Emirado de Necor

Emirado de Necor
709 — 1019/20 

Emirado de Necor e vizinhos nos séculos VIII e IX
Continente África
Capital
  • Tansamane (709–761)
  • Necor (761–970)

Religião Islamismo
Moeda Dirrã
Dinar

Forma de governo Monarquia
Emir
• 709-749  Sale ibne Mançor Alimiari
• 947–971  Jurtume ibne Amade

História  
• 709  Fundação
• 761  Fundação de Necor
• 1019/20  Dissolução

O Emirado de Necor[1] (em árabe: إمارة نكور; romaniz.: Imārat Nakūr) ou Emirado Saleída (إمارة بني صالح, ʾImārat Banī Ṣāliḥ) foi um estado islâmico que existiu no norte de Marrocos, na baía de Alucemas, entre 709 e 1019/20, sendo o primeiro principado muçulmano no noroeste da África. Fundado por Sale ibne Mançor Alimiari, associado às primeiras campanhas árabes no Magrebe, o emirado converteu as tribos locais gomaras e sanajas ao islamismo e estabeleceu sua capital em Tansamane antes de se fixar em Necor, fundada por seu neto Saíde ibne Idris em 761. Apesar de períodos de estabilidade, o principado foi marcado por revoltas internas, conflitos dinásticos e incursões estrangeiras, como o saque de 858 e rebeliões envolvendo escravos da guarda real. As tensões aumentaram com a ascensão do Califado Fatímida, cujo avanço no Norte da África culminou na invasão de 917, quando Necor foi tomada, saqueada e seu emir morto, levando os remanescentes da família reinante ao exílio no Alandalus.

O emirado foi restaurado em diversas ocasiões ao longo do século X. Os filhos de Saíde retornaram da Península Ibérica e reconquistaram Necor com o apoio local, submetendo-se de fato à influência omíada de Córdova. Contudo, a instabilidade persistiu: o território enfrentou novas ofensivas fatímidas, destruições sucessivas da capital e curtos períodos de domínio alternado. Figuras como Almoaide ibne Abede Albadi, Abu Aiube Ismail, Jurtume ibne Amade e outros membros da dinastia saleída tentaram manter o poder apesar de conflitos internos, deserções e disputas externas entre omíadas, fatímidas e governantes berberes. Embora recuperado várias vezes, o Estado perdeu força e território e, após 1019–20, os últimos governantes foram expulsos para Málaga e seu porto Almazima (atual Alucemas), até que o principado desapareceu como entidade política autônoma, encerrando a história dos saleídas como dinastia soberana no Rife medieval.

História

O emirado foi fundado por volta de 709 por Sale ibne Mançor Alimiari, um dos companheiros de Uqueba ibne Nafi (m. 683), o general árabe responsável pela conquista muçulmana do Magrebe. Segundo a tradição, Sale era ancestral epônimo dos saleídas, e estabeleceu sua primeira capital em Tansamane, na costa, onde converteu as populações gomaras e sanajas ao islamismo. Foi brevemente expulso, no califado de Alualide I (r. 705–715), quando certo Daúde Arrundi tomou o poder. Sale foi eventualmente reinstalado e governou até falecer, quando foi sucedido por seu filho Almotácime. O futuro emir de Córdova Abderramão I (r. 756–788) permaneceu algum tempo no principado antes de velejar para o Alandalus em 755. Em 761, Saíde ibne Idris, neto de Sale, fundou Necor para servir como capital. Apesar da instabilidade de seu reinado, manteve o poder até sua morte em 804. De seus 10 filhos, Sale o sucedeu no trono. Em data incerta, um dos irmãos, chamado Idris, se rebelou, mas foi capturado e executado. Em 858, a cidade foi saqueada e as mulheres da família reinante foram aprisionadas. Elas seriam eventualmente resgatadas sob influência do emir de Córdova Maomé I (r. 852–886).[2]

