Império Almorávida
Império Almorávida
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| Período histórico | Idade Média | ||||||||||||||||||||||||
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O Império Almorávida (em árabe: المرابطون; romaniz.: Al-Murābiṭūn) foi um império islâmico fundado por uma dinastia berbere do norte da África e que se centrou no território atual de Marrocos. O império foi estabelecido no século XI no Magrebe ocidental e Alandalus, englobando territórios atualmente pertencentes à Mauritânia, Saara Ocidental (donde provinham), Marrocos e a metade sul da Península Ibérica. A capital do império foi a cidade de Marraquexe, fundada pelo líder almorávida Abu Becre ibne Omar por volta de 1070. A dinastia emergiu de uma aliança entre as tribos nómadas berberes lantunas, judalas e massufas, habitantes das atuais Mauritânia e Saara Ocidental, atravessando o território entre os rios Drá, Níger e Senegal.
Os Almorávidas foram cruciais na prevenção da conquista dos territórios muçulmanos pelos reinos cristãos da Península Ibérica, quando decisivamente venceram a aliança entre os exércitos de Castela e Aragão na Batalha de Zalaca em 1086. Isso concedeu-lhes controle sobre um império que se estendia por um milhão de quilômetros quadrados de norte a sul. Os líderes do império nunca reivindicaram o título de califa, adotando no lugar o título de miramolim (lit. "Príncipe dos Muçulmanos") ao mesmo tempo que reconheciam o domínio simbólico do Califado Abássida de Baguedade. No entanto, o reinado da dinastia teve uma duração relativamente curta. Os almorávidas caíram no seu ápice ao falharem em deter a rebelião masmuda iniciada por Ibne Tumarte. Como resultado, seu último emir, Isaque ibne Ali (r. 1146–1147), foi morto em Marraquexe em 24 de março de 1147 pelo Califado Almóada, que substituiu o Império Almorávida como poder dominante no Magrebe e Alandalus.
Nome
Almorávida é uma adaptação europeia do termo al-murābiṭūn. Uma das primeiras atestações de almorávida decorre de uma canção anônima de um trovador do século XII, chamada Chevalier, mult estes guariz, na qual se afirma o seguinte: "Cavaleiros, vossa salvação está assegurada, pois Deus vos convocou a tomar Seu partido contra os turcos e os almorávidas".[2] Em português, foi registrado a primeira vez em 1594 como almorauides.[3] O termo al-murābiṭūn, de modo geral, derivou dos monges guerreiros (os marabutos) que habitavam as arrábitas, os conventos fortificados situados nas fronteiras do mundo islâmico. No entanto, entre os almorávidas do deserto, parece ter sido empregado metaforicamente, com um sentido de disciplina espiritual, e não como uma designação toponímica ou geográfica literal ligada a um convento ou retiro específico. Eles podem ter se considerado, desde o início, afiliados à Casa dos Marabutos (Dār al-Murābiṭīn), estabelecido pelo sábio de Suz Uagague em Malcus.[2]
História
Contexto histórico
O Magrebe Ocidental — interior, exterior e montanhoso — estava povoado por tribos que levavam uma vida rudimentar, agrícola ou pastoril. No século XI, no seio das tribos montanhosas do Grande Atlas, surgiriam o movimento almorávida que, pela primeira vez, unificou toda a região política, militar e religiosamente, num esforço de renovação. Portanto, ao tratar do surgimento dos almorávidas, três fatores contextuais se sobressaem, ou seja, a configuração tribal local, alinhada com as particularidades geográficas da região, a falta de unidade política e a divergência religiosa decorrente da histórica disputa xiita-sunita em paralelo à permanência de práticas pagãs autóctones.[4][5]
Divisões tribais
Segundo as teorias dos genealogistas berberes e árabes, as tribos berberes dividem-se em dois grandes grupos principais: os baranitas, oriundos de Bunus ibne Bar, que praticavam o nomadismo nas planícies baixas e altas, e os botritas, descendentes de Madeguis Alabetar ibne Bar, que habitavam as zonas montanhosas e eram transumantes ou sedentários. Dentro dessa classificação, distinguiram-se três grandes confederações tribais, que foram centrais à história do Magrebe, a saber, os masmudas, os zenetas e os sanajas. A divisão feita por Ibne Caldune das tribos berberes, na qual distingue os berberes propriamente ditos dos zenetas, pode ser conciliada com a classificação tradicional nesses três grandes grupos históricos e linguísticos. Os zenetas constituem o grupo mais importante dos botritas. Por sua vez, entre os baracinitas, entre outras, estavam os masmudas, os sanajas (de Banus ibne Bar, através de Zague) e os cotamas.[6] O norte, junto ao estreito de Gibraltar, entre Ceuta e Tânger e até o rio Cebu, era povoado por tribos masmudas, leuatas, hauaras e cotamas. Além desses, grupos dispersos de aurabas estavam estabelecidos no Habete, entre o Cebu e o Uarga e os árabes hassanitas povoavam o sul do Algarbe, na margem direita do Cebu.[7]
