Armada Imperial Brasileira

Armada Imperial do Brasil
PaísImpério do Brasil
Criação1822
Extinção1889
História
CombatesGuerra da Independência (1822–1825)
Confederação do Equador (1824)
Guerra da Cisplatina (1825–1828)
Cabanagem (1835-1840)
Guerra dos Farrapos (1835–1845)
Balaiada (1835-1841)
Guerra do Prata (1851–1852)
Guerra do Uruguai (1864–1865)
Guerra do Paraguai (1864–1870)
Logística
Efetivo3 218 praças (1889)[1]
Navios17 (1888)[2]
Insígnias
Jaque Naval[3]
Flâmula
Comando
Imperador do BrasilPedro I (1822-1831)
Pedro II (1831-1889)
Comandantes
notáveis
Thomas Cochrane
João Taylor
Marquês de Tamandaré
Barão do Amazonas
Visconde de Inhaúma
John Pascoe Grenfell

A Armada Imperial, também chamada de Marinha Imperial, foi a Marinha de Guerra do Império do Brasil (1822–1889). Neste período o litoral e os rios foram os principais eixos de conexão interna e campanhas militares do país,[a] com a Marinha ocupando uma relevância política que não teria na subsequente República.[b] Formada a partir da seção da Marinha Portuguesa estabelecida no território antes da Independência, compunha-se de um oficialato aristocrático e marinheiros subalternos, com grande influência da Marinha Real britânica.

Após combater os portugueses na Guerra de Independência e suprimir várias revoltas internas, as campanhas voltaram-se aos países vizinhos na bacia do Prata, culminando na Guerra do Paraguai (1864–1870), cujas batalhas fluviais são os pontos altos do histórico de combate naval brasileiro. A Armada transportava e mantinha abastecido o Exército e desgastava as armadas oponentes. O apogeu da Armada foi no Segundo Reinado (1841–1889). Arsenais nacionais construíam navios a vapor e flotilhas fluviais operavam no Amazonas e Mato Grosso.

Em 1870 a esquadra brasileira era a quinta maior no mundo, embora constituída em sua maioria de navios defasados de madeira, apropriados basicamente à guerra fluvial. Dali em diante o Império não teve mais conflitos externos e prestou menor atenção à Armada. Em um país não industrializado como o Brasil, não era mais possível à construção naval acompanhar os avanços tecnológicos. Ao final dos anos 1880 a frota ainda era considerável, mas começava a ser ultrapassada na América do Sul. Militares insatisfeitos proclamaram a República em 1889, num processo no qual a participação da Armada foi secundária.

Criação

Antecedentes

A origem da Marinha do Brasil remonta à seção da Marinha Portuguesa presente no Brasil desde o período colonial.[8] A conquista do que viria a ser o Brasil começou pelo litoral.[9] A primeira participação de seus habitantes na defesa naval foi em 1567, quando embarcações indígenas reforçaram a esquadra do português Mem de Sá na expulsão dos franceses da Baía de Guanabara.[10] E o primeiro brasileiro a comandar uma força naval foi o militar e administrador colonial pernambucano Jerônimo de Albuquerque, em 1614, herói da conquista do Maranhão no contexto da França Equinocial.[10][11] Ao longo de três séculos, entre a descoberta do Brasil e o início do século XIX, Portugal travou diversas batalhas pela posse e controle das águas brasileiras; à medida que os séculos passavam, cada vez mais brasileiros participavam e faziam parte das forças navais empreendidas na costa brasileira.[12] O Brasil colonial foi também local de construção de embarcações, como o galeão Padre Eterno, construído no século XVII na Ilha do Governador, que aquando da conclusão da sua construção era um dos maiores navios do mundo.[13]

A transferência da sede do Reino de Portugal para o Brasil, em 1808, fez com que a Marinha Portuguesa se instalasse no Rio de Janeiro com uma parte importante da sua estrutura, pessoal e navios.[8] As invasões napoleônicas de Portugal forçaram a Família Real a procurar refúgio no Brasil. Esta transferência foi feita por um comboio de trinta navios, que transportaram quinze mil militares e civis.[14][15] Com ela, chegou ao Brasil o Ministério dos Negócios da Marinha e Ultramar, e foram criados ou estabelecidos diversos componentes necessários ao funcionamento da Marinha.[16] A nacionalização desta parcela da Marinha Portuguesa daria origem à sua equivalente brasileira,[8] tal como ocorrido com outras instituições brasileiras herdadas de Portugal.[17]

