Abu Abedalá Maomé ibne Fátima
Abu Abedalá Maomé ibne Fátima (em árabe: أبو عبد الله محمد بن فاطمة; romaniz.: Abū ʿAbd Allāh Muḥammad ibn Fāṭima) foi um oficial do Império Almorávida, ativo nos reinados dos emires Iúçufe ibne Taxufine (r. 1061–1106) e Ali ibne Iúçufe (r. 1106–1143).
Vida
Abu Abedalá Maomé era filho da nobre Fátima, cujos pais eram Haua, irmã do emir Iúçufe ibne Taxufine (r. 1061–1106), e Sir ibne Abi Becre, um importante comandante militar do Império Almorávida.[1] Inicialmente, desejou ocupar a Taifa de Saragoça, aproveitando a instabilidade política local. Em seguida, associou-se a Masdali ibne Tilancane para recuperar Valência das mãos dos cristãos em 1102 e acompanhou o general Alboácem Ali para repelir os exércitos de Afonso VI (r. 1072–1109), que sitiavam Medinaceli.[2] Em 18 de junho de 1103 (segundo Ibne Alcardabus), o emir Iúçufe o nomeou como governador de Valência.[3] No mesmo mês, acompanhou Alboácem Ali em sua expedição contra Toledo, a fim de obrigar Afonso VI a retirar-se da região de Medinaceli. Contudo, nas imediações de Talavera, os almorávidas sofreram uma série de derrotas, que custaram a vida de Ali.[4] Em 6 de abril de 1104, incorporou a Taifa de Albarracín e enviou tropas ao rei Almostaim II (r. 1085–1110), que estava sendo pressionado em Saragoça pelos exércitos de Afonso I (r. 1104–1134).[5] Sob o emir Ali ibne Iúçufe (r. 1106–1143), Ibne Fátima foi mantido em seu posto, como confirmado por uma carta do emir dirigida aos habitantes da cidade, informando sobre sua manutenção.[2]
No início de maio de 1108, o governador de Granada, Tamime ibne Iúçufe, reuniu um grande exército composto de magrebinos e andalusinos e partiu rumo ao rio Tejo. Ao chegar a Xaém, deteve-se alguns dias, à espera das tropas do governador de Córdova, Ibne Abi Ranque, das de Maomé ibne Aixa, meio-irmão de Tamime que se encontrava em Múrcia, e dos contingentes de Ibne Fátima. Cruzando o Guadalquivir, reuniram-se em Baena, onde devem ter traçado o plano de marcha e ataque. Pela praça fronteiriça de Consuegra, os almorávidas penetraram nas terras de Zaida, até chegar diante da fortaleza de Uclés, o ponto mais importante da região e centro do sistema defensivo ao sul do alto Tejo. Na quarta-feira, 27 de maio de 1108, cercaram-na e iniciaram de surpresa uma série de ataques que em poucas horas puseram fim à resistência oferecida pelos seus defensores. No mesmo dia, os almorávidas entraram no recinto amuralhado, capturando um bom número de prisioneiros. Alguns cristãos conseguiram escapar e refugiar-se na alcáçova, de onde não puderam ser desalojados. Os homens de Tamime e dos outros alcaides incendiaram a igreja e saquearam tudo o que puderam. Os poucos muçulmanos mudéjares que havia em Uclés procuraram abrigo junto aos vencedores e fizeram causa comum.[6]
Na noite de 28 para 29, os almorávidas permaneceram acampados nos arredores do povoado. Um dos cristãos que havia conseguido escapar deve ter avisado, nesse meio-tempo, do ocorrido aos alcaides da fortaleza mais próxima, correndo logo a notícia pela região, até Toledo, pois na sexta-feira, dia 29, marchou contra os almorávidas um exército castelhano liderado por Álvaro Fanhes e Garcia Ordonhes, que foi acompanhado por seis condes que escoltavam Sancho Afonses, herdeiro de Afonso VI (r. 1072–1109). Na batalha que se seguiu, os cristãos foram derrotados e obrigados a fugir. Sancho e seus protetores fugiram do campo, mas foram eventualmente alcançados e mortos. Tamim redigiu uma carta oficial a seu irmão Ali para informá-lo do resultado e nela fala-se de um grande butim — cavalos, mulas, armas, dinheiro. Depois disso, o governador de Granada regressou imediatamente à sua capital, enquanto os demais comandantes fingiram abandonar o cerco para motivar os sitiados a saírem. Quando os defensores descuidaram-se, muitos deles foram mortos e a fortaleza foi tomada.[7]
Ibne Fátima permaneceu no governo de Valência até 1109/10, quando foi substituído, sob ordens do emir Ali, por Maomé ibne Alhaje.[4] Em troca, Ibne Fátima foi nomeado governador de Granada, mas permaneceu na posição por um ano. Em 1111, reaparece como governador de Fez e, após um certo número de anos, retornou ao Alandalus como governador de Sevilha, após a destituição de seu tio Iáia ibne Sir, em 1115. Permaneceu nesse posto até sua morte, dezembro de 1117 – janeiro de 1118.[8]
Referências
- ↑ Lagardère 1978, p. 55.
- ↑ a b Lagardère 1978, p. 57.
- ↑ Lagardère 1978, p. 53.
- ↑ a b Lagardère 1978, p. 52.
- ↑ Vilá & López 1998, p. 168.
- ↑ Vilá & López 1998, p. 181.
- ↑ Vilá & López 1998, p. 182-183.
- ↑ Lagardère 1978, p. 58.
Bibliografia
- Lagardère, Vincent (1978). «Le gouvernorat des villes et la suprématie des Banu Turgut au Maroc et en Andalus de 477/1075 à 500/1106». Revue de l'Occident musulman et de la Méditerranée. 25 (1): 49–65. ISSN 0035-1474. doi:10.3406/remmm.1978.1803
- Vilá, Jacinto Bosch; López, Emilio Molina (1998). Los almorávides. Granada: Editorial Universidade de Granada. ISBN 9788433824516