Das grandes confederações, os masmudas eram os mais numerosos. Eram senhores de quase toda a zona montanhosa e das planícies atlânticas, ocupando, desde os primeiros tempos históricos, o Marrocos essencial, que mais tarde seria disputado pelos zenetas. Os gomaras estendiam-se pelo Jebala e pelo Rife, até as proximidades do Necor, e os berguatas ocupava a Tamasna, do Atlântico ao Atlas. À margem do Morbeia e na zona costeira, entre os vales dos rios Tenerife e Suz, encontravam-se os ragragas, mascalas, metugas, hahas e maçaguinas; descendo para a planície de Marraquexe, dominavam as encostas do Grande Atlas (Dara) os gademiuas e os ganfiças; mais a leste, os hintatas, ao sul de Marraquexe, entre os saquetanas e os uricas, estes ao sul de Agmate; os hazerajas, no país de Demnate; os igaluanitas e as duas grandes confederações dos uauasguititas e hascuras, nas vertentes meridionais do Grande Atlas, entre o alto Dara e o Suz. Ao sul desse rio, e margeando o Antiatlas, quase na zona pré-saariana e de oeste a leste, estavam os isnaganitas, saquetanas, hargas e hastucas.[7] Os masmudas e as tribos aparentadas com eles ocupavam, portanto, o Alto Atlas, as encostas ocidentais do Médio Atlas e as setentrionais do Antiatlas, compartilhando algumas zonas de seu domínio — os montes do Rife e do Jebala até Tânger — com tribos zanatas e sanajas que, pelo aberto corredor de Taza, se haviam infiltrado em sucessivas migrações. Diz-se que eram bons guerreiros e, ao surgir o movimento almorávida, constituíam, juntamente com os zenetas, o maior grupo étnico e o mais poderoso de todo Marrocos.[8]
Os zenetas, oriundos do Magrebe Central, do sul da Tunísia ou da Tripolitânia, chegaram a Marrocos com a conquista árabe do século VII, ou talvez antes, estabelecendo-se na zona norte, onde entraram em choque com grupos masmudas e sanajas. Muitos deles — como os leuatas, maguilas e madiunas, primeiro, e depois os mequinaças, magrauas e ifranitas — povoaram as encostas orientais do Médio Atlas, o vale médio do Mulucha, o norte de Fez, o sul de Arzila e a região do Fazaz e de Tédula. Os zenetas constituíram, com outras tribos sanajas primitivas estabelecidas no Atlas Central, a base da população do norte de Marrocos. Grandes nômades montadores de camelos, tendiam, ao penetrar na Argélia e em Marrocos, a afastar-se do deserto, a sedentarizar-se, fixando-se ao território, onde se dedicavam ao cultivo da terra e à criação de animais. Apesar dessa tendência geral, as tribos estabelecidas no pré-Saara e na região dos oásis, ao sul de Marrocos, continuavam sendo dependentes das cáfilas até a chegada dos almorávidas. As grandes confederações zanatas — magrauas, fatanitas e ifranitas — eram os grupos mais numerosos e aqueles que desempenharam um papel primordial na história do Marrocos anterior aos almorávidas.[9]
No Marrocos da zona norte e nordeste, de Tânger a Tremecém, havia numerosos grupos zanatas, entre os quais os matematas e marniças, no baixo vale do Mulucha, entre Ujda e Melilha; os gosnaias, uriagalitas, islitanitas, mequinaças e humaiditas povoavam os altos vales do Necor, do Guis e do Lau. A região dos mequinaças compreendia sobretudo o vale médio do Mulucha e o do Inauene, com o corredor de Taza. Dreses situa um grupo de matematas na Tamasna, junto aos berguatas e a outras tribos zanatas. Havia grupos mategaras perto de Fez, na Tamasna, no Tafilete e em Figuigue. Os mequinaças, também estabeleceram-se também no Tafilete e fundaram Segelmeça. Tribos magrauas encontravam-se distribuídas pelo norte de Marrocos; no século XI, os magrauas foram os primeiros a entrar em contato com os almorávidas, sendo aqueles do Tafilete e de Audagoste, mesclados com grupos leuatas, nafuças e nefezauas.[10] No século X e em meados do XI, os ifranitas disputaram a hegemonia com os magrauas. Viviam dispersos pelo Magrebe, da Ifríquia a Marrocos, em choque com os sanajas. Aqueles que viviam centrados em Tremecém–Ujda foram empurrados do Magrebe Central para Marrocos, sobretudo após as expedições do emir zírida Bologuine ibne Ziri (r. 972–984). No Marrocos, encontram-se nas encostas ocidentais do Médio Atlas lutando contra os berguatas, na região de Fez, na foz do Bu Regregue, onde fundaram o reino de Salé (região de Salé–Rabate), e em parte de Tédula, onde, ao que parece, resistiram aos almorávidas.[11] Considerados em geral como nômades, assim como os sanajas, entraram em choque com estes por motivos políticos e econômicos no norte do Magrebe e no pré-Saara, onde dirigiam o tráfego das caravanas, controlavam as grandes rotas e dominavam os mercados.[12]
