Nefezaua
Nefezaua (em francês: Nefzaoua) é uma região histórica da Tunísia.
Localização
Nefezaua situa-se entre o Xote de Jeride a oeste, o Xote de Fejaje ao norte, o planalto do Daar a leste e as dunas do Grande Érgio Oriental ao sul. É atravessado de leste a oeste pelo arco montanhoso do Jebel Tebaga, até a estreita península formada pelos dois xotes, onde se encontra o Blede Faraune. Esse enclausuramento entre as grandes sebkhas, as montanhas pré-saarianas e as areias do deserto pode explicar por que esse país e seus povos viveram durante muito tempo à margem das outras regiões do Norte da África. Esse isolamento também foi favorecido pela dispersão dos oásis, muito menos concentrados do que no vizinho Blede Jeride. Hoje existem mais de 200 nascentes e mais de 30 aglomerações, quase todas de dimensão modesta, em Nefezaua.[1]
Sua população divide-se historicamente entre aqueles que praticam atividades agrícolas sedentárias, confinadas às oásis, e aqueles que realizam deslocamentos sazonais nômades ou seminômades, cujo raio de ação ultrapassava amplamente o quadro geográfico do Nefezaua estrito senso. Nos grupos tribais atuais da região (gueribitas, Ulede Sidi Abide, Ulede Bu Iáia, Ulede Iacube, sabrias, adaras e maraziguitas — um padrão de mobilidade que se pode supor perpetuar eixos de transumância remontando à Antiguidade. Os maraziguitas da região de Duze, por exemplo, apresentavam área de transumância muito extensa, sobretudo ao longo do reverso montanhoso do Daar e principalmente no grande Sul, até os arredores de Gadamés. Em contrapartida, uma continuidade mais marcada parece visível mais ao norte, nas oásis da península do Nefezaua, em particular em torno de Telmine — o país dos nibegênios da Antiguidade — cuja população é mais sedentária, mas onde grupos de seminômades parecem ter frequentado, desde os tempos mais antigos, áreas de transumância ou de cultivo situadas ao norte do Xote de Fejaje, nas planícies e montanhas do Charebe e no Blede Segui, onde viviam em simbiose ou em concorrência com outros povos e cidades getulos dessa parte da Alta Estepe.[2]
História
Nefezaua recebeu seu nome dos nefezauas, uma população berbere do grupo dos leuatas. Apesar de seu aspecto isolado, o que a tornou um refúgio para seu habitantes, também era espaço de circulação, como evidencia a rede de vias romanas estabelecida mais tarde no que se tornaria a zona fronteiriça do Império Romano. Um eixo viário essencial é aquele que, partindo de Gabés (Tacape), após contornar o Xote de Fejaje e o Jebel Tebaga, alcança o centro de Telmine (Cividade dos Nibegênios ou Túrris Tamâlenos). Outra via, partindo de Gafsa (Capsa), atravessava o Xote de Fejaje em direção a Túrris Tamâlenos.[3] Um percurso provavelmente ainda mais sazonal atravessava o Xote de Jeride em direção aos oásis da península do Nefezaua, a partir de Udiane, como indica a inscrição do rochedo de Sebá Argude e sua dedicação a Mercúrio. Esse trajeto continuou a ser utilizado, apesar de seus perigos, durante a época árabe, segundo os testemunhos de Albacri e Tijani, e foi frequentado por peregrinos que iam do Marrocos a Meca até o século XIX. Outro itinerário contornava o Xote de Jeride pelo sul, entre Nefta e a região de Duze, sendo provavelmente usado quando os outros caminhos não eram praticáveis. Desse aspecto, derivou a reputação de passadores dos arzuges, um dos povos da região que, na Antiguidade Tardia, dariam seu nome ao conjunto do Blede Jeride e do Nefezaua (Arzugis).[4]
Pelos vales dos uádis Halufe e Bel Rechebe, ou de seus afluentes que descem do Jebel Demer, itinerários pontuados por pontos de água frequentados desde a Antiguidade conduziam a passagens que desembocavam, através da montanha, na planície de Jefara. Dispositivos de controle romanos — muros e fossos, postos avançados e torres de vigia — haviam sido implantados nas imediações do acampamento de Talalatos (Tlalete). Mais ao sul ainda, ao avançar por Alcácer Guilane para as primeiras dunas do Grande Érgio, trilhas mais longínquas conduziam a Remada (Tilíbaros), Gadamés (Cídamo) e ao Fezã. Entre os locais de passagem mais significativos em todas as épocas — do período romano à Segunda Guerra Mundial — destaca-se, por permitir contornar pelo interior a planície costeira do istmo de Gabés, o limiar estratégico situado nos confins do Nefezaua, entre o Jebel Tebaga e a extremidade do maciço dos matematas (o Jebel Melabe). Na época romana, possuía uma muralha duplicada por um fosso com 17 quilômetros de extensão e um posto de controle. Durante a Segunda Guerra Mundial, as forças aliadas — entre elas a Coluna Leclerc, vinda de Alcácer Guilane — conseguiram forçar essa passagem, evitando assim o confronto direto com as defesas da Linha Mareth.[5]
Império Romano