Independência

A bordo da fragata União, Dom Pedro I ordena ao oficial português Jorge de Avilez que retorne à Europa

A 7 de setembro de 1822, Dom Pedro declarava a independência do Brasil.[18] A Armada Nacional, como era chamada a Marinha de Guerra brasileira durante o regime monárquico, nasceu formada quase que em sua totalidade por embarcações, pessoal, organizações e doutrinas provenientes da transmigração de 1808. Também foram aproveitados vários órgãos criados por João VI de Portugal, tais como a Secretaria da Marinha, o Quartel-General, a Intendência e Contadoria, o Arsenal de Marinha, a Academia Real dos Guardas-Marinhas, o Hospital, a Auditoria, o Conselho Supremo Militar, a Fábrica de Pólvora, os Cortes de Madeira e outros. Como primeiro Ministro da Marinha, foi nomeado um brasileiro nato, o capitão de mar e guerra Luís da Cunha Moreira (futuro visconde de Cabo Frio), em 28 de outubro de 1822.[19][20][21] De Portugal foram herdados inclusive os defeitos: uma organização antiquada e burocrática, que tolhia a iniciativa dos comandantes, o que as primeiras administrações conseguiram apenas atenuar.[22]

A primeira missão era enfrentar os portugueses na Guerra de Independência. Na falta de militares experientes que tivessem nascido no Brasil, a comissão composta por Luís Cunha Moreira e vários oficiais buscou contatar os militares portugueses servindo no Brasil para que se unissem ao recém-criado Império brasileiro. Centenas aceitaram, e os que recusaram receberam, em conjunto com as suas famílias, transporte para retornarem a Portugal. Contudo, temerosos das possíveis consequências de enviar para combate navios tripulados em sua maior parte por portugueses contra as forças lusitanas, a comissão recrutou diversos mercenários, indígenas e escravos. Para comandar a Armada brasileira foi escolhido o experiente Lorde Thomas Alexander Cochrane, britânico de nascimento, que recebeu o cargo de Primeiro-Almirante.[23][24][25] A doutrina, práticas e tradição seriam fortemente influenciadas pela Marinha Real britânica no século que se sucederia.[26]

Meios navais

Nau Pedro I, capitânia da Armada primitiva

A frota era inicialmente composta por apenas uma nau, quatro fragatas, duas corvetas, cinco brigues, seis escunas e vinte pequenas embarcações, num total de trinta e oito navios de guerra. O Ministro da Fazenda Martim Francisco Ribeiro de Andrada criou uma subscrição nacional para reunir fundos e assim reequipar a frota, e de todo o Brasil foram enviadas contribuições. Até mesmo o imperador Pedro I adquiriu às próprias expensas um brigue mercante que foi renomeado Caboclo e doado ao Estado.[25][27] O Arsenal de Marinha da Corte e outros arsenais atendiam parte das suas necessidades, mas faltavam recursos financeiros para a logística e o nível tecnológico era inferior ao da Europa e Estados Unidos. Ainda assim, em pouco tempo já se conseguia lançar expedições na Guerra da Independência.[22] Em 1825 já havia noventa e seis navios de guerra modernos, de diferentes tipos, com cerca de 690 canhões. Ao abdicar em 1831, Dom Pedro I deixou uma Armada composta por duas naus, dez fragatas, vinte corvetas, dezessete brigues-escunas, duas canhoneiras, doze bombardeiras, três barcas a vapor, catorze transportes e várias lanchas de grande porte, num total de pelo menos oitenta navios de guerra.[28][29]

Em 1840, quando o Imperador Dom Pedro II assumiu suas prerrogativas, a Armada detinha noventa navios de guerra: seis fragatas, sete corvetas, dois brigues-barcas, seis brigues, oito brigues-escunas, dezesseis canhoneiras, doze escunas, sete patachos, seis barcas a vapor, oito lanchões artilhados, três charruas, dois lugres, dois cúteres e cinco lanchões armados.[30]

