A Noite dos Tambores Silenciosos (poema)

 Nota: Para o ritual integralista e carnavalesco brasileiro, veja Noite dos tambores silenciosos.
Ilustração de Mondim Filho ao poema, publicado n'A Offensiva.[1]


A Noite dos Tambores Silenciosos é um poema de autoria do poeta integralista Jayme de Castro. Foi criado em ocasião do I Congresso Meridional Integralista, em 1935, para a cerimônia de mesmo nome.[2]

O poema evoca o momento exato do evento, detalhando cada passo deste ritual e finaliza evocando ao leitor a sensação de vitória do Integralismo, entre "tíbios, perversos e descrentes", que se levantariam junto aos "braços-verdes" (camisas-verdes). O poema foi adotado oficialmente pela Ação Integralista Brasileira (AIB) nos seus Protocolos e Rituais e foi utilizado por esta até fins de 1937, quando o Estado Novo proibiu qualquer manifestação político-partidária no Brasil.[2][3][4]

Tornou a ser novamente utilizado a partir de 1957, em ocasião ao Jubilo de Prata do Integralismo sob a bandeira do Partido de Representação Popular (PRP) e dos estudantes membros do Movimento Águia Branca (CCCJ).[5]

No século XXI, foi adotado por integralistas do Ceará, membros da Frente Integralista Brasileira em ocasião solene.[6]

Poema

I
Zero hora no cronômetro integral
De toda a imensa vastidão da Pátria.

Nas cidades, nos mares, nos sertões,
Um trágico bater de caixas surdas...

É a noite dos tambores silenciosos

Três minutos, o rufo, no silêncio,
Traduz um grande apelo e um grande choro
E simboliza os nossos corações.

II
A alma da Pátria, inteira, está em nós,
Segredando que estamos vitoriosos.

Somos neste momento a própria Pátria,
E distinguimos no rumor da voz
Que vem do íntimo da alma dos tambores,
Um soluço de angústia nacional.

III
Há nessas misteriosas ressonâncias
O distante tropel dos bandeirantes
Desbravando as florestas brasileiras;
O balbuciar das tribos aturdidas,
Das feras o rugido, a voz da inúbia —
A voz do Brasil virgem dos Tupis.

IV
Enche nossos atônitos ouvidos
Todo um mundo de sons intraduzíveis
— São as vozes que foram abafadas,
Pelos pulsos de ferro da injustiça.
— As vozes dos patriotas esquecidos,
Dos grandes brasileiros ignorados.

V
Vêm-nos de envolta, qual terrível coro,
Os surdos ais dos negros sufocados,
Estrangulados ao vibrar do látego.

Uma paisagem trágica avassala
O nosso pensamento neste instante
Os campos do nordeste, ressequidos,
Fazem lembrar um panorama d’África...


VI
Através desses campos, nas savanas,
Milhões de brasileiros sofrem fome,
Vemos na dor dessa paisagem morta,
A própria dor dos homens que ali vivem,

O rufo continua. Pelo ambiente
Há um bárbaro tumulto. Os grandes filhos
Do Brasil do passado, estão conosco.

VII
Vago bater de marcha acelerada
Semelhante ao rolar de uma cascata,
Ao rugir de um tufão pela floresta,
Aproxima-se. É sempre mais distinto.

Cresce, aumenta, reboa, estruge, empolga,
Vem de todos os lados, e recorda,
O espetáculo do encontro do oceano
Com a enorme caudal dos grandes rios.

VIII
Escuta-se uma súbita parada...
São as legiões de farda côr-de-selva
Que vêm se recolher da grande marcha.

Agora é voz do Chefe que escutamos.

Ante as legiões sem fim, ele anuncia
A vitória completa, e, diz que ali
É que começa a verdadeira luta.
Sacode intenso frêmito as legiões;
Fal-as virar num ímpeto de júbilo...

IX
E as mãos que se estorciam nas angústias
De um século de doida expectativa,
Se erguem para o céu num arremesso
De alegria, de glória e redenção.

E, entre os muitos milhões de braços verdes,
Elevaram-se os braços dos descrentes,
Dos tíbios, dos perversos, dos inúteis;
E a interjeição de espanto que tiveram
Foi o grito de nossa saudação!

Referências

  1. CASTRO, Jayme (16 de novembro de 1935). «A Noite dos Tambores Silenciosos». A Offensiva (79): 7 
  2. a b TRINDADE, Helgio (1974). Integralismo: o fascismo brasileiro. Rio de Janeiro: Distribuição Européia do Livro 
  3. Vários. Enciclopédia do Integralismo VII - Coletânea de Poetas Integralistas. [S.l.: s.n.] pp. 97–99 
  4. Vários. Enciclopédia do Integralismo XI - A Orgânica da Ação Integralista Brasileira II. [S.l.: s.n.] pp. 120–123 
  5. FIGUEIRA, Jorge (17 de junho de 2014). «Rituais da Acção Integralista Brasileira: A Noite dos Tambores Silenciosos». Consultado em 2 de outubro de 2025 
  6. RIBEIRO, Carlos. «Cerimonial histórico do Movimento Integralista é realizado após 63 anos em Fortaleza». Integralismo. Consultado em 30 de setembro de 2025 

Ver também