Por fim, os sanajas, essenciais á ascensão e expansão do almoravidismo, dividiam-se em numerosas ramos dispersos pelo Magrebe, da Ifríquia às planícies desérticas do Atlântico e de Argel, Bugia e Médio Atlas até o Senegal e o Níger. Ibne Caldune faz deles originários de Himiar, em conexão com os árabes pré-islâmicos do sul da Arábia.[13] Ibne Haucal propôs uma nomenclatura das tribos sanajas do Magrebe Ocidental, com suas divisões e subdivisões em clãs e famílias, sobretudo as determinantes ao almoravidismo: anquifaítas (Anquifa), maruanitas (Banu Maruane), quirdamititas (Banu Quirdamite), siguititas (Banu Siguite), saleítas (Banu Sale), massufas, uarititas, rutaquitas (Banu Rutaque), salaítas (Sala), saçaítas (Saça), targas, madaças, lantunas, magraças, muminas, farugas, lantas, matrinas, aniquinitas (Aniquine). Essa lista foi parcialmente retomada por Dreses: maçuditas (Banu Maçude), tamiaítas (Tamia), judalas, lantunas, ibraimitas, taxufinitas e moameditas. A lista de Dreses evidencia a ascensão de três ramos do clã dos turgutitas da tribo dos lantunas, em detrimento de outros grupos sanajas: os ibraimitas, de Omar ibne Ibraim; os taxufinitas, de Taxufine ibne Ibraim; e os moameditas, de Maomé ibne Turgute. Omar, Taxufine e Maomé são os ancestrais de uma linhagem de homens célebres, cujos feitos ainda eram conhecidos quando Dreses escreveu sua obra. Ibne Abi Zar (século XIV), distante cronologicamente dos turgutitas, os omitiu em sua listagem: lantunas, judalas, massufas, lantas, missuratas, talcatas, mindaças, uarititas, masfititas, uquebaítas, ziaditas, muçaítas, lamacitas e fiçuítas. Ibne Caldune (século XV), acrescentou na listagem os anguifas, os salaítas e os sanajas.[14]
Ibne Caldune distinguiu três grupos de sanajas, sendo os primeiros dois, do norte e sedentários, e os últimos do sul e nômades. Os grupos do norte estavam estabelecidos no Médio Atlas, ao sul de Taza, e na região oriental, confinando com terras zenetas. Um ramo estendia-se por parte do Rife e pelas colinas, vales e planícies da região do Uarga. Alguns núcleos encontravam-se nas planícies atlânticas e no Alhauz, ao sul de Marraquexe, enquanto um grupo mais importante, abrindo uma fissura no bloco masmúdico da planície, se havia estabelecido na foz do Morbeia. Esses sanajas, em sua maioria transumantes, salvo alguns núcleos sedentários, constituem os sanajas do Marrocos interior que, fundindo-se com os masmudas, formaram a base da população marroquina.[15] Os sanajas do norte, estabelecidos nas regiões de Argel, Bugia, Tunísia e Cairuão, pertenciam aos talcatas; dos talcatas, surgiram as dinastias zírida da Ifríquia e Alandalus e hamádida do Magrebe Central.[16] Dos sanajas do sul, contudo, é que surgiu o almoravidismo. Desses, os mais importantes foram os lantunas e seus parentes massufas, que juntos formaram as bases do poderio do movimento. Além desses, outros grupos menos poderosos, situados no Suz e nos vales da cordilheira do Atlas, eram os nômades lantas e jazulas e os sedentários hascuras.[17]
Questão política

Até o século XI, o Magrebe Ocidental não apresentava unidade política. O único vínculo perceptível era o de grupo étnico, ou mais precisamente de pertencimento à tribo. As tribos e confederações, de modo geral inimigas entre si, e o caráter independentista delas, que é um traço marcante dos berberes, somados a fatores religiosos de naturezas muito diversas, constituíam fortes obstáculos à realização da unidade política. A intervenção militar dos árabes conquistadores, portadores de uma organização política que se ajustava mal ao sistema berbere, bem como a penetração de uma ideia e de uma doutrina político-religiosa novas, vindas do Oriente — o carijismo — fizeram do século VIII um século de agitação e de anarquia berbere. Nele chocaram-se dois sistemas políticos distintos, o árabe e o berbere, e o Islã, ao mesmo tempo doutrina religiosa e sistema político, assumiu em Marrocos uma forma berbere adaptada. No século VIII, o Marrocos era um conglomerado de tribos incorporadas ao califado oriental, em sua maioria heréticas ou mal islamizadas.[18]


No século IX, com os princípios do carijismo, dividido em várias seitas, formaram-se por todo o Magrebe uma série de pequenos principados ou reinos heréticos. À margem dos reinos ou emirados que, na esteira da crise carijita, se constituíram no Magrebe Central — como o Reino Rustâmida ibadita de Taerte (atual Tiarete), fundado por Abderramão ibne Rustão, e o sufrita de Tremecém —, os mequinaças uaçulitas, fundadores de Segelmeça, criaram em Marrocos um principado herético que controlou o tráfego das caravanas e dominou grande parte do Marrocos pré-saariano. Nas planícies atlânticas, em Tamasna, Sale ibne Tarife, dos berguatas, fundou uma seita e declarou-se profeta dos berberes, enviado por Deus para revelar a seu povo uma nova religião.[19] O Reino Berguata, organizado mais como uma confederação berbere do que como um emirado árabe, perduraria quatro séculos, até os almorávidas. Ao mesmo tempo, no norte de Marrocos, já no século VIII, haviam sido fundados pequenos emirados em Ceuta, pelos içâmidas, e em Necor, pelos saleídas.[20]