Fragata a vapor Dom Afonso

O longo reinado de cinquenta e oito anos de Dom Pedro II representaria o crescimento e apogeu da Armada Imperial.[31] A Marinha da Independência e da Guerra da Cisplatina, constituída por um elevado número de navios de grande porte, foi sendo transformada numa Marinha de unidades menores, mais indicadas para enfrentar as conflagrações nas províncias e ajustadas às limitações orçamentárias de então.[32] Neste período, foi adotada definitivamente a navegação a vapor e substituídos os antigos canhões de alma lisa por novos, de alma raiada.[29] Navios de guerra foram construídos nos Arsenais de Marinha no Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Santos, Niterói e Pelotas.[29][33][10][34] Nos anos 1860 havia quarenta navios a vapor com mais de 250 canhões.[35]

Na Guerra do Paraguai (1864–1870), foram acrescidos à força naval onze navios encouraçados e seis monitores encouraçados:

  1. A corveta Brasil, encomendado da França.
  2. Três construídos no Arsenal da Corte: Barroso, Tamandaré, Rio de Janeiro.
  3. Cinco comprados praticamente prontos por serem anteriormente encomendados pelo Paraguai: Lima Barros, Maris e Barros, Herval, Bahia e Silvado.
  4. Dois encomendados na Inglaterra, Colombo e Cabral.
  5. Seis monitores fluviais, classe Pará, construídos a partir de 1866 no arsenal da Corte.[36]

Construtores navais brasileiros como Napoleão Level, Trajano de Carvalho e João Cândido Brasil planejaram novos desenhos para os navios de guerra da Armada Nacional que possibilitaram aos Arsenais do país manterem competitividade com outras nações.[37] Vencida a Guerra do Paraguai, a Armada brasileira era a quinta maior do mundo em número de navios. Tratava-se, porém, de uma frota defasada (de madeira) e adequada basicamente às operações fluviais. Findo o ciclo de guerras externas, diminuiu o interesse político no poder naval,[38] iniciando um período de decadência.[39]

Encouraçado de Esquadra Riachuelo

Durante a década de 1870, frente a uma possibilidade de conflito armado com a Argentina, a Armada adquiriu uma canhoneira e uma corveta em 1873, um encouraçado e um monitor em 1874 e logo em seguida dois cruzadores e mais um monitor.[40][41] No início da década de 1880, os Arsenais da Marinha do Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Pará e Mato Grosso continuaram a construir dezenas de navios de guerra.[42] Quatro torpedeiros foram comprados, foi criada a Escola Prática de Torpedos para praças e instalou-se uma oficina de fabricação e reparo de torpedos e aparelhos elétricos no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro em 30 de novembro de 1883.[43] Este mesmo Arsenal construiu as canhoneiras a vapor: Iniciadora, Carioca, Camocim, Cabedelo e Marajó, além do patacho Aprendiz, todos com cascos de ferro e aço, e não mais de madeira (os primeiros do tipo construídos no país).[42] O ápice da Armada Imperial ocorreu com a incorporação dos encouraçados de alto mar Riachuelo e Aquidabã (ambos dotados de tubos lança-torpedos) em 1884 e 1885, respectivamente. A obtenção destes navios possibilitou o Brasil permanecer “entre as potências navais do universo”.[44]

Mas não era mais possível construir uma marinha moderna num país não industrializado — o Brasil não encontrou nenhuma quantidade significativa de carvão no século XIX. Diante dos saltos tecnológicos, o Brasil passaria de construtor a importador,[45] recorrendo a compras de oportunidade, sem planejamento adequado e sem condições financeiras.[46] Recursos extraordinários foram providos por conta de tensões fronteiriças com a Argentina e do rearmamento do Chile, mas ao final do Império, a Armada era inferior a estas duas competidoras no Cone Sul.[45] A esquadra em 1888 consistia em dezessete navios: três encouraçados, três encouraçados fluviais, três monitores, duas corvetas de casco de madeira e cinco cruzadores híbridos (ora denominados cruzadores, ora corvetas encouraçadas). Onze eram nacionais. Era uma força considerável e com infraestrutura extensa.[2]

Operações

A Armada em treino nos anos 1870

As atividades da esquadra brasileira eram intensas. O governo era ciente da importância do poder naval[5] para um país "arquipelágico" de centros populacionais litorâneos, sem conexões terrestres. O interior era esparsamente ocupado, com as maiores populações próximas aos rios, como em Mato Grosso.[47][48] Havia marinha mercante, portos e construção naval de relevo e havia uma "mentalidade marítima" na população.[5] Cabia à Armada transportar contingentes terrestres, bloquear o território inimigo, destruir ou capturar as forças navais inimigas (guerra de desgaste) e atacar as linhas de comunicação marítimas (guerra de corso).[49] Em meados do século, as prioridades da política naval eram a manutenção das linhas de comunicação marítimas e fluviais, o emprego em proveito da política externa (combate ao tráfico negreiro, missões diplomáticas e intervenções militares) e a nacionalização de meios e sistemas.[50]

