De motu cordis, ad Magistrum Philippum

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| São Tomás de Aquino |
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Doutor da Igreja Católica Communis • Angelicus • Humanitatis |
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De motu cordis, ad Magistrum Philippum (lit. "Sobre o movimento do coração, ao Mestre Filipe") é uma obra breve de São Tomás de Aquino. Dirigida a um professor que lecionava em Bolonha e Nápoles, costuma ser datada de cerca de 1273 e figura, portanto, entre os últimos textos produzidos por Tomás.[1]
O tratado distingue-se por sua extrema concisão. Nele, Tomás procura oferecer uma explicação filosoficamente consistente da relação entre a alma e o coração humano enquanto órgão, recorrendo predominantemente a pressupostos de matriz aristotélica.
A obra alcançou considerável difusão, como atesta sua preservação em 126 manuscritos e em mais de trinta edições impressas.[1]
Contexto histórico
A obra deve ser compreendida no contexto da medicina medieval.[2] Tomás de Aquino escreveu o De motu cordis a pedido de Filipe de Castro Caeli, professor de medicina na Universidade de Bolonha e na Universidade de Nápoles, com quem provavelmente manteve contato intelectual durante seus últimos anos nesta última cidade. Filipe era natural de uma comuna vizinha à Roccasecca natal de Tomás e foi também o destinatário do tratado De mixtione elementorum.[3]
O ensinamento de Tomás de Aquino contrapõe-se às teses defendidas por Alfredo de Sareshel em seu De motu cordis de 1217, no qual o autor inglês sustentava que o movimento do coração era antinatural, violento e produzido por uma causa extrínseca. [4] A obra de Alfredo era extensa, composta por dezesseis capítulos precedidos de um prólogo. O tratado dedicava-se majoritariamente à fisiologia e à medicina, incluindo proposições de caráter anatômico e cardiológico.[5]
A epístola foi também redigida em meio às controvérsias em torno do aristotelismo na Europa do alto medievo. A obra adquire especial relevância à luz de uma objeção formulada por Boaventura, amigo de Tomás, que sustentava ser necessário conceber a alma humana como substancialmente separável do corpo para que pudesse ser imortal e capaz de ascender a Deus; disso decorreria, portanto, a identificação da alma como uma substância individual. Tal posição foi apresentada como incompatível com a noção tomista do composto humano, segundo a qual a alma é a forma do corpo, em contraste com a perspectiva de Boaventura, para quem, "uma vez que a alma, enquanto capaz de beatitude, deve ser imortal, segue-se que ela está unida a um corpo mortal de tal modo que pode dele separar-se; consequentemente, não é apenas uma forma [aperfeiçoadora], mas também uma substância individual".[6] Em oposição à tentativa de Boaventura de demonstrar a autossuficiência da alma, Tomás de Aquino insiste na afirmação da unidade do composto humano, considerando o corpo como elemento constitutivo desse composto e como a matéria que serve de princípio para a existência da alma humana.[7]
Doutrina

A obra desenvolve-se a partir da premissa segundo a qual a alma pode ser definida como "a forma do corpo vivente, e principalmente do coração".[8]
Tomás inicia o tratado formulando as questões que orientarão a investigação, a saber: "o que move o coração e que tipo de movimento ele possui propriamente". Ao longo da análise, Tomás de Aquino recorre à definição aristotélica de movimento, entendida como a atualização de uma potência.[9]
