Senhorio de Valência

Senhorio de Valência
1094 — 1102 

Senhorio em 1099
Continente Europa
Capital Valência

Religião Cristianismo
Islamismo

Forma de governo Monarquia
• 1094-1099  O Cid
• 1099-1102  Jimena Dias

História  
• 1094  Fundação
• 1102  Dissolução

O Senhorio ou Principado de Valência foi o Estado estabelecido por O Cid na cidade de Valência e em seus arredores, existindo entre os anos de 1094 e 1102.

História

Conquista

Diploma de dotação assinado por O Cid

No início de novembro de 1092, O Cid sitiou a fortaleza situada no atual município de El Puig, a quatorze quilômetros de Valência, forçando sua rendição em meados de 1093.[1] Utilizando-a como centro de operações, naquele verão iniciou o cerco da cidade.[2] Em setembro de 1093, mudou o acampamento e instalou-se em La Roqueta.[3] Valência, em situação de extremo perigo, solicitou um exército de socorro almorávida, que foi enviado sob o comando de Alantuni e avançou desde o sul da capital do Túria até Almussafes, a vinte e três quilômetros de Valência, mas acabou recuando em razão de uma tempestade.[3] O cerco rigoroso prolongou-se por quase um ano inteiro, até que Valência foi obrigada a render-se em 17 de junho de 1094.[4] O Cid tomou posse da cidade, intitulando-se "Príncipe Rodrigo, Campeador" e ali se estabelecendo.[5]

Consolidação e expansão

A pressão almorávida não diminuiu e, em meados de setembro daquele mesmo ano, um exército sob o comando de Maomé ibne Ibraim, sobrinho do emir Iúçufe, chegou a Quart de Poblet, a cinco quilômetros da capital, e a sitiou,[6] mas foi derrotado após a Batalha de Cuarte,[7] travada em 21 de outubro de 1094 entre Mislata e Quart de Poblet.[8][9] Com o objetivo de assegurar as rotas setentrionais do novo senhorio, Rodrigo conseguiu aliar-se ao novo rei de Aragão, Pedro I,[10] que havia sido entronizado pouco antes da queda de Valência durante o cerco de Huesca, e tomou o Castelo de Serra [es] e o Castelo de Real [es],[11] então chamado Alucade, em 1095.[12] Em 1097, o governador almorávida de Xátiva, Alboácem Ali ibne Alhaje,[13] liderou outra incursão em solo valenciano, mas foi derrotado e perseguido até Almenara, que O Cid tomou após três meses de cerco.[14] nas proximidades de Gandia.[15]

No final de 1097, tomou Almenara, fechando as rotas ao norte de Valência, e em 1098 conquistou definitivamente a cidade fortificada de Sagunto,[16][17] consolidando seu domínio sobre o território que anteriormente constituíra a Taifa de Valência. Ainda em 1098, consagrou a nova Catedral de Santa Maria, reformando a antiga mesquita principal.[18] Colocou um francês, Jerônimo de Périgord, à frente da nova sé episcopal, em detrimento do antigo metropolita moçárabe ou saíde almatrane.[19] No diploma de dotação da catedral, datado do final de 1098, Rodrigo apresenta-se como princeps Rodericus Campidoctor, considerando-se um soberano autônomo apesar de não possuir ascendência real, e a Batalha de Cuarte é ali referida como "uma vitória alcançada rapidamente e sem baixas sobre um número enorme de muçulmanos".[20] Já estabelecido em Valência, aliou-se também ao Conde de Barcelona Raimundo Berengário III com o objetivo de conter o avanço almorávida. As alianças militares foram reforçadas por meio de casamentos. No ano de sua morte (1099), casou suas filhas com altos dignitários: Cristina com o infante Ramiro Sanches de Pamplona[21] e Maria com o conde Raimundo Berengário III.[22]

Dissolução

Após a morte de O Cid, em 10 de junho de 1099, sua esposa Jimena Dias tornou-se Senhora de Valência. Os almorávidas iniciaram um cerco à cidade, e ela conseguiu defendê-la com o auxílio de Raimundo Berengário III até maio de 1102, quando Afonso VI de Leão e Castela, considerando as dificuldades de manter Valência, ordenou em 4 de maio de 1102 a evacuação dos cristãos e, em seguida, o incêndio da cidade.[23] No dia seguinte, 5 de maio, Valência caiu em mãos almorávidas.[24]

