebra é um homomorfismo de -álgebra bijetivo.
Subálgebras e ideais
Uma subálgebra de uma álgebra sobre um corpo é um subespaço vetorial que tem a propriedade de que o produto de quaisquer dois de seus elementos está novamente no subespaço. Em outras palavras, uma subálgebra de uma álgebra é um subconjunto não vazio de elementos que é fechado sob adição, multiplicação e multiplicação por escalar. Em símbolos, dizemos que um subconjunto de uma -álgebra é uma subálgebra se para todo em e em , temos que , e estão todos em .
No exemplo acima dos números complexos vistos como uma álgebra bidimensional sobre os números reais, a reta real unidimensional é uma subálgebra.
Um ideal à esquerda de uma -álgebra é um subespaço vetorial que tem a propriedade de que qualquer elemento do subespaço multiplicado à esquerda por qualquer elemento da álgebra produz um elemento do subespaço. Em símbolos, dizemos que um subconjunto de uma -álgebra é um ideal à esquerda se para todo e em , em e em , temos as três afirmações a seguir:
- está em ( é fechado sob adição),
- está em ( é fechado sob multiplicação por escalar),
- está em ( é fechado sob multiplicação à esquerda por elementos arbitrários).
Se a afirmação (3) fosse substituída por " está em ", então isso definiria um ideal à direita. Um ideal bilateral é um subconjunto que é tanto um ideal à esquerda quanto um ideal à direita. O termo ideal por si só geralmente significa um ideal bilateral. Naturalmente, quando a álgebra é comutativa, todas essas noções de ideal são equivalentes. As condições (1) e (2) juntas são equivalentes a ser um subespaço linear de . Segue da condição (3) que todo ideal à esquerda ou à direita é uma subálgebra.
Esta definição é diferente da definição de um ideal de um anel, pois aqui exigimos a condição (2). Obviamente, se a álgebra for unitária, a condição (3) implicará a condição (2).
Extensão de escalares
Se tivermos uma extensão de corpos , ou seja, um corpo maior que contém , então há uma maneira natural de construir uma álgebra sobre a partir de qualquer álgebra sobre . É a mesma construção que se usa para criar um espaço vetorial sobre um corpo maior, a saber, o produto tensorial . Portanto, se é uma álgebra sobre , então é uma álgebra sobre .
Tipos de álgebras e exemplos
As álgebras sobre corpos apresentam-se em muitos tipos diferentes. Esses tipos são especificados insistindo em alguns axiomas adicionais, como a comutatividade ou associatividade da operação de multiplicação, os quais não são exigidos na definição ampla de uma álgebra. As teorias correspondentes aos diferentes tipos de álgebras são frequentemente muito distintas.
Álgebra unitária
Uma álgebra é unitária se possui uma unidade ou elemento identidade com para todo na álgebra.
Álgebra zero
Uma álgebra é chamada de álgebra zero se para todos na álgebra,[1] não devendo ser confundida com a álgebra de um único elemento. É inerentemente não unitária (exceto no caso de ter apenas um elemento), associativa e comutativa.
Uma álgebra zero unitária é a soma direta de um corpo e um espaço vetorial sobre , que é equipada com a única multiplicação que é nula no espaço vetorial (ou módulo), tornando-a uma álgebra unitária.
Mais precisamente, cada elemento da álgebra pode ser escrito de forma única como com e , e o produto é a única operação bilinear tal que para todos e em . Assim, se e , tem-se
Um exemplo clássico de álgebra zero unitária é a álgebra dos números duais, a álgebra zero unitária sobre construída a partir de um espaço vetorial real unidimensional.
Esta definição estende-se literalmente à definição de uma álgebra zero unitária sobre um anel comutativo, com a substituição de "corpo" e "espaço vetorial" por "anel comutativo" e "módulo".
As álgebras zero unitárias permitem a unificação da teoria dos submódulos de um dado módulo e da teoria dos ideais de uma álgebra unitária. De fato, os submódulos de um módulo correspondem exatamente aos ideais de que estão contidos em .
Por exemplo, a teoria das bases de Gröbner foi introduzida por Bruno Buchberger para ideais num anel de polinômios sobre um corpo. A construção da álgebra zero unitária sobre um módulo livre sobre permite estender esta teoria como uma teoria de bases de Gröbner para submódulos de um módulo livre. Esta extensão permite, para calcular a base de Gröbner de um submódulo, utilizar, sem qualquer modificação, qualquer algoritmo e qualquer software destinado ao cálculo de bases de Gröbner de ideais.