Os movimentos do coração são classificados como movimentos de "impulsão" ou de "atração", considerando-se o motor como terminus a quo no primeiro caso e como terminus ad quem no segundo. A partir disso, o autor examina se o princípio desses movimentos poderia ser extrínseco ao animal, caracterizando-se, assim, como um movimento violento. Essa hipótese é prontamente rejeitada.[10]
Dizer que o movimento do coração é violento é algo irracional. Pois, se suprimimos esse movimento, suprimimos também o próprio animal, e nada de violento conserva uma natureza. Com efeito, o movimento do coração deve ser o mais natural possível, uma vez que a vida animal lhe está inseparavelmente unida.[11]
O movimento do coração é, portanto, atribuído a um princípio intrínseco ao próprio animal, conclusão confirmada pelo raciocínio a seguir:
Além disso, quando os movimentos nos corpos inferiores são causados por uma natureza universal, tais movimentos não estão sempre presentes neles. Tome-se, por exemplo, o fluxo e refluxo das marés oceânicas, que resultam do movimento da lua e variam de acordo com ele. O movimento do coração, porém, está sempre presente no animal. Logo, o movimento do coração não procede de uma causa separada, mas de um princípio intrínseco.[11]
Tomás de Aquino procede então a uma inversão sutil dos termos de uma analogia proposta por Maimônides, segundo a qual "os céus estão para o universo assim como o coração está para o animal, pois, se seu movimento cessasse por um instante, a vida do corpo chegaria ao fim". Tomás reformula essa comparação ao afirmar que:[4]
Ora, a forma mais sutil existente na terra é a alma, a qual mais se assemelha ao princípio do movimento dos céus. Assim, o movimento que procede da alma é o que mais se assemelha ao movimento celeste. Em outras palavras, o coração move-se no animal do mesmo modo que os corpos celestes se movem no cosmos.[4]
Por meio dessa formulação, o autor não apenas exalta a nobreza da alma humana, mas também expressa a concepção, amplamente difundida à época, segundo a qual o ser humano pode ser compreendido como um microcosmo. Como observa o próprio Tomás, a alma exerce a função de princípio motor, o que implica diretamente sua unidade substancial com o corpo, no qual o coração desempenha o papel de órgão intermediário.[4]
Um animal plenamente desenvolvido, isto é, capaz de mover-se por si mesmo, assemelha-se mais ao universo inteiro do que qualquer outra coisa. Por isso o homem, que é o mais perfeito dos animais, é chamado por alguns de microcosmo. Ora, no universo o primeiro movimento é o movimento local, do qual procedem a alteração e os demais movimentos. Do mesmo modo, vemos mais claramente nos animais que o movimento local é o princípio da alteração, e não o contrário. Como diz o Filósofo na Física: "para todas as coisas naturais, mover-se é viver." [12]
A causa do movimento, entretanto, não reside na alma nutritiva, sensitiva ou intelectual, pois o movimento não produz nenhum dos efeitos característicos das duas primeiras, nem se manifesta de forma apetitiva, como nas últimas. Tomás de Aquino também nega que o coração seja movido pelo calor, embora afirme que o próprio coração produza calor por meio de seu movimento.[12] A hipótese de um movimento intencional também é descartada, já que os animais apresentam movimento no coração mesmo na ausência de intencionalidade.[13] Assim, o movimento deve ser entendido como natural.
