Necor
Necor
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| Localização atual | |
![]() Necor |
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| Coordenadas | 🌍 |
| País | Marrocos |
| Província | Alucemas |
| Comuna | Beni Buaiache |
Necor (em árabe: نقور; romaniz.: Nakūr) é uma cidade história da região do Rife, em Marrocos. Situada cerca de 140 quilômetros a oeste de Melilha, em uma planície entre os rios Necor e Gais/Guis, ficava a aproximadamente 10 quilômetros do Mediterrâneo e próxima de pequenos portos como Almazima, atual Alucemas, local de intensa atividade marítima. Cercada por muralhas de tijolos, possuía uma grande mesquita sustentada por pilares de tuia, mercados ativos e amplos pomares, além de manter laços comerciais importantes com o Alandalus, sobretudo com Málaga, e cunhar por algum tempo dirrãs (cunhagem em prata). Fundada em 761 pelo emir Saíde ibne Idris, neto do fundador do Emirado de Necor, foi sucessivamente atacada e reconstruída ao longo de sua história. Em 858 foi saqueada, e em 917 foi tomada por Massala ibne Habus, agente do Califado Fatímida, que capturou e matou o emir no combate, levando parte da família real como cativa para o norte da África.
Após breve ocupação fatímida, Necor foi libertada pelos filhos do emir refugiados no Alandalus, e recuperou momentaneamente autonomia, ainda que sob influência dos omíadas de Córdova. Na década de 920, voltou a cair sob ataques e foi arrasada, para depois ser novamente restaurada pelos saleídas, mas novos conflitos se sucederam, com sucessivas tomadas e destruições da cidade por agentes fatímidas. Entre o século X e início do XI, Necor perdeu importância regional, embora ainda fosse mencionada como cidade portuária funcional por viajantes como Ibne Haucal. Após passar por influência idríssida e zírida, a cidade entrou em declínio definitivo, e em 1084 o emir almorávida Iúçufe ibne Taxufine destruiu-a por completo. Desde então, Necor se tornou uma antiga localidade arruinada citada apenas em relatos geográficos e memoriais sobre a história do Rife.
História
Necor localiza-se no norte do atual Marrocos, na região de Rife, a 140 quilômetros por estrada a oeste de Melilha, numa planície que se estende os pequenos rios costeiros Necor e Gais/Guis, que se unem num lugar chamado Aguedal e depois se separam antes de desembocar no Mediterrâneo. Sabe-se que uma arrábita havia sido construída nesse sítio. A cidade ficava a cerca de 10 quilômetros da costa mediterrânea, entre enseadas que abrigavam diversos pequenos portos. O mais conhecido, Almazima, ficava na parte interna de uma baía protegida por várias ilhas; os espanhóis deram-lhe o nome de Alucemas, os franceses, o de Albuzeme ou Albuzemes, e os marroquinos modernos, o de Aluçaima. Esta localidade se tornou um balneário popular, depois de ter sido devastada três vezes no passado, como observado por Leão Africano. Necor era cercada por uma muralha de tijolo grosseiro e possuía uma grande mesquita, cujo teto era sustentado por pilares de tuia (árvore abundante na região, assim como o cedro), mercados prósperos, hortas e pomares de peras e romãs. Sabe-se que alguns dirrãs foram cunhados ali entre 902–1007 e a cidade mantinha relações comerciais estreitas com o Alandalus, em particular com Málaga, que era o porto mais próximo. Do ponto de vista cultural, o berbere certamente era a língua do povo, mas o árabe não era desconhecido, e supõe-se que poetas frequentassem a corte.[1]