Referências

  1. Sanchis 2005, p. 19.
  2. Berend 2024, p. 83.
  3. a b Sanz 2004, p. 40.
  4. Frutos 2005, p. 285-287.
  5. Coscollá 2003, pp. 11–21.
  6. Frutos 2005, p. 152.
  7. Ferreiro 2022, p. 403.
  8. Messier 2010, p. 116.
  9. Catlos 2014, p. 120.
  10. González 2020, p. 53.
  11. Arenas 2020, p. 250.
  12. Pidal 1923, p. 200.
  13. Kennedy 2014, p. 165.
  14. Messier 2010, p. 116–117.
  15. Ormsby 1879, p. 51.
  16. Hooper & Bennett 2001, p. 85.
  17. Alcaide 2022, p. 175.
  18. Pidal 1947, p. 549.
  19. Garfield & Schulman 1991, p. 12.
  20. Frutos 2005, p. 235-238.
  21. Michael 1976, p. 39.
  22. Estrada 1982, p. 134.
  23. Coscollá 2003, p. 44.
  24. Ibrahim 2022, p. 95.

Bibliografia

  • Alcaide, Luis Jiménez (2022). Historia de los reinos cristianos: Los monarcas de la reconquista, desde Don Pelayo hasta Juana la Loca. Córdova: Editorial Almuzara. ISBN 978-84-1131-511-1 
  • Arenas, Francisco Rodríguez (2020). Sol de oriente (em espanhol). Sevilha: Punto Rojo Libros, S.L. ISBN 9788418448133 
  • Berend, Nora (2024). El Cid: The Life and Afterlife of a Medieval Mercenary (em inglês). Londres: Hodder & Stoughton. ISBN 978-1-3997-0964-4 
  • Catlos, Brian A. (2014). Infidel Kings and Unholy Warriors (em inglês). Londres: Macmillan + ORM. ISBN 978-0-374-71205-1 
  • Coscollá, Vicente (2003). La Valencia musulmana (em espanhol). Valência: Carena Editors. ISBN 84-87398-75-8 
  • Estrada, Francisco López (1982). Panorama crítico sobre el «Poema del Cid». Literatura y sociedad. Madri: Editorial Castalia. ISBN 978-84-7039-400-3 
  • Ferreiro, Miguel Ángel (2022). La segunda columna: Lo que dejamos en África. Madri: Editorial Edaf, S.L. ISBN 978-84-414-4198-9 
  • Frutos, Alberto Montaner (2005). «La fecha exacta de la rendición de Valencia». Guerra en Šarq Alʼandalus: Las batallas cidianas de Morella (1084) y Cuarte (1094). Saragoça: Instituto de Estudios Islámicos y del Oriente Próximo. pp. 97–340. ISBN 978-84-95736-04-8 
  • Garfield, Evelyn Picon; Schulman, Iván A. (1991). Las literaturas hispánicas (em espanhol). Detroit, Michigão: Wayne State University Press 
  • González, David Porrinas (2020). El Cid. Historia y mito de un señor de la guerra (em espanhol). Madri: Desperta Ferro Ediciones. ISBN 978-84-121053-7-7 
  • Hooper, Nicolas; Bennett, Matthew (2001). Atlas ilustrado de la guerra (em espanhol). Madri: Ediciones Akal. ISBN 9788446009641 
  • Ibrahim, Raymond (2022). Defenders of the West: The Christian Heroes Who Stood Against Islam (em inglês). Brentwood, Tennessee: Bombardier Books. ISBN 9781642938210 
  • Kennedy, Hugh (2014). Muslim Spain and Portugal: A Political History of al-Andalus. Londres e Nova Iorque: Routledge 
  • Messier, Ronald A. (2010). The Almoravids and the Meanings of Jihad. Santa Bárbara: Praeger/ABC-CLIO. ISBN 978-0-313-38590-2 
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  • Pidal, Ramón Menéndez (1947). Obras completas (em espanhol). 7. Sevilha: Espasa-Calpe 
  • Sanchis, Antonio (2005). Historia del Grau (em espanhol). Valência: Carena Editors. ISBN 978-84-96419-11-7 
  • Sanz, Vicente Coscollà (2003). La Valencia musulmana (em espanhol). Barcelona: Carena Editors, S.L. ISBN 978-84-87398-75-9