Masdali ibne Tilancane

Abu Maomé Masdali ibne Tilancane (em árabe: أبو محمد مزدلي بن تيلانكان; romaniz.: Abu Muhammad Mazdali ibn Tilankan; m. março de 1115) foi um comandante militar e diplomata berbere do Império Almorávida. Quando Iúçufe ibne Taxufine (r. 1061–1106) decidiu tornar-se independente, escolheu Masdali — seu primo de segundo grau e um de seus colaboradores mais eficazes — para submeter e pacificar o Magrebe e Alandalus.

Vida

Abu Maomé Masdali pertencia ao clã turgutita dos lantunas, uma tribo berbere pertencente à confederação sanaja. Seu avô Hamide e Ibraim, avô de Iúçufe ibne Taxufine, eram irmãos. Sabe-se que teve cinco filhos, chamados Abedalá, Maomé, Abu Becre, Iáia e Sir. Após a fundação de Marraquexe, Iúçufe enviou Masdali, à frente de um exército, para a região de Salé, cujas tribos ele submeteu sem combate ou cerco (Vincent Lagardère datou essa conquista em 1073).[1] Por volta dessa época, Abu Becre ibne Omar, o líder do movimento almorávida, após se ausentar por alguns anos em campanhas contra tribos revoltosas, retornou para reclamar sua posição de liderança, que havia deixado provisoriamente com o emir Iúçufe ibne Taxufine (r. 1061–1106). Iúçufe recusou-se a devolver-lhe o poder. Por intermédio de sua esposa Zainabe, Iúçufe concordou em dar-lhe grande quantidade de presentes para dissuadi-lo.[2] Desejando evitar um novo conflito no seio do movimento, Abu Becre aceitou os presentes partiu ao sul para combater os Estados negros do deserto.[3] Em 1076, Ibraim, filho de Abu Becre e governador de Segelmeça, veio a Agmate reivindicar o poder do qual seu pai fora privado. Assim que soube, Iúçufe enviou Masdali, que se reuniu com Ibraim. Com habilidade, Masdali contornou a crise, dissuadindo Ibraim de manter seus reclamos. Ofereceu-lhe presentes que ele aceitou, como seu pai fizera, e ele voltou ao Saara.[4][5]

Na segunda metade de 1079 (Lagardère datou a expedição em 1075[4]), Masdali recebeu o comando de 20 mil soldados e foi enviado para subjugar Tremecém, do clã ialaíta dos magrauas, que havia constituído um principado autônomo e fazia frente ao Reino Hamádida de Bugia. As forças almorávidas avançaram pelo vale do rio Mulucha, onde enfrentaram o inimigo — uma força armada dos ialaítas, em algum ponto entre o Mulucha e o . Masdali esmagou os inimigos zenetas e executou Ialá, um provável filho do emir de Tremecém, Alabás ibne Iáia Azanati. O cronista Ibne Abi Zar se contradiz nesse ponto ao afirmar que Masdali conquistou e arrasou Tremecém em 1080, enquanto em 1081 Iúçufe marchou contra ela e a conquistou. É provável que Masdali tenha conseguido capturar os territórios ao sul da cidade, mas não teve condições logísticas para conquistar a capital, talvez pela incapacidade de suas forças ou as baixas excessivas que pode ter sofrido no transcurso da expedição. É possível que tenha avançado em demasia em território inimigo, sem antes subjugar outros grupos hostis como os isnassanitas, que eram aparentados aos magrauas, e controlavam a cidade de Ujda. Ao contrário de outros períodos, os isnassanitas podem ter se unido momentaneamente e formado um bloco defensivo que impediu a concretização dos planos de Masdali.[6] Como consequência, Masdali retornou a Marraquexe para anunciar seus feitos.[7]

