Maomé ibne Alhaje

Abu Abedalá Maomé ibne Alhaje ibne Maomé ibne Turgute (em árabe: أبو عبد الله محمد بن الحاج بن محمد بن ترغوت; romaniz.: Abū ʿAbd Allāh Muḥammad b. al-Ḥājj b. Muḥammad b. Turgūt; m. 1114) foi um oficial do Império Almorávida, ativo no reinado do emir Iúçufe ibne Taxufine (r. 1061–1106).

Vida

Abu Abedalá Maomé era filho de Alhaje ibne Maomé ibne Turgute e irmão de Alboácem Ali ibne Alhaje.[1] Seu isme (nome pessoal) árabe era Maomé, mas seu nome berbere era Uamaguz (Wamagūz), que os cronistas árabes frequentemente deformaram para Maguz ou Macur. Não são sabidos detalhes da sua carreira durante a expansão almorávida pelo Magrebe liderada pelo emir Iúçufe ibne Taxufine (r. 1061–1106). Aparece pela primeira vez em 1091, quando Iúçufe decidiu destronar o rei de Sevilha Almutâmide (r. 1069–1091) e enviou seus generais para tomarem as principais cidades do Alandalus antes de derrubá-lo. No início do ano, colaborou com Sir ibne Abi Becre no cerco de Córdova, cujo governador era Abu Nácer Alfate Almamune, filho de Almutâmide. Depois disso, os almorávidas marcharam para Sevilha, derrotando uma força castelhana comandada por Álvaro Fanhes que viera em socorro de Almutâmide na Batalha de Almodóvar do Rio. Em setembro de 1091, Almutâmide rendeu sua capital e foi exilado em Agmate.[2][3] Na mesma época, foram submetidas Xaém, Úbeda e Écija, possivelmente por Maomé.[4]

Em 1096, Maomé é citado como governador de Granada, após a morte de seu irmão Alboácem Ali. No mesmo ano, quando espalharam-se notícias de que Iúçufe estava doente, o rei Afonso VI (r. 1072–1109) enviou 3 500 soldados à região de Sevilha, onde causou grandes devastações e fez numerosos prisioneiros, especialmente nas aldeias do Aljarafe. Maomé marchou com tropas para contê-los, auxiliado por Sir. Pouco depois, Maomé foi nomeado governador de Córdova.[5] Em 1097, o próprio Iúçufe conduziu outro exército ao Alandalus. Partindo de Córdova com Maomé como comandante de campo, marchou contra Afonso VI, então em Toledo. Os castelhanos foram derrotados na Batalha de Consuegra. O senhor de Valência O Cid não participou, mas seu filho, Diego, caiu no combate.[6][7] Após a morte de O Cid, em 10 de julho de 1099, Iáia ibne Abi Becre partiu do Magrebe rumo ao Alandalus com o intuito de conduzir uma expedição contra os cristãos. Reuniu-se com Sir ibne Abi Becre e Maomé ibne Alhaje e dirigiram-se para Toledo. A expedição buscava conquistar Toledo do Reino de Castela, mas os invasores não alcançaram esse objetivo. No entanto, foram capazes de tomar Consuegra, na zona fronteiriça.[8]

Quando Ali ibne Iúçufe (r. 1106–1143) foi proclamado em Córdova como sucessor, Maomé recusou-se a reconhecê-lo como soberano, por não aceitar um regime hereditário, incomum no deserto do Saara. Os cordoveses inicialmente apoiaram essa recusa em reconhecer Ali, mas depois o abandonaram, ao verem que, naquele mesmo ano, Ali vinha ao Alandalus para pôr fim a essas tendências de rebelião. Em resposta, Ali reconduziu Maomé ao Magrebe. Após um período de seis meses, durante o qual permaneceu sob rigorosa vigilância, Ali lhe atribuiu, em 1107, o governo de Fez.[5][9] Um dos filhos do emir Iúçufe, Tamime ibne Iúçufe, foi nomeado por essa época como comandante geral do Alandalus almorávida. Nos primeiros dias de maio de 1108, reuniu um grande exército composto de magrebinos e andalusinos e partiu de Granada, em direção ao rio Tejo. Ao chegar a Xaém, deteve-se alguns dias, à espera das tropas do governador de Córdova, Ibne Abi Ranque, das de Maomé ibne Aixa, meio-irmão de Tamime que se encontrava em Múrcia, e dos contingentes de Ibne Fátima, governador de Valência. Cruzando o Guadalquivir, reuniram-se em Baena, onde devem ter traçado o plano de marcha e ataque. Pela praça fronteiriça de Consuegra, os almorávidas penetraram nas terras de Zaida, até chegar diante da fortaleza de Uclés, o ponto mais importante da região e centro do sistema defensivo ao sul do alto Tejo.[10]