Após a Guerra de Independência, o Império Brasileiro travou uma série de campanhas navais contra ex-colônias espanholas.[51] Não se encontram estudos de estado-maior sobre prováveis conflitos: os planos de campanha eram criados no início ou durante as operações. A instalação de colônias militares na bacia do Prata, de arsenais ou da Flotilha do Mato Grosso surgiram conforme as demandas específicas e não um plano sistemático. Não foram feitos levantamentos batimétricos pormenorizados para operações futuras, por exemplo.[39] A criação da Flotilha do Amazonas em 1868 foi resposta à abertura do rio Amazonas ao comércio internacional.[52] Os grandes destaques da história de combate da Marinha estão na campanha fluvial no Paraguai em 1864–1870.[53]

Guerra da Independência

Batalha de 4 de maio de 1823, com a Armada Imperial liderada por Thomas Cochrane, na Independência da Bahia

A recém-formada Armada Nacional rumou em 1822 para a Bahia, onde atacou um comboio da esquadra portuguesa formada por mais de setenta navios que se dirigia ao Maranhão. Apenas treze conseguiram alcançar Lisboa após se verem impossibilitados de atingirem o litoral norte brasileiro. Os demais navios ou foram afundados ou aprisionados e incorporados à Armada brasileira. O britânico John Pascoe Grenfell, que comandava o brigue Maranhão, ex-brigue Dom Miguel, obteve a rendição da cidade de Belém do Pará. O capitão João Taylor, comandando a fragata Niterói, perseguiu a Armada Portuguesa em retirada da Bahia, através do Atlântico até o estuário do Tejo junto a Lisboa.[54] Durante esta ação, que durou quase um ano,[55] a Niterói capturou 19 navios portugueses.[54]

Tendo vencido a oposição lusitana nas províncias da Bahia, Maranhão e Pará, a frota brasileira partiu para a Cisplatina, onde alcançou mais sucessos em sua empreitada. O Almirante Cochrane, após ter libertado um terço do território brasileiro, recebeu do Imperador Dom Pedro I em pessoa a condecoração da Ordem do Cruzeiro do Sul e o título nobiliárquico de marquês do Maranhão.[56] A participação no conflito contra Portugal foi vital:

Cisplatina

Após a supressão da revolta da Confederação do Equador em 1824, a Marinha foi engajada na Guerra da Cisplatina (1825-1828). A frota brasileira bloqueou o estuário do Prata, impossibilitando o contato das Províncias Unidas e dos revoltosos cisplatinenses com o resto do mundo. Várias escaramuças ocorreram entre navios brasileiros e portenhos até à derrota da esquadrilha inimiga, composta por duas corvetas, cinco brigues e uma goleta, em frente à Ilha de Santiago em 1827.[28][29] Em troca do apoio britânico na Cisplatina, de 1827 a 1830 a Armada estabeleceu em Cabinda, no território português de Angola, a Divisão Naval na Costa d'África, ou Divisão da Costa de Leste. Além de defender o comércio marítimo brasileiro de piratas e corsários, seu objetivo era pretensamente a diminuição gradual do tráfico negreiro no Atlântico. Mas sob a tutela da Armada, Cabinda tornou-se o principal porto fornecedor de escravos ao Rio de Janeiro.[57]

Revoltas da Regência

A Armada atuou em todas as revoltas ocorridas no período regencial, como a Cabanagem, a Farroupilha, a Sabinada, dentre outras. Ela bloqueou as províncias onde ocorreram as revoltas e realizou a maior parte dos transportes de tropas do Exército imperial, de uma região para a outra do país, mantendo-as municiadas, abastecidas e apetrechadas.[29][58]