O filho de Saíde, Sale ibne Saíde eventualmente o sucedeu e governo até sua morte em 864. Iacubi, ao falar do principado de Sale, coloca que se estendia por uma distância de 10 dias de marcha, entre numerosas construções, fortalezas, aldeias, postos de parada, terras cultivadas, rebanhos de gado, pastagens. Ao falecer, Sale foi sucedido por seu filho Saíde, que enfrentou uma rebelião dos sacalibas que adquiriu para compor sua guarda pessoal. Alguns primos de Sale, envolvidos na rebelião, foram condenados à morte, provocando uma das conspirações recorrentes na história dos saleídas. A irmã de Sale, Ume Assade se casou, em Necor, com certo Amade ibne Idris, que descendia de Fátima, filha de Maomé, através dos idríssidas. Os parentes de Amade residiam em Cairuão à época e foram ameaçados pelo expansionismo do imame fatímida Abedalá Almadi Bilá (r. 909–934). Apesar disso, Saíde se negou a reconhecer a autoridade fatímida. O imame reagiu e ordenou a seu vassalo Massala ibne Habus que invadisse o território dos saleídas. Certo Hamade ibne Aiaxe, parente de Saíde, o traiu e Necor foi tomada em 26 de junho de 917; a cidade foi saqueada, mulheres e crianças capturadas e a cabeça de Saíde, que morrera combatendo, foi enviada a Cairuão com as de muitos de seus parentes e os fatímidas fixaram-nas em lanças e as exibiram nas muralhas de Racada. [2]

Os membros da família que conseguiram fugir buscaram refúgio em Málaga e Pechina. Abderramão III (r. 912–961) convidou-os a se estabelecer em Córdova, mas preferiram permanecer no litoral, próximos de sua pátria, na esperança de retornar a ela. Após algum tempo percorrendo o território do principado, Massala deixou em Necor como governador um certo Dalul, apoiado por uma pequena guarnição de tropas fatímidas, que acabarão por abandonar seu comandante. Foi então que os três filhos de Saíde — Idris, Almotácime e Sale — que tinham encontrado refúgio no Alandalus, separadamente se lançaram ao mar para retornar a Necor. O primeiro a chegar, Sale, desembarcou perto de Tansamane e foi recebido com entusiasmo pelos berberes da região, que lhe deram o título de Aliatim (al-Yatīm) e marcharam com ele contra Necor; capturaram Dalul e seus partidários e os enforcaram. Abderramão III, informado desse sucesso, felicitou Sale e promulgou por toda a Alandalus a notícia da recuperação do principado e de sua capital, que de fato parecem desde então ter sido colocados sob a soberania dos omíadas.[3] Em 920/1, Massala retomou Necor, mas e manteve por pouco tempo. Sale morreu e foi sucedido por seu neto, Almoaide ibne Abede Albadi, que foi atacado em 928 por um vassalo dos fatímidas, o tenente e sucessor de Massala, Muça ibne Abi Alafia (m. 938), então governador de uma província cuja capital era Guercife, e Necor foi arrasada no ano seguinte. Abu Aiube Ismail, neto do general Abu Almutarrife Abderramão, que esteve envolvido nos eventos políticos do Alandalus no início do século X, retomou o poder e reconstruiu a cidade.[4]

Os fatímidas não tinham intenção de permitir que os omíadas mantivessem uma base na costa do Magrebe, de modo que Alcaim (r. 934–946) confiou a um escravo eslavo chamado Sandal a tarefa de recapturar Necor; após uma troca de cartas e emissários — alguns dos quais foram executados por Ismail — o oficial fatímida chegou para sitiar a capital em setembro de 935 e capturou-a depois de oito dias de combates. Ismail e quase todos os seus partidários perderam a vida, e as mulheres e crianças foram levadas cativas. Mais uma vez, os habitantes da cidade, que haviam sido expulsos, conseguiram retornar, executaram o governador nomeado por Sandal e enviaram sua cabeça a Abderramão III (324/936). Após a deserção de Muça ibne Abi Alafia, que passou para o lado omíada em 320/932, a perda de Necor foi ressentida pelos fatímidas. Os habitantes escolheram como líder um membro da família reinante, Muça ibne Rumi, mas ele foi expulso por um de seus parentes, Abede Assami, e partiu para o exílio em Pechina com seus partidários. Em 948/9, outro saleída foi chamado ao poder, Jurtume ibne Amade, que reinou setembro-outubro 971. É provável que os descendentes do último saleída citado nominalmente tenham conseguido recuperar o trono e mantê-lo até 1019–20, quando foram forçados ao exílio em Málaga. Eles retornaram, porém, a Almazima, de onde foram expulsos por Ialá ibne Alfutu Alasdaji de Orã.[4]

Notas

Referências

  1. GEPB 1936, p. 677.
  2. a b Pellat 1993, p. 941.
  3. Pellat 1993, p. 941-942.
  4. a b Pellat 1993, p. 942.

Bibliografia

  • Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. década de 1960. Lisboa: Editorial Enciclopédia 
  • Pellat, Ch. (1993). «Nakūr». In: Bosworth, C. E.; van Donzel, E.; Heinrichs, W. P.; Pellat, Ch. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. Volume VII: Mif–Naz. Leida: E. J. Brill. ISBN 978-90-04-09419-2