Nas regiões setentrionais do Nefezaua, na interface entre o pré-deserto e a estepe, existem as melhores evidências das etapas da penetração romana antes da implantação, mais ao sul, das instalações militares da Fronteira da Tripolitânia. O acontecimento decisivo foi a revolta de tacfarinas entre 14 e 27, na qual os povos do Nefezaua podem ter estado envolvidos, assim como o foram os cinítios numa região vizinha ao longo do golfo de Gabés. Para prevenir o retorno de tais perturbações, tornou-se necessário para o comando militar romano assumir, por etapas, o controle do glacis pré-saariano, onde haviam se formado, ao longo dos eixos de deslocamento dos nômades e seminômades, vastas coalizões tribais capazes de reunir os garamantes do grande Sul e os musulâmios da estepe ao noroeste.[2]
No reinado de Tibério (r. 14–37), o prelúdio da penetração romana nesse glacis foi a operação de agrimensura lançada a partir do acampamento da III Legião Augusta em Amedara, sob o procônsul da África Caio Víbio Marso, em 29–30, cujos marcos foram descobertos em ambas as margens do Xote de Fejaje, assim como no Blede Segui. Essa centuriação serviu de base às delimitações efetuadas entre os territórios de tribos e de cidades no período seguinte, particularmente sob o reinado de Trajano (r. 98–117). Assim, o nome dos nibegênios figura em marcos que assinalam o limite entre esse povo e a cidade de Tacape, bem como em marcos miliários datados do mesmo reinado, em 105, ao sul do Jebel Asquer, na estrada entre Capsa e a Cividade dos Nibegênios. Supõe-se que os nibegênios tiveram de ceder parte de seu território às duas cidades já romanizadas. Em todo caso, os deslocamentos das tribos da região passaram a ser submetidos a um controle rigoroso, como o demonstram as poderosas muralhas — entre elas a de Bir Ume Ali — erguidas em época ainda desconhecida, mas provavelmente mais tardia, talvez no século III, nos contrafortes do Charebe, que correspondem ao limite entre os territórios de Capsa e dos nibegênios. O mesmo se aplica à muralha do Tebaga, erguida à entrada do Arade, onde se encontra Tacape.[6]
Cividade dos Nibegênios obteve o estatuto de município já no reinado de Adriano (r. 117–138), em 128. Situado num notável entroncamento de pistas do Nefezaua, no grupo de oásis de Telmine e Almançora, esse centro urbano tornar-se-ia posteriormente um dos pontos fortes da Fronteira da Tripolitânia, mencionado pelo Itinerário Antonino sob o nome de Túrris Tamâlenos (atual Telmine). As evidências arqueológicas sugerem que o comando militar romano instalaria nesse local um posto que poderia ter sido mais tarde a sede do prepósito da fronteira Tamalense (praepositus limitis Tamallensis), à frente desse setor da fronteira, segundo a Notícia das Dignidades. Outro posto militar romano de importância situava-se mais a leste, nas imediações de Bir Rezene, próximo ao poço de Moamede ben Aissa, numa pista que ligava Nefezaua a Tamesrete, perto de Matemata. Trata-se do acampamento de Bezereos, datado do reinado de Cômodo, mencionado tanto pelo Itinerário Antonino na estrada fronteiriça da Fronteira da Tripolitânia quanto, no século V, pela Notícia das Dignidades, onde a Fronteira Bizerentana (limes Bizerentanus) constitui um subsetor da fronteira da Tripolitânia entre a Fronteira Tamalense (limes Tamallensis) e a Fronteira Talatalense (limes Talalatensis), perto de Tatauine. Dois postos avançados completavam esse dispositivo, permitindo controlar as bordas saariana do Nefezaua: o centenário de Tibúbucos (Alcácer Tarcine), situado no uádi Halufe, que conduz ao Daar, e, mais ao sul ainda, o castelo de Tisavar (Alcácer Guilane), apoiado nas primeiras dunas do Grande Érgio e localizado a meia distância entre o Nefezaua e o acampamento de Remada.[7]
Império Romano Tardio
No Império Romano Tardio, registra-se um bispado no território de Nefezaua, em Turretamaliense ou Turretamalumense, que correspondente a Telmine. Os nomes de três bispos ali são conhecidos por terem participado dos concílios de Cartago: de 348, Gaudêncio; e de 411, o católico Sabrácio, e seu rival donatista Jurata. Sob o nome de Arzugis, que então designava o Nefezaua juntamente com os bispados vizinhos situados na outra margem do Jeride, constituía uma subdivisão da província eclesiástica de Bizacena. Esse nome, que designava, entre autores antigos como Orósio, um vasto conjunto territorial mal definido entre a Tripolitânia e a Bizacena, derivou dos arzuges, cujo território fora delimitado sob Trajano, como indica o nome arzoseus (Arzosei) gravado numa estela descoberta nas proximidades de Bir Soltane. Seu território de vinculação devia situar-se nos arredores de Duze, na parte meridional do Nefezaua. Diferentemente dos nibegênios, cuja sedentarização foi rápida após a delimitação de seu território, os arzuges podem ter conservado simultaneamente sua estrutura tribal e sua mobilidade tradicionais. Além disso, sua posição nas margens da zona fronteiriça colocava-os em contato com populações não cristãs que permaneceram exteriores ao Império Romano.[8]
Referências
- ↑ Trousset 2012, p. 5382.
- ↑ a b Trousset 2012, p. 5385.
- ↑ Trousset 2012, p. 5383.
- ↑ Trousset 2012, p. 5383-5384.
- ↑ Trousset 2012, p. 5384.
- ↑ Trousset 2012, p. 5386.
- ↑ Trousset 2012, p. 5387-5388.
- ↑ Trousset 2012, p. 5388-5389.
Bibliografia
- Trousset, Pol (2012). «Nefzaoua : Antiquité». In: Chaker, Salem. Encyclopédie berbère. 33 | N - Nektiberes. Aix-en-Provence: Edisud. pp. 5382–5389. ISBN 978-90-429-2640-0. doi:10.4000/encyclopedieberbere.2703