Patrulha do tráfico negreiro

Quando o tráfico negreiro foi proibido pela lei Eusébio de Queiroz, em 1850, a Armada foi encarregada de abordar e apresar os navios envolvidos no comércio ilícito. Navios de guerra partiram das Estações Navais do Rio de Janeiro, Bahia, Maranhão e Pernambuco em viagens de cruzeiro no eixo norte-sul do litoral. Ao contrário das medidas anteriores, o governo efetivamente reprimiu o tráfico.[59] A dimensão externa dessa medida era evitar que houvesse pretexto de intervenção da Marinha Real britânica, empenhada em fechar este comércio transatlântico.[47] O problema ainda viria à tona na Questão Christie, nos anos 1860, que evidenciou a fraqueza da Armada brasileira ante às grandes potências navais.[38]

Guerras do Prata

Monitor Alagoas abordado por combatentes paraguaios (1868)

Os conflitos na região do Prata não cessaram após a guerra de 1825, e logo o Brasil se viu forçado a enviar uma frota de dezessete navios de guerra (uma nau, dez corvetas e seis navios a vapor) comandada pelo veterano da Independência John Pascoe Grenfell para combater as Províncias Unidas do Rio da Prata em 1851. A frota brasileira conseguiu ultrapassar o forte argentino do Passo do Tonelero sob forte bombardeio e efetuou o transporte de tropas para o teatro de operações em terra.[35]

Em 1864 a Armada foi empenhada na Guerra do Uruguai e logo em seguida na Guerra do Paraguai, até 1870.[37] A campanha foi uma subida dos rios Paraná e Paraguai em conjunto com o Exército, atingindo uma importante vitória na Batalha de Riachuelo e passagens forçadas de margens fortificadas em Curupaiti e Humaitá. A manutenção e o clima eram difíceis e as doenças mataram mais do que a ação inimiga.[10][50]

Outras operações

O almirante Júlio César de Noronha empreendeu a primeira circum-navegação sob a bandeira brasileira em 1879–1881.[60]

Efetivo

Oficiais

Oficiais da Armada Imperial. Sentados, príncipe Dom Augusto (a esq.) e o Almirante Eduardo Wandenkolk (centro), c.1889

O oficialato naval era pequeno, aristocrático e viajava com frequência ao exterior. Há poucos dados sobre a origem dos oficiais, mas é sabido que a extração social era mais alta do que a do Exército. Dentre os almirantes, constam filhos de oficiais, de políticos importantes, como o barão de Jaceguai, e da aristocracia, como Saldanha da Gama, presença marcante nos teatros e salões dentro e fora do país. A maioria dos almirantes do Primeiro Reinado eram fidalgos ou filhos de oficiais, e os oficiais britânicos que se estabeleceram no Brasil eram de origem nobre.[61] Na década de 1860, o corpo de oficiais já não continha mais estrengeiros, somente brasileiros natos (que eram recrutas na época da guerra da Independência). De seu quadro de militares, saíram homens como Joaquim Marques Lisboa, marquês de Tamandaré, Francisco Manuel Barroso da Silva, barão do Amazonas, Joaquim José Inácio de Barros, visconde de Inhaúma, Luís Filipe de Saldanha da Gama, dentre outros, que foram todos leais ao regime monárquico.[35] Ao final do Segundo Reinado, este corpo de oficiais divergia socialmente do seu equivalente do Exército, agora de extração na pequena classe média.[6]

Na Escola Naval, tal como na sua equivalente no Exército, havia um excesso de ensino matemático e teórico, de forma que muitos alunos se formavam sem dar um tiro de canhão ou lançar um torpedo. Ao início da República, os lideres navais eram conhecidos pelo seu preparo técnico. Diferente do Exército, havia menos cadeiras de ciências sociais, pouca influência positivista, um número diminuto de alunos e maior isolamento físico — a Escola funcionou a bordo de um navio de 1867 a 1882, quando foi transferida à Ilha das Enxadas. Os alunos não podiam simplesmente ir às ruas a cada perturbação política.[62]

Marinheiros

Monumento ao marinheiro Marcílio Dias, herói da batalha do Riachuelo

A base da pirâmide hierárquica foi inicialmente formada pelo alistamento voluntário e recrutamento forçado, o "tributo de sangue".[63] O prolongado tempo de serviço e a cobrança violenta da disciplina davam ao serviço embarcado uma imagem de castigo e degradação social, incentivando a evasão.[64] Portanto, aos marinheiros portugueses e estrangeiros contratados nos primeiros anos somaram-se criminosos remetidos pela polícia, escravos libertos, mendigos, órfãos e desempregados. Esta composição heterogênea era fonte de motins e deserções.[65] No Segundo Reinado, foi regularizado o Corpo de Imperiais Marinheiros, assim como serviços de assistência aos inválidos e escolas para formação de marinheiros e artífices.[66]