O mais importante deles foi o Emirado Idríssida de Fez. Fundado no fim do século VIII por Idris (r. 789–791), foi sustentado pelos aurabas e estendeu sua influência por quase todo o norte de Marrocos, de Tânger ao Bu Regregue e além do Mulucha. Foco de orientalização e de islamização, Cairuão e Córdova convergiam em Fez sob os auspícios idríssidas. Com eles, chegaram do Oriente ideias políticas e teológicas recentes, como o xiismo e o mutazilismo. Eles adotaram uma forma de organização política inspirada, em maior ou menor grau, nos quadros administrativos do Oriente, traçando, no tempo de Idris II (r. 792–828), o primeiro esboço do makhzen marroquino, precursor do almorávida.[21] Apesar da tentativa idríssida, não se alcançou a unidade política. A eventual disputa pelo controle regional encabeçada pelo Califado de Córdova dos omíadas e o Califado Fatímida arruinaria os idríssidas e os princípios que defendiam. Nessa disputa, a aliança dos idríssidas com os magrauas e a coalizão de tribos berberes em torno deles testemunharam o caráter antiabássida de idríssidas e zenetas. Ao mesmo tempo em que enfrentavam os aglábidas de Cairuão, teoricamente submetidos aos abássidas, disputavam a hegemonia política aos masmudas e sanajas. Com isso, inconscientemente, os idríssidas abriram caminho para a hegemonia das tribos zenetas em Marrocos durante o século X, que seria contrariada pela ofensiva dos fatímidas e das dinastias sanajas dos zíridas e dos hamádidas.[22]


No século X, houve grandes deslocamentos e lutas tribais, ingerência estrangeira e influências políticas e religiosas vindas do Oriente e do Alandalus. Foi um período sobremaneira marcado pela disputa entre fatímidas e omíadas, que, em território alheio e lançando tribos umas contra as outras, pretendiam conquistar a hegemonia política e religiosa no norte da África. Nessa disputa omíada–fatímida, as duas grandes famílias berberes, zenetas e sanajas, tiveram de tomar partido por um ou outro. Os sanajas do norte, que construíram seu domínio em Cairuão e Bugia — oriundos do xiismo fatímida e inicialmente submetidos a ele, mas depois libertos de sua tutela e reconhecendo o califa abássida —, foram a primeira força que, substituindo os aglábidas do século IX, se lançou sobre Marrocos. Os próprios fatímidas eram, até certo ponto, uma dinastia sanaja. Os zenetas tiveram de enfrentá-los e aliaram-se aos omíadas. Desse modo, o Magrebe dividiu-se entre a Berbéria zenético-omíada, que compreendia Marrocos e Orã, e uma Berbéria sanájida-fatímida, que se estendia até os limites atuais das regiões de Orã e Argel. Os sanajas do norte prosperariam ao longo do século X até serem esmagados pelos invasores hilálios árabes, enviados contra eles na Ifríquia em represália pelo califa fatímida, quando reconheceram o califa abássida, e perdurariam enfraquecidos até serem eventualmente absorvidos pelo Califado Almóada no século XII.[23]
Os sanajas mantiveram submetidos, durante alguns anos, os blocos zenetas, sobretudo os mequinaças, que ocupavam Taerte, Tremecém e o norte de Marrocos, incluindo Fez. A revolta de Abu Iázide (m. 947) conseguiu libertar as principais tribos zenetas do jugo sanájida-fatímida, que desde então opuseram-se à expansão fatímida. Os avanços dos fatímidas no norte de Marrocos constituíram uma ameaça para os omíadas de Córdova, que, sem se decidir por uma ação direta em Marrocos, adotaram uma política defensiva. Para tal contaram com o apoio dos mequinaças de Muça ibne Abi Alafia, após o rompimento destes com os fatímidas, por volta de 932, e dos idríssidas do Rife. Contudo, os aliados mais firmes e eficazes dos califas de Córdova foram os zenetas ifranitas e magrauas. Os mequinaças exerciam sua autoridade na região do Mulucha, sobre as cidades de Tessul, Taza e Melilha, enquanto outra de suas ramificações, os midráridas, reinaram — com pretensões califais em determinado momento — em Segelmeça, onde permaneceram desde o século VIII até que, em 976–977, os magrauas tomaram posse da cidade em nome dos omíadas.Os ifranitas entraram em Marrocos na sequência das grandes expedições do zírida Bologuine ibne Ziri, em 970–972, e, após várias vicissitudes, apoderaram-se de Xelá (Salé), na margem direita do Bu Regregue. O reino que aí fundaram, juntamente com outro constituído mais ao sul, em Tédula, sofreu os ataques de seus vizinhos, os magrauas de Fez e os Berguatas de Tamasna, até ser finalmente conquistado pelos almorávidas no século XI.[24]


