Cerco de Valência (1092–1094)

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Cerco de Valência
Data1092–1094
LocalValência, Taifa de Valência
DesfechoVitória de O Cid
Beligerantes
Reino de Castela Taifa de Valência
Império Almorávida
Comandantes
O Cid Ibne Jaafe
Forças
Incertas Incertas
Baixas
Incertas Incertas

O cerco de Valência ou a conquista de Valência por El Cid foi travado entre o Reino de Castela e a Taifa de Valência. A vitória castelhana levou ao estabelecimento do Senhorio de Valência. Em outubro de 1092, durante a ausência de O Cid (Rodrigo Dias de Vivar), uma conspiração liderada por Ibne Jaafe resultou na deposição e execução de Iáia Alcadir. Com o retorno de O Cid, Ibne Jaafe foi confirmado como governante mediante o pagamento de tributo e a promessa de não entregar a cidade ao Império Almorávida. Apesar de apelos aos almorávidas, uma primeira intervenção comandada por Abu Becre ibne Ibraim não se concretizou, deixando Valência isolada.

O Cid então sitiou Valência, onde a população se dividia entre defensores do Islã que aguardavam socorro almorávida e partidários de Ibne Jaafe favoráveis à negociação; após dezenove meses, a cidade caiu em maio de 1094. Em resposta, o emir Iúçufe ibne Taxufine organizou uma grande expedição almorávida sob o comando de Abu Abedalá Maomé ibne Fátima, reunindo forças de várias taifas e acampando nas proximidades da cidade. Aproveitando a desorganização inimiga, O Cid lançou um ataque surpresa que resultou numa derrota almorávida decisiva, consolidando o Senhorio de Valência e retardando a expansão almorávida, embora a cidade viesse a cair definitivamente em mãos almorávidas em 1102.

Contexto

Enquanto O Cid (Rodrigo Díaz de Vivar) estava ausente de Valência, em outubro de 1092, os valencianos reuniram-se na casa de Ibne Jaafe e concordaram em apelar a Maomé ibne Aixa para depor Iáia Alcadir, enviando tropas sob o comando de Ibne Nácer; contudo, Alcadir entrincheirou-se e enviou uma mensagem urgente a O Cid.[1] Quando Ibne Nácer chegou, foi recebido por Ibne Jaafe, e os cristãos da cidade fugiram. Alcadir deixou o palácio disfarçado de mulher e refugiou-se numa casa pobre. Quando foi encontrado, foi condenado à morte. Em 29 de outubro de 1092, Ibne Jaafe proclamou-se governador de Valência.[2]

Quando O Cid e suas tropas regressaram, Ibne Jaafe expulsou os contingentes de Ibne Nácer e concordou em pagar tributo a O Cid, que o confirmou como governante sob a condição de que não entregasse a cidade ao Império Almorávida; apesar disso, mensagens foram enviadas ao emir Iúçufe ibne Taxufine (r. 1061–1106) para que este o expulsasse.[2][1] O exército almorávida, comandado por Abu Becre ibne Ibraim, retirou-se sem combater, apesar das ordens de Iúçufe, deixando os valencianos à própria sorte.[3]

Cerco

O Cid sitiou a cidade enquanto seus habitantes se encontravam divididos entre defensores do Islã, que aguardavam a chegada dos almorávidas, e partidários de Ibne Jaafe, que optaram por negociar com O Cid. Por fim, Ibne Jaafe firmou um acordo secreto com O Cid, mas as negociações não foram concluídas e o cerco prolongou-se por dezenove meses, até que, finalmente, a cidade caiu em maio de 1094, nominalmente em favor dos cristãos.[4]

Consequências

Iúçufe ibne Taxufine ordenou a recaptura da cidade[5] e confiou o comando de uma nova expedição a seu sobrinho Abu Abedalá Maomé ibne Fátima, pois Ibne Aixa não dispunha de um exército permanente e precisava mobilizar tropas em Ceuta, atravessá-las pelo estreito de Gibraltar e reforçar as guarnições do Alandalus antes de marchar sobre Valência.[2] Os contingentes almorávidas desembarcaram entre 16 e 18 de agosto e, em Granada, juntaram-se a parte da guarnição e ao exército da extinta dinastia zírida da Taifa de Granada, que fora incorporado ao exército almorávida, além de tropas provenientes das taifas de Lérida, Tortosa, Alpuente e Albarracín.[6] Os muçulmanos acamparam em Quart de Poblet, a poucos quilômetros de Valência, que estava bem abastecida. Ao verem o grande exército, os muçulmanos da cidade acreditaram que a libertação estava próxima. Abu Abdullah estava tão confiante na vitória que não corrigiu a negligência das tropas nem tomou medidas para saná-la. O Cid apelou a Afonso VI por ajuda. Quando isso se tornou conhecido no campo muçulmano, o moral dos sitiantes começou a ruir, e ocorreram muitas deserções.[2]

O Cid decidiu aproveitar a falta de ânimo do inimigo sem esperar a ajuda de Afonso VI e saiu à noite comandando um grupo de cavalaria.[2] Na manhã de 25 de outubro de 1094, atacou os soldados muçulmanos, que não estavam de guarda, e o alarme espalhou-se pelo acampamento em meio a gritos e confusão. A cavalaria muçulmana organizou-se e perseguiu o recuante O Cid, enquanto soldados cristãos ocultos atacaram o acampamento muçulmano, provocando a debandada dos almorávidas e a captura de considerável espólio.[7] A vitória fortaleceu O Cid, que consolidou o Senhorio de Valência e retardou a expansão almorávida.[2] O Senhorio de Valência foi atacado diversas vezes pelos almorávidas, até cair definitivamente em suas mãos em 1102.[8][9]

Referências

  1. a b Ibne Bologuine 1986, p. 270.
  2. a b c d e f Catlos 2014, p. 120.
  3. Kennedy 2014, p. 165.
  4. Milá 1893, p. 561.
  5. Guarner 1972, p. 39.
  6. Guichard 2001, p. 83.
  7. Schulman 2002, p. 405.
  8. Sanz 2003, p. 90.
  9. Jardiel 2024, p. 35.

Bibliografia

  • Catlos, Brian A. (2014). Infidel Kings and Unholy Warriors (em inglês). Londres: Macmillan + ORM. ISBN 978-0-374-71205-1 
  • Guichard, Pierre (2001). Al-Andalus frente a la conquista cristiana (em espanhol). Valência: Universidade de Valência. ISBN 978-84-7030-852-9 
  • Guarner, Manuel Sanchis (1972). La ciutat de València síntesi d'història i de geografia urbana. Valência: Cercle de Belles Arts 
  • Ibne Bologuine, Abedalá (1986). The Tibyān (em inglês). Leida: Brill Archive. ISBN 978-90-04-07669-3 
  • Jardiel, Enrique Gallud (2024). Historia esencial de Valencia (em espanhol). Valência: Edicions Perelló. ISBN 978-84-10227-99-6 
  • Kennedy, Hugh (2014). Muslim Spain and Portugal: A Political History of al-Andalus. Londres e Nova Iorque: Routledge 
  • Milá, Manuel (1893). Obras completas (em espanhol). Barcelona: A. Verdaguer 
  • Sanz, Vicente Coscollà (2003). La Valencia musulmana (em espanhol). Barcelona: Carena Editors, S.l. ISBN 978-84-87398-75-9 
  • Schulman, Jana K. (2002). The Rise of the Medieval World 500-1300 (em inglês). Londres: Bloomsbury Publishing. ISBN 979-8-216-14004-7