Maomé ibne Aixa

Abu Abedalá Maomé ibne Aixa (em árabe: أبو عبد الله محمد بن عائشة; romaniz.: Abū ʿAbd Allāh Muḥammad b. ʿĀʾisha) foi um oficial do Império Almorávida, ativo no reinado de seu pai e seu irmão, os emires Iúçufe ibne Taxufine (r. 1061–1106) e Ali ibne Iúçufe (r. 1106–1143).

Vida

Maomé era filho do emir Iúçufe ibne Taxufine (r. 1061–1106) e de sua esposa Aixa binte Iarane. Aparece pela primeira vez em 1091, quando Iúçufe decidiu destronar o rei de Sevilha Almutâmide (r. 1069–1091) e enviou seus generais para tomarem as principais cidades do Alandalus antes de derrubá-lo. Ibne Alcátibe lhe atribuiu o comando do exército que atacou Almeria e que então se apoderou de Xaém, Úbeda e Écija;[1] outras fontes atribuem a conquista dessas cidades a Maomé ibne Alhaje e o ataque contra Almeria a Iáia ibne Uacinu. Sob comando dos exércitos situados no Levante do Alandalus, Ibne Aixa submeteu Múrcia, Dênia, Xátiva,[2] Ségura e Aledo, antes de se dirigir a Valência, cujos habitantes solicitaram sua colaboração para assassinar o rei Iáia Alcadir (r. 1086–1092). Ibne Aixa enviou um de seus tenentes para tomar Alcira e penetrar em Valência com sua tropa. Durante o cerco de Valência por O Cid, Ibne Aixa, de sua base em Múrcia, encorajou os valencianos à resistência, prometendo-lhes socorro.[3] No final de 1096, Ibne Aixa liderou um exército de 30 mil homens para sitiar a mais forte das fortalezas do Senhorio de Valência, Penha Cadielha (ao sul de Xátiva).[4] Em 1097, Álvaro Fanhes foi derrotado perto de Cuenca por tropas lideradas por Ibne Aixa, que depois devastou terras valencianas e derrotou outra força enviada por O Cid.[5][6]

Nos primeiros dias de maio de 1108, o meio-irmão de Ibne Aixa, Tamime ibne Iúçufe, reuniu um grande exército composto de magrebinos e andalusinos e partiu de Granada, em direção ao rio Tejo. Ao chegar a Xaém, deteve-se alguns dias, à espera das tropas do governador de Córdova, Ibne Abi Ranque, das de Ibne Aixa, e dos contingentes de Ibne Fátima, que ainda não havia sido substituído por Maomé ibne Alhaje no governo de Valência. Cruzando o Guadalquivir, reuniram-se em Baena, onde devem ter traçado o plano de marcha e ataque. Pela praça fronteiriça de Consuegra, os almorávidas penetraram nas terras de Zaida, até chegar diante da fortaleza de Uclés, o ponto mais importante da região e centro do sistema defensivo ao sul do alto Tejo. Na quarta-feira, 27 de maio de 1108, cercaram-na e iniciaram de surpresa uma série de ataques que em poucas horas puseram fim à resistência oferecida pelos seus defensores. No mesmo dia, os almorávidas entraram no recinto amuralhado, capturando um bom número de prisioneiros. Alguns cristãos conseguiram escapar e refugiar-se na alcáçova, de onde não puderam ser desalojados. Os homens de Tamime e dos outros alcaides incendiaram a igreja e saquearam tudo o que puderam. Os poucos muçulmanos mudéjares que havia em Uclés procuraram abrigo junto aos vencedores e fizeram causa comum com eles.[7]

Na noite de 28 para 29, os almorávidas permaneceram acampados nos arredores do povoado. Um dos cristãos que havia conseguido escapar deve ter avisado, nesse meio-tempo, do ocorrido aos alcaides da fortaleza mais próxima, correndo logo a notícia pela região, até Toledo, pois na sexta-feira, dia 29, marchou contra os almorávidas um exército castelhano liderado por Álvaro Fanhes e Garcia Ordonhes, que foi acompanhado por seis condes que escoltavam Sancho Afonses, herdeiro de Afonso VI (r. 1072–1109). Na batalha que se seguiu, os cristãos foram derrotados e obrigados a fugir. Sancho e seus protetores tentaram fugir, mas foram eventualmente alcançados e mortos. Tamime redigiu uma carta oficial a seu irmão Ali para informá-lo do resultado e nela fala-se de um grande butim — cavalos, mulas, armas, dinheiro. Depois disso, o governador de Granada regressou imediatamente à sua capital, enquanto os demais comandantes fingiram abandonar o cerco para motivar os sitiados a saírem. Quando os defensores descuidaram-se, muitos deles foram mortos e a fortaleza foi tomada.[8]

Segundo Ibne Alabar, entre junho e setembro de 1114, Maomé partiu em expedição rumo à Catalunha. É muito provável que, em Lérida, tenha se encontrado com Ibne Aixa, com quem já havia previamente se entendido, e que, juntos, passando por Cervera, saquearam o território do conde Raimundo Berengário III de Barcelona (r. 1086–1131), que então se encontrava nas Baleares, chegando até as proximidades de Barcelona. Com um considerável butim, obtido mais pelo saque do que pelo êxito de uma batalha, os almorávidas regressaram. Maomé ordenou que o grosso do exército retornasse pela via romana que cortava a região, para facilitar o transporte do que levavam consigo. Ele próprio, com um destacamento, seguiu, para encurtar caminho, por um terreno acidentado e perigoso, onde, em caso de um ataque surpresa, estaria em desvantagem. Num desfiladeiro próximo a Martorell, onde os homens só podiam passar em fila de dois a dois, os catalães lançaram-se inesperadamente sobre Maomé. Os muçulmanos foram quase todos mortos, inclusive Maomé. Ibne Aixa, que o acompanhava, sobreviveu por pouco, mas diz-se que ficou profundamente abalado com a derrota que nunca mais exerceu quaisquer cargos.[9][10]

Referências

  1. Lagardère 1978, p. 58.
  2. Vilá & López 1998, p. 153.
  3. Lagardère 1978, p. 59.
  4. Messier 2010, p. 116.
  5. Messier 2010, p. 117–118.
  6. Kennedy 2014, p. 166.
  7. Vilá & López 1998, p. 181.
  8. Vilá & López 1998, p. 182-183.
  9. Vilá & López 1998, p. 189-190.
  10. Kennedy 2014, p. 174.

Bibliografia

  • Kennedy, Hugh (2014). Muslim Spain and Portugal: A Political History of al-Andalus. Londres e Nova Iorque: Routledge 
  • Messier, Ronald A. (2010). The Almoravids and the Meanings of Jihad. Santa Bárbara: Praeger/ABC-CLIO. ISBN 978-0-313-38590-2 
  • Vilá, Jacinto Bosch; López, Emilio Molina (1998). Los almorávides. Granada: Editorial Universidade de Granada. ISBN 9788433824516