Os magrauas, que seguiram uma forte posição antifatímida e eram inimigos declarados dos sanajas, submeteram-se a estes apenas quando, em momentos de fraqueza, corriam o risco de sofrer violenta repressão. O duelo ifranito-fatímida, e as lutas internas, reduziram consideravelmente suas forças. Aliados quase constantes dos omíadas e pressionados pelas expedições de Bologuine, passaram ao Marrocos, onde se estenderam e se dispersaram. Ziri ibne Atia (r. 988/9–1001), à frente dos magrauas, manteve-se, em geral, fiel a Córdova. Ele e seus sucessores desempenharam papel de relevo na história de Marrocos no final do século X e durante parte do XI. A dinastia que surgiu em Fez, após a queda do Califado em Córdova, sob o emir Hamama (r. 1026/30–1039/40 ou 41/2) — um dos sucessores de Ziri e por algum tempo submetido aos hamádidas de Bugia —, terminou com a conquista da capital pelos almorávidas em 1070. Outro ramo dos magrauas, o dos cazerúnidas, estabeleceu-se em Segelmeça em 963, permanecendo à margem das lutas no norte de Marrocos contra os ifranitas. Aliados dos omíadas, estenderam sua influência ao longo do Mulucha, por quase todo o Marrocos exterior, e entraram em choque com os magrauas de Fez. No tempo que a cidade foi tomada pelos almorávidas, ainda reinavam ali.[25] Por fim, um último grupo magraua estabeleceu em Alhauz, ao sul do Tenerife, outro principado, centrado em Agmate. Situado ao pé das montanhas dos masmudas, parece ter vivido em relativa paz, resistindo até a derrota de seu emir Lacute ibne Iúçufe em 1058 perante os almorávidas.[26]
A dinastia hamúdida, descendente dos idríssidas, desempenhou papel fundamental nos últimos anos do Califado de Córdova e fundou para si um pequeno reino centrado na cidade de Málaga, no Alandalus. Dali, estenderam sua autoridade sob o Tânger e pelo pais dos gomaras. No tempo que reinava o emir Iúçufe ibne Taxufine (r. 1061–1074), os almorávidas enfrentaram Sucute Albarguati (r. 1061–1074), o antigo governador hamúdida de Tânger, que tornar-se-ia independente e fundaria seu próprio reino. Os masmudas e sanajas do deserto não desempenharam papel de relevo na fase pré-almorávida, permanecendo alheios aos conflitos do norte. O mesmo se pode dizer do Marrocos montanhoso, excetuando o núcleo de Segelmeça. Até os almorávidas e depois os almóadas, nos séculos XI e XII, não existiam dinastias masmudas e sanajas do deserto.[27]
Questão religiosa
As práticas mágico-religiosas, a crença em forças misteriosas e ocultas e a idolatria, estavam fortemente enraizadas entre os berberes. O Islã penetrou, lenta e progressivamente, em sucessivas etapas, mas sua consolidação foi desigual. As expedições muçulmanas em direção ao Norte da África, e em particular aquela que, por volta de 682, foi conduzida pelo fundador de Cairuão, Uqueba ibne Nafi, contra o Marrocos — alcançando Tânger e a região do Suz —, constituíram o primeiro contato do Islã com os berberes zenetas, masmudas e sanajas. Muça ibne Noçáir, após três anos de lutas, conseguiu atrair para a causa muçulmana tanto os berberes quanto as populações cristãs e judaicas do Marrocos. Em 711, já se podia contar com eles para formar o grosso do exército que, atravessando o estreito de Gibraltar, se lançaria à conquista da Península Ibérica.[28] A islamização difundiu-se e se aprofundou a partir daqui como consequência do carijismo.[29] No início do século VIII, o movimento carijita alcançou o Marrocos, onde encontrou ampla acolhida entre os berberes, cansados das exações, dos abusos e da tirania a que eram submetidos pelos governadores árabes. Na segunda metade desse século, parece que todo o Marrocos havia aderido à heresia carijita. O ano de 740 marca, com efeito, o auge do ódio berbere contra os governadores árabes, o que culminou na grande Revolta Berbere contra o califado. O carijismo concedia aos berberes — em sua versão marroquina — o direito ao autogoverno, sempre dentro do Islã, mas sem qualquer submissão política. O princípio segundo o qual o poder supremo podia e devia ser confiado ao homem de costumes mais puros, mais piedoso e mais sábio, sem distinção de raça, fazia com que toda a ideologia carijita parecesse particularmente adaptada à mentalidade e às instituições das populações berberes.[30]
As diversas seitas, algumas extremistas, como as dos azaricaítas e dos sufritas, e outras moderadas, como a dos ibaditas, contribuíram, apesar de seu caráter herético, para difundir e propagar o Islã. Os pequenos reinos que se formaram no século VIII foram todos heréticos e rivais, apesar de possuírem uma origem comum e o mesmo espírito religioso.[31] O Emirado Idríssida permitiu a entrada de ideias xiitas e mutazilitas que fizeram o carijismo recusar e abriram caminho à ortodoxia sunita e à suna. No século X, com a queda dos idríssidas em consequência das invasões fatímidas, introduziu-se no Marrocos de forma mais contundente as ideias xiitas, que colidiram com o carijismo declinante e os princípios da ortodoxia sunita sustentados pelo Califado de Córdova. O xiismo, introduzido pela força e apoiado pelos cotamas e sanajas do norte, conflitou com as ideias acolhidas pelos zenetas e masmudas, seja pelo fator étnico seja pelo fator religioso. No fim, certos fatores políticos, como a divisão dos sanajas em zíridas e hamádidas, e o subsequentemente rompimento dos laços com os fatímidas e o reconhecimento do Califado Abássida de Baguedade, permitiram o triunfo das ideias sunitas, sobretudo o maliquismo.[32]