Em 1091, Iúçufe o nomeou governador de Córdova, tomada em 27 de março. Pouco se sabe sobre a atuação de Masdali durante dez anos, até reaparecer, no início da primavera de 1102, à frente de um exército que sitiou Valência com sucesso.[4] Valência era governada pela viúva de El Cid, Jimena Dias, após sua morte em 10 de julho de 1099. Ela apelou ao rei Afonso VI por ajuda, mas ele veio apenas para prover refúgio a ela e outros em sua capital, Toledo.[8] No tempo que permaneceu a frente da cidade, Masdali designou como cádi (juiz) Abu Maomé Abedalá ibne Saíde Aluájedi e como hájibe Ismail ibne Muail.[9] Além disso, investiu contra o território em torno de Barcelona, onde várias igrejas e castelos foram saqueados e o butim levado para sua capital provincial.[10] Em 18 de junho de 1103 (segundo Ibne Alcardabus), Iúçufe nomeou como governador de Valência Abu Abedalá Maomé ibne Fátima.[4] No mesmo ano, o emir substituiu oficialmente Taxufine ibne Tinaguemar como governador de Tremecém, após seus conflitos com o emir hamádida Almançor ibne Anácer (r. 1088–1105), e designou Masdali como sucessor. Entre finais de 1103 e os primeiros meses de 1104, Masdali abandonou o Alandalus rumo ao Magrebe.[11]

Quando Ali ibne Iúçufe (r. 1106–1143) ascendeu como novo emir, Masdali foi para Marraquexe para prestar juramento. Ao passar por Fez, encontrou-se com Iáia ibne Abi Becre, sobrinho de Ali, a quem aconselhou a desistir de suas pretensões ao trono.[12][13] Em 1111, foi nomeado governador de Granada. Ele anexou a seu governo as províncias de Córdova e Almeria, e então organizou uma expedição contra Guadalajara, que atacou no ano seguinte, 1112, sem conseguir tomá-la. Saqueou seus arredores e retornou a Córdova carregado de despojos. Mas seus inimigos o acusaram de negligência perante Ali ibne Iúçufe. Foi destituído e transferido para Marraquexe, onde deveria justificar-se perante o emir. Absolvido das acusações, foi reintegrado no governo de Granada e Córdova. Atravessou o estreito, foi a Sevilha e, com a ajuda de Sir ibne Abi Becre e dos exércitos de Granada e Córdova, iniciou um ataque retaliatório contra Toledo.[14] Em julho de 1114, Masdali atacou La Sagra, saqueando Peginas, Cabanas e Magán. Derrotou no mês seguinte Rodrigo Aznar em Polgar, mas morreu em combate em março de 1115, lutando contra os castelhanos perto de Mastasa, a um dia ao norte de Córdova. Seu corpo foi levado de volta a Córdova no dia seguinte.[14] Seu filho Abedalá o sucedeu no governo de Granada e Córdova.[15]

Referências

  1. Lagardère 1978, p. 53-54.
  2. Chalmeta 1993, p. 585.
  3. Vilá & López 1998, p. 98.
  4. a b c d Lagardère 1978, p. 53.
  5. Messier 2010, p. 63.
  6. Vilá & López 1998, p. 122-123.
  7. Messier 2010, p. 65–66.
  8. Messier 2010, p. 118.
  9. Vilá & López 1998, p. 164, nota 258.
  10. Vilá & López 1998, p. 167, nota 264.
  11. Vilá & López 1998, p. 165-166.
  12. Messier 2010, p. 122.
  13. Vilá & López 1998, p. 176.
  14. a b Lagardère 1978, p. 56.
  15. Messier 2010, p. 136.

Bibliografia

  • Chalmeta, P. (1993). «al-Murābiṭūn». In: Bosworth, C. E.; van Donzel, E.; Heinrichs, W. P.; Pellat, Ch. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. Volume VII: Mif–Naz. Leida: E. J. Brill. ISBN 978-90-04-09419-2 
  • Messier, Ronald A. (2010). The Almoravids and the Meanings of Jihad. Santa Bárbara: Praeger/ABC-CLIO. ISBN 978-0-313-38590-2 
  • Vilá, Jacinto Bosch; López, Emilio Molina (1998). Los almorávides. Granada: Editorial Universidade de Granada. ISBN 9788433824516