Na quarta-feira, 27 de maio, cercaram Uclés e iniciaram de surpresa uma série de ataques que em poucas horas puseram fim à resistência oferecida pelos seus defensores. No mesmo dia, os almorávidas entraram no recinto amuralhado, capturando um bom número de prisioneiros. Alguns cristãos conseguiram escapar e refugiar-se na alcáçova, de onde não puderam ser desalojados. Os homens de Tamime e dos outros alcaides incendiaram a igreja e saquearam tudo o que puderam. Os poucos muçulmanos mudéjares que havia em Uclés procuraram abrigo junto aos vencedores e fizeram causa comum com eles.[11] Na noite de 28 para 29, os almorávidas permaneceram acampados nos arredores do povoado. Um dos cristãos que havia conseguido escapar deve ter avisado, nesse meio-tempo, do ocorrido aos alcaides da fortaleza mais próxima, correndo logo a notícia pela região, até Toledo, pois na sexta-feira, dia 29, marchou contra os almorávidas um exército castelhano liderado por Álvaro Fanhes e Garcia Ordonhes, que foi acompanhado por seis condes que escoltavam Sancho Afonses, herdeiro de Afonso VI. Na batalha que se seguiu, os cristãos foram derrotados e obrigados a fugir. Sancho e seus protetores tentaram fugir, mas foram eventualmente alcançados e mortos. Tamime redigiu uma carta oficial a seu irmão Ali para informá-lo do resultado e nela fala-se de um grande butim — cavalos, mulas, armas, dinheiro. Depois disso, o governador de Granada regressou imediatamente à sua capital, enquanto os demais comandantes fingiram abandonar o cerco para motivar os sitiados a saírem. Quando os defensores descuidaram-se, muitos deles foram mortos e a fortaleza foi tomada.[12]

Ainda em 1108, convencido de sua lealdade, Ali nomeou Maomé ao governo de Valência, em substituição de Ibne Fátima.[5] Os habitantes de Saragoça, descontentes com seu novo rei, Imade Adaulá (r. 1110), que havia tratado com os aragoneses, apelaram a Maomé, que chegou a Saragoça no sábado, 31 de maio, e durante dois anos a defendeu contra Afonso I (r. 1104–1134).[13] Em 1112, utilizou sua base em Saragoça para conduzir uma razia ao norte da cidade de Huesca, que havia sido tomada recentemente pelos aragoneses.[14] Segundo Ibne Alabar, entre junho e setembro de 1114, Maomé partiu em expedição rumo à Catalunha. É muito provável que, em Lérida, tenha se encontrado com Ibne Aixa, com quem já havia previamente se entendido, e que, juntos, passando por Cervera, saquearam o território do conde Raimundo Berengário III de Barcelona (r. 1086–1131), que então se encontrava nas Baleares, chegando até as proximidades de Barcelona. Com um considerável butim, obtido mais pelo saque do que pelo êxito de uma batalha, os almorávidas regressaram. Maomé ordenou que o grosso do exército retornasse pela via romana que cortava a região, para facilitar o transporte do que levavam consigo. Ele próprio, com um destacamento, seguiu, para encurtar caminho, por um terreno acidentado e perigoso, onde, em caso de um ataque surpresa, estaria em desvantagem. Num desfiladeiro próximo a Martorell, onde os homens só podiam passar em fila de dois a dois, os catalães lançaram-se inesperadamente sobre Maomé. Os muçulmanos foram quase todos mortos, inclusive Maomé. Ibne Aixa, que o acompanhava, sobreviveu por pouco, mas diz-se que ficou profundamente abalado com a derrota que nunca mais exerceu quaisquer cargos.[15][14] Outras fontes afirmam que Maomé morreu ao tentar socorrer os cordoveses, atacados pelos castelhanos. Ele deixou um filho chamado Almançor ibne Maomé ibne Alhaje.[16]

Referências

  1. Lagardère 1978, p. 51.
  2. Kennedy 2014, p. 164; 177.
  3. Enan 1960, p. 350–351.
  4. Vilá & López 1998, p. 153.
  5. a b c Lagardère 1978, p. 52.
  6. Messier 2010, p. 117–118.
  7. Kennedy 2014, p. 165-166.
  8. Vilá & López 1998, p. 162-163.
  9. Vilá & López 1998, p. 177.
  10. Vilá & López 1998, p. 181.
  11. Vilá & López 1998, p. 181-182.
  12. Vilá & López 1998, p. 182-183.
  13. Lagardère 1978, p. 52-53.
  14. a b Kennedy 2014, p. 174.
  15. Vilá & López 1998, p. 189-190.
  16. Lagardère 1978, p. 53.

Bibliografia

  • Enan, Muhammad Abdullah (1960). The State of Islam in Andalusia: The Taifa states. II. Cairo: Instituição Saudita no Egito 
  • Kennedy, Hugh (2014). Muslim Spain and Portugal: A Political History of al-Andalus. Londres e Nova Iorque: Routledge 
  • Messier, Ronald A. (2010). The Almoravids and the Meanings of Jihad. Santa Bárbara: Praeger/ABC-CLIO. ISBN 978-0-313-38590-2 
  • Vilá, Jacinto Bosch; López, Emilio Molina (1998). Los almorávides. Granada: Editorial Universidade de Granada. ISBN 9788433824516