À chegada dos almorávidas, quase todo o Marrocos era praticamente ortodoxo e sunita. Apesar disso, o paganismo berbere perdurou. As heresias mantiveram-se relevantes no seio de algumas comunidades berberes, nas quais a magia e a antropomancia permaneceram fortemente ligadas ao carijismo sufrita. Subsistiam focos de paganismo no Atlas, no norte do Marrocos, nas planícies atlânticas e no sul dos oásis saarianos. Enquanto movimento religioso ortodoxo, os almorávidas empreenderam a unificação do Islã no Magrebe Ocidental e a eliminação de suas manifestações mais heterodoxas, capitaneados por seu pregador, Abedalá ibne Iacine, o fundador do movimento.[33] Dentre aqueles que seriam combatidos estavam os berguatas, um grupo heterogêneo de tribos de origens distintas, ligadas por uma fé comum.[34] A fundação dessa seita religiosa é atribuída ao emir Iunus ibne Ilias (r. 842–884), que a proclamou publicamente. Sua aceitação foi parcial, com várias das tribos berguatas mantendo-se islâmicas, apesar dos esforços de Iunus, muitas das vezes violentos. A doutrina dos berguatas, tal como se deixa entrever em Albacri, aparece como uma deformação berbere do islã sunita, com algumas infiltrações xiitas e uma austeridade de costumes extremamente rigorosa. Esse forte rigorismo empregado nas observância dos jejuns, nas orações e nas punições aos transgressores permite sua vinculação ao carijismo.[35]
Outra seita conhecida foi a dos bagalitas, fundada e nomeada por Ali ibne Uacande Albagali, um emigrado da Ifríquia que instalou-se na região de Suz no tempo do Emirado Idríssida e recebeu apoio de Amade ibne Idris, bisneto do emir Idris II (r. 808–838), que aceitou ser o imame do movimento. A decisão de Ibne Uacande de abandonar a Ifríquia rumo ao Magrebe pautou-se em sua crença de que aqueles que tinham direito ao imamato eram os descendentes de Haçane ibne Ali, filho do califa Ali (r. 656–661), que à época governavam aquela região.[36] A doutrina bagalita tornar-se-ia exitosa entre os lamacitas, um das tribos sanajas, que habitavam a região de Suz. Originalmente, ela restringia-se à questão da sucessão do imamato, mas com o tempo adquiriu uma aspecto xiita muito mais afastada da fé sunita e uma tonalidade social muito próxima das crenças ismaelitas, que começaram a despontar no Magrebe e na Ifríquia a partir do final do século IX, quando o missionário Abu Abedalá Axii fez suas pregações.[37] Uma terceira e última seita surgiu em torno de Ha-Mim, que, por volta de 925, nos arredores de Tetuão, pregou suas crenças entre os maguilas, uma fração dos gomaras. A nova doutrina misturava elementos islâmicos com práticas locais e mágicas: parentes de Ha-Mim eram tidas como feiticeiras e invocadas pelos berberes em guerras e calamidades. No plano ritual, Ha-Mim aboliu purificações, abluções, a peregrinação a Meca e a maior parte das obrigações islâmicas. Reduziu as orações diárias a duas, modificou profundamente o jejum e estabeleceu multas em gado para infrações. Apesar de combatida, essa religião teve seguidores e sobreviveu após a morte de Ha-Mim (c. 928–931), desaparecendo apenas no século XI, por intermédio de Ibne Iacine.[38]
Movimento almorávida
Origens


Os sanajas alcançaram o Saara Ocidental durante a Antiguidade e conviveram durante longo período com os autóctones, que acabaram por ser dominados, permitindo a expansão sanaja até o Níger.[39] Algumas tribos, como os sartas, permaneceram na região dos oásis de Bani, onde estavam estabelecidas no século XI; os targas margeavam o rio Drá; os judalas nomadizavam com outras tribos entre o Drá e Segelmeça; os massufas dominavam a região situada entre Segelmeça e o Império do Gana dos soninquês, numa extensão equivalente a dois meses de marcha; os lantas percorriam a região do Suz e ocupavam, em meados do século XI, os oásis do Jabal Bani e o vale do rio Nune, onde, por essa época, devem ter fundado Nul Lanta, que se tornou um importante centro do comércio saariano; Os jazulas, divididos em numerosas frações, eram vizinhos dos lantas e percorriam igualmente a região compreendida entre o Suz e o Nune, bem como as zonas próximas ao deserto; e os lantunas que, situados mais perto do país dos negros, nomadizavam por uma vasta zona desde o sul do Drá até o Níger. Os lantunas tinham como riqueza seu gado e alimentavam-se de carne e leite. Não sabiam cultivar a terra, de modo que alguns só dispunham de farinha e podiam comer pão quando comerciantes de outras regiões lhes forneciam esse produto.[40]