A cidade foi fundada em 761 pelo emir Saíde ibne Idris, neto de Sale ibne Mançor Alimiari, o fundador do Emirado Saleída. Em 858, a cidade foi saqueada e as mulheres da família reinante foram aprisionadas. Elas seriam eventualmente resgatadas sob influência do emir de Córdova Maomé I (r. 852–886).[2] Mediante a tradição de certo Hamade ibne Aiaxe, parente do emir Saíde, Necor foi tomada em 26 de junho de 917 por Massala ibne Habus, um vassalo do Califado Fatímida; a cidade foi saqueada, mulheres e crianças capturadas e a cabeça de Saíde, que morrera combatendo, foi enviada a Cairuão com as de muitos de seus parentes e os fatímidas fixaram-nas em lanças e as exibiram nas muralhas de Racada.[2] Massala deixou em Necor como governador um certo Dalul, apoiado por uma pequena guarnição de tropas fatímidas, que acabarão por abandonar seu comandante. Foi então que os três filhos de Saíde — Idris, Almotácime e Sale — que tinham encontrado refúgio no Alandalus, separadamente se lançaram ao mar para retornar a Necor. O primeiro a chegar, Sale, desembarcou perto de Tansamane e foi recebido com entusiasmo pelos berberes da região, que lhe deram o título de Aliatim (al-Yatīm) e marcharam com ele contra Necor; capturaram Dalul e seus partidários e os enforcaram. O emir de Córdova Abderramão III (r. 912–961), informado desse sucesso, felicitou Sale e promulgou por toda a Alandalus a notícia da recuperação do principado e de sua capital, que de fato parecem desde então ter sido colocados sob a soberania dos omíadas.[1]
Em 920/1, Massala retomou Necor, mas e manteve por pouco tempo. Sale morreu e foi sucedido por seu neto, Almoaide ibne Abede Albadi, que foi atacado em 928 por um vassalo dos fatímidas, o tenente e sucessor de Massala, Muça ibne Abi Alafia (m. 938). De sua base em Guercife, Muça marchou contra Necor, que foi arrasada no ano seguinte. Outro saleída, Abu Aiube Ismail, retomou o poder e reconstruiu a cidade. Alguns anos depois, o califa fatímida Alcaim (r. 934–946) confiou a um escravo eslavo chamado Sandal a tarefa de recapturar Necor; após uma troca de cartas e emissários — alguns dos quais foram executados pelo emir Abu Aiube Ismail — o oficial fatímida chegou para sitiar a capital em setembro de 935 e capturou-a depois de oito dias de combates. Ismail e quase todos os seus partidários perderam a vida, e as mulheres e crianças foram levadas cativas. Mais uma vez, os habitantes da cidade, que haviam sido expulsos, conseguiram retornar, executaram o governador nomeado por Sandal e enviaram sua cabeça a Abderramão III (324/936). Após a deserção de Muça ibne Abi Alafia, que passou para o lado omíada em 320/932, a perda de Necor foi ressentida pelos fatímidas. Os habitantes escolheram como líder um membro da família reinante, Muça ibne Rumi, mas ele foi expulso por um de seus parentes, Abede Assami, e partiu para o exílio em Pechina com seus partidários.[3]
Em 948/9, outro saleída foi chamado ao poder, Jurtume ibne Amade, que reinou setembro-outubro 971. Foi durante seu reinado ou o de seu predecessor que Ibne Haucal visitou a região; ele afirma que Necor havia perdido parte de sua importância, mas mantinha dimensões razoáveis, e menciona seu porto, Almazima. Dois séculos depois, Dreses localiza, a 20 milhas da cidade de Badis, o porto de Du Ducur, "uma antiga cidade, hoje (548/1154) em ruínas, chamada Necor nos livros de história". Após 360/971, as informações sobre a cidade tornam-se bastante obscuras. Parece que o último emir idríssida, Alhaçane ibne Alcácime Canune (r. 954/5–974), estabeleceu-se em Necor antes de ceder ao Califado de Córdova em 362/973. A cidade deve posteriormente ter caído nas mãos do Reino Zírida, já que historiadores relatam que, em 388/998, o hájibe Almançor (m. 1002), durante sua campanha contra Ziri ibne Atia (r. 988/9–1001), enviou seu general, o eslavo Uádi, ao Marrocos, e este ocupou várias cidades, incluindo Necor. Os descendentes deste ainda residiam lá quando Albacri escreveu sua Descrição (460/1068). Em 1084, o emir almorávida Iúçufe ibne Taxufine (r. 1061–1106) capturou e destruiu definitivamente Necor.[3]
Referências
- ↑ a b Pellat 1993, p. 941-942.
- ↑ a b Pellat 1993, p. 941.
- ↑ a b Pellat 1993, p. 942.
Bibliografia
- Pellat, Ch. (1993). «Naqūr». In: Bosworth, C. E.; van Donzel, E.; Heinrichs, W. P.; Pellat, Ch. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. Volume VII: Mif–Naz. Leida: E. J. Brill. ISBN 978-90-04-09419-2