De forma semelhante, as álgebras zero unitárias permitem deduzir diretamente o Teorema de Lasker-Noether para módulos (sobre um anel comutativo) a partir do teorema original de Lasker-Noether para ideais.
Álgebra associativa
Exemplos de álgebras associativas incluem:
- a álgebra de todas as matrizes sobre um corpo (ou anel comutativo) . Aqui, a multiplicação é a multiplicação de matrizes ordinária.
- álgebras de grupo, onde um grupo serve como base do espaço vetorial e a multiplicação da álgebra estende a multiplicação do grupo.
- a álgebra comutativa de todos os polinômios sobre (ver anel de polinômios).
- álgebras de funções, como a álgebra sobre de todas as funções de valor real contínuas definidas no intervalo , ou a álgebra sobre de todas as funções holomorfas definidas num dado conjunto aberto fixo no plano complexo. Estas também são comutativas.
- álgebras de incidência, que são construídas sobre certos conjuntos parcialmente ordenados.
- álgebras de operadores lineares, por exemplo, sobre um espaço de Hilbert. Aqui a multiplicação da álgebra é dada pela composição de operadores. Estas álgebras também carregam uma topologia; muitas delas são definidas num espaço de Banach subjacente, o que as transforma em álgebras de Banach. Se for dada também uma involução, obtemos as B*-álgebras e as C*-álgebras. Estas são estudadas em análise funcional.
Álgebra não associativa
Uma álgebra não associativa[2] (ou álgebra distributiva) sobre um corpo é um espaço vetorial sobre equipado com uma aplicação bilinear sobre dada por . O uso de "não associativa" aqui destina-se a transmitir que a associatividade não é presumida, mas não significa que seja proibida — ou seja, significa "não necessariamente associativa".
Exemplos detalhados no artigo principal incluem:
- O espaço euclidiano com a multiplicação dada pelo produto vetorial
- Octoniões
- Álgebras de Lie
- Álgebras de Jordan
- Álgebras alternativas
- Álgebras flexíveis
- Álgebras associativas nas potências
Álgebras e anéis
A definição de uma -álgebra associativa com unidade também é frequentemente dada de uma forma alternativa. Neste caso, uma álgebra sobre um corpo é um anel juntamente com um homomorfismo de anéis
onde é o centro de . Como é um homomorfismo de anéis, então deve-se ter que é o anel nulo ou que é injetivo. Esta definição é equivalente à anterior, com a multiplicação por escalar
dada por
Dadas duas dessas -álgebras unitárias associativas e , um homomorfismo de -álgebras unitárias é um homomorfismo de anéis que comuta com a multiplicação por escalar definida por , o que pode ser escrito como
para todos e . Em outras palavras, o seguinte diagrama comuta:
Coeficientes de estrutura
Para álgebras sobre um corpo, a multiplicação bilinear de para é completamente determinada pela multiplicação dos elementos da base de . Por outro lado, uma vez escolhida uma base para , os produtos dos elementos da base podem ser definidos arbitrariamente e, em seguida, estendidos de maneira única a um operador bilinear em , ou seja, de modo que a multiplicação resultante satisfaça as leis da álgebra.
Assim, dado o corpo , qualquer álgebra de dimensão finita pode ser especificada a menos de um isomorfismo fornecendo sua dimensão (digamos, ) e especificando coeficientes de estrutura , que são escalares. Estes coeficientes de estrutura determinam a multiplicação em através da seguinte regra:
onde formam uma base de .
Note, entretanto, que vários conjuntos diferentes de coeficientes de estrutura podem dar origem a álgebras isomorfas.
Na física matemática, os coeficientes de estrutura são geralmente escritos com índices superiores e inferiores, de modo a distinguir suas propriedades de transformação sob transformações de coordenadas. Especificamente, os índices inferiores são índices covariantes e transformam-se via pullbacks, enquanto os índices superiores são contravariantes, transformando-se sob pushforwards. Assim, os coeficientes de estrutura são frequentemente escritos como , e sua regra de definição é escrita usando a notação de Einstein como:
- .
Aplicando isso a vetores escritos na notação de índices, isso se torna:
- .
Se for apenas um anel comutativo e não um corpo, então o mesmo processo funciona se for um módulo livre sobre . Se não for, então a multiplicação ainda é completamente determinada por sua ação em um conjunto que gera ; entretanto, as constantes de estrutura não podem ser especificadas arbitrariamente neste caso, e conhecer apenas as constantes de estrutura não especifica a álgebra a menos de isomorfismo.