Os primeiros berberes saarianos a converterem-se ao islamismo foram os lantunas, pois Ibne Caldune afirma que aceitaram a nova religião pouco após a conquista muçulmana da Península Ibérica, na segunda década do século VIII. Num relato um pouco diferente, mas que corrobora a alegação de Ibne Caldune, Azuri (século XII) mencionou que a conversão dos lantunas, massufas e judalas ocorreu no reinado do califa omíada Hixame (r. 724–743), junto com as populações do oásis de Uargla.[41] Contudo, essa conversão parece ter sido superficial e o enraizamento do islamismo entre os berberes do Saara foi tardio.[42][43] Nômades cameleiros, os sanajas percorriam as rotas do deserto, visando monopolizar o comércio caravaneiro. Por conseguinte, algumas tribos, sobretudo os lantas e os jazulas, entregavam-se com frequência ao saque ao longo da rota comercial que ligava Tamedulte a Audagoste. Acossados pelos reinos negros e necessitados de controlar de forma unificada o tráfego das caravanas entre o Oriente e o Sudão, os sanajas assumiram um caráter simultaneamente militar e econômico. As primeiras lutas, revestidas de certo zelo religioso (a jiade), tiveram como objetivo derrubar o poder dos reinos negros, especialmente o Império do Gana.[44]
Aparentemente, desde o começo os lantunas desfrutaram de certa proeminência sobre as demais tribos sanajas. Dois de seus chefes, Tilagaguine e Tilutane Alantuni (m. 836) destacaram-se e foram capazes de pressionar os reinos negros.[45] A cidade de Audagoste, um importante centro comercial ligado aos demais polos comerciais transaarianos, foi eventual tomada pelos sanajas, e tornar-se-ia capital de um reino independente. Segundo Almoalabi, que escreveu por volta do final do século X, Audagoste era um imenso país, situado a 40 dias de caminhada de Segelmeça, através de areias de desertos; Albacri acrescenta que o reino se estendia por uma área equivalente a dois meses de caminhada. Sabe-se que mais de vinte reis negros reconheciam a soberania do rei de Audagoste. Contudo, nos primeiros anos do século X, o neto de Tilutane, Tamime ibne Alatir (m. 918/9) foi vítima de uma revolta que lhe custou a vida.[46] Sua morte reacendeu as querelas tribais, desfazendo a unidade dos sanajas. Isso resultou no colapso da confederação, permitindo aos reinos negros tomarem a dianteira no conflito e reconquistarem sua proeminência.[47]
A crescente ameaça dos reinos negros obrigou os lantunas e judalas a refazerem sua antiga aliança e associaram-se aos massufas. Entre 1010 e 1020, o emir Tarsina, que havia realizado a peregrinação a Meca (haje), assumiu a direção dos sanajas saariano e empreendeu a guerra santa contra os negros. Após obter alguns êxitos, morreu em combate, provavelmente na região do Tagante. Audagoste, que durante pouco mais de um século estivera sob domínio dos berberes, passou pouco depois para as mãos dos negros.[48] A submissão desse reino berbere — aparentemente muçulmano — ao rei pagão do Gana foi o pretexto para que a capital fosse mais tarde atacada e conquistada pelos almorávidas.[49] Essas circunstâncias críticas fizeram com que o comando fosse dado a um chefe dos judalas, aparentado aos lantunas por casamento, chamado Iáia ibne Ibraim.[48] Sua peregrinação ocorreu por volta de 1035/6. No retorno, deteve-se na Ifríquia, onde pretendia concluir sua formação religiosa junto aos grandes mestres da época. Permaneceu algum tempo em Cairuão, onde assistiu às lições do doutor maliquita Abu Inrane Alfaci, cujo ensino atraiu um grande número de discípulos ifriquianos, sicilianos, marroquinos e andalusinos. Ciente de sua ignorância religiosa e a superficialidade do islamismo praticado pelos sanajas, Iáia pediu a Abu Inrane que permitisse a um de seus discípulos, o acompanhasse através do deserto. Como nenhum deles aceitou a tarefa, Abu Inrane sugeriu que Iáia se encontrasse com seu discípulo Uagague ibne Zalu, que residia em Malus, um território dependente dos magrauas de Segelmeça, e havia fundado em sua terra natal a chamada Casa dos Marabutos (Dār al-Murābiṭīn), em Aglu, destinada a colher estudantes. Iáia encontrou-se com Uagague portando uma carta de recomendação de seu antigo mestre. Uagague, então, escolheu seu discípulo Abedalá ibne Iacine para a tarefa.[50][51]
Religião
Segundo Azuri, os chefes da cidade comercial de Tademeca, os berberes tanmaquitas, foram islamizados sete anos após a população de Gana ter sido forçada pelos novos convertidos ganenses. É provável que, neste caso, a conversão tenha consistido na imposição do maliquismo almorávida a um povo que já professava a fé carijita, haja vista a circulação e permanência de comerciantes advindos das regiões convertidas ao ibadismo no Magrebe.[42] A influência ibadita no Saara Meridional e Sudão Ocidental desapareceriam após a chegada dos almorávidas.[52]
