Compendium Theologiae (Tomás de Aquino)

Pintura de Tomás de Aquino, de Pedro Berruguete e Joos van Wassenhove, atualmente conservada no Louvre (c. 1473).

Compendium Theologiae ad fratrem Reginaldum socium suum carissimum (lit. "Compêndio de teologia, ao irmão Reginaldo, seu caríssimo companheiro"), também conhecido como De fide et spe (lit. "Sobre a fé e a esperança"), é uma breve summa escrita pelo santo católico Tomás de Aquino. A obra permaneceu inacabada em razão da morte do autor.

História

No capítulo inicial, Tomás de Aquino afirma que o público-alvo da obra são aqueles que buscam um resumo acessível da teologia cristã. O Compendium é um texto de particular maturidade, redigido no final da carreira do teólogo, e pode ser entendido como uma avaliação concisa dos temas que o autor considerava mais importantes.[1] O livro foi concebido como “um resumo dos principais ensinamentos da doutrina cristã” e dedicado ao irmão Reginaldo de Piperno, frade dominicano e companheiro de Tomás, que havia transcrito suas anotações e aulas[2] e que lhe solicitara a obra.[3]

Os capítulos do Compendium normalmente não ultrapassam alguns poucos parágrafos, pois Tomás buscou a concisão, em vez do estilo mais desenvolvido da Summa Theologica. Embora a morte do Doutor seja geralmente apontada como a causa de a obra ter ficado inacabada, a primeira parte parece ter sido composta já no período de 1265–1267, pouco depois da conclusão da Summa contra Gentiles. As duas obras por vezes apresentam paralelos na organização e nos temas,[4] e alguns estudiosos propuseram a possibilidade de o Compendium ser uma versão abreviada desta última.[5]

Em oposição ao consenso histórico, foi recentemente sugerido que Tomás de Aquino poderia ter abandonado a obra de modo voluntário, em razão de uma mudança em sua estratégia de ensino. [6]

Conteúdo

A obra foi originalmente concebida para seguir uma organização em três partes, baseada nas virtudes teologais: a primeira seção seria dedicada à , a segunda à esperança e a terceira à caridade. Tomás de Aquino morreu antes de concluir a segunda parte, que ficou interrompida no décimo capítulo.[7] A primeira parte totaliza 246 capítulos.[5] A seção “Sobre a fé” baseia-se no Credo dos Apóstolos, enquanto “Sobre a esperança” segue o Pai-Nosso. Já “Sobre a caridade” estava planejada para tomar os Mandamentos como eixo organizador.[3]

A primeira parte, sendo a única concluída, tem sido descrita como “a mais importante do ponto de vista teológico”. Dividida em dois tratados, o primeiro é dedicado ao estudo da Santíssima Trindade, e o segundo, à humanidade de Cristo.[7] O primeiro tratado vai do capítulo 3 ao capítulo 184, ao passo que o segundo abrange do capítulo 185 ao 246.[8]

Provavelmente inspirado no Enchiridion de São Agostinho, Tomás de Aquino justifica a organização de sua obra a partir da sua concepção da salvação. Segundo o autor, Jesus ensinou a doutrina da salvação de modo a torná-la acessível àqueles “que estão excessivamente ocupados com o trabalho”, por meio da prática das virtudes teologais. Ao conhecer as verdades da fé (fé), ordenar a vontade para o seu fim último (esperança) e praticar a justiça (caridade), pode-se esperar alcançar a salvação.[3]

O amor não pode ser devidamente ordenado se o fim adequado da nossa esperança não estiver estabelecido; tampouco pode haver esperança se faltar o conhecimento da verdade. Por isso, a primeira coisa necessária é a fé, pela qual se chega ao conhecimento da verdade. Em segundo lugar, é necessária a esperança, para que a intenção esteja fixada no fim correto. Em terceiro lugar, é necessário o amor, para que as afeições sejam perfeitamente ordenadas.[3]

Até o capítulo 36 da primeira parte, Tomás trata da doutrina da unicidade de Deus e de outros aspectos que podem ser deduzidos filosoficamente, a saber: a necessidade divina, a eternidade, a imutabilidade, a simplicidade, a identidade entre ser e essência, o fato de não pertencer a nenhum gênero nem ser uma espécie, a incorporeidade, a onipotência e a infinitude, o conter em si toda perfeição existente nas coisas de modo eminente e unitário, o não possuir acidentes, o não perder a simplicidade por receber múltiplos nomes, a indefinibilidade, a inteligência, a posse de vontade e a identidade dessa vontade com a própria essência divina.[8]

Traduções para o inglês

  1. Vollert, Cyril (1958) [1947]. Compendium of Theology Reprint ed. St. Louis, Missouri: Herder Book Co. 
  2. Compendium of Theology by Richard J. Regan (2009) published by Oxford University Press, ISBN 978-0-1953-8530-4

Referências

  1. Vollert 1958, p. v.
  2. Cessario 2020, p. 33.
  3. a b c d Porro 2016, p. 205.
  4. Weigel 2002, p. 79.
  5. a b Eberl 2016, p. 17.
  6. Eberl 2016, pp. 16–17.
  7. a b Vollert 1958, p. vi.
  8. a b Porro 2016, p. 206.

Bibliografia

  • Cessario, Romanus (2020). The godly image: Christian satisfaction in Aquinas. Col: Sacra doctrina. Washington, DC: The Catholic University of America Press. ISBN 978-0-8132-3294-2 
  • Eberl, Jason T. (2016). The Routledge guidebook to Aquinas' Summa Theologiae. Col: Routledge guides to the great books. New York: Routledge. ISBN 978-1-315-72842-1 
  • Porro, Pasquale (2016). Thomas Aquinas: a historical and philosophical profile. Washington, D.C: The Catholic University of America Press. ISBN 978-0-8132-2805-1 
  • Weigel, Peter (2002). «Simplicity and Explanation in Aquinas' God». Proceedings of the Society for Medieval Logic and Metaphysics. 2: 77–86 

Outras leituras

Ligações externas