Index Thomisticus

O Index Thomisticus foi um projeto de humanidades digitais iniciado na década de 1940 que produziu uma concordância de 179 textos centrados em Tomás de Aquino. Sob a direção de Roberto Busa, o projeto indexou 10.631.980 palavras ao longo de 34 anos, inicialmente por meio de cartões perfurados. É considerado um projeto pioneiro no campo das humanidades digitais.
O projeto
Busa iniciou o projeto em 1946.[1] Em 1949, a IBM concordou em patrociná-lo até a sua conclusão.[2] A empresa designou Paul Tasman, um de seus executivos, para trabalhar com Busa.[3] Busa selecionou 179 textos centrados em Tomás de Aquino que seriam convertidos para um formato legível por máquina. Desses, 118 eram obras escritas por Tomás de Aquino, enquanto os 61 itens restantes consistiam em textos que, em algum momento, lhe foram atribuídos de forma equivocada ou em tentativas de completar uma obra inacabada iniciada por Tomás de Aquino.[2]
Uma parte significativa do projeto foi a inserção dos dados, realizada de forma meticulosa por uma equipe de operadoras de perfuração de cartões, composta por mulheres. Sua dedicação e precisão foram fundamentais para o êxito do projeto.[4] O trabalho de perfuração dos textos foi realizado entre 1950 e 1966. As operadoras atuaram em Gallarate, na Itália,[5][6] e o projeto atingiu seu maior porte em 1962, com 70 trabalhadoras.[7] Após a conclusão da perfuração, os dados foram lematizados por meio de um processo semiautomático.[5]
O projeto concluído indexou um total de 10.631.980 palavras distribuídas em cinquenta e seis volumes, totalizando mais de 70.000 páginas, divididas em dez volumes de índices, seguidos por trinta e um volumes de concordâncias das obras de Tomás de Aquino, oito volumes de concordâncias de autores relacionados e sete volumes que reproduziam integralmente os textos-fonte.[2][8] Os sete volumes que reimprimiam integralmente os textos-fonte foram comercializados separadamente.[2] O primeiro volume foi publicado em 1974,[9] e a publicação foi concluída em 1980. O projeto utilizou um total de 1.500 quilômetros (930 milhas) de fita magnética,[10] e estima-se que tenha exigido 10.000 horas de trabalho computacional e 1 milhão de horas de trabalho humano para ser finalizado.[3] O Index foi lançado em CD-ROM em 1992, e um site foi disponibilizado em 2005.[10]
Recepção, impacto e legado
Uma resenha do projeto publicada na revista Computers and the Humanities [en] descreveu-o como "uma obra de referência tão inovadora e fascinante quanto a tecnologia que a tornou possível".[11] Em 1993, o projeto foi descrito como a "segunda maior obra impressa deste século". A mesma resenha qualificou-o como "excessivo" e questionou sua finalidade, chegando a caracterizá-lo como "a obra mais pedante jamais escrita".[8] Em 2020, a revista The Economist descreveu-o como "a narrativa de origem das humanidades digitais".[10] Um artigo publicado na revista Umanistica Digitale afirmou que "o projeto desenvolveu, pela primeira vez, métodos para lidar com linguagem não estruturada".[12] Ele influenciou iniciativas como o projeto Key Word in Context.[12] O projeto é também, por vezes, citado como um dos primeiros exemplos de um livro eletrônico.[13]
Referências
- ↑ Busa, R. (1980). «The Annals of Humanities Computing: The Index Thomisticus»
. Computers and the Humanities. 14 (2): 83–90. ISSN 0010-4817. JSTOR 30207304. doi:10.1007/BF02403798
- ↑ a b c d Burton 1984, pp. 109–110.
- ↑ a b «Paul Tasman, Executive, 74». The New York Times (em inglês). 7 de março de 1988. ISSN 0362-4331. Consultado em 27 de dezembro de 2020
- ↑ Nyhan, Julianne (2 de dezembro de 2022). Hidden and Devalued Feminized Labour in the Digital Humanities: On the Index Thomisticus Project 1954-67 (em inglês) 1 ed. London: Routledge. ISBN 978-1-003-13823-5. doi:10.4324/9781003138235
- ↑ a b Gouws, Rufus; Heid, Ulrich; Schweickard, Wolfgang; Wiegand, Herbert Ernst (18 de dezembro de 2013). Dictionaries. An International Encyclopedia of Lexicography: Supplementary Volume: Recent Developments with Focus on Electronic and Computational Lexicography (em inglês). [S.l.]: Walter de Gruyter. 972 páginas. ISBN 978-3-11-023813-6
- ↑ Sprokel, Nico (1978). «The "Index Thomisticus"». Gregorianum. 59 (4): 739–750. ISSN 0017-4114. JSTOR 23576117
- ↑ Rockwell & Passarotti 2019, p. 13.
- ↑ a b Guietti, Paolo (1993). «Hermeneutic of Aquinas's Texts: Notes on the Index Thomisticus»
. The Thomist: A Speculative Quarterly Review (em inglês). 57 (4): 667–686. ISSN 2473-3725. doi:10.1353/tho.1993.0006
- ↑ Hockey, Susan (1 de janeiro de 2006). Dawson, Andy; Brown, David, eds. «The rendering of humanities information in a digital context: Current trends and future developments»
. ASLIB Proceedings. 58 (1/2): 89–101. ISSN 0001-253X. doi:10.1108/00012530610648699
- ↑ a b c «How data analysis can enrich the liberal arts». The Economist. 19 de dezembro de 2020. ISSN 0013-0613. Consultado em 27 de dezembro de 2020
- ↑ Burton 1984, p. 109.
- ↑ a b Rockwell & Passarotti 2019, p. 15.
- ↑ Anderson, Craig; Pham, Jeanie (2013). «Practical overlap: The possibility of replacing print books with e-books». Australian Academic & Research Libraries (em inglês). 44 (1): 40–49. ISSN 0004-8623. doi:10.1080/00048623.2013.773866
Bibliografia
- Burton, Dolores (1984). «Review of Index Thomisticus: Sancti Thomae Aquinatis operum omnium indices et concordantiae; Sancti Thomae Aquinatis opera omnia»
. Computers and the Humanities. 18 (2): 109–120. ISSN 0010-4817. JSTOR 30200002. doi:10.1007/BF02274166 - IBM Data Processing Division (1973). «Jesuit Father Uses Computer to Analyze Works of St. Thomas Aquinas» (PDF). Modern Data (em inglês). 6 (9): 39–40. ISSN 0026-7678
- Rockwell, Geoffrey; Passarotti, Marco (27 de maio de 2019). «The Index Thomisticus as a Big Data Project». Umanistica Digitale (em inglês) (5). ISSN 2532-8816. doi:10.6092/issn.2532-8816/8575