A suposta conquista do Império do Gana em 1076 pelos almorávidas é muito citada como um ponto importante à islamização do Saara, mas estudos recentes apontam que o papel desempenhado pela conquista foi de pouca importância, salvo no Sudão Oriental, onde uma importante colonização árabe teve papel decisivo para a propagação da religião, mas tardiamente.[53] Alguns historiadores modernos sustentam que é mais verossímil pensar que soninquês do Gana tenham mantido boas relações com os almorávidas do deserto, que eles tenham se tornado aliados e que tenha sido por meios pacíficos que estes últimos os persuadiram a adotarem o islã sunita como religião do Império do Gana. Segundo diversas fontes árabes, notadamente Albacri, a capital ganense contava, durante o período pré‑almorávida, com uma importante comunidade muçulmana, compreendendo não somente mercadores, mas cortesãos e ministros. É provável que o islã tenha surgido em Gana sob a forma carijita e a conversão dos ganenses pelos lantunas em 1075/6, como evocado pelo Azuri, pode ter sido uma imposição do maliquismo aos ibaditas locais, como ocorrido em Audagoste.[54]
Abandonou-se igualmente a ideia de atribuir à conquista almorávida, supostamente acompanhada de uma islamização forçada, o êxodo maciço das populações soninquês hostis ao Islã, que teriam preferido abandonar seus lares ancestrais a renunciar às suas crenças religiosas tradicionais. Sabe-se que houve movimentos migratórios, mas cujas causas não tem relação imediata com a presença almorávida e/ou uma conversão forçada. Mercadores soninquês já islamizados — os uancaras ou uangaras, de origem árabe — constituíram progressivamente uma vasta rede comercial no Sael e ao sul deste, estendendo-se até a orla da floresta tropical. Sem dúvida, após a intervenção almorávida, essas atividades islâmicas ao sul do Saara tornaram-se mais intensas, frutificando numa longo processo de conversão das populações do Sudão ao passar do tempo. Também já foi atribuído por vezes a islamização do maí (rei) Humé (r. 1075–1086) do Império de Canem, supostamente o primeiro governante daquele império a tornar-se muçulmano, à influência almorávida, mas essa hipótese parece pouco plausível.[55]
Arte e urbanismo
Fez, a antiga capital do Emirado Idríssida e uma das principais cidades do Magrebe Ocidental, originalmente dividia-se em duas metades, estabelecidas em momentos distintos: a primeira, fundada em 789 por Idris I (r. 789–791) na margem direita do rio Fez, e povoada por berberes; e a segunda, fundada em 809 por Idris II (r. 792–828), na marque esquerda. Ambas as porções eram separadas por muralhas próprias e foi no tempo do Império Almorávida que elas foram unificadas por uma muralha única.[56]
Economia
No Oeste muçulmano, sobretudo em razão do difícil acesso a minas de ouro, o Magrebe e o Alandalus permaneceram por longo período ligados ao dirrã de prata. No entanto, no século X, quando iniciam as importações de ouro provenientes do Sudão Ocidental, e sob o Império Almorávida, o dinar tornar-se-ia uma moeda internacionalmente reconhecida. A crescente emissão de moedas de ouro e prata nesse período teve repercussões na vida econômica regional, com o crescente consumo de bens estimulando a produção, mas causando um aumento significativo dos preços.[57][58]
Sociedade
Mesmo após a absorção dos berberes no califado árabe a partir do século VI, em vários locais as cabilas do Orés, Grande Cabília, vale do rio Nilo e cordilheira do Atlas foram capazes de preservar sua língua e costumes. Entre esses traços distintivos destacam-se a existência de um direito consuetudinário e de uma organização judiciária não corânica, características fundamentais do direito berbere. Este se manifestava, por exemplo, no testemunho coletivo como meio de prova, em regulamentos e tarifas de penalidades conhecidos sob a designação de ikānūn (kānūn), bem como na administração da justiça por juízes árbitros ou por assembleias locais. Tais práticas não entravam em conflito direto com o direito corânico, mas é possível, contudo, que tenham constituído um fator de resistência diante do avanço do sunismo maliquita uniformizador no tempo do Império Almorávida. Seja como for, o eco dessas particularidades pode ser percebido na própria organização do mundo almorávida, onde, ao preço dessa relativa liberdade, os berberes do norte aceitaram sua integração e ofereceram sua participação militar, ainda que esta fosse, por vezes, objeto de negociação entre príncipes rivais, sobretudo nos séculos X e XI.[59]
Referências
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