Classificação de álgebras associativas unitárias de baixa dimensão sobre os números complexos
As álgebras associativas unitárias bidimensionais, tridimensionais e quadridimensionais sobre o corpo dos números complexos foram completamente classificadas a menos de isomorfismo por Eduard Study.[3]
Existem duas de tais álgebras bidimensionais. Cada álgebra consiste em combinações lineares (com coeficientes complexos) de dois elementos da base, (o elemento identidade) e . De acordo com a definição de um elemento identidade,
Resta especificar
- para a primeira álgebra,
- para a segunda álgebra.
Existem cinco de tais álgebras tridimensionais. Cada álgebra consiste em combinações lineares de três elementos da base, (o elemento identidade), e . Levando em conta a definição de um elemento identidade, é suficiente especificar
- para a primeira álgebra,
- para a segunda álgebra,
- para a terceira álgebra,
- para a quarta álgebra,
- para a quinta álgebra.
A quarta destas álgebras é não comutativa, e as outras são comutativas.
Generalização: álgebra sobre um anel
Em algumas áreas da matemática, como a álgebra comutativa, é comum considerar o conceito mais geral de uma álgebra sobre um anel, onde um anel comutativo R substitui o corpo K. A única parte da definição que muda é que se assume que A é um R-módulo (em vez de um espaço vetorial sobre K).[4][5][6]
Álgebras associativas sobre anéis
Um anel A é sempre uma álgebra associativa sobre seu centro e sobre os inteiros. Um exemplo clássico de uma álgebra sobre seu centro é a álgebra de biquatérnios cindidos, que é isomorfa a H × H, o produto direto de duas álgebras de quatérnios. O centro desse anel é R × R, e portanto ele tem a estrutura de uma álgebra sobre seu centro, que não é um corpo. Note que a álgebra de biquatérnios cindidos também é naturalmente uma R-álgebra de dimensão 8.
Na álgebra comutativa, se A é um anel comutativo, então qualquer homomorfismo de anéis unitários R → A define uma estrutura de R-módulo sobre A, e isso é o que é conhecido como a estrutura de R-álgebra.[7] Assim, um anel vem com uma estrutura natural de Z-módulo, já que se pode tomar o homomorfismo único Z → A.[8] Por outro lado, nem todos os anéis podem receber a estrutura de uma álgebra sobre um corpo (por exemplo, os inteiros). Veja Corpo com um elemento para uma descrição de uma tentativa de dar a cada anel uma estrutura que se comporte como uma álgebra sobre um corpo.
Ver também
- Álgebra de Banach - uma álgebra que é um espaço de Banach, com propriedades consistentes entre o produto de vetores e a norma
Referências
- ↑ Prolla, João B. (2011). «Lemma 4.10». Approximation of Vector Valued Functions. [S.l.]: Elsevier. p. 65. ISBN 978-0-08-087136-3 Parâmetro desconhecido
|capitulo-url=ignorado (ajuda); Parâmetro desconhecido|ano-original=ignorado (ajuda) - ↑ Schafer, Richard D. (1996). An Introduction to Nonassociative Algebras. [S.l.]: Courier Corporation. ISBN 0-486-68813-5
- ↑ Study, E. (1890). «Über Systeme complexer Zahlen und ihre Anwendungen in der Theorie der Transformationsgruppen». Monatshefte für Mathematik. 1 (1): 283–354. doi:10.1007/BF01692479
- ↑ Lang, Serge (2002). Algebra (Revised 3rd ed.). New York: Springer. Capítulo II – Algebras. ISBN 978-0387953854.
- ↑ Atiyah, Michael F.; Macdonald, Ian G. (1969). Introduction to Commutative Algebra. Reading, MA: Addison-Wesley. ISBN 978-0201407518.
- ↑ Rotman, Joseph J. (2010). Advanced Modern Algebra (2ª ed.). Providence: American Mathematical Society. ISBN 978-0821847411.
- ↑ Matsumura, H. (1989). Commutative Ring Theory. Col: Cambridge Studies in Advanced Mathematics. 8. Traduzido por Reid, M. 2ª ed. [S.l.]: Cambridge University Press. ISBN 978-0-521-36764-6Predefinição:Carece de página
- ↑ Kunz, Ernst (1985). Introduction to Commutative algebra and algebraic geometry. [S.l.]: Birkhauser. ISBN 0-8176-3065-1Predefinição:Carece de página