Para não recrutar "desclassificáveis e insidiosos", surgiu o modelo das Companhias de Aprendizes-Marinheiros, responsáveis por preparar menores de idade ao ingresso no Corpo de Imperiais Marinheiros. Segundo um aviso do ministro Holanda Cavalcanti, poderiam ser entregues os "menores que viverem em estado de vagabundos, ou que estiverem abandonados por seus pais, ou tutores [...] ou se vierem se apresentar voluntariamente". Os aprendizes eram fornecidos por instituições de caridade, orfanatos, a polícia, juízes e presidentes de província e captados por estruturas burocráticas locais, como as Estações Navais e Capitanias dos Portos. A esperança era com isso abandonar o recrutamento forçado, que fornecia a maioria dos marinheiros, considerados "desclassificáveis e insidiosos" pelas autoridades navais.[67]

A primeira Companhia de Aprendizes-Marinheiros foi criada em 1841, no Rio de Janeiro, e outras dezessete seriam fundadas em várias cidades nas décadas seguintes. Os oriundos das Companhias excederam o número de ingressos diretos no Corpo de Imperiais Marinheiros.[68] No relatório ministerial de 1850, um voluntário havia se apresentado e 319 recrutas vieram de "outras" fontes (principalmente o recrutamento forçado). No relatório de 1888, foram 64 voluntários, 431 aprendizes e 511 forçados.[69]

Perduraram os problemas da deserção (156 casos em 1850 e 360 em 1888), brigas, roubos e bebedeiras, para os quais os oficiais recorriam ao castigo físico, que embora proibido legalmente em 1874, continuou por muito tempo — o que mais tarde causaria a Revolta da Chibata.[69] Os marinheiros eram em grande parte escravos ou ex-escravos, e o castigo corporal era o elo entre a instituição escravista e a Marinha. Segundo o historiador Zachary Morgan, os dirigentes navais eram da opinião de que "os homens recrutados para a Marinha eram inferiores racialmente e que não podiam ser treinados de forma efetiva, mas apenas forjá-los à ordem, para se conformarem à disciplina militar".[70]

Fuzileiros navais

O pessoal ocupado na administração e condução do navio constituía o Corpo da Armada, um de dois quadros de pessoal que constituíam a Marinha. O outro, organizado nos moldes do Exército, era o precursor do atual Corpo de Fuzileiros Navais, denominado Batalhão de Artilharia de Marinha (1822), Imperial Brigada de Artilharia da marinha (1826), Corpo de Artilharia de Marinha (1831), Corpo de Fuzileiros Navais (1847) e Batalhão Naval (1852).[71] Antes da profissionalização do Corpo de Imperiais Marinheiros, era o único corpo efetivamente militarizado.[72] Seus oficiais eram oficiais do Corpo da Armada em comissão.[73] Como artilharia de marinha,[4] eram responsáveis por cuidar do armamento e munição, guarnecer as peças de artilharia, defender o navio e realizar desembarques.[72] A partir de 1847, foram organizados como uma infantaria de marinha,[74] chegando em 1852 ao efetivo de 64 oficiais e 1 216 praças organizados em oito companhias de fuzileiros e duas baterias de artilharia.[75] Em 1889, o efetivo já havia baixado a 454 praças.[1]

Queda do Império

Dona Isabel, Princesa Imperial e Dom Pedro II (com uniforme de Almirante), Imperador do Brasil e Comandante em Chefe das Forças Armadas brasileiras (1870)

Nos anos 1880 o imperador estava velho e doente, os governos estavam desacreditados e a causa republicana ganhava adeptos. Os militares, com a autoconfiança adquirida na Guerra do Paraguai, organizavam-se em defesa de seus interesses. O Clube Naval e Clube Militar, respectivamente fundados em 1884 e 1887, foram órgãos mobilizadores dos eventos que culminariam na queda da monarquia.[76] O Exército, sob a liderança do marechal Deodoro da Fonseca, tomou a iniciativa de proclamar a República num golpe militar em 15 de novembro de 1889.[6] Um dos conspiradores era um almirante, Eduardo Wandenkolk, mas ele não teve participação concreta no golpe.[77] Quando o marechal Deodoro desfilou a cavalo pelo Arsenal de Marinha, foi recebido com honras por uma força comandada pelo capitão-tenente Alexandrino de Alencar.[78] O Batalhão Naval desfilou pelo centro do Rio e confraternizou com as tropas do Exército.[79]