No entanto, o princípio de toda ação humana é natural. Pois, embora as conclusões das ciências teóricas e práticas não sejam conhecidas naturalmente, mas apenas descobertas através do raciocínio, os primeiros princípios indemonstráveis são naturalmente conhecidos, e a partir deles chegamos ao conhecimento de outras coisas. Da mesma forma, o desejo pelo fim último, a felicidade, é natural ao ser humano, assim como a aversão à infelicidade. Logo, o desejo por coisas distintas daquilo que constitui a felicidade não é natural. Esse desejo decorre do desejo pelo fim último. Pois o fim, nos atos de desejo, é análogo aos princípios indemonstráveis nos atos do intelecto, como se diz no segundo livro da Física. E assim, ainda que os movimentos de todas as outras partes do corpo sejam causados pelo coração, como o Filósofo prova em Do Movimento dos Animais, esses movimentos podem ser voluntários, enquanto o primeiro movimento, o do coração, é natural.[13]
Desenvolvendo a analogia cósmica, Tomás de Aquino afirma que o movimento do coração é o "primeiro movimento" do animal, o que implica que o coração é análogo ao Motor Imóvel do cosmos, aplicado ao corpo.[14] O autor ensina que "assim, o movimento do coração é um resultado natural da alma, a forma do corpo vivente e, principalmente, do coração".[15]
Um movimento ascendente é natural ao fogo em decorrência de sua forma, e, portanto, aquele que gera o fogo, conferindo-lhe sua forma, é essencialmente um motor de lugar para lugar...Na medida em que o animal possui um tipo particular de forma, a saber, a alma, nada impede que ele possua um movimento natural em decorrência dessa forma. E a causa responsável por esse movimento seria justamente aquela que confere a forma.[16]
Ao afirmar que a alma é "principalmente" a forma do coração, Tomás de Aquino não contradiz seu ensinamento sobre a plena presença da alma em todo o corpo, apresentado na Summa Theologica. Essa aparente tensão é resolvida pela analogia cósmica. A onipresença do Motor Imóvel não implica que ele esteja presente em todos os lugares da mesma forma, mas sim de acordo com o modo de ser de cada ente (uma vez que, quanto mais atual algo é, mais participa do ser e, portanto, mais se assemelha e compartilha da presença divina). Uma causa que confere causalidade a todas as outras causas é, assim, "mais fortemente causa de todos os movimentos do que as próprias causas móveis individuais". Isso implica que, no interior do corpo, o coração causa todos os demais movimentos como um Primeiro Motor, mas, dentro do composto humano, "o coração recebe seu movimento natural da alma assim como o cosmos é movido pelo Primeiro Motor".[17]
Ver também
- Comentário sobre o Livro das Causas (Tomás de Aquino)
- União hipostática
- Imaculado Coração de Maria
- Sagrado Coração
Referências
- ↑ a b Jones 2020, p. 5.
- ↑ Lázaro 2018, p. 2.
- ↑ Lázaro 2018, p. 5.
- ↑ a b c d Lázaro 2018, p. 8.
- ↑ Lázaro 2018, p. 7.
- ↑ Jones 2020, p. 8.
- ↑ Jones 2020, p. 9.
- ↑ Jones 2020, p. 10.
- ↑ Jones 2020, pp. 10–11.
- ↑ Jones 2020, pp. 20–21.
- ↑ a b Jones 2020, p. 21.
- ↑ a b Friesen 2018, p. 9.
- ↑ a b Friesen 2018, p. 11.
- ↑ Friesen 2018, p. 10.
- ↑ Friesen 2018, p. 13.
- ↑ Friesen 2018, p. 12.
- ↑ Friesen 2018, pp. 13-14.
Bibliografia
- Friesen, Corin A. Principaliter Cordis: Personhood and the primacy of the heart in Aquinas's De motu cordis (Senior)
- Jones, Jordan P. The function of the human heart as it relates to the soul according to the thought of Thomas Aquinas (Master of Arts)
- Lázaro, Nicolás A. (2018). De motu cordis: La posición del Aquinate en torno a la realidad del corazón. La realidad del corazón en el pensamiento medieval (em espanhol)
Outras leituras
- Boyle, Marjorie O’Rourke (1 de janeiro de 2013). «Aquinas's Natural Heart»
. Early Science and Medicine (em inglês). 18 (3): 266–290. ISSN 1573-3823. doi:10.1163/15733823-0010A0002 - Caparello, Adriana (2001). «Il "De Motu Cordis" Di Tommaso D'aquino Riflessioni E Commenti». Angelicum (em italiano). 78 (1): 69–90. ISSN 1123-5772. JSTOR 44617148
- Larkin, Vincent R. (1 de janeiro de 1960). «St Thomas Aquinas on the Movement of the Heart»
. Journal of the History of Medicine and Allied Sciences. XV (1): 22–30. ISSN 0022-5045. PMID 14414214. doi:10.1093/jhmas/XV.1.22
Ligações externas
- De motu cordis (em latim e inglês) em Aquinas.cc.
- Sobre el movimiento del corazón (em latim e espanhol) em tomasdeaquino.org.
