Nefezauas
Os nefezauas (em francês: Nefzaoua) são um grande tribo berbere pertencente ao grupo dos leuatas, que povoou a região histórica de Nefezaua, situada na atual Tunísia.
História
Dreses afirmou que Daris era filho de Laui ibne Nafezau, sendo Nafezau o epônimo de todos os nafezauas. Os nefezauas compreendem, segundo Ibne Caldune, um grande número de ramos, como os ulaçaítas, gassassas, zeilacitas, sumatas, urcifitas, merniçaítas, zátimas, urculitas, uerdegrucitas, urdinitas etc., que descendiam de Ituafete, filho de Nafezau. Ibne Idari afirmou que os nafezauas seriam uma fração dos leuatas, sendo Nafezau filho de Lua Açaguir, e qualificou Tárique ibne Ziade como leuata, nefezaua e ulaçaíta por ocasião de sua estadia em Tremecém.[1] Nefezau era o ancestral de um dos ramos berberes do grupo dos botritas, vindos do leste, o que justificou as explicações segundo as quais os nefezauas originalmente habitaram o Egito antes de migrarem rumo a Nefezaua, na Tunísia. Contudo, como demonstrou recentemente Yves Modéran, o mito da origem oriental dos leuatas e de outros botritas teria sua fonte num texto do próprio Ibne Caldune, ligado a uma lenda sobre a origem dos povos, a ser situada nos tempos bíblicos, a leste do Nilo: "Os berberes são os filhos de Canaã, filho de Cam, filho de Noé; seu antepassado chamava-se Mazigue (...)".[2]
Albacri os mencionou em Audagoste, onde constituíam o grupo mais numeroso entre os berberes. Ibne Caldune falou de suas aldeias, na província de Castília (região de Jeride), situadas a pouca distância umas das outras. Ele afirmou que havia francos vivendo nessas aldeias sob a proteção de um tratado ainda em vigor desde a conquista muçulmana até a época em que viveu o autor (século XIV).[1] Ibne Abde Aláqueme informou que, na guerra que opôs Handala ibne Safuane Alcalbi, governador do Egito, a Ucaxa ibne aiube Alfazari, aliado de Abde Aluaide ibne Iázide Alauari Almadami, um sufrita comandava a região de Tremecém (124 H./741–742). Acantonado em Cairuão, Handala conseguiu derrotar separadamente seus inimigos. Em seguida, escreveu a Moáuia ibne Safuane, seu governador de Trípoli, pedindo-lhe que reprimisse uma revolta dos berberes nafezauas. Moáuia foi morto, mas os nafezauas foram derrotados.[3]
Segundo Ibne Caldune, no ano 140 H./757–758, os nefezauas participaram, ao lado dos uferjumas, da revolta que opôs o governador de Cairuão, Abderramão ibne Habibe — que havia repudiado a autoridade do califa Almançor (r. 754–775) — a seus irmãos Alias e Abde Aluarete, que o assassinaram. O filho do governador, Habibe, matou Alias, mas Abde Aluarete conseguiu refugiar-se nos Orés entre os uferjumas, onde obteve o apoio de seu emir Ácime ibne Jamil, que proclamou a autoridade do califa Almançor. Marchou então sobre Cairuão, levando consigo os nefezauas. Essa tribo contava com guerreiros celebrados como Abedal Maleque ibne Abi Aljade e Iázide ibne Segume. Tornando-se senhores de Cairuão em 140 H./757–758, os nafezauas, que professavam a doutrina ibadita, massacraram todos os coraixitas e os árabes que permaneceram na cidade. Diz Ibne Caldune que foram tamanhas as profanações cometidas que suscitaram a indignação dos berberes ibaditas de Trípoli, que foram ocupar Cairuão e massacraram os nefezauas e uferjumas. Mais tarde (161 H./777–778), os nefezauas se revoltaram contra Daúde ibne Iázide, e professaram abertamente a doutrina ibadita. Tinham então como chefe Sale ibne Noçáir. Travaram batalha em Sica Venéria (El Quefe) e foram praticamente exterminados.[4]
O Kitāb al-Istibṣār descreve o território dos nefezauas como uma região que faz parte do Jeride. Esse cantão era muito povoado e nele se encontravam cidades, alcáceres e numerosos campos cultivados. O Kitāb al-Istibṣār cita as aglomerações de Torra, Bixera e Aite Inlil, que são cidades muradas com palmeiras, oliveiras e árvores frutíferas de toda espécie. O Kitāb al-Istibṣār assinala, nas proximidades de Nefezaua, uma cidade antiga em ruínas chamada Almadina. Albacri e o Kitāb al-Istibṣār indicam que, da cidade de Nefezaua a Castília, era preciso contar uma jornada de marcha através de pântanos salinos (sebkhas), balizados por vigas além das quais os viajantes desapareciam sem deixar vestígios. As lutas empreendidas pelos nefezauas durante toda a Idade Média contra os diversos poderes provocaram um declínio de sua demografia. Eles se dividiam em vários ramos, a saber: os gassassas (litoral argelo-marroquino), os mernissas (nos Traras), os sumatas, os ulaçaítas (em torno da foz do Tafna), os uardagrucitas, os urdineítas, os uarculitas, os uarcifitas, os zailaítas, os zátimas, os maclataítas, os majaritas. Suas aldeias no sul da Tunísia e na Tripolitânia, em razão do enfraquecimento dessa tribo, foram ocupadas pelos soleimitas, todos pertencentes à família de Cheride, e os zuguebas do grupo dos hilálios. Ibne Caldune afirma que esses árabes possuíam as terras aráveis e as fazendas dessas regiões. Essas aldeias obedeciam ao senhor de Tozeur sob a autoridade hafécida no século XIV, mas, tão logo essa autoridade se enfraquecia, retomavam sua independência.[5]
Referências
- ↑ a b Khelifa 2012, p. 5389.
- ↑ Trousset 2012, p. 5383.
- ↑ Khelifa 2012, p. 5389-5390.
- ↑ Khelifa 2012, p. 5390.
- ↑ Khelifa 2012, p. 5391-5392.
Bibliografia
- Khelifa, Abderrahmane (2012). «Nefzaoua (Nafzawa) : Moyen-âge». In: Chaker, Salem. Encyclopédie berbère. 33 | N - Nektiberes. Aix-en-Provence: Edisud. pp. 5389–5392. ISBN 978-90-429-2640-0. doi:10.4000/encyclopedieberbere.2703
- Trousset, Pol (2012). «Nefzaoua : Antiquité». In: Chaker, Salem. Encyclopédie berbère. 33 | N - Nektiberes. Aix-en-Provence: Edisud. pp. 5382–5389. ISBN 978-90-429-2640-0. doi:10.4000/encyclopedieberbere.2703