O único representante da Marinha que esteve fisicamente em defesa da monarquia, naquele dia, foi o Barão de Ladário, na posição de ministro da Marinha, tendo por isso sofrido um atentado.[80] O marquês de Tamandaré solicitou a D. Pedro II que o permitisse debelar o golpe, mas este recusou.[81] Marinheiros foram rechaçados a tiros ao darem vivas ao Imperador quando este estava aprisionado no Paço Imperial.[82] O Barão de Ladário manteve-se em contato com a Família Imperial no exílio buscando maneiras de restaurar o regime deposto, mas acabou relegado ao ostracismo pelo governo republicano.[83] Segundo o almirante Armando Vidigal, "o Exército fez a República e conquistou o poder político, enquanto a Marinha permaneceu basicamente monarquista e assumiu uma posição de inferioridade."[6] Conforme outro comentário publicado pela instituição, a "Marinha foi monarquista até o dia 15 de novembro de 1889; ao ser proclamada a República, ela passou a ser republicana. Afinal, é o papel que se espera das Forças Armadas de um país".[84]

Wandenkolk foi imediatamente nomeado ministro da Marinha pelo governo Deodoro, por ser o único almirante declaradamente republicano.[77] Deodoro e seu sucessor, Floriano Peixoto, enfrentaram duas Revoltas da Armada, ou "de parte da Armada", pois alguns oficiais permaneceram legalistas.[85] Os rebeldes apossaram-se da maioria dos navios.[86] O movimento envolveu motivações corporativas e pessoais — tanto que Wandenkolk aderiu por inimizade a Floriano. Dos dois líderes notórios do movimento, Custódio de Mello havia aderido à República após a proclamação e Saldanha da Gama era genuinamente monarquista.[87] O almirante Tamandaré, com quase noventa anos de idade, foi preso sob a acusação de financiar militares monarquistas.[88] Os oficiais monarquistas de alta patente foram presos, ou banidos ou fuzilados sem o devido processo legal, e seus subordinados sofreram "penas cruéis".[83]

A segunda e mais longa revolta durou até 1895 e impôs um elevado custo em pessoal e navios. Prudente de Morais anistiou os ex-rebeldes, mas perduraram rancores entre eles e os ex-legalistas.[89][86] Segundo o almirante Vidigal, a revolta "encerra simbólica e inexoravelmente o fim do período de hegemonia política da Marinha".[6]

Notas e referências

Notas

  1. O cenário das "lutas pela consolidação da independência" era "dominado pela maritimidade e sem facilidades terrestres para todos os deslocamentos de tropas".[4] "Mesmo após a concretização da independência e durante o período do Império, a população nascida no Brasil ainda possuía uma mentalidade marítima devido a essa tradição portuguesa". "Nesse período, o Brasil possuía uma frota mercante, portos, indústria de construção naval relevantes". O "governo imperial manteve a esquadra brasileira em intensa atividade". A "geografia imaginativa do Império que priorizava a costa e o mar foi gradativamente reescrita", mas é "de se notar que no início do século XX, o governo ainda priorizava o Poder Marítimo".[5]
  2. A Revolta da Armada de 1893 "encerra simbólica e inexoravelmente o fim do período de hegemonia política da Marinha".[6] "Até hoje oficiais navais veem o Exército articulando para se manter como a força armada dominante".[7]

Citações

  1. a b Janotti 1986, p. 208.
  2. a b Val 2015, p. 52.
  3. BRASIL. «Decreto 544 - de 18 de Dezembro de 1847».
  4. a b Cantídio 1993, p. 35.
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  6. a b c d e Vidigal 1983, p. 36.
  7. McCann 2017, p. 59.
  8. a b c Rodrigues & Silva 2022, p. 539-540.
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  11. DEM, SDM 2006, p. 49.
  12. DEM, SDM 2006, p. 44–62.
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  24. Maia 1975, p. 58-61.
  25. a b Holanda 1974, p. 261.
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Bibliografia

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