Fazaz

Fazaz (em berbere: ⴼⴰⵣⴰⵣ; em árabe: فَزّاز; romaniz.: Fāzāz), no Magrebe, era extremidade noroeste do Médio Atlas marroquino.

Geografia

Fazaz localizava-se na extremidade noroeste do Médio Atlas marroquino. Se situava ao sul de Fez e Mequinez e foi limitada, a leste, pelo curso superior do Uádi Subu; para oeste, estendia-se até o curso superior do Uádi Ume Rabi; e seu limite meridional era o chamado passo de Tiganimine, onde nasce o rio Mulucha. Ele correspondia ao território hoje ocupado pelas tribos berberófonas chamadas, em árabe, metiritas (Bni Mtir), meguilditas (Bni Mgild), gueruanitas (Gerwan), zemuritas (Zemmur) e zaianitas (Zayan). Trata-se de um planalto elevado, com altitude média de 1 500 metros (cinco mil pés), do qual se erguem algumas montanhas. Geologicamente, é do tipo carste (planalto calcário), em certos pontos vulcânico e recortado por numerosos cânions; é coberto por florestas de carvalhos, tuias e cedros, onde são encontrados macacos e panteras (e, até o final do século XIX, leões).[1] Para o norte e oeste, esse planalto elevado se suaviza em colinas mais baixas (peneplanícies). As chuvas e neves abundantes dão origem a muitas fontes volumosas: aqui nascem os três rios mais importantes do Marrocos, o Mulucha, o Subu e o Ume Rabi, e muitos afluentes da margem esquerda dos dois últimos.[2]

História

Como no restante do Marrocos central, a população mais antiga conhecida era formada pelos sanajas. Alguns autores árabes também os chamam de fazaraítas (ou Banu Fazaz), como se o segundo elemento fosse o nome de um ancestral epônimo; mas esse nome deve resultar de uma tradução descuidada do berbere Aite Fazaz (em árabe Ale Fazaz), ou seja, "o povo de Fazaz".[3] Os geógrafos os descrevem como montanheses pastores, criadores de gado, ovelhas e também cavalos muito resistentes. Praticavam a transumância:[4] passavam os verões nos altos planaltos, mas as neves do inverno os obrigavam a descer aos vales do Baixo Atlas — ao norte, os de Tagragra (o Guraigura de Leão, o Africano, atual Tigrelgra) e Assais (entre Fez e Mequinzez); a oeste, o de Adequessane, no alto curso do Ume Rabi. Em 173/789, Idris I (r. 789-791) tomou posse de Fazaz e empenhou-se em converter a população ao Islã, pois ela permanecera em grande parte fiel ao judaísmo ou ao cristianismo. Do reinado de seu sucessor Idris II (r. 804–828), sobrevivem numerosos dirrãs cunhados em Uazacur. Essa casa da moeda deve ter estado localizada no atual Bu-Uzecur, um pequeno afluente do Ume Rabi, cerca de 3 quilômetros ao sul de Quenifra. Quando, em 213/828, os domínios de Idris II foram divididos entre seus filhos, Fazaz também foi repartido: a parte norte foi anexada ao principado de Fez, cujo emir, o filho mais velho Maomé, cunhou dirrãs em Tagragra; a parte sul coube a Issa, cujo principado incluía também a parte norte de Tamasna com a cidade de Salé. Pouco depois, Issa se rebelou contra seu irmão mais velho Maomé, que encarregou outro irmão, Omar, de submeter o rebelde. Issa foi derrotado e deixou Fazaz.[5]

Na segunda metade do século X, os zenetas do Magrebe Central foram empurrados para oeste pelos sanajas de Bologuine ibne Ziri (r. 972–984), que governava a Ifríquia em nome dos fatímidas do Cairo; é nesse período que os magrauas e os ifranitas se estabeleceram no Marrocos. Estes últimos criaram para si um principado cujas fronteiras correspondiam às do principado de Issa ibne Idris, com capital em Salé. Um dos clãs, os iajefaxitas (Banu Yajfash), ocupou Fazaz; seu chefe, Tauala, construiu ali um calate — a célebre Calate Almadi —, herdada por seu filho Mádi. Em 1060, o emir almorávida Abu Becre ibne Omar conquistou a região montanhosa de Fazaz, exceto o calate, que seu sucessor Iúçufe ibne Taxufine só conseguiu ocupar, mediante acordo, após um investimento de nove anos (1063–1072). Durante alguns meses, o desterrado rei de Sevilha Almutâmide (r. 1069–1091) foi mantido prisioneiro no calate antes de ser enviado a Agmate. Depois disso, Fazaz foi conquistado sucessivamente pelos almóadas e pelos merínidas. Esse distrito controlava a rota mais direta entre Fez e Marraquexe, passando por Tédula; ele também possuía duas minas de prata, em Auame e Uarquenas. A localização exata de Auame é incerta. Existe atualmente um Jabal Auame, cerca de 10 quilômetros a oeste de Merirte, e assim 120 quilômetros ao sudoeste de Fez, onde há uma mina de chumbo argentífero; porém Leão, o Africano, que passou por ali, menciona uma mina de ferro no Bu Regregue.[5]

A partir do século XV, o nome Fazaz parece ter caído em desuso. Leão, o Africano, que atravessou o distrito em 1515, não o menciona. Com efeito, ao longo do século XVI, a região foi invadida por novas ondas de berberes (também pertencentes ao grupo sanaja) vindos do alto vale do Mulucha, seguindo o fluxo das tribos árabes — os hassanitas e os zucairitas — em sua migração para o noroeste do Marrocos. Daí em diante, a história de Fazaz confunde-se com a história dos marabutos da Zauia de Dila e de seus companheiros berberes das tribos idrassanitas (ao norte) e omaluítas (a oeste), e suas lutas contra os sultões alauitas (em especial Arraxide, Ismail e Solimão),[6] e mais tarde contra as tropas do Protetorado Francês em Marrocos. Além de Tauala, outros habitantes ilustres de Fazaz são o secretário de Estado e poeta religioso Abderramão ibne Iaquelaftane Alfazazi, morto em 1230; o grande historiador Azaiani, morto em 1815.[5]

Referências

  1. Colin 1965, p. 847.
  2. Colin 1965, p. 847-848.
  3. Peyron 1997, p. 2746.
  4. Peyron 1997, p. 2745-2746.
  5. a b c Colin 1965, p. 848.
  6. Peyron 1997, p. 2746-2747.

Bibliografia

  • Colin, G. S. (1965). «Fāzāz». In: Lewis, B.; Pellat, Ch.; Schacht, J. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. Volume II: